Economia · Contas públicas · Estados Unidos

Por Ewerton Lopes, Curador Editorial · 9 de outubro de 2026 · Leitura de 9 minutos

Em resumo
  • O déficit federal dos EUA no ano fiscal de 2026 foi de US$ 1,993 trilhão, 12% acima de 2025 e o maior desde 2021, segundo leitura preliminar do CBO.
  • Os juros líquidos da dívida passaram de US$ 1,1 trilhão e responderam por mais da metade do aumento do rombo.
  • O título de 10 anos do Tesouro chegou a cerca de 5,3%, maior nível desde 2002, o que encarece o capital também para o Brasil.
  • No Brasil, a dívida bruta está em 82,9% do PIB e os juros nominais somam 8,86% do PIB em 12 meses.

Os Estados Unidos fecharam o ano fiscal de 2026 com um déficit de US$ 1,993 trilhão, de acordo com a leitura preliminar do Congressional Budget Office (CBO), o órgão técnico e apartidário de orçamento do Congresso americano. A informação foi publicada pelo The Wall Street Journal, em reportagem de Richard Rubin.[1] O valor fica 12% acima do registrado em 2025 em termos nominais e é o mais alto desde 2021, quando o país ainda pagava a conta da pandemia.

A composição do número é simples de enunciar e difícil de corrigir. O governo federal gastou US$ 7,4 trilhões, alta de 6%, e arrecadou US$ 5,4 trilhões, alta de 3%.[1] Quando a despesa cresce no dobro do ritmo da receita, o buraco se alarga mesmo sem nenhuma catástrofe no caminho.

Um déficit de recessão em plena expansão

O dado que mais preocupa os economistas não é o valor absoluto, e sim a proporção em relação ao PIB. O número final do PIB do ano fiscal ainda não saiu, mas especialistas esperam que o déficit supere 6% da economia, contra 5,8% em 2025.[1] Em fevereiro, as projeções oficiais do CBO apontavam US$ 1,9 trilhão, ou 5,8% do PIB, para 2026.[2] O resultado efetivo veio pior.

Esse patamar costuma aparecer em recessões e guerras. Os EUA, no entanto, estão há mais de seis anos em expansão econômica, com desemprego baixo. Em meados de setembro, um relatório mensal do CBO já mostrava que o déficit acumulado em apenas 11 meses tinha chegado a US$ 2 trilhões, e Maya MacGuineas, presidente do Committee for a Responsible Federal Budget, observou que o país já havia tomado emprestado mais do que em todo o ano anterior.[3]

Déficit federal dos EUA por ano fiscal (US$ trilhões)

Déficit federal dos EUA, anos fiscais 2021 a 2026 Barras: 2021, 2,77; 2022, 1,38; 2023, 1,70; 2024, 1,83; 2025, 1,78; 2026, 1,99 trilhão de dólares. 0 1,0 2,0 3,0 2,77 1,38 1,70 1,83 1,78 1,99 AF2021 AF2022 AF2023 AF2024 AF2025 AF2026
Fonte: Congressional Budget Office. O valor de 2026 é preliminar. Ano fiscal americano vai de 1º de outubro a 30 de setembro. Elaboração: O Tecido.

Os juros viraram o maior motor do rombo

O item que mais pesou foi o custo da própria dívida. Os juros líquidos pagos pelo governo americano passaram de US$ 1,1 trilhão em 2026, um aumento de US$ 115 bilhões, ou 11%, sobre o ano anterior. Na prática, essa alta explica mais da metade do crescimento do déficit.[1] Os juros já consomem mais de um em cada cinco dólares arrecadados e superam o que o país gasta com defesa ou com o Medicare, o seguro-saúde público para idosos.

O dado mais incômodo é que essa conta ainda não reflete a recente disparada dos rendimentos dos títulos públicos. No início de outubro, o título de 10 anos do Tesouro ultrapassou o pico de 2007 e atingiu o maior nível desde 2002, segundo a Bloomberg Government, em meio a uma venda generalizada de dívida soberana pelo mundo, alimentada pelo petróleo caro.[4] De acordo com a Trading Economics, o rendimento chegou a 5,33% em 5 de outubro e acumula alta de mais de 1,1 ponto percentual no ano.[5]

Como os juros mais altos só incidem sobre os títulos novos, emitidos à medida que os antigos vencem, o efeito chega ao orçamento com atraso. Ou seja, a fatura dos próximos anos já está contratada. A mesma fonte lembra que o CBO projeta a dívida líquida em poder do público saindo de 101% do PIB neste ano para mais de 175% em 2056, num cenário que supõe um título de 10 anos abaixo de 4,5%, patamar hoje superado com folga.[5]

Quando um país paga mais juros do que gasta com defesa, a dívida deixa de ser uma consequência do orçamento e passa a ser uma das suas principais despesas.

Tarifas, cortes e uma conta que não fechou

O governo Trump e o Congresso republicano adotaram medidas para conter o déficit desde o início de 2025: reduziram o quadro de servidores federais, limitaram incentivos fiscais para energia limpa, deixaram expirar subsídios de saúde e encolheram a base do programa de assistência alimentar.[1] O efeito foi anulado por decisões em sentido contrário.

A principal aposta de receita era a tarifa de importação. Em 20 de fevereiro de 2026, porém, a Suprema Corte decidiu por 6 votos a 3 que a lei de poderes econômicos emergenciais (IEEPA) não dava ao presidente autoridade para impor tarifas amplas. O Penn Wharton Budget Model estimou que os reembolsos poderiam chegar a US$ 175 bilhões.[6] Até agosto, a alfândega americana havia processado cerca de US$ 100 bilhões em devoluções, mais da metade dos aproximadamente US$ 166 bilhões cobrados com base na lei derrubada, segundo documento judicial noticiado pelo Business Today.[7] Com isso, a arrecadação líquida com tarifas em 2026 ficou abaixo da de 2025.

Do outro lado, os republicanos ampliaram gastos com a fiscalização migratória, prorrogaram cortes de impostos que iriam expirar e aprovaram novas reduções. A arrecadação com imposto de renda de empresas caiu US$ 70 bilhões, ou 16%, por causa de benefícios retroativos para pesquisa e da depreciação acelerada de fábricas e equipamentos, incluindo servidores de data centers.[1] Douglas Holtz-Eakin, ex-diretor do CBO e hoje à frente do conservador American Action Forum, resumiu o resultado ao jornal americano: “Não fizeram nenhum progresso real, então seguimos à deriva”.[1]

Eleições de meio de mandato e promessas que custam caro

A apuração saiu a menos de um mês das eleições legislativas americanas de 3 de novembro, e nenhum dos dois partidos trata a redução do déficit como bandeira de campanha. Trump promete cheques de US$ 5 mil para cidadãos adultos caso os republicanos mantenham o controle do Congresso, uma medida com custo acima de US$ 1 trilhão, além de um aumento expressivo do orçamento militar. Os democratas defendem restaurar os gastos com saúde cortados pelos republicanos.[1]

Há, ao mesmo tempo, sinais de preocupação nos dois lados. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, tem como meta levar o déficit a 3% do PIB, e o governo diz que apresentará um plano de “consolidação fiscal”. O presidente, porém, também prometeu barrar qualquer corte nos benefícios do Social Security e do Medicare, os dois maiores programas do orçamento e os que mais crescem com o envelhecimento da população.[1] Os democratas, por sua vez, propõem reforçar a fiscalização tributária e elevar impostos sobre grandes empresas e as maiores rendas.

Se o Congresso sair dividido, como as projeções indicam, o histórico permite duas leituras. Governos divididos às vezes produzem acordos de contenção fiscal. Em outras ocasiões, cada partido aprova as prioridades caras do outro, e o déficit cresce.[1]

O que isso tem a ver com o Brasil

O título de 10 anos do Tesouro americano funciona como o preço de referência do dinheiro no mundo. Quando ele sobe, investidores passam a exigir prêmios maiores de qualquer outro devedor, sobretudo de economias emergentes. Um rendimento acima de 5% num ativo considerado seguro reduz a atratividade relativa dos títulos brasileiros e pressiona o câmbio, mesmo com a Selic em patamar elevado.

O Brasil enfrenta esse ambiente com as próprias contas em trajetória preocupante. Segundo dados do Banco Central divulgados em 30 de setembro e noticiados pelo Poder360, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, ou R$ 11,1 trilhões. Os juros nominais acumulados em 12 meses somaram R$ 1,18 trilhão, o equivalente a 8,86% do PIB, contra 7,61% um ano antes.[9] Projeções reunidas pelo jornal A Crítica indicam a dívida acima de 90% do PIB em 2028, e economistas ouvidos estimam que estabilizá-la exigiria superávit primário entre 1,5% e 2% do PIB.[10]

A política monetária brasileira vinha num ciclo de cortes. Em 16 de setembro, o Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, em decisão unânime, segundo o Atlas Público, com base no comunicado do Banco Central.[11] A disparada dos juros americanos desde então estreita a margem para novas reduções na reunião de 3 e 4 de novembro, um dia depois das eleições nos EUA.

Há ainda um efeito comercial direto. A decisão da Suprema Corte alcançou a tarifa adicional de 40% imposta ao Brasil com base na mesma lei, segundo análise da consultoria Endless Commerce.[8] O que foi bom para exportadores brasileiros pesou no caixa do Tesouro americano.

Os indicadores de dívida usam metodologias diferentes e não são diretamente comparáveis. O peso dos juros nos EUA é estimativa do O Tecido a partir dos dados do CBO.
IndicadorEstados UnidosBrasil
Dívida públicaCerca de 101% do PIB (dívida líquida em poder do público, CBO)82,9% do PIB (dívida bruta do governo geral, ago/2026)
Gasto com jurosUS$ 1,1 trilhão no ano fiscal, cerca de 3,4% do PIBR$ 1,18 trilhão em 12 meses, 8,86% do PIB
Juro de referênciaTítulo de 10 anos em torno de 5,3%Selic em 13,75% ao ano
Calendário políticoEleições legislativas em 3 de novembroAno de eleições gerais

A comparação mostra uma diferença relevante. O Brasil paga proporcionalmente mais do que o dobro em juros, mas os Estados Unidos têm um estoque de dívida maior em relação ao PIB e uma tendência de alta que, até aqui, não encontrou resistência política. Num mundo em que a principal economia aceita déficits de 6% do PIB em tempos de paz, o custo do capital tende a permanecer alto para todos, e os países com menos margem fiscal sentem primeiro.

O que observar nos próximos meses

Três pontos devem orientar a leitura do cenário. O primeiro é o resultado das eleições americanas de 3 de novembro, que define se haverá controle unificado ou dividido do Congresso e, portanto, a viabilidade dos cheques de US$ 5 mil e do aumento militar. O segundo é o plano de consolidação fiscal prometido pelo Tesouro, e se ele virá com medidas concretas ou apenas com metas. O terceiro é o comportamento do título de 10 anos: enquanto ele permanecer acima de 5%, cada leilão de dívida americana encarece o orçamento futuro e mantém a pressão sobre emergentes como o Brasil.

Perguntas frequentes

Qual foi o déficit dos Estados Unidos em 2026?

US$ 1,993 trilhão no ano fiscal encerrado em 30 de setembro, segundo leitura preliminar do CBO. É 12% acima de 2025 e o maior valor desde 2021.

Quanto os EUA gastam com juros da dívida?

Mais de US$ 1,1 trilhão em 2026, alta de 11% sobre o ano anterior. O valor supera os gastos com defesa e com o Medicare e consome mais de 20% da arrecadação federal.

Por que as tarifas não ajudaram a fechar a conta?

A Suprema Corte derrubou, em fevereiro, as tarifas impostas com base na lei IEEPA. O governo precisou devolver cerca de US$ 100 bilhões a importadores até agosto, e a receita líquida de tarifas ficou abaixo da de 2025.

Como o déficit americano afeta o Brasil?

Pela via dos juros globais. Títulos americanos com rendimento acima de 5% elevam o custo do capital para emergentes, pressionam o câmbio e limitam o espaço para cortes da Selic, num momento em que a dívida bruta brasileira está em 82,9% do PIB.

Os EUA correm risco de calote?

Não no horizonte visível. O debate entre economistas trata de outro risco: juros crescentes ocupando espaço no orçamento e reduzindo a capacidade de resposta a crises futuras.

Nota de atribuição. Este artigo foi produzido a partir de reportagem de Richard Rubin publicada em 8 de outubro de 2026 pelo The Wall Street Journal, complementada por apuração independente em fontes americanas e brasileiras. Não se trata de tradução nem de reprodução do texto original. Os créditos das informações estão indicados ao longo do artigo.

Referências

  1. RUBIN, Richard. U.S. Budget Deficit Jumps to Nearly $2 Trillion. The Wall Street Journal, 8 out. 2026. wsj.com
  2. CONGRESSIONAL BUDGET OFFICE. Frequently Asked Questions: projeção do déficit para o ano fiscal de 2026.
  3. FOX TELEVISION STATIONS. Federal budget deficit hits $2T in first 11 months of fiscal year 2026, CBO reports. 12 set. 2026.
  4. BLOOMBERG GOVERNMENT. US Benchmark 10-Year Yield Briefly Hits Highest Since 2002. 1º out. 2026.
  5. TRADING ECONOMICS. 10-Year Treasury Yield Softens from 24-Year High. 6 out. 2026.
  6. PENN WHARTON BUDGET MODEL. Supreme Court Tariff Ruling: IEEPA Revenue and Potential Refunds. 20 fev. 2026.
  7. BUSINESS TODAY. US pays out $100 billion in tariff refunds after Supreme Court struck down Trump's IEEPA duties. 6 ago. 2026.
  8. ENDLESS COMMERCE. The Supreme Court Strikes Down IEEPA Tariffs: What the Ruling Means and How Refunds Will Work. 2026.
  9. PODER360. Dívida bruta atinge 82,9% do PIB em agosto, diz Banco Central. 30 set. 2026.
  10. A CRÍTICA. Dívida bruta sobe a 82,86% do PIB e mercado projeta avanço acima de 90% em 2028. 2026.
  11. ATLAS PÚBLICO. Copom reduz Selic para 13,75% ao ano em decisão unânime. 16 set. 2026.

Ewerton Lopes — Curador Editorial
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