Caderno Empreendedorismo Edição de agosto de 2026
ARTESANATO · TECNOLOGIA SOLAR · DADOS ABERTOS

Uma guindaste de porcelana nasce hoje de um arquivo digital, não de um torno. Em Hefei, capital da província chinesa de Anhui, uma feira paralela à final nacional de um concurso de empreendedorismo reuniu cerca de 600 participantes que apresentaram projetos que vão de música tradicional a óculos inteligentes, segundo reportagem da agência estatal People's Daily. O evento, promovido pelo Ministério de Recursos Humanos e Segurança Social da China em parceria com o governo provincial, funciona como vitrine de um modelo de fomento ao empreendedorismo que combina incentivo financeiro, espaço de trabalho gratuito, treinamento e serviços de incubação.

Um dos casos retratados pela reportagem chinesa é o de Wu Shuping, empreendedor da província de Jiangxi que digitalizou peças de um mestre entalhador para recriar, em porcelana, formas inspiradas em raízes esculpidas. O processo parte do escaneamento em 3D das obras originais, passa pela impressão de moldes e termina em etapas manuais de esmaltação e queima. A meta declarada de Wu é converter técnicas de artesãos em arquivos digitais reutilizáveis, vendidos a museus, designers e clientes internacionais, com apoio de inteligência artificial para que compradores adaptem os desenhos às próprias necessidades.

Outro exemplo citado é o de Zhang Mengni, de 36 anos, que transformou um negócio familiar de fabricação de pincéis em Anqing, Anhui, numa empresa de base tecnológica após treinamentos organizados pelo poder público e parcerias com universidades de Xangai e Zhejiang. Sua equipe desenvolveu um robô de limpeza de painéis fotovoltaicos com navegação autônoma, hoje exportado a 63 países e responsável, segundo o relato, por mais de 1.200 empregos ao longo da cadeia de valor.

Um ecossistema desenhado pelo Estado

Esses casos individuais ilustram um esforço estatal de maior escala. Durante o 14º Plano Quinquenal (2021-2025), a China teria criado, em média, mais de 10 milhões de novas entidades empresariais por ano, com mais de um milhão de empreendedores recebendo anualmente empréstimos subsidiados voltados à abertura de negócios, de acordo com a mesma reportagem. O desenho é explicitamente indutivo: o governo seleciona setores prioritários, oferece infraestrutura e crédito, e usa concursos e feiras como as de Hefei para conectar empreendedores a redes de pesquisa e a plataformas de inteligência artificial.

"Novas tecnologias, indústrias, formas de negócio e modelos continuam surgindo, oferecendo aos empreendedores mais espaço de mercado e mais oportunidades." Li Yu, pesquisador da Academia Chinesa de Ciência de Pessoal, em declaração à People's Daily

O Brasil tem seu próprio boom, e ele nasce de baixo para cima

Enquanto a China organiza seu empreendedorismo a partir de políticas industriais centralizadas, o Brasil vive uma expansão de natureza mais pulverizada e informal, puxada majoritariamente por microempreendedores individuais. Levantamento do DataSebrae com base no CNPJ da Receita Federal mostra que o país abriu 2,9 milhões de pequenos negócios no primeiro semestre de 2026, crescimento de quase 12% sobre igual período de 2025. Os MEIs responderam por mais de três em cada quatro dessas aberturas, e o setor de serviços concentrou a maior parte dos novos registros.

Pela ótica do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), pesquisa internacional coordenada no país pelo Sebrae em parceria com a Anegepe, o retrato é ainda mais amplo. A edição 2025 do levantamento aponta que 42,5 milhões de brasileiros adultos que ainda não têm negócio próprio pretendem empreender nos próximos três anos, o segundo maior contingente do mundo depois da Índia, com taxa potencial de 45% e sexta posição no ranking mundial, segundo dados publicados pela DataSebrae. Em anos anteriores, o Brasil já havia liderado a taxa de empreendedorismo entre os países do Brics, à frente da própria China, conforme registrou o Centro de Empreendedorismo e Incubação da UFG.

A leitura de especialistas em pesquisas mais recentes do GEM, porém, é de cautela. O relatório global identifica dois fenômenos que se sobrepõem: uma "lacuna de sobrevivência", em que poucos negócios iniciais amadurecem até virar empresas estabelecidas, e uma "lacuna de prontidão em IA", que separa quem consegue incorporar inteligência artificial ao próprio negócio de quem não consegue. O Brasil aparece entre os países com maiores expectativas em relação à IA, ao lado de Angola, Tailândia, Costa Rica, Chile e Emirados Árabes Unidos, o que sugere entusiasmo maior do que capacidade efetiva de adoção da tecnologia por parte da maioria dos pequenos negócios.

Do porcelana digital ao artesanato brasileiro protegido por lei

O caso de Wu Shuping, que converte técnicas artesanais em ativos digitais comercializáveis, tem paralelos no Brasil, ainda que por caminhos distintos. Pesquisa da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp desenvolveu um método de catalogação digital automatizada de peças de museus brasileiros usando modelos de inteligência artificial treinados para extrair informações de imagens, reduzindo um processo que hoje consome um dia inteiro de trabalho especializado para poucos itens, segundo reportagem do Jornal da Unicamp. O objetivo ali é de preservação de acervo, não de comercialização direta como no caso chinês, mas a lógica de converter patrimônio físico em dado digital reutilizável é a mesma.

Já no artesanato de mercado, a proteção brasileira segue via Indicação Geográfica, instrumento jurídico que garante autenticidade territorial e abre caminho para desenvolvimento socioeconômico de comunidades artesãs, conforme descreve estudo publicado na Revista Brasileira de Desenvolvimento e Inovação. E no mercado de luxo, a reportagem da Forbes Brasil registra o movimento inverso ao de Hefei: marcas de moda valorizam justamente a marca do gesto humano como diferencial frente à padronização digital, um contraponto direto ao modelo de replicação em série que sustenta o negócio de Wu.

Contraponto: incubação estatal ou dinamismo espontâneo?

Defensores do modelo chinês argumentam que a combinação de crédito subsidiado, infraestrutura gratuita e conexão direta com equipes de inteligência artificial acelera a maturação de negócios que, de outra forma, levariam anos para escalar, e aponta os 63 países que já recebem o robô de limpeza solar de Zhang Mengni como prova de eficácia.

Críticos desse desenho de política industrial ponderam que a seleção estatal de vencedores tende a favorecer setores e empresas já alinhados às prioridades do governo, deixando de lado iniciativas fora do radar oficial. No Brasil, o próprio GEM 2023 já apontava entraves de crédito, burocracia e ensino técnico de empreendedorismo como pontos de atenção do ambiente nacional, mesmo com taxas de atividade empreendedora elevadas.

Entre os dois extremos, o debate acadêmico converge em um ponto: tanto o excesso de centralização quanto o excesso de informalidade podem, por caminhos diferentes, impedir que negócios iniciais se transformem em empresas estabelecidas e duradouras.

O que os dois países parecem compartilhar, ainda que com instrumentos distintos, é a percepção de que empreendedorismo não se sustenta apenas com boas ideias individuais. Feiras como a de Hefei, treinamentos como os que atenderam Zhang Mengni, e programas como a Semana do MEI do Sebrae cumprem função semelhante: reduzir a distância entre quem tem uma ideia e quem tem acesso a crédito, tecnologia e mercado. A diferença está em quem decide o que é prioridade, se o Estado ou o próprio empreendedor, e essa escolha molda tanto o ritmo quanto a distribuição dos resultados.

Este artigo utiliza informações e relatos publicados pela agência estatal chinesa People's Daily em reportagem sobre a final nacional de um concurso de empreendedorismo em Hefei, China (2 de agosto de 2026), disponível em: en.people.cn/n3/2026/0803/c90000-20484409.html. Dados e análises complementares sobre o cenário brasileiro foram obtidos em fontes independentes listadas na seção de referências ao lado.