Durante quase duas décadas, o dinheiro inteligente do Vale do Silício evitou tudo que cheirasse a laboratório, reator ou foguete. Software escalava rápido, exigia pouco capital fixo e devolvia retorno em poucos anos. Física, biologia e engenharia pesada ficaram de lado, tratadas como apostas de universidade ou de agência governamental, não de fundo de venture capital. Esse arranjo está sendo desfeito diante dos olhos do mercado.
A aposta ousada volta ao radar
Um levantamento da consultoria Dealroom, citado pela reportagem original do Financial Times1,2, mostra que o investimento global em "deep tech" (startups cujo produto depende de avanços científicos ou de engenharia complexos, e que exclui companhias de inteligência artificial) já superou US$ 150 bilhões desde o início de 2024. Para efeito de comparação, a década inteira encerrada em 2019 somou US$ 133 bilhões no mesmo tipo de negócio. Em menos de dois anos, portanto, o setor recebeu mais capital do que em dez anos anteriores.
Matt Robinson, sócio da gestora britânica Accel, resume a virada de forma direta: o tipo de empresa discutida dentro de um escritório de venture capital mudou por completo nos últimos anos3. Fusão nuclear, biônica, computação quântica e colonização espacial deixaram de ser curiosidade de nicho e passaram a disputar espaço com o software empresarial nas planilhas de alocação dos grandes fundos.
O hardware recupera o oxigênio
Max Hodak, empreendedor do setor de interfaces cérebro-computador, descreve o fenômeno em termos parecidos aos de quem observou o mercado de perto durante o ciclo anterior: os investimentos em software consumiram boa parte do oxigênio disponível para o hardware físico, e agora esse fluxo está voltando4. Entre os maiores negócios de deep tech fora do universo da IA em 2026 estão as startups espaciais Sierra Space, Axiom Space e Iceye, além das empresas de fusão nuclear Helion, Proxima Fusion e Inertia1.
A leitura de Ekblaw ajuda a explicar por que fundos que nunca haviam tocado em setores intensivos em capital físico passaram a escrever cheques especulativos: ferramentas de IA reduzem o tempo e o custo de prototipagem, tornando o ciclo de iteração de um satélite ou de um reator experimental mais próximo do ritmo que o venture capital está acostumado a financiar em software.
O efeito SpaceX e o medo de ficar de fora
Parte do combustível dessa retomada tem nome e sobrenome: SpaceX. A Founders Fund transformou um aporte de aproximadamente US$ 600 milhões na empresa de Elon Musk em uma posição avaliada em mais de US$ 50 bilhões no momento da recente oferta pública inicial da companhia, segundo estimativas da PitchBook citadas pela reportagem original1,6. Esse tipo de retorno, symbolico e concreto ao mesmo tempo, criou o que Ekblaw chama de sensação de "ficar de fora" entre gestores que não participaram da primeira onda, algo que a especialista projeta como gatilho para uma explosão de novas startups mirando o setor espacial5.
Há também um componente defensivo nessa migração de capital. Ações de empresas de software como serviço perderam centenas de bilhões de dólares em valor de mercado neste ano, em um movimento que analistas já apelidaram de "SaaSpocalypse", parcialmente revertido depois que resultados trimestrais de companhias como a Salesforce sinalizaram algum ganho de produtividade vindo da IA1. Para gestores de portfólio machucados por essa correção, apostar em luz solar redirecionada em órbita passou a soar menos exótico do que soaria há três anos.
E o Brasil, onde entra nessa equação?
A resposta, por enquanto, é: na margem. O Brasil concentra o maior número de deep techs mapeadas da América Latina, mas ocupa apenas a terceira posição em volume de investimento privado recebido por esse tipo de empresa na região, atrás de Chile e Argentina7. Um levantamento da Emerge Brasil identificou 875 startups de base científica no país, distribuídas principalmente entre agronegócio (50%) e saúde (42%), mas revelou que 70% delas ainda estão em fase de maturação tecnológica, sem receita relevante8.
O gargalo de capital ajuda a explicar por que o modelo. Segundo o mesmo estudo, 84,5% dos investimentos de venture capital feitos no Brasil em 2023 foram direcionados a negócios digitais e ao setor financeiro, deixando as deep techs dependentes majoritariamente de investidores-anjo e de fontes públicas de fomento, como FINEP e Sebrae8. No campo da biotecnologia, um dos setores mais promissores do país, menos de 5% dos aportes de fundos de venture capital chegam a esse tipo de empresa, segundo sócio de gestora de investimentos ouvido pela Revista Pesquisa FAPESP7.
Há sinais de movimento. Durante o Startup Summit 2026, em Florianópolis, o Sebrae lançou uma vitrine dedicada exclusivamente a apresentar 412 deep techs brasileiras a investidores e parceiros, ampliando a iniciativa já existente de mapeamento do setor9. E o mercado latino-americano de venture capital como um todo voltou a crescer: US$ 4,1 bilhões foram investidos em 681 rodadas em 2025, alta de 13,8% em relação a 2024 e a primeira recuperação consistente depois de três anos de correção10. O ecossistema brasileiro, segundo a ABVCAP, hoje reúne cerca de 300 gestores ativos, com os vinte maiores fundos concentrando 60% do capital sob gestão11.
Contraponto
Nem todo investidor vê essa retomada como sinal de maturidade do mercado. Céticos apontam que apostas de altíssimo risco em fusão nuclear ou colonização espacial têm horizonte de retorno medido em décadas, período em que boa parte dos fundos de venture capital tradicionais já precisa ter devolvido capital a seus cotistas. O ciclo do dotcom, no início dos anos 2000, também começou com entusiasmo por tecnologias de fronteira e terminou em uma onda de falências que levou o setor a se refugiar justamente no software previsível que agora perde espaço.
No caso brasileiro, o argumento ganha um contorno adicional: com apenas 15,5% do capital de risco disponível fora do digital e do financeiro, redirecionar recursos escassos para apostas de ciclo longuíssimo pode significar menos capital para negócios que já provaram capacidade de gerar receita e emprego no curto prazo, especialmente em um ambiente macroeconômico marcado por juros altos e custo de capital elevado.
O que a reportagem original descreve como "capitalismo de moonshot" ainda é, sobretudo, um fenômeno de Vale do Silício, turbinado por lucros gerados na própria bolha de investimento em IA. Mas o apetite por risco tende a atravessar fronteiras com o tempo, e o desafio para o ecossistema brasileiro de inovação é se preparar para competir por esse capital antes que ele decida, mais uma vez, que a distância entre São Paulo e São Francisco é maior do que parece no mapa.
Perguntas frequentes
O que é "moonshot capitalism"?
É o termo usado para descrever a disposição renovada de fundos de venture capital em financiar projetos de altíssimo risco e retorno de longuíssimo prazo, como fusão nuclear, colonização espacial e interfaces cérebro-computador, em vez de se concentrar apenas em software com escala rápida.
Por que os investidores voltaram a apostar em tecnologia física?
Três fatores combinados explicam o movimento: os retornos extraordinários gerados por apostas antigas como a SpaceX, a queda nas valuations de empresas tradicionais de software (a chamada "SaaSpocalypse") e a redução do custo e do tempo de prototipagem trazida por ferramentas de inteligência artificial.
O Brasil tem startups de deep tech?
Sim. O país concentra o maior número de deep techs da América Latina, com cerca de 875 startups mapeadas, concentradas principalmente em agronegócio e saúde. O problema não é a quantidade de empresas, mas o volume de capital privado que elas conseguem captar.
Qual é o principal risco desse tipo de investimento?
O horizonte de retorno extremamente longo, que pode não se encaixar no ciclo de vida da maioria dos fundos de venture capital, além do risco histórico, já observado no estouro da bolha das pontocom, de que o entusiasmo por tecnologias de fronteira termine em uma onda de negócios inviáveis.