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Seis meses depois de declarar guerra ao Irã prometendo uma vitória rápida, o governo de Donald Trump admite, na prática, que embarcou em um conflito de desgaste sem data para terminar. O anúncio feito pelo secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, na última segunda-feira, batizado de "Operation Economic Outcast", marca a tentativa mais recente de Washington de substituir a força militar por sufocamento financeiro como principal instrumento de pressão sobre Teerã.
A guerra começou no fim de fevereiro, quando Trump ordenou ataques contra instalações iranianas alegando que o regime dos aiatolás estava mais fraco do que em décadas. Bombardeios sucessivos mataram o líder supremo Ali Khamenei e dezenas de comandantes militares, mas o Irã reagiu fechando o Estreito de Ormuz, por onde passa entre um quinto e um quarto do petróleo comercializado no mundo. Desde então, a via segue praticamente paralisada: segundo dados da consultoria Kpler, apenas dois a três superpetroleiros atravessam o estreito por dia, uma fração dos cerca de 130 trânsitos diários registrados antes do conflito.
"Ele caiu numa armadilha da própria fabricação, porque Ormuz virou o interruptor que o Irã usa para coagir a economia global, e não existe solução fácil" — avaliação atribuída a analista do Chatham House sobre a posição do governo americano.
O jornal britânico The Telegraph publicou nesta sexta-feira uma reportagem detalhada sobre como a "excursão" prometida por Trump em três semanas se transformou em uma guerra de atrito de seis meses, destacando alertas de inteligência ignorados antes da decisão de matar Khamenei e a fragmentação do poder em Teerã entre facções militares, diplomáticas e religiosas. A publicação descreve o novo pacote de sanções anunciado por Bessent como uma aposta do governo americano em vencer pelo cansaço econômico, já que a via militar atingiu retornos decrescentes.
O que muda com a "Operation Economic Outcast"
Segundo o próprio Tesouro americano, a operação lançada em 24 de agosto busca cortar "todo canal econômico que sustenta o regime tirânico" iraniano, mirando cinco frentes: ativos digitais, ouro, aviação, tecnologia e navegação marítima. Bessent comparou a iniciativa ao Dia D da Segunda Guerra Mundial, embora tenha reconhecido publicamente que as sanções anunciadas até agora funcionam como um "tiro de advertência", e não como um golpe fatal, segundo reportagem do Conselho Atlântico. Bancos e empresas chinesas, que ainda compram parte do petróleo iraniano, não foram diretamente sancionados nesta primeira rodada.
A Al Jazeera registrou que a campanha chega quase seis meses após o início dos combates, num momento em que o chamado impasse de "nem guerra, nem acordo" se consolidou como o novo normal da relação entre Washington e Teerã. Já a rede americana Axios apontou que, segundo autoridades dos EUA, as sanções econômicas devem ser o principal instrumento de pressão pelo menos até depois das eleições legislativas de meio de mandato em novembro, quando uma nova ofensiva militar voltaria a ser cogitada.
O efeito no Brasil: petróleo, IPCA e Selic
O fechamento intermitente de Ormuz não ficou restrito ao Oriente Médio. Levantamento da Bloomberg Línea mostrou que bancos centrais da América Latina, incluindo o brasileiro, revisaram para cima as projeções de inflação para 2026 diante da alta do petróleo provocada pela guerra, embora os analistas ouvidos considerem que o repasse aos preços, até junho, não tenha sido disruptivo.
Estudo da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, divulgado em março, estimou que cada variação de aproximadamente 1% no preço do petróleo tende a gerar impacto de cerca de 0,02 ponto percentual sobre a inflação brasileira, puxado principalmente pelo encarecimento dos combustíveis. No cenário considerado mais provável à época, com choque temporário de preços, a pasta projetou aumento adicional de 0,14 ponto percentual no IPCA e ganho extra de cerca de R$ 21,4 bilhões em arrecadação federal, beneficiada pela alta da Petrobras e do superávit comercial.
Análise da BM&C News detalha que, no Brasil, a transmissão da alta do petróleo chega majoritariamente por três canais: combustíveis, energia elétrica e alimentos, com peso direto sobre o índice medido pelo IBGE. O mercado financeiro também sentiu o nervosismo do conflito: em abril, o Ibovespa recuou mais de 1% num único pregão após Trump prometer atingir o Irã "com extrema força", em meio à disparada do barril e à queda de bancos e utilities negociados na B3, movimento parcialmente compensado pela valorização das ações da própria Petrobras.
Contraponto: a aposta do desgaste pode falhar
Nem todos os analistas concordam que a pressão econômica levará Teerã à mesa de negociação. Pesquisadores citados pelo Telegraph argumentam que, encurralados, os setores mais linha-dura do regime iraniano podem preferir escalar o conflito a capitular, inclusive preparando uma nova ofensiva para pressionar os preços do petróleo. Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, chegou a ameaçar publicamente impedir por completo a saída de petróleo pelo golfo Pérsico caso a guerra econômica avance, segundo reportagem do site O Cafezinho.
Há ainda quem questione a eficácia da própria operação anunciada por Bessent. Especialistas do Conselho Atlântico observam que, sem sancionar diretamente grandes bancos e empresas chinesas, dificilmente o pacote provocará um colapso rápido nas finanças iranianas, o que sugere uma guerra ainda mais prolongada do que a Casa Branca projeta publicamente.
Perguntas frequentes
Por que o Irã fechou o Estreito de Ormuz?
O fechamento foi a resposta iraniana aos bombardeios americanos e israelenses que mataram o líder supremo Ali Khamenei e destruíram parte do arsenal militar do país. Como cerca de um quinto do petróleo mundial passa pela via, o bloqueio virou o principal instrumento de pressão de Teerã sobre a economia global.
O que é a "Operation Economic Outcast"?
É o pacote de sanções lançado pelo Tesouro dos Estados Unidos em 24 de agosto de 2026, sob comando do secretário Scott Bessent, com o objetivo de cortar as fontes de receita do Irã em setores como ativos digitais, ouro, aviação, tecnologia e navegação, forçando o país a negociar a reabertura de Ormuz.
Como a guerra entre EUA e Irã afeta a inflação no Brasil?
A alta do petróleo se transmite à economia brasileira principalmente via combustíveis, energia elétrica e alimentos, componentes com peso relevante no IPCA calculado pelo IBGE. O Ministério da Fazenda estima que cada aumento de 1% no barril gere impacto aproximado de 0,02 ponto percentual sobre a inflação nacional.
A guerra deve terminar antes das eleições de meio de mandato nos EUA?
Segundo reportagens do Telegraph e da Axios, o governo Trump parece ter aceitado que uma resolução definitiva antes de novembro é pouco provável, optando por manter a pressão econômica como estratégia até o período pós-eleitoral, quando uma nova fase militar poderia voltar a ser avaliada.