Política · Estados Unidos · Comércio exterior

Faltam seis semanas para as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, e a política comercial de Donald Trump voltou ao centro da campanha pelo lado menos confortável para o Partido Republicano. Em artigo de opinião publicado em 21 de setembro no The Wall Street Journal, o ex-senador Phil Gramm e o economista Donald Boudreaux sustentam que, se os republicanos sofrerem uma derrota expressiva, o partido tende a abandonar o protecionismo de Trump e a reencontrar a defesa do livre-comércio associada a Ronald Reagan.1

A tese é normativa e vem de dois autores com longa trajetória em defesa da abertura comercial. Ainda assim, merece exame cuidadoso porque se apoia em dados que outras fontes confirmam, em uma fratura visível dentro da bancada republicana e em um fato jurídico novo: a Suprema Corte já retirou do presidente o instrumento que sustentava o tarifaço de 2025. Para o Brasil, que desde julho enfrenta uma sobretaxa específica de 25%, a pergunta prática é outra: uma eventual revolta republicana mudaria alguma coisa para as exportações brasileiras?

O que defende o artigo do Wall Street Journal

Gramm, que presidiu a Comissão de Bancos do Senado, e Boudreaux, professor da Universidade George Mason ligado ao Mercatus Center, partem de um diagnóstico econômico: crescimento em desaceleração, preços em alta e salários reais estagnados. Em seguida, lembram o histórico de votos republicanos a favor do Nafta, dos acordos de livre-comércio com Colômbia, Panamá e Coreia do Sul e do próprio USMCA negociado por Trump. O silêncio da bancada diante das tarifas, segundo eles, se explica por intimidação ou lealdade partidária, não por convicção.1

Os autores citam pesquisa Gallup de março segundo a qual 82% dos americanos veem o comércio exterior como oportunidade de crescimento, o dobro do patamar de 2008, e um levantamento Guardian-Harris de fevereiro em que 64% dos republicanos atribuem às tarifas a alta de preços.1 A aposta final é eleitoral: a corrida presidencial de 2028 começaria no dia seguinte ao pleito, e um pré-candidato republicano poderia disputar a indicação prometendo derrubar as tarifas em nome do custo de vida. Com margem suficiente, dizem, o Congresso poderia até derrubar um veto presidencial em matéria comercial.

Da Suprema Corte à Seção 301: o tarifaço mudou de endereço jurídico

O pano de fundo que o artigo trata de passagem é decisivo. Em 20 de fevereiro de 2026, por 6 votos a 3, a Suprema Corte decidiu no caso Learning Resources, Inc. v. Trump que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autoriza o presidente a criar tarifas. O voto condutor, do presidente da Corte, John Roberts, tratou a tarifa como expressão do poder de tributar, que a Constituição reserva ao Congresso.23 Estimativa do Penn Wharton Budget Model, citada pelo escritório Ropes & Gray, calculou a arrecadação baseada na IEEPA entre US$ 175 bilhões e US$ 179 bilhões.3

A resposta da Casa Branca veio no mesmo dia. Todas as tarifas fundadas na IEEPA foram encerradas a partir de 24 de fevereiro, e em seu lugar entrou uma sobretaxa global com base na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, limitada por lei a 150 dias.34 Quando esse prazo terminou, em 24 de julho, passou a valer no mesmo minuto uma nova camada de 10% a 12,5% sobre cerca de 60 economias, justificada por uma investigação sobre trabalho forçado nas cadeias de suprimento e amparada na Seção 301.6 Em agosto, o governo acrescentou sobretaxa de 50% a parte das importações canadenses, e o Canadá retaliou a partir de 8 de setembro.11

O efeito político desse percurso é paradoxal. A decisão judicial retirou do presidente o instrumento mais amplo e mais rápido, mas não devolveu ao Congresso o protagonismo. Apenas deslocou a política tarifária para leis que exigem investigações administrativas e, justamente por isso, oferecem mais resistência a contestações nos tribunais. Pelas contas do Budget Lab da Universidade Yale, antes da decisão a tarifa efetiva média paga pelos consumidores americanos era de 14,3%, a mais alta desde 1939.5 O que o artigo do WSJ chama de revolta, portanto, dependeria menos de juízes e mais de votos no Capitólio.

O humor do eleitor: o que dizem as pesquisas

Os números mais recentes reforçam o diagnóstico de desgaste. Levantamento do Cato Institute com a Morning Consult, feito entre 13 e 16 de agosto com 4.150 eleitores registrados, indica que 75% consideram as tarifas importantes para o voto de novembro e 74% afirmam que elas encareceram as compras do dia a dia, percepção compartilhada por 66% dos republicanos.9 Nos estados mais disputados, pesquisa New York Times/Siena com prováveis eleitores de Alasca, Iowa, Maine, Carolina do Norte, Ohio e Texas registrou 54% de desaprovação às tarifas.10

PERCENTUAL DE ELEITORES REGISTRADOS QUE CONCORDAM Tarifas serão importantes para o voto 75% Tarifas elevaram os preços no varejo 74% Presidente deveria precisar do aval do Congresso 70% Tarifas enfraqueceram a economia 53%
Fonte: Cato Institute / Morning Consult, Fall Trade and Populism National Survey, 13 a 16 de agosto de 2026, 4.150 eleitores registrados, margem de erro de 2 pontos.9

A guerra comercial com o Canadá agravou o quadro em estados de fronteira como Michigan e Maine. Pesquisa Reuters/Ipsos citada pela agência mostra que os americanos são cerca de quatro vezes mais propensos a culpar Washington do que Ottawa pela disputa, e a senadora Susan Collins, republicana do Maine, passou a chamar a ofensiva contra o Canadá de erro.11 Segundo a CNN, parlamentares republicanos que esperavam ver o tema sumir do noticiário antes da eleição reagiram com irritação quando o presidente o recolocou em primeiro plano, a dez semanas do pleito.12

O desgaste não é só comercial. Os pollsters Douglas Schoen e Carly Cooperman lembram que a guerra com o Irã elevou o preço da gasolina e levou a inflação a máximas de vários anos, e que os índices de preços de junho e julho vieram mais comportados antes da nova rodada tarifária.10 Trump, por sua vez, dobrou a aposta: na convenção republicana de meio de mandato, em Dallas, brincou que rebaixou "tarifa" para sua quinta palavra favorita depois das críticas da imprensa.13

O tarifaço já não depende de uma lei de emergência. Desfazê-lo exigiria que o Congresso retomasse um poder que ele próprio delegou há quase um século.

A história como argumento: McKinley, Smoot-Hawley e a delegação de 1934

Gramm e Boudreaux afirmam que tarifas costumam cobrar caro do partido que as adota, e a história americana oferece exemplos. Em 1890, a Tarifa McKinley elevou fortemente as alíquotas de importação e, meses depois, os republicanos perderam a maioria na Câmara em uma das maiores derrotas de meio de mandato do século XIX. Em 1930, a Lei Smoot-Hawley ampliou tarifas no início da Grande Depressão, provocou retaliação em cadeia e precedeu a derrota republicana nas eleições de 1932.

O episódio seguinte é o que mais interessa ao debate atual. Em 1934, a Lei de Acordos Comerciais Recíprocos transferiu ao Executivo a negociação de reduções tarifárias, em parte para tirar do Congresso a pressão de lobbies setoriais que havia produzido Smoot-Hawley. Desde então, o Legislativo passou a atuar criando marcos legais e delegando ao presidente a execução. As Seções 122, 232 e 301 hoje usadas por Trump são herdeiras dessa lógica. Pedir que o Congresso "reassuma" o comércio exterior, como propõe o artigo, é pedir a reversão de quase um século de arranjo institucional, não apenas uma mudança de humor partidário.

Há sinais de que essa discussão ganhou forma legislativa. Em 22 de julho, o senador democrata Ron Wyden apresentou um projeto que revogaria as Seções 122 e 338 e exigiria aprovação do Congresso para novas tarifas baseadas nas Seções 301, 201 e 232.14 O obstáculo é aritmético: para vencer um veto presidencial são necessários dois terços dos votos na Câmara e no Senado, patamar raramente alcançado mesmo em temas de amplo consenso.

Contraponto

Por que a "revolta" pode não acontecer

O texto do WSJ é assumidamente de opinião, e seus autores representam a ala liberal em economia do conservadorismo americano, com vínculos com o American Enterprise Institute e o Mercatus Center. Ler um eventual revés em novembro como plebiscito sobre tarifas é uma interpretação, não um dado: o partido do presidente perde cadeiras na maioria das eleições de meio de mandato, e em 2026 o custo da energia após a guerra com o Irã pesa tanto quanto o comércio.

A base republicana também não se move em bloco. Na mesma pesquisa do Cato, 62% dos republicanos consideram as tarifas eficazes para estimular a compra de produtos americanos.9 Para a ala populista do partido, identificada com o vice-presidente JD Vance, a tarifa deixou de ser instrumento e virou marca de identidade, associada à reindustrialização e à segurança das cadeias produtivas. Um candidato que prometa derrubar as tarifas em 2028 precisaria vencer primárias nas quais esse eleitorado é decisivo. Por fim, o próprio desenho jurídico atual, apoiado em investigações da Seção 301, dificulta a reversão por decisão judicial e exige maiorias legislativas amplas.

O que está em jogo para o Brasil

O Brasil já sentiu as duas fases do tarifaço. Em agosto de 2025, a sobretaxa de 50% imposta com base na IEEPA, justificada pela Casa Branca com referência ao julgamento de Jair Bolsonaro, atingiu a maior parte das exportações brasileiras. Ela caiu junto com as demais tarifas da IEEPA após a decisão da Suprema Corte.4 A segunda fase é mais duradoura. Em 15 de julho de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) concluiu investigação específica sobre o país e determinou tarifa de 25% sobre a maior parte das importações brasileiras, em vigor desde 22 de julho. A decisão enquadrou como injustificadas práticas em seis áreas: comércio digital e pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.7

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a combinação da sobretaxa específica de 25% com a de 12,5% aplicada ao Brasil na investigação sobre trabalho forçado alcança 23,1% das exportações brasileiras aos EUA, e as duas se acumulam quando incidem sobre o mesmo produto. Outros 52,7% dos embarques, incluindo café, carnes, aeronaves, suco de laranja e a maior parte da celulose, seguem sujeitos apenas às tarifas ordinárias.8

PARTICIPAÇÃO NAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS AOS EUA (%) 52,7 16,5 24,2 Sem sobretaxa adicional (52,7%) 25% e 12,5% acumuladas (16,5%) Somente 12,5%, trabalho forçado (4,7%) Somente 25%, Seção 301 Brasil (1,9%) Demais, incluindo itens sob tarifas setoriais da Seção 232 (24,2%)
Fonte: MDIC, nota de 24 de julho de 2026, com base no comércio bilateral de 2024. A parcela "demais" é o complemento aritmético dos percentuais divulgados.8

O impacto já aparece nos fluxos. De acordo com o MDIC, as exportações brasileiras aos EUA somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 13% sobre o mesmo período de 2025, com forte influência da retração nos embarques de petróleo bruto. A participação americana no total exportado pelo Brasil recuou de 12,1% para 9,4% na mesma comparação.8

É nesse ponto que a tese do WSJ encontra seu limite para o leitor brasileiro. Mesmo uma bancada republicana disposta a romper com Trump teria mais facilidade para atacar sobretaxas amplas e impopulares, como as que atingem o Canadá e encarecem o consumo, do que uma medida construída sobre uma investigação específica, com audiência pública, período de comentários e fundamentos que misturam comércio, meio ambiente e política interna brasileira. Para o Brasil, o horizonte relevante continua sendo a negociação bilateral conduzida pelo Itamaraty e pelo MDIC, que o próprio USTR descreveu como em andamento ao longo do último ano.7 Um Congresso americano mais assertivo pode ampliar a margem de negociação, mas dificilmente substitui a mesa.

Três cenários depois de 3 de novembro

Republicanos mantêm Câmara e SenadoO resultado seria lido como aval à estratégia tarifária. A ala populista ganharia força para 2028, e a pressão por revisão viria sobretudo de tribunais e de parceiros comerciais.
Democratas vencem a CâmaraAudiências, investigações e projetos como o de Wyden avançariam em uma das Casas, mas esbarrariam no Senado e no veto. O efeito seria elevar o custo político das tarifas, não removê-las.
Derrota ampla dos republicanosÉ o cenário do WSJ. Uma derrubada de veto seguiria improvável, mas o debate interno do partido para 2028 se reorganizaria em torno do custo de vida e do comércio.

Em qualquer dos três cenários, a disputa central já não é apenas entre protecionismo e livre-comércio. Trata-se de saber quem decide sobre tarifas nos Estados Unidos. A Suprema Corte respondeu parcialmente em fevereiro. As urnas de novembro vão indicar se o Congresso pretende responder ao restante.

Perguntas frequentes

O que defende o artigo do Wall Street Journal sobre as tarifas de Trump?

Phil Gramm e Donald Boudreaux argumentam que, se o Partido Republicano sofrer derrota expressiva nas eleições de 3 de novembro de 2026, parlamentares republicanos tendem a romper com as tarifas de Trump e a retomar a defesa do livre-comércio associada a Ronald Reagan, inclusive com potencial para uma disputa sobre o tema nas primárias de 2028.

A Suprema Corte acabou com as tarifas de Trump?

Não integralmente. Em 20 de fevereiro de 2026, no caso Learning Resources v. Trump, a Corte decidiu por 6 a 3 que a IEEPA não autoriza tarifas, o que derrubou as tarifas "recíprocas" e as ligadas ao fentanil. O governo passou a usar outras leis, como as Seções 122, 232, 301 e 338, que continuam sustentando sobretaxas.

Quais tarifas os Estados Unidos aplicam hoje ao Brasil?

Desde 22 de julho de 2026 vigora uma sobretaxa de 25% sobre a maior parte dos produtos brasileiros, com base na Seção 301, e desde 24 de julho uma sobretaxa de 12,5% ligada à investigação sobre trabalho forçado. Segundo o MDIC, as duas juntas alcançam 23,1% das exportações brasileiras aos EUA, enquanto 52,7% seguem sem sobretaxa adicional.

O Congresso americano pode derrubar as tarifas?

Pode legislar para revogar as bases legais usadas pelo Executivo, como propõe o projeto apresentado pelo senador Ron Wyden em julho de 2026. Como o presidente pode vetar, a derrubada exigiria dois terços dos votos na Câmara e no Senado.

Uma derrota republicana em novembro reduziria as tarifas sobre o Brasil?

Não de forma automática. A tarifa específica sobre o Brasil resulta de uma investigação da Seção 301, mais difícil de reverter do que sobretaxas amplas. O caminho mais provável para alívio continua sendo a negociação bilateral entre os dois governos.

Nota de atribuição: esta análise foi inspirada no artigo de opinião "The Coming Republican Revolt Against Tariffs", de Phil Gramm e Donald Boudreaux, publicado pelo The Wall Street Journal em 21 de setembro de 2026. O texto original não foi reproduzido nem traduzido. As ideias atribuídas aos autores foram parafraseadas, e os demais dados vêm de apuração independente com as fontes listadas abaixo.

Referências

  1. GRAMM, Phil; BOUDREAUX, Donald. "The Coming Republican Revolt Against Tariffs". The Wall Street Journal, 21 set. 2026. https://www.wsj.com/opinion/the-coming-republican-revolt-against-tariffs-3aa8ab12
  2. SUPREMA CORTE DOS ESTADOS UNIDOS. Learning Resources, Inc. v. Trump, nº 24-1287, decidido em 20 fev. 2026.
  3. ROPES & GRAY. "Supreme Court Strikes Down IEEPA Tariffs: Key Takeaways and Implications for Importers", 23 fev. 2026.
  4. WHITE & CASE. "United States terminates IEEPA-based tariffs following Supreme Court decision", fev. 2026.
  5. THE BUDGET LAB AT YALE. "State of U.S. Tariffs", 9 mar. 2026.
  6. HOLLAND & KNIGHT. "And the (Tariff) Beat Goes On: New Section 301 Forced-Labor Tariffs Imposed on 60 Countries", 30 jul. 2026.
  7. ESCRITÓRIO DO REPRESENTANTE COMERCIAL DOS EUA (USTR). "USTR Section 301 Action on Brazil's Unreasonable Acts, Policies, and Practices", 15 jul. 2026.
  8. MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS (MDIC). "Alcance das Medidas Tarifárias dos Estados Unidos sobre Exportações Brasileiras", 24 jul. 2026.
  9. CATO INSTITUTE; MORNING CONSULT. "Cato 2026 Fall Trade and Populism National Survey", set. 2026.
  10. SCHOEN, Douglas; COOPERMAN, Carly. "Republicans will pay for Trump's tariffs in the midterms". The Hill, set. 2026.
  11. REUTERS. "Republicans search for a winning message as Canadian tariffs bite", reproduzido por BNN Bloomberg, 17 set. 2026.
  12. CNN. "Republicans are furious that Trump has revived tariff drama, just in time for the midterms", 26 ago. 2026.
  13. THE WASHINGTON POST. "Tariffs are a minefield for Republicans in midterms, as Trump leans in" (opinião), 12 set. 2026.
  14. TARIFFSTOOL. "Tariff News July 2026: Section 122 Expires, Section 301 Replaces It", 31 jul. 2026.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido