Empreendedorismo

Duas semanas depois de o exército russo cruzar a fronteira ucraniana, Iryna Terekh dirigia sob fogo de franco-atiradores para tirar a mãe doente da cidade de Bucha. Até aquele fevereiro de 2022, ela projetava bancos de madeira, floreiras e passarelas urbanas em Kiev. Hoje, aos 34 anos, comanda a Fire Point, a maior empresa privada de defesa da Ucrânia, responsável por drones e mísseis que atingem alvos a milhares de quilômetros dentro do território russo.

A história, contada em reportagem do The Wall Street Journal, é extrema em quase todos os sentidos: guerra, perda, reinvenção sob pressão existencial. Mas o núcleo da trajetória de Terekh, a virada de uma empreendedora de nicho para a liderança de um setor estratégico em tempo recorde, ecoa uma pergunta que também mobiliza o ecossistema empreendedor brasileiro: o que acontece quando a urgência força uma empresa, ou uma pessoa, a se reinventar completamente.

Da marcenaria às fábricas de guerra

Antes da invasão, a empresa de Terekh fabricava mobiliário urbano e trabalhava com desenvolvedores em pontes e calçadas para "reduzir a distância entre as pessoas", como ela descreveu à reportagem do WSJ. A guerra interrompeu esse projeto. Depois de escapar de Bucha, cidade que semanas mais tarde seria palco de um dos massacres mais graves do conflito, ela converteu a própria empresa para produzir barreiras antitanque e passou a canalizar ajuda humanitária para soldados.

No fim de 2022, foi contratada por Denys Shtilierman, fundador da Fire Point, para transformar protótipos de drones em produção em escala. Terekh propôs um método de fabricação que reduziu de seis dias para duas horas e meia o tempo necessário para produzir a asa de um drone, avanço que viabilizou o FP-1, hoje o principal drone de longo alcance da companhia, com autonomia declarada de cerca de 3.400 quilômetros.

"Antes de construir algo bonito, é preciso primeiro destruir algo feio."

A frase, atribuída a Terekh na reportagem original, resume a lógica que passou a orientar sua gestão. Em 2024, a companhia testou o FP-5, míssil de cruzeiro com ogiva de mais de mil quilos que ficou conhecido como Flamingo, apelido nascido de uma piada sobre a cor rosa de um dos protótipos. A Fire Point emprega hoje cerca de 7 mil pessoas, em um setor no qual, segundo a reportagem, cerca de 90% da força de trabalho ucraniana em defesa ainda é masculina.

O Brasil observa: empreendedorismo sob pressão estratégica

O Brasil não enfrenta um conflito armado em território nacional, mas vive um momento próprio de reorganização da sua base industrial de defesa, movido por outra urgência: a corrida global por soberania tecnológica. O Ministério da Defesa destinou R$ 142,9 bilhões ao setor em 2026, e as autorizações brasileiras para exportação de produtos de defesa somaram US$ 3,1 bilhões em 2025, alta de 74% sobre o ano anterior, segundo levantamento oficial citado pelo InvestNews.[5]

Empresas como a XMobots, fabricante de drones sediada em São Carlos (SP), e a Akaer, especializada em sistemas para aeronaves de defesa, exemplificam um padrão que se repete também na Ucrânia: empreendedores de setores civis, aviação, engenharia, manufatura leve, migrando para produtos de uso dual ou estratégico à medida que o mercado e as políticas públicas criam demanda. A Política Nacional da Base Industrial de Defesa, criada em 2022, tem justamente o objetivo de ampliar essa capacidade tecnológica nacional e reduzir a dependência de fornecedores externos.[6]

Mulheres no comando: um padrão global, um desafio brasileiro

A ascensão de Terekh também ilumina uma lacuna que o Brasil compartilha com a Ucrânia. Dados do Fórum Econômico Mundial de 2024, citados pela AEL Sistemas, mostram que mulheres representam 28,2% da força de trabalho global em pesquisa e desenvolvimento, mas menos de 20% nas áreas ligadas diretamente à defesa. No Brasil, levantamentos do IBGE indicam que cerca de 25% das mulheres atuam em carreiras técnicas, um patamar que sinaliza espaço de crescimento nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática aplicadas a setores estratégicos.[4]

No empreendedorismo em geral, o cenário brasileiro é mais favorável do que o retrato setorial de defesa sugere. Segundo o relatório GEM (Global Entrepreneurship Monitor) 2024, produzido pelo Sebrae em parceria com a Anegepe, as mulheres já respondem por 34% dos empreendedores do país, com participação em crescimento acelerado em tecnologia e negócios digitais.[2] Em 2025, empreendedoras acessaram R$ 734 milhões em crédito por meio do Fampe, fundo de garantia voltado exclusivamente a negócios liderados por mulheres, e passaram a superar os homens em formalização de CNPJ, segundo dados da Agência Sebrae de Notícias.[3]

Contraponto

Nem todo especialista em empreendedorismo vê a reconversão acelerada de negócios civis para setores estratégicos como um modelo replicável ou desejável fora de contextos de guerra. Analistas do setor de defesa apontam que a indústria brasileira convive com um paradoxo: mesmo com exportações recordes, parte das empresas do setor enfrenta fragilidade financeira, já que projetos de defesa envolvem ciclos longos de engenharia, certificação e testes antes de gerar receita, um risco que dificulta a replicação do "pivô relâmpago" ucraniano em tempos de paz.

Para Terekh, que hoje integra o conselho da Fire Point ao lado do ex-secretário de Estado americano Mike Pompeo, a jornada trocou o sonho de espaços públicos compartilhados por uma missão de soberania nacional. É uma transformação de extremos, mas que carrega uma lição transferível ao empreendedorismo brasileiro: setores considerados estratégicos, sejam de defesa, energia ou infraestrutura crítica, tendem a se abrir mais rapidamente a fundadores dispostos a aprender rápido e a operar fora da própria zona de conforto técnica.

Esta reportagem foi inspirada no artigo "A Millennial Furniture Designer Is Behind the Drones Battering Russia", de Matthew Luxmoore, publicado originalmente pelo The Wall Street Journal em 15 de agosto de 2026. Não reproduzimos o conteúdo original na íntegra; leia a reportagem completa em: wsj.com.

Perguntas Frequentes

Quem é Iryna Terekh?

Iryna Terekh é uma empreendedora ucraniana de 34 anos que atuava no design de mobiliário urbano antes da invasão russa de 2022. Hoje é CEO e diretora técnica da Fire Point, maior empresa privada de defesa da Ucrânia.

O que é a Fire Point?

A Fire Point é uma empresa ucraniana de defesa fundada por Denys Shtilierman, com cerca de 7 mil funcionários, conhecida pelo drone de longo alcance FP-1 e pelo míssil de cruzeiro FP-5, apelidado de Flamingo.

Qual a relação entre essa história e o empreendedorismo brasileiro?

A trajetória de Terekh ilustra a reconversão de negócios civis para setores estratégicos, um fenômeno que também aparece no Brasil, onde o crescimento da indústria de defesa nacional e do empreendedorismo feminino em tecnologia cria novas rotas de atuação para empreendedores fora de suas áreas de origem.

Qual a participação das mulheres no empreendedorismo brasileiro atualmente?

Segundo o relatório GEM 2024 (Sebrae/Anegepe), as mulheres representam 34% dos empreendedores do Brasil, com crescimento mais acentuado em negócios digitais e de tecnologia.

O Brasil tem uma indústria de defesa relevante?

Sim. O Brasil registrou US$ 3,1 bilhões em autorizações de exportação de produtos de defesa em 2025 e destinou R$ 142,9 bilhões ao Ministério da Defesa em 2026, com empresas como Embraer Defesa, XMobots e Akaer entre os principais players do setor.