Política · Eleições nos EUA · Inteligência artificial

Um candidato ao Senado americano folheia uma Bíblia, ergue os olhos para a câmera e recita frases que soam como confissão. Parte das palavras é dele. A cena, não. O vídeo que mostra o democrata James Talarico, do Texas, foi gerado por inteligência artificial e pago pela campanha de seu adversário republicano, Ken Paxton, segundo reportagem de Joe Miller no Financial Times.1 O episódio resume o que diferencia as eleições de meio de mandato de 3 de novembro de 2026 das anteriores: é a primeira grande disputa nos Estados Unidos em que produzir um vídeo convincente de um adversário ficou barato, rápido e ao alcance de qualquer comitê.

O caso interessa ao leitor brasileiro por uma razão concreta. Enquanto os americanos testam o limite do que a lei tolera, o Brasil atravessa o segundo turno de 25 de outubro sob um conjunto de regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que proíbe o mesmo tipo de peça, mesmo quando rotulada. Duas democracias, dois desenhos institucionais e uma pergunta comum: quem decide o que o eleitor pode ver?

O que está acontecendo nas midterms de 2026

A reportagem do Financial Times descreve uma sequência de anúncios de ataque que usam imagens sintéticas. Talarico, ex-professor e seminarista presbiteriano, já foi retratado lendo antigos posts de redes sociais, distribuindo sorvete numa van com mensagens sobre transição de gênero e até como um médico mascarado diante de uma criança.1 O jornal registra ainda peças contra o senador Jon Ossoff, da Geórgia, explorando um gasto de campanha com maquiagem, contra a republicana Pamela Evette, na Carolina do Sul, e um vídeo de apoio a Spencer Pratt na disputa pela prefeitura de Los Angeles que transforma Karen Bass, Kamala Harris e Gavin Newsom em aristocratas enlouquecidos.1

O uso não é exclusivo de um partido. A Reuters mostrou que o Comitê Senatorial Nacional Republicano (NRSC) produziu um Talarico sintético recitando posts reais de 2021, com uma pequena marca indicando o uso de IA, e que o próprio senador republicano John Cornyn, nas primárias, respondeu a Paxton com um vídeo artificial que o exibia ao lado de supostas amantes. Entre democratas, a agência aponta o governador da Califórnia, Gavin Newsom, como o usuário mais notório de vídeos fabricados para provocar Donald Trump.2

A escalada ganhou dinheiro grosso em agosto. Um comitê de ação política conservador refez, com IA, o célebre anúncio "Daisy" de 1964, trocando o temor nuclear por um Talarico cirurgião, numa campanha que, segundo a imprensa americana, soma cerca de US$ 10 milhões. A equipe do democrata negou que ele defenda cirurgias de redesignação em menores, conforme relatou The Advocate, que também lembrou que a disputa texana aparecia tecnicamente empatada numa pesquisa Emerson.3

Anúncios políticos com IA nas eleições americanas de 2026 Até o início de setembro de 2026, ao menos 164 anúncios com IA, cerca de 80 milhões de dólares em veiculação, e aproximadamente 7 em cada 10 sem aviso de uso de IA. Anúncios políticos com IA no ciclo 2026 (EUA) Levantamento do Wesleyan Media Project até o início de setembro 164+ anúncios criados ou aprimorados com IA ~US$ 80 mi em veiculação paga Presença de aviso de uso de IA ~70% sem aviso ~30% com aviso
Fonte: Wesleyan Media Project, citado por Fast Company. A contagem inclui usos de IA que não são imitações enganosas e não indica quantos anúncios violaram a lei. Proporções aproximadas.

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Segundo dados do Wesleyan Media Project reunidos pela Fast Company, até o início de setembro havia ao menos 164 anúncios políticos criados ou aprimorados com IA no ciclo de 2026, com quase US$ 80 milhões em veiculação, e cerca de sete em cada dez não traziam qualquer aviso. O próprio levantamento ressalva que a conta inclui usos legítimos e não mede engano.4

O problema não é a mentira inteira, é a meia verdade

O aspecto mais relevante do caso Talarico não é a falsificação pura. É a montagem. O Financial Times observa que as declarações atribuídas ao candidato existem, e que ele já recuou de algumas delas; o que foi inventado é a cena em que ele as recita com orgulho.1 A diferença parece sutil, mas desloca o debate. Uma checagem tradicional responderia "ele disse isso?" com um sim. A pergunta correta passa a ser outra: ele disse isso, desse jeito, nesse contexto e com esse tom?

Nos anúncios mais sofisticados, frases reais de anos atrás, retiradas de posts, ganham voz, expressão facial e cenário escolhidos pelo adversário. Em alguns casos, segundo a campanha democrata, trechos inventados são intercalados com citações autênticas, o que torna o conjunto difícil de contestar sem uma análise frase a frase.3

O selo "gerado por IA" informa a técnica usada. Não informa se o conteúdo é fiel ao que o candidato pensa, disse ou faria.

É aqui que a principal resposta regulatória americana mostra seus limites. A maioria das leis estaduais aposta na rotulagem: basta avisar que houve IA. Mas um aviso discreto num canto da tela, como os observados em vários desses anúncios, não reconstrói o contexto perdido. O eleitor fica sabendo que a imagem é artificial, mas não fica sabendo quais palavras são reais.

Uma colcha de retalhos legal nos Estados Unidos

Não existe lei federal americana específica sobre deepfakes eleitorais. O que existe é um mosaico estadual. Segundo relatório da Conferência Nacional de Legislaturas Estaduais (NCSL) de junho de 2026, citado pela Fast Company, 31 estados têm normas sobre o tema; Texas e Califórnia foram os primeiros, em 2019, e a maioria legislou a partir de 2024.4 O rastreador da Public Citizen mostra que muitos projetos apresentados neste ano morreram nas assembleias.5

As regras que sobreviveram enfrentam dois obstáculos. O primeiro é judicial: a Texas Monthly registra que a Suprema Corte ainda não julgou um caso de deepfake político e que tribunais inferiores têm sido hostis a restrições, pela força da Primeira Emenda, que protege com amplitude o discurso político.6 A mesma revista relata que a democrata Vikki Goodwin, candidata a vice-governadora do Texas, apresentou queixa criminal com base na lei estadual de 2019 contra um vídeo do vice-governador Dan Patrick, testando na prática uma norma que raramente sai do papel.6

O segundo obstáculo é político. Uma ordem executiva de dezembro de 2025 orientou o governo federal a contestar leis estaduais de IA sob o argumento de preempção, segundo o índice de legislação da Resemble AI, que também lembra a derrubada parcial de uma lei californiana sobre o tema em agosto de 2025.7 O resultado é um sistema em que o mesmo anúncio pode ser legal num estado, exigir aviso em outro e ser alvo de processo num terceiro, enquanto circula livremente nas redes de todos.

O Brasil escolheu outro caminho

O contraste com o Brasil é nítido. A Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026, que alterou a norma de propaganda eleitoral (Resolução nº 23.610/2019), exige que todo conteúdo criado ou substancialmente alterado por IA informe isso de modo explícito e proíbe o deepfake para favorecer ou prejudicar candidaturas. Em 1º de setembro, por 5 votos a 2, o TSE fixou uma tese que delimita a proibição: ela vale quando o material simula imagem, voz ou manifestação de alguém com realismo suficiente e, ao mesmo tempo, funciona como propaganda eleitoral. Caricaturas, sátiras e avatares estilizados ficam de fora.8

Dois pontos distinguem o modelo brasileiro do americano. Primeiro, o rótulo não salva a peça: um deepfake enquadrado na tese é vedado mesmo identificado como IA e mesmo com autorização da pessoa retratada, como explicou um especialista ouvido pelo Estadão Conteúdo. Segundo, há uma janela de silêncio: fica proibido publicar, republicar ou impulsionar novos conteúdos sintéticos com imagem ou voz de candidatos entre 72 horas antes e 24 horas depois do fim da votação. As sanções vão da remoção imediata até a possibilidade de cassação por abuso de poder, sempre mediante processo.9

O tribunal também transferiu deveres às empresas. Plataformas com mais de 5 milhões de usuários ativos mensais no país tiveram até 16 de agosto para apresentar planos de conformidade.9 O TSE ainda firmou acordos com Meta, Google, TikTok, X, Telegram, Kwai e LinkedIn, além de três empresas de IA, OpenAI, ElevenLabs e Anthropic, conforme noticiou o NSC Total.10 A pressão não é teórica: o Observatório IA nas Eleições identificou ao menos 137 conteúdos políticos sintéticos circulando entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, com o deepfake como recurso mais frequente, segundo o portal Startups.11

Comparativo: como EUA e Brasil tratam o deepfake eleitoral em 2026
CritérioEstados UnidosBrasil
Norma principalLeis estaduais (31 estados); sem lei federal específicaResolução TSE nº 23.755/2026, aplicada em todo o país
Deepfake rotuladoEm geral permitido onde há lei de avisoVedado se realista e usado como propaganda
Sátira e caricaturaAmplamente protegidas pela Primeira EmendaExcluídas da proibição pela tese de setembro
Janela de silêncioVaria; algumas leis valem de 60 a 90 dias antesNovos conteúdos sintéticos vedados de 72h antes a 24h depois da votação
Deveres das plataformasLimitados e contestados na JustiçaPlanos de conformidade obrigatórios para grandes provedores
Sanção máximaMultas ou processos estaduais, conforme o estadoPossível cassação de registro ou mandato
Contraponto

Proteger o eleitor ou tutelar o debate?

Há argumentos sérios contra o endurecimento. Nos EUA, a tradição constitucional parte do princípio de que o remédio para o discurso enganoso é mais discurso, e não a censura prévia; tribunais têm derrubado normas que alcançam sátira e paródia, gêneros centrais da crítica política. O próprio Financial Times pondera que não há evidência de que parte dos vídeos falsos tenha sido amplamente vista ou tido impacto mensurável.1

No Brasil, o placar de 5 a 2 indica que a fronteira está longe de pacificada. A discussão sobre o chamado "deepfake do bem", reacendida por um vídeo artificial de Jair Bolsonaro exibido na convenção do PL, mostra a dificuldade de separar homenagem, comunicação e manipulação, como relatou a Gazeta do Povo.12 Críticos veem risco de concentração de poder na Justiça Eleitoral para decidir, em prazos curtíssimos, o que é verossímil demais.

Existe ainda o efeito inverso, que juristas americanos chamam de "dividendo do mentiroso": quanto mais se fala em deepfake, mais fácil fica para um político desqualificar uma gravação verdadeira como falsa. Regulação mal calibrada pode alimentar esse álibi.

O que observar até as urnas

Para o eleitor brasileiro, o calendário importa. O horário eleitoral do segundo turno no rádio e na TV vai de 9 a 23 de outubro, e a janela de restrição a conteúdos sintéticos começa nos três dias que antecedem a votação de 25 de outubro. É justamente nesse intervalo que um vídeo fabricado faria mais estrago, por não haver tempo para desmentido. Denúncias de propaganda irregular podem ser enviadas à Justiça Eleitoral pelo aplicativo Pardal.

Para o observador da política americana, o teste virá em 3 de novembro. Se as campanhas que apostaram em vídeos sintéticos vencerem disputas apertadas, como a do Senado no Texas, a técnica tende a se tornar padrão em 2028. Se a reação dos eleitores for de rejeição, o mercado de deepfake eleitoral pode encolher sozinho, mais rápido do que qualquer lei.

Em ambos os casos, a lição institucional é a mesma. A tecnologia reduziu a quase zero o custo de fabricar uma cena. O custo de verificá-la continua alto, e recai sobre jornalistas, tribunais, plataformas e, no fim da linha, sobre o eleitor.

Perguntas frequentes

O que é um deepfake eleitoral?

É um vídeo, áudio ou imagem gerado ou manipulado por inteligência artificial que simula, de forma realista, um candidato ou figura pública dizendo ou fazendo algo que não ocorreu daquela forma, com o objetivo de influenciar o voto.

Deepfakes são proibidos nas eleições dos Estados Unidos?

Não há proibição federal. Em 2026, 31 estados têm leis sobre deepfakes eleitorais, a maioria exigindo aviso de uso de IA perto da eleição. Várias dessas normas são contestadas na Justiça com base na Primeira Emenda.

O que o TSE decidiu sobre deepfake nas eleições de 2026?

Em 1º de setembro de 2026, por 5 votos a 2, o TSE definiu que a proibição vale quando o conteúdo sintético tem realismo suficiente para simular imagem, voz ou manifestação de uma pessoa e, ao mesmo tempo, configura propaganda eleitoral. Caricaturas e sátiras ficam de fora.

Um anúncio com aviso de "gerado por IA" é sempre permitido?

Nos EUA, em geral, o aviso basta onde há lei estadual. No Brasil, não: um deepfake realista usado para favorecer ou prejudicar candidatura é vedado mesmo identificado, e novos conteúdos sintéticos com candidatos são proibidos de 72 horas antes a 24 horas depois da votação.

Como denunciar um deepfake eleitoral no Brasil?

Pelo aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral, que encaminha denúncias aos Tribunais Regionais Eleitorais e ao Ministério Público Eleitoral, além dos canais de denúncia das próprias plataformas.

Este artigo foi inspirado na reportagem "Cheap AI 'deepfakes' give new twist to US political attack ads", de Joe Miller, publicada pelo Financial Times. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido; as informações atribuídas ao jornal foram parafraseadas e complementadas por apuração independente em outras fontes, indicadas ao longo do texto.

Ewerton Lopes
Curador Editorial · O Tecido