O Brasil nunca abriu tantas empresas quanto em 2025: 5,1 milhões de novos CNPJs, um salto de 18,6% sobre o ano anterior e recorde histórico na série da Receita Federal. A taxa de envolvimento da população adulta com algum negócio, medida pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM), também subiu para 33,4%, o maior patamar em quatro anos, segundo levantamento do Sebrae com a Associação Nacional de Estudos e Pesquisas em Empreendedorismo (Anegepe). Por esse critério, o país figura entre os mais empreendedores do planeta. Mas 96% dessas novas empresas nasceram como microempreendedores individuais, microempresas ou empresas de pequeno porte — a grande maioria prestando serviços autônomos, com baixíssima agregação de valor ao Produto Interno Bruto. O Brasil produz empreendedores aos milhões; produz unicórnios com conta-gotas.
É praticamente o mesmo diagnóstico que a França fazia de si mesma há pouco mais de uma década, antes de reorganizar sua política de inovação em torno de três eixos simples. Uma reportagem publicada pelo jornal canadense La Presse, assinada por Alain McKenna e Martin Chamberland, foi a Paris investigar como o país transformou seu ecossistema de startups — hoje responsável por mais de 30 unicórnios (empresas avaliadas em ao menos 1 bilhão de dólares, termo que os franceses chamam de "licornes") — em modelo estudado por Coreia do Sul, Índia e Japão[1]. A pergunta que o texto original faz sobre o Quebec cabe igualmente ao Brasil: por que tanta vontade de empreender resulta em tão pouca escala?
O que a França mudou
Segundo a reportagem, a França também cresceu em volume — foram 1.165.800 empresas abertas em 2025, 5% a mais que no ano anterior, ante menos de 320 mil por ano na década que antecedeu a crise de 2009[1]. A diferença é que o país organizou deliberadamente uma ponte entre o volume de pequenos negócios e a produção de empresas de escala global, apoiada em três pilares identificados por especialistas ouvidos pelo La Presse.
O primeiro é migratório: a França simplificou drasticamente o visto para talentos estrangeiros contratados por startups, dispensando exigências como diploma e concedendo permissão de residência de quatro anos — prazo após o qual o profissional já pode pleitear cidadania[1]. O segundo é o poder de compra do Estado: agências como a Paris&Co passaram a conectar startups a compradores públicos — dos hospitais parisienses à companhia ferroviária SNCF —, dando às empresas nascentes sua primeira prova de mercado[1]. O terceiro é a adesão do setor privado consolidado: grandes grupos, do clube de futebol Paris Saint-Germain a conglomerados como LVMH e L'Oréal, hoje financiam, hospedam e mentoram jovens empresas dentro do campus Station F, o maior incubador do mundo, fundado em 2017 pelo bilionário Xavier Niel[1].
Um cartaz colado na parede da Station F resume a ambição francesa: "Eu sou um unicórnio" ("licorne", no original em francês), com o desenho de um rinoceronte logo abaixo — do unicórnio frágil ao rinoceronte resistente.
Fonte: La Presse, reportagem de Alain McKenna e Martin Chamberland, Paris, 2026[1]
O resultado, segundo a reportagem, não é perfeito: o capital paciente ainda evita boa parte das empresas francesas e muitos microempreendedores — motoristas de aplicativo, entregadores — seguem sem escalar[1]. Mas a arquitetura institucional criou um caminho reconhecível entre abrir um negócio informal e construir uma companhia bilionária.
O Brasil já tentou as três receitas — pela metade
O interessante é que o Brasil não ignorou nenhuma dessas alavancas. Ele as criou, formalizou em lei e, em boa medida, deixou na gaveta.
Desde 2021 existe um visto de investidor específico para quem quer empreender em startups no país, o chamado Brazilian Startup Visa, administrado pelo Ministério das Relações Exteriores[2]. Diferentemente do modelo francês, porém, ele exige que o requerente estruture um plano de negócios nos moldes da Resolução Normativa 13/2017, com cronograma e indicadores que precisam ser comprovados na renovação — um processo mais próximo da burocracia migratória tradicional do que da via expressa parisiense[3].
O poder de compra do Estado também ganhou instrumento jurídico: a Lei Complementar 182/2021, o Marco Legal das Startups, criou o Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI) e autorizou sandboxes regulatórios — ambientes de teste com regras temporariamente flexibilizadas — justamente para que órgãos públicos comprem soluções de empresas nascentes sem os entraves da licitação tradicional[4][5]. Passados quatro anos, no entanto, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina apontam que poucos municípios ou estados de fato instituíram esses ambientes, num quadro de "aversão ao risco" da administração pública e receio de responsabilização caso o experimento não dê certo[5].
"O Direito está sempre a dois passos atrás da inovação" — e, no caso brasileiro, a inovação institucional também está a dois passos atrás da própria lei que a autorizou.
Já a aproximação entre grandes empresas e startups avança, mas de forma mais tímida que na França. Fundos de venture capital corporativo de bancos e varejistas brasileiros existem e apoiam rodadas de investimento, mas o mercado carece do tipo de infraestrutura física e institucional coletiva que a Station F oferece — um único endereço onde dezenas de grandes marcas mantêm escritório permanente ao lado de milhares de startups. O ecossistema brasileiro é mais disperso, dividido entre polos como São Paulo, Belo Horizonte, Florianópolis e Recife, sem um equivalente de escala comparável.
Volume recorde, unicórnios em queda
Os números explicam a urgência do tema. Segundo o levantamento "Corrida dos Unicórnios 2026", da plataforma de inovação Distrito, o Brasil concentra nove das doze startups latino-americanas com maior probabilidade de atingir avaliação de 1 bilhão de dólares nos próximos anos — a maioria em fintechs e SaaS B2B[6]. É uma liderança regional real. Mas o mesmo ecossistema que lidera a corrida também testemunhou uma retração severa: desde 2021, o número de novos unicórnios criados no país caiu mais de 90%, e em 2024 apenas uma empresa, a QI Tech, atingiu o status[7]. Some-se a isso que o México ultrapassou o Brasil em volume de capital captado por startups no segundo trimestre de 2025 pela primeira vez desde 2012[6] — um sinal de que a liderança regional brasileira não é garantida.
Na ponta oposta da pirâmide, a base do empreendedorismo brasileiro segue sendo majoritariamente informal ou de subsistência: das 5,1 milhões de empresas abertas em 2025, 3,8 milhões foram microempreendedores individuais, categoria criada para formalizar trabalhadores por conta própria com faturamento anual de até R$ 81 mil e no máximo um funcionário[8]. É a mesma dualidade que a reportagem do La Presse descreve na França entre startups tecnológicas e microempreendedores que, "em muitos casos, o demasiado permanecem" — motoristas e entregadores que adicionam pouco valor ao PIB[1].
O outro lado: burocracia não é só velocidade de CNPJ
Nem todos os especialistas atribuem o gargalo brasileiro à lentidão do registro empresarial. Levantamentos recentes mostram que abrir um CNPJ já leva, em média, entre 18 e 45 horas em boa parte do país graças à digitalização da Rede Nacional para a Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas (Redesim) — uma fração do que era há uma década[9]. Para essa leitura, o entrave real não está na abertura da empresa, mas depois dela: carga tributária sobre folha de pagamento, complexidade do sistema fiscal, custo do crédito de longo prazo e escassez de capital de risco em estágios iniciais. Reduzir apenas o tempo de registro, argumentam esses analistas, ataca um sintoma visível sem tocar nas causas estruturais que impedem pequenos negócios de escalar — um contraponto importante ao entusiasmo com vistos e sandboxes regulatórios isoladamente.
O que poderia avançar
Cruzando o modelo francês descrito pelo La Presse com o arcabouço legal que o Brasil já construiu, três frentes concretas se destacam para o próximo ciclo de política de inovação no país. Primeiro, dar uso efetivo ao CPSI e ao sandbox regulatório já previstos em lei desde 2021, com metas de adoção por parte de ministérios, estatais e prefeituras — hoje o instrumento existe no papel, mas carece de indução institucional. Segundo, simplificar o Brazilian Startup Visa nos moldes do modelo francês, substituindo a exigência de comprovação contínua de plano de negócios por um critério mais direto: comprovação de vínculo empregatício ou societário com uma startup formalmente registrada. Terceiro, estimular a concentração física e institucional de programas de inovação aberta corporativa — algo entre o modelo disperso atual e a lógica de "endereço único" da Station F —, aproveitando polos já consolidados como o Porto Digital, em Recife, ou os parques tecnológicos de Florianópolis e Campinas.
Nenhuma dessas medidas resolve, isoladamente, a equação de capital paciente e carga tributária que separa o microempreendedor do unicórnio. Mas indicam que o desafio brasileiro não é falta de vontade legislativa — o país já escreveu boa parte das leis que a França aplicou na prática. É a distância entre o texto da lei e sua execução no dia a dia da administração pública que ainda separa o Brasil de transformar sua vocação empreendedora recorde em rinocerontes, para usar a metáfora da Station F: animais resistentes, capazes de atravessar o vale entre a ideia e a escala.
Nota editorial: Este artigo foi inspirado na reportagem "Le secret du succès entrepreneurial français", publicada pelo jornal canadense La Presse, de autoria de Alain McKenna (texto) e Martin Chamberland (fotos), disponível em: lapresse.ca. As informações sobre o cenário brasileiro foram apuradas de forma independente junto a Sebrae, Distrito, Ministério das Relações Exteriores e outras fontes listadas nas referências ao lado.