- O déficit federal dos EUA no ano fiscal de 2026 foi de US$ 1,993 trilhão, 12% acima de 2025 e o maior desde 2021, segundo leitura preliminar do CBO.
- Os juros líquidos da dívida passaram de US$ 1,1 trilhão e responderam por mais da metade do aumento do rombo.
- O título de 10 anos do Tesouro chegou a cerca de 5,3%, maior nível desde 2002, o que encarece o capital também para o Brasil.
- No Brasil, a dívida bruta está em 82,9% do PIB e os juros nominais somam 8,86% do PIB em 12 meses.
Os Estados Unidos fecharam o ano fiscal de 2026 com um déficit de US$ 1,993 trilhão, de acordo com a leitura preliminar do Congressional Budget Office (CBO), o órgão técnico e apartidário de orçamento do Congresso americano. A informação foi publicada pelo The Wall Street Journal, em reportagem de Richard Rubin.[1] O valor fica 12% acima do registrado em 2025 em termos nominais e é o mais alto desde 2021, quando o país ainda pagava a conta da pandemia.
A composição do número é simples de enunciar e difícil de corrigir. O governo federal gastou US$ 7,4 trilhões, alta de 6%, e arrecadou US$ 5,4 trilhões, alta de 3%.[1] Quando a despesa cresce no dobro do ritmo da receita, o buraco se alarga mesmo sem nenhuma catástrofe no caminho.
Um déficit de recessão em plena expansão
O dado que mais preocupa os economistas não é o valor absoluto, e sim a proporção em relação ao PIB. O número final do PIB do ano fiscal ainda não saiu, mas especialistas esperam que o déficit supere 6% da economia, contra 5,8% em 2025.[1] Em fevereiro, as projeções oficiais do CBO apontavam US$ 1,9 trilhão, ou 5,8% do PIB, para 2026.[2] O resultado efetivo veio pior.
Esse patamar costuma aparecer em recessões e guerras. Os EUA, no entanto, estão há mais de seis anos em expansão econômica, com desemprego baixo. Em meados de setembro, um relatório mensal do CBO já mostrava que o déficit acumulado em apenas 11 meses tinha chegado a US$ 2 trilhões, e Maya MacGuineas, presidente do Committee for a Responsible Federal Budget, observou que o país já havia tomado emprestado mais do que em todo o ano anterior.[3]
Déficit federal dos EUA por ano fiscal (US$ trilhões)
Os juros viraram o maior motor do rombo
O item que mais pesou foi o custo da própria dívida. Os juros líquidos pagos pelo governo americano passaram de US$ 1,1 trilhão em 2026, um aumento de US$ 115 bilhões, ou 11%, sobre o ano anterior. Na prática, essa alta explica mais da metade do crescimento do déficit.[1] Os juros já consomem mais de um em cada cinco dólares arrecadados e superam o que o país gasta com defesa ou com o Medicare, o seguro-saúde público para idosos.
O dado mais incômodo é que essa conta ainda não reflete a recente disparada dos rendimentos dos títulos públicos. No início de outubro, o título de 10 anos do Tesouro ultrapassou o pico de 2007 e atingiu o maior nível desde 2002, segundo a Bloomberg Government, em meio a uma venda generalizada de dívida soberana pelo mundo, alimentada pelo petróleo caro.[4] De acordo com a Trading Economics, o rendimento chegou a 5,33% em 5 de outubro e acumula alta de mais de 1,1 ponto percentual no ano.[5]
Como os juros mais altos só incidem sobre os títulos novos, emitidos à medida que os antigos vencem, o efeito chega ao orçamento com atraso. Ou seja, a fatura dos próximos anos já está contratada. A mesma fonte lembra que o CBO projeta a dívida líquida em poder do público saindo de 101% do PIB neste ano para mais de 175% em 2056, num cenário que supõe um título de 10 anos abaixo de 4,5%, patamar hoje superado com folga.[5]
Quando um país paga mais juros do que gasta com defesa, a dívida deixa de ser uma consequência do orçamento e passa a ser uma das suas principais despesas.
Tarifas, cortes e uma conta que não fechou
O governo Trump e o Congresso republicano adotaram medidas para conter o déficit desde o início de 2025: reduziram o quadro de servidores federais, limitaram incentivos fiscais para energia limpa, deixaram expirar subsídios de saúde e encolheram a base do programa de assistência alimentar.[1] O efeito foi anulado por decisões em sentido contrário.
A principal aposta de receita era a tarifa de importação. Em 20 de fevereiro de 2026, porém, a Suprema Corte decidiu por 6 votos a 3 que a lei de poderes econômicos emergenciais (IEEPA) não dava ao presidente autoridade para impor tarifas amplas. O Penn Wharton Budget Model estimou que os reembolsos poderiam chegar a US$ 175 bilhões.[6] Até agosto, a alfândega americana havia processado cerca de US$ 100 bilhões em devoluções, mais da metade dos aproximadamente US$ 166 bilhões cobrados com base na lei derrubada, segundo documento judicial noticiado pelo Business Today.[7] Com isso, a arrecadação líquida com tarifas em 2026 ficou abaixo da de 2025.
Do outro lado, os republicanos ampliaram gastos com a fiscalização migratória, prorrogaram cortes de impostos que iriam expirar e aprovaram novas reduções. A arrecadação com imposto de renda de empresas caiu US$ 70 bilhões, ou 16%, por causa de benefícios retroativos para pesquisa e da depreciação acelerada de fábricas e equipamentos, incluindo servidores de data centers.[1] Douglas Holtz-Eakin, ex-diretor do CBO e hoje à frente do conservador American Action Forum, resumiu o resultado ao jornal americano: “Não fizeram nenhum progresso real, então seguimos à deriva”.[1]
Eleições de meio de mandato e promessas que custam caro
A apuração saiu a menos de um mês das eleições legislativas americanas de 3 de novembro, e nenhum dos dois partidos trata a redução do déficit como bandeira de campanha. Trump promete cheques de US$ 5 mil para cidadãos adultos caso os republicanos mantenham o controle do Congresso, uma medida com custo acima de US$ 1 trilhão, além de um aumento expressivo do orçamento militar. Os democratas defendem restaurar os gastos com saúde cortados pelos republicanos.[1]
Há, ao mesmo tempo, sinais de preocupação nos dois lados. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, tem como meta levar o déficit a 3% do PIB, e o governo diz que apresentará um plano de “consolidação fiscal”. O presidente, porém, também prometeu barrar qualquer corte nos benefícios do Social Security e do Medicare, os dois maiores programas do orçamento e os que mais crescem com o envelhecimento da população.[1] Os democratas, por sua vez, propõem reforçar a fiscalização tributária e elevar impostos sobre grandes empresas e as maiores rendas.
Se o Congresso sair dividido, como as projeções indicam, o histórico permite duas leituras. Governos divididos às vezes produzem acordos de contenção fiscal. Em outras ocasiões, cada partido aprova as prioridades caras do outro, e o déficit cresce.[1]
O que isso tem a ver com o Brasil
O título de 10 anos do Tesouro americano funciona como o preço de referência do dinheiro no mundo. Quando ele sobe, investidores passam a exigir prêmios maiores de qualquer outro devedor, sobretudo de economias emergentes. Um rendimento acima de 5% num ativo considerado seguro reduz a atratividade relativa dos títulos brasileiros e pressiona o câmbio, mesmo com a Selic em patamar elevado.
O Brasil enfrenta esse ambiente com as próprias contas em trajetória preocupante. Segundo dados do Banco Central divulgados em 30 de setembro e noticiados pelo Poder360, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, ou R$ 11,1 trilhões. Os juros nominais acumulados em 12 meses somaram R$ 1,18 trilhão, o equivalente a 8,86% do PIB, contra 7,61% um ano antes.[9] Projeções reunidas pelo jornal A Crítica indicam a dívida acima de 90% do PIB em 2028, e economistas ouvidos estimam que estabilizá-la exigiria superávit primário entre 1,5% e 2% do PIB.[10]
A política monetária brasileira vinha num ciclo de cortes. Em 16 de setembro, o Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, em decisão unânime, segundo o Atlas Público, com base no comunicado do Banco Central.[11] A disparada dos juros americanos desde então estreita a margem para novas reduções na reunião de 3 e 4 de novembro, um dia depois das eleições nos EUA.
Há ainda um efeito comercial direto. A decisão da Suprema Corte alcançou a tarifa adicional de 40% imposta ao Brasil com base na mesma lei, segundo análise da consultoria Endless Commerce.[8] O que foi bom para exportadores brasileiros pesou no caixa do Tesouro americano.
| Indicador | Estados Unidos | Brasil |
|---|---|---|
| Dívida pública | Cerca de 101% do PIB (dívida líquida em poder do público, CBO) | 82,9% do PIB (dívida bruta do governo geral, ago/2026) |
| Gasto com juros | US$ 1,1 trilhão no ano fiscal, cerca de 3,4% do PIB | R$ 1,18 trilhão em 12 meses, 8,86% do PIB |
| Juro de referência | Título de 10 anos em torno de 5,3% | Selic em 13,75% ao ano |
| Calendário político | Eleições legislativas em 3 de novembro | Ano de eleições gerais |
A comparação mostra uma diferença relevante. O Brasil paga proporcionalmente mais do que o dobro em juros, mas os Estados Unidos têm um estoque de dívida maior em relação ao PIB e uma tendência de alta que, até aqui, não encontrou resistência política. Num mundo em que a principal economia aceita déficits de 6% do PIB em tempos de paz, o custo do capital tende a permanecer alto para todos, e os países com menos margem fiscal sentem primeiro.
O que observar nos próximos meses
Três pontos devem orientar a leitura do cenário. O primeiro é o resultado das eleições americanas de 3 de novembro, que define se haverá controle unificado ou dividido do Congresso e, portanto, a viabilidade dos cheques de US$ 5 mil e do aumento militar. O segundo é o plano de consolidação fiscal prometido pelo Tesouro, e se ele virá com medidas concretas ou apenas com metas. O terceiro é o comportamento do título de 10 anos: enquanto ele permanecer acima de 5%, cada leilão de dívida americana encarece o orçamento futuro e mantém a pressão sobre emergentes como o Brasil.
Perguntas frequentes
Qual foi o déficit dos Estados Unidos em 2026?
US$ 1,993 trilhão no ano fiscal encerrado em 30 de setembro, segundo leitura preliminar do CBO. É 12% acima de 2025 e o maior valor desde 2021.
Quanto os EUA gastam com juros da dívida?
Mais de US$ 1,1 trilhão em 2026, alta de 11% sobre o ano anterior. O valor supera os gastos com defesa e com o Medicare e consome mais de 20% da arrecadação federal.
Por que as tarifas não ajudaram a fechar a conta?
A Suprema Corte derrubou, em fevereiro, as tarifas impostas com base na lei IEEPA. O governo precisou devolver cerca de US$ 100 bilhões a importadores até agosto, e a receita líquida de tarifas ficou abaixo da de 2025.
Como o déficit americano afeta o Brasil?
Pela via dos juros globais. Títulos americanos com rendimento acima de 5% elevam o custo do capital para emergentes, pressionam o câmbio e limitam o espaço para cortes da Selic, num momento em que a dívida bruta brasileira está em 82,9% do PIB.
Os EUA correm risco de calote?
Não no horizonte visível. O debate entre economistas trata de outro risco: juros crescentes ocupando espaço no orçamento e reduzindo a capacidade de resposta a crises futuras.
Referências
- RUBIN, Richard. U.S. Budget Deficit Jumps to Nearly $2 Trillion. The Wall Street Journal, 8 out. 2026. wsj.com
- CONGRESSIONAL BUDGET OFFICE. Frequently Asked Questions: projeção do déficit para o ano fiscal de 2026.
- FOX TELEVISION STATIONS. Federal budget deficit hits $2T in first 11 months of fiscal year 2026, CBO reports. 12 set. 2026.
- BLOOMBERG GOVERNMENT. US Benchmark 10-Year Yield Briefly Hits Highest Since 2002. 1º out. 2026.
- TRADING ECONOMICS. 10-Year Treasury Yield Softens from 24-Year High. 6 out. 2026.
- PENN WHARTON BUDGET MODEL. Supreme Court Tariff Ruling: IEEPA Revenue and Potential Refunds. 20 fev. 2026.
- BUSINESS TODAY. US pays out $100 billion in tariff refunds after Supreme Court struck down Trump's IEEPA duties. 6 ago. 2026.
- ENDLESS COMMERCE. The Supreme Court Strikes Down IEEPA Tariffs: What the Ruling Means and How Refunds Will Work. 2026.
- PODER360. Dívida bruta atinge 82,9% do PIB em agosto, diz Banco Central. 30 set. 2026.
- A CRÍTICA. Dívida bruta sobe a 82,86% do PIB e mercado projeta avanço acima de 90% em 2028. 2026.
- ATLAS PÚBLICO. Copom reduz Selic para 13,75% ao ano em decisão unânime. 16 set. 2026.
Ewerton Lopes — Curador Editorial
O Tecido · Caderno Economia