TECNOLOGIA · INDÚSTRIA 4.0

Uma fábrica de Pringles na Polônia virou laboratório de manufatura preditiva. O que esse experimento revela sobre o futuro da IA aplicada à produção industrial, no mundo e no Brasil.

A busca pelo chip perfeito

Há quatro anos, o engenheiro Jan Laenen persegue uma meta que parece simples e não é: fazer com que cada Pringles saído da linha de produção tenha exatamente o mesmo formato de sela, a mesma crocância e o mesmo sabor do anterior. A fábrica da Kellanova em Kutno, na Polônia, virou o principal palco dessa obsessão depois que a empresa investiu entre 4 e 5 milhões de dólares em um projeto conjunto com a Siemens para criar um "gêmeo digital" em tempo real da massa de batata que alimenta a linha de fritura. A reportagem original, assinada por Isabelle Bousquette no The Wall Street Journal, descreve o projeto como um dos sinais mais claros de que gêmeos digitais, um conceito que já existe há anos, estão finalmente saindo do papel em escala industrial.1

A ideia central não é nova para quem acompanha manufatura avançada: sensores captam variáveis físicas do processo (umidade, temperatura, granulometria da farinha) e alimentam um modelo computacional que espelha, em tempo real, o comportamento da matéria-prima. O que mudou, segundo a Siemens, foi a velocidade e a granularidade dessa captura. Na planta de Kutno, mais de 200 pontos de dados são registrados a cada milissegundo por uma plataforma de borda (edge computing) da própria Siemens, permitindo ajustes na receita antes mesmo que um lote de massa saia fora do padrão.2

Como funciona o gêmeo digital da massa

Antes da digitalização, o controle de qualidade dependia quase inteiramente da percepção humana. Operadores conhecidos internamente como "doughmakers" retiravam pedaços de massa da linha, esticavam com as mãos e avaliavam a textura no olho. Chips recém-fritos eram pesados e medidos manualmente. Quando algo saía do padrão, o ajuste nas máquinas acontecia depois do problema já ter se manifestado, não antes.

O sistema atual inverte essa lógica. Um primeiro modelo de aprendizado de máquina, rodando localmente na fábrica, simula como a massa vai se comportar e sugere pequenos ajustes (mais óleo, mais água, temperatura de fritura) antes de qualquer desvio visível no produto final. Quando a anomalia é grande demais para esse ajuste local resolver, os dados sobem para um modelo maior, hospedado em nuvem, que tem acesso a um histórico mais amplo e pode retreinar o sistema. Nenhum dos dois modelos é de IA generativa: ambos operam com aprendizado de máquina convencional, otimizado para previsão numérica, não para geração de texto ou imagem.

"Cada lote de batata que você recebe vai ser diferente. Agora, independentemente da matéria-prima, garantimos que o sabor do Pringles será exatamente o que o consumidor espera." Cedrik Neike, CEO de Digital Industries da Siemens, ao WSJ

Segundo o case oficial publicado pela própria Siemens, o resultado na linha piloto de Kutno foi um ganho de 10% no desempenho da linha, redução de 13% no desperdício de massa e queda de 7% no consumo de energia, tudo sem a compra de nenhum equipamento novo.2 A empresa descreve a mudança como uma transição "da arte de fazer alimentos para a ciência de fazer alimentos", nas palavras do diretor da planta, Ronny Matthijs.3

O que os números realmente mostram

É tentador ler esse tipo de caso como prova de que a manufatura já é autônoma. Não é bem assim. O analista Evan Brown, da consultoria Gartner, descreve o momento atual como uma fase intermediária: gêmeos digitais deixaram de ser apenas modelos 3D com dados anexados e passaram a operar quase em tempo real, oferecendo recomendações de otimização, mas a decisão final ainda costuma ficar com um humano.

Esse diagnóstico é reforçado pelo próprio relatório de previsões da Gartner para 2026 sobre manufatura, que projeta que agentes de IA semiautônomos devem coordenar cerca de 10% das atividades de produção, qualidade e manutenção até o fim da década, um salto em relação aos 2% observados no início de 2026. O relatório também alerta para o outro lado da equação: o custo de sistemas centrais de manufatura (PLM, MES e softwares de desenvolvimento de produto) deve subir 40% até 2029, à medida que fornecedores passam a cobrar por contas de "usuários não humanos", ou seja, os próprios agentes de IA.4

Contraponto

Nem todo ganho de eficiência anunciado em um case corporativo é auditado por terceiros. Os números de 10% de performance, 13% de redução de desperdício e 40%-plus de retorno sobre o investimento vêm de comunicados da própria Siemens e de declarações do executivo da Kellanova ao WSJ, não de uma auditoria independente. Isso não invalida o resultado, mas pede cautela editorial antes de tratá-lo como benchmark do setor.

O que isso significa para a indústria brasileira

A distância entre Kutno e uma planta industrial no interior de São Paulo é menor do que parece. A indústria de alimentos é o maior elo manufatureiro do país: segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos (ABIA), o setor fechou o último balanço com faturamento superior a R$ 1 trilhão, somando exportação e mercado interno, e reportagens recentes mapeiam empresas como Nestlé e Minerva Foods já aplicando IA em linhas de fabricação e tipificação de carnes.5

Ainda assim, a adoção segue desigual. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 58% das indústrias brasileiras reconhecem a importância de tecnologias digitais para a competitividade, mas menos da metade efetivamente as utiliza, com o foco concentrado em ganhos de produtividade e pouco investimento nas etapas de desenvolvimento da cadeia produtiva.6 Estimativas citadas por centros de pesquisa como o CESAR apontam um potencial de redução de custos industriais de cerca de R$ 73 bilhões por ano no Brasil com a adoção mais ampla de gêmeos digitais, distribuídos entre manutenção, eficiência energética e ganhos de processo.7

Há também uma ironia na cadeia acionária deste caso. A Kellanova foi adquirida pela Mars no fim de 2025, e a integração das operações ainda avança em ritmos diferentes por região. A própria Mars, dona de marcas como Pedigree e Whiskas, já desenvolveu gêmeos digitais para modelar sua cadeia de suprimentos de manufatura, com ganhos reportados em produtividade de máquinas e redução de desperdício por embalagens com quantidades inconsistentes de produto, segundo case documentado pelo centro de inovação CESAR.7 Ou seja: a nova controladora da marca Pringles já chegava a essa negociação com experiência prévia em digital twins, o que pode acelerar (ou reconfigurar) os planos de expansão do projeto polonês para outras plantas.

Os limites da autonomia da IA na fábrica

O caso Pringles ilustra bem um padrão que vem se repetindo em manufatura avançada: ganhos reais de eficiência, mas com decisão humana ainda no centro do processo. Segundo o relato original do WSJ, o próximo passo da tecnologia, segundo analistas do setor, é dar à IA autonomia para ajustar parâmetros de máquina sem intervenção humana. Na maioria dos casos documentados até agora, incluindo o de Kutno, as empresas preferem manter um operador humano validando a recomendação antes de qualquer mudança física na linha.1

Isso não é um detalhe menor. Em um setor como o de alimentos, um ajuste automático errado na proporção de óleo ou na temperatura de fritura pode gerar não apenas desperdício, mas risco à segurança alimentar. A cautela das empresas em manter humanos no circuito de decisão parece menos uma limitação técnica e mais uma escolha de governança, ainda que o custo de manter esse controle humano tenda a subir à medida que os sistemas de IA se tornam mais sofisticados e caros de operar, como aponta a própria Gartner.4

Perguntas frequentes

O que é um gêmeo digital na indústria?
É uma representação virtual de um processo, produto ou sistema físico, alimentada por dados de sensores em tempo real. Ela permite simular cenários e prever resultados antes que uma mudança seja aplicada na linha de produção real.
A fábrica de Pringles na Polônia usa inteligência artificial generativa?
Não. Segundo a Siemens e a Kellanova, os modelos usados no projeto são de aprendizado de máquina convencional, voltados para previsão numérica e ajuste de parâmetros, e não modelos generativos de texto ou imagem.
Quanto a indústria brasileira já usa gêmeos digitais e IA na manufatura?
A adoção ainda é parcial. Segundo a CNI, 58% das indústrias brasileiras reconhecem a importância dessas tecnologias, mas menos da metade as utiliza de fato, com o foco concentrado em ganhos de produtividade.
A IA vai substituir operadores humanos nas fábricas?
No estágio atual, não. Mesmo em projetos avançados como o da Kellanova, a IA recomenda ajustes, mas a decisão final costuma permanecer com um operador humano. A Gartner projeta que agentes autônomos devem coordenar apenas cerca de 10% das atividades de produção até o fim da década.
Referências
  1. Isabelle Bousquette. "Inside the Long, AI-Powered Quest to Perfect Pringle-Making". The Wall Street Journal, 5 de agosto de 2026. Reportagem original que inspirou esta matéria. wsj.com
  2. Siemens. "Pringles stacks data to unlock innovation leaps". siemens.com
  3. Food Processing. "AI, Digital Twins Help Kellanova Make the Perfect Pringle". foodprocessing.com
  4. Synera / Gartner. "Manufacturing Predicts 2026: AI Agents, Digital Twins and the Race to Autonomous Operations". synera.io
  5. FoodBiz Brasil. "6 gigantes da indústria alimentícia que já usam IA em seus processos", com dados da ABIA. foodbizbrasil.com
  6. CNI. "SondEsp 66 - Indústria 4.0". Portal da Indústria. portaldaindustria.com.br
  7. CESAR. "Digital Twin: entenda seu conceito na Indústria 4.0", incluindo case da Mars. cesar.org.br
Nota editorial: Esta reportagem é inspirada em matéria publicada pelo The Wall Street Journal e não reproduz nem traduz o conteúdo original. Trechos citados diretamente da fonte estão devidamente atribuídos. Dados complementares foram apurados de forma independente pela equipe d'O Tecido junto a fontes primárias e setoriais listadas nas referências.