13 de outubro de 2026 · Leitura de 9 minutos
Seis anos depois do choque sanitário que obrigou governos a gastar como em tempos de guerra, as economias mais ricas do mundo voltaram a tomar emprestado em ritmo de emergência, sem que haja uma emergência declarada. Na abertura das reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial em Bangkok, o FMI projetou que o grupo das economias avançadas fechará 2026 com empréstimo líquido equivalente a 5,2% do PIB, o maior nível desde 2021. A informação foi antecipada pelo Financial Times, em reportagem de Sam Fleming, Leo Lewis e Claire Jones, que destaca o apelo do Fundo por ação urgente para recompor as finanças públicas[1].
O diagnóstico não é novo, mas o tom mudou. O que antes era descrito como risco de médio prazo aparece agora associado a sintomas presentes: juros longos em alta nos Estados Unidos e na Europa, um mercado de títulos franceses negociando perto de níveis da crise do euro e bancos centrais pressionados por inflação que não cede. Para o Brasil, que convive há anos com o debate fiscal doméstico, a novidade é outra: o ambiente externo deixou de oferecer alívio e passou a somar pressão.
O que o FMI disse em Bangkok
Segundo o relatório Perspectivas da Economia Mundial de outubro, divulgado nesta terça-feira (13), as 41 economias classificadas como avançadas terão déficit combinado de 5,2% do PIB neste ano, de acordo com a cobertura do Seoul Economic Daily[2]. Nos Estados Unidos, o empréstimo líquido do governo geral deve subir de 7,1% para 8,5% do PIB. O número é bem maior que os 5,8% projetados em fevereiro pelo Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) porque o FMI inclui estados e governos locais na conta. A China, por sua vez, deve registrar déficit igual ou superior a 8% do PIB[2].
O Fundo avaliou que a política fiscal segue frouxa nas maiores economias e que os déficits primários de 2020 a 2025 foram muito superiores aos do período anterior à pandemia. Para simplesmente estabilizar a dívida no patamar de 2025, seria necessário um ajuste mais duro do que o hoje planejado pelos governos[2]. A economista-chefe do FMI, Silvana Tenreyro, alertou que os bancos centrais podem voltar a ser pressionados a acomodar mais endividamento público ou a tolerar inflação acima da meta, especialmente com ciclos eleitorais no horizonte[2].
O alerta de Bangkok fecha um ciclo de avisos. Em abril, o Monitor Fiscal já estimava que a dívida pública global, de pouco menos de 94% do PIB em 2025, chegaria a 100% em 2029, um ano antes do previsto, e apontava gastos com defesa, demandas sociais, autonomia estratégica e juros mais altos como vetores da pressão[3]. Em agosto, a diretora-gerente Kristalina Georgieva pediu a todos os países planos críveis para colocar dívida e déficit em trajetória sustentável, segundo a Reuters[5]. Na semana passada, em Singapura, ela listou dívida recorde, energia cara e um ciclo de inteligência artificial desigual como os três temas centrais da reunião, conforme o The Nation Thailand[4].
Quando o mercado começa a cobrar
A diferença entre este ciclo e o da pandemia está no preço do dinheiro. Em 2020, juros próximos de zero tornavam a dívida barata. Em 2026, o choque de energia associado à guerra no Oriente Médio manteve a inflação resistente e levou bancos centrais de volta ao aperto. O resultado é que cada ponto de déficit custa mais caro e se acumula mais rápido.
A França virou o caso exemplar. No início de outubro, o rendimento do título de 10 anos francês encostou em 5%, o maior nível desde 2002, e o prêmio sobre o título alemão passou de 150 pontos-base, patamar não visto desde a crise da dívida europeia, segundo a Trading Economics[6]. A dívida francesa atingiu 119% do PIB no segundo trimestre, e o governo prevê emissão recorde de 340 bilhões de euros em 2027 para cobrir o déficit e rolar papéis da era pandêmica, de acordo com dados da LSEG reunidos pela Roic.ai[7]. A eleição presidencial de 2027 adiciona incerteza a qualquer plano de ajuste.
O OMFIF, fórum de bancos centrais e investidores soberanos, resumiu o quadro às vésperas de Bangkok: os Estados Unidos encadeiam déficits federais na casa de 6% do PIB, o Japão sob Sanae Takaichi adota planos expansionistas, o Reino Unido opera com espaço fiscal limitado e a alta dos juros piora a conta de quem já está endividado[8].
Na pandemia, o déficit era o remédio. Em 2026, ele virou o sintoma de que governos ricos não encontram mais consenso político para cortar.
O canal brasileiro: juros, não comércio
Para o Brasil, o efeito mais direto dos déficits do mundo rico chega pelo mercado de títulos. O Monitor Fiscal de abril estimou que, após um choque de oferta de Treasuries, cada ponto-base de alta nos juros americanos se traduz em alta de 0,8 a 0,9 ponto-base nas taxas de outros países, conforme resumo do Committee for a Responsible Federal Budget[14]. Em outras palavras, a disciplina (ou a falta dela) em Washington e Paris entra na curva de juros brasileira antes de entrar em qualquer planilha de exportação.
E o país chega a essa conjuntura com pouca margem. Segundo o Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 82,9% do PIB em agosto, cerca de R$ 11,1 trilhões, com alta de 4,2 pontos percentuais no ano. Nos 12 meses até agosto, o setor público teve déficit primário de 0,62% do PIB, enquanto os juros nominais somaram R$ 1,18 trilhão, ou 8,86% do PIB, contra 7,61% um ano antes[9]. Somadas as duas parcelas, o déficit nominal brasileiro ronda 9,5% do PIB, acima do número projetado pelo FMI para os Estados Unidos.
A comparação exige cuidado, porque os critérios são diferentes. Mas ela revela uma particularidade brasileira: o problema central não está no gasto primário, que é próximo do equilíbrio, e sim no custo de carregar a dívida. O FMI, que usa metodologia própria e inclui os títulos do Tesouro em poder do Banco Central, projetou em abril dívida de 96,5% do PIB ao fim de 2026 e de 100% em 2027, e recomendou reforçar o arcabouço fiscal com mecanismos de médio prazo, segundo a Exame[10].
Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, ouvido pelo A Crítica, estabilizar a dívida exigiria superávit primário entre 1,5% e 2% do PIB[12]. É uma distância de mais de dois pontos do resultado atual, a ser percorrida justamente quando o custo de financiamento global sobe.
O lado que favorece o país
Há atenuantes. O Brasil é exportador líquido de petróleo e foi beneficiado pelo choque de energia; em julho, o FMI elevou a projeção de crescimento brasileiro para 2,4% em 2026, conforme o InfoMoney[13]. Crescimento nominal mais forte ajuda a conter a relação dívida/PIB: em agosto, a variação do PIB nominal reduziu o indicador em 0,5 ponto, contra 0,8 ponto acrescentado pelos juros[9]. A conta, porém, segue no vermelho.
O alarme fiscal pode estar exagerado?
Nem todos leem os números com o mesmo pessimismo. A gestora Fisher Investments argumenta que o serviço da dívida do governo central francês equivale a cerca de 10% da receita, metade da proporção americana, e semelhante ao que a França pagava no fim dos anos 1990 sem crise[11]. O próprio OMFIF ressalta que muitos emergentes fortaleceram seus fundamentos e estão mais preparados para choques do que várias economias avançadas[8].
Há ainda o argumento de política econômica: parte do aumento de gastos responde a escolhas de defesa e de segurança energética que os governos consideram inadiáveis, e um ajuste brusco em meio a inflação de oferta poderia aprofundar a desaceleração. O FMI reconhece o risco e fala em ajuste "bem sequenciado", não em austeridade imediata[3]. No Brasil, defensores do arcabouço lembram que o déficit primário é pequeno e que o peso dos juros reflete sobretudo a política monetária, não descontrole de despesas.
Crescimento concentrado, base fiscal estreita
Um dado menos comentado do relatório ajuda a entender por que o FMI insiste na urgência. O número de países que respondem por 95% do crescimento global caiu de 54 para 32 entre abril e outubro, reflexo da concentração dos ganhos ligados à inteligência artificial[2]. Se o crescimento fica restrito a poucas economias e setores, a receita tributária da maioria dos governos não acompanha, e a esperança de "crescer para fora da dívida" perde força. Para países de renda média como o Brasil, a implicação é dupla: pouca participação no ciclo tecnológico e custo de capital mais alto.
Perguntas frequentes
- Qual é o déficit projetado pelo FMI para as economias avançadas em 2026?
- Empréstimo líquido de 5,2% do PIB no conjunto das 41 economias avançadas, o maior desde 2021[1][2].
- Quanto os Estados Unidos devem tomar emprestado?
- O FMI estima 8,5% do PIB para o governo geral em 2026, ante 7,1% em 2025. O número inclui estados e municípios[2].
- Como isso chega ao Brasil?
- Principalmente pelos juros. Déficits altos aumentam a oferta de títulos nos países ricos, elevam taxas globais e encarecem a rolagem da dívida brasileira[14].
- Qual é a dívida bruta do Brasil hoje?
- 82,9% do PIB em agosto de 2026 pelo critério do Banco Central. Pelo critério do FMI, a projeção é de 96,5% ao fim de 2026[9][10].
- O que o FMI recomenda?
- Consolidação fiscal crível, gradual e com planos de médio prazo; no caso brasileiro, fortalecer o arcabouço fiscal[3][10].
Nota de atribuição: este texto é uma análise original do O Tecido. Informações atribuídas ao Financial Times foram resumidas a partir da reportagem "Top economies heading for biggest budget deficits since Covid, IMF warns", de Sam Fleming, Leo Lewis e Claire Jones, disponível em ft.com. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido. Demais dados foram verificados em fontes independentes indicadas no texto.