Depois de meses avisando que o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz acabaria provocando uma crise de combustíveis, executivos do setor petrolífero americano agora dizem que ela chegou1. Os estoques comerciais de combustível vêm caindo havia mais de seis meses em várias partes do mundo, e as reservas estratégicas de petróleo já não têm muito fôlego para segurar o mercado. Ataques na semana passada atingiram um duto que escoava petróleo saudita sem passar por Ormuz, tirando do circuito cerca de 2,5 milhões de barris por dia num mercado que já operava no limite1.
O que mudou nas últimas semanas
Durante a conferência energética de Austin, no Texas, o presidente-executivo da Chevron, Mike Wirth, resumiu o problema: os mecanismos que vinham amortecendo o choque de preços e de oferta praticamente se esgotaram1. Sem eles, argumentou, o mercado ficou exposto a uma volatilidade que antes conseguia absorver.
O quadro é reforçado por números que se acumulam havia semanas. O petróleo americano subiu 19% em três semanas e passou a ser negociado perto de US$ 101 o barril, à medida que os ataques no Oriente Médio se multiplicam1. Nos Estados Unidos, o diesel bateu recorde a US$ 6,23 o galão, e a gasolina, que havia caído para menos de US$ 4 no meio do ano, voltou a US$ 4,321. Petroleiros seguem sendo alvo de ataques ao tentar cruzar o estreito, e milícias houthis atingiram recentemente um duto saudita que ligava o campo de Abqaiq ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho1.
Washington aposta na palavra "temporário"
A Casa Branca mantém o discurso de que a disrupção é passageira. O secretário do Interior, Doug Burgum, chegou a pedir à imprensa, num evento do G-20 em Houston, que qualquer texto sobre o tema incluísse a palavra "temporário"1. A estratégia da administração Trump se apoia em duas alavancas: acelerar acordos que aumentem a produção venezuelana e reforçar a capacidade de refino doméstica nos Estados Unidos1.
Nem tudo, porém, é alinhamento entre governo e setor privado. Wirth afirmou não falar diretamente com o presidente Trump desde 3 de agosto, quando este cobrou publicamente das petroleiras uma redução imediata nos preços ao consumidor1. Analistas de energia relatam apreensão crescente com a escalada do conflito, incluindo ataques a embarcações e a infraestrutura energética dos dois lados1. Já em março, os presidentes-executivos de ExxonMobil, Chevron e ConocoPhillips haviam alertado autoridades americanas de que o fechamento prolongado do estreito poderia gerar falta de derivados como o diesel1.
A China muda de postura
Parte da pressão adicional sobre o mercado global vem da China. Durante meses, o maior importador mundial de petróleo vinha usando seus próprios estoques para cobrir quase metade do consumo diário, o que aliviava a demanda por importações. Nas últimas semanas, no entanto, o país voltou a fazer compras maiores de fornecedores internacionais, segundo analistas ouvidos pelo Wall Street Journal1, retirando do mercado global uma folga que vinha ajudando a conter os preços.
O Brasil já sente o efeito, e não é só no preço da bomba
O ângulo americano tem um espelho recente e bastante concreto no Brasil. Nesta segunda-feira (14), a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) formalizou um ofício à Agência Nacional do Petróleo (ANP) relatando atrasos e restrições na entrega de diesel a produtores rurais, justamente no início do plantio da safra de verão4. Meses antes, em março, a mesma entidade já havia alertado que a falta do combustível ameaçava interromper a colheita de arroz no estado, com o litro chegando a ser cotado a R$ 10 no mercado paralelo4.
O gargalo tem uma origem estrutural. O Brasil precisa importar cerca de 30% do diesel que consome, e a defasagem entre o preço doméstico praticado pela Petrobras e a referência internacional desestimula a chegada de combustível importado5. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a entrega prevista de diesel importado para outubro deve cair para 150 mil metros cúbicos, ante cerca de 850 mil metros cúbicos registrados em setembro, justamente no período de maior demanda por causa da safra5.
A Petrobras, que abandonou em 2023 a política de paridade de preços com o mercado internacional, vem tentando não repassar integralmente a alta externa ao consumidor. Ainda assim, já promoveu reajustes de dois dígitos no diesel neste ano, e analistas do setor avaliam que dificilmente o petróleo volta ao patamar anterior à guerra, quanto mais aos US$ 50 projetados para 2026 antes do conflito2.
No campo fiscal, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda já revisou para cima sua projeção de IPCA para 2026, de 3,6% para 3,7%, atribuindo o ajuste principalmente ao custo mais alto dos combustíveis3. A própria pasta estima que cada alta de 1% no preço do petróleo pressiona a inflação em cerca de 0,02 ponto percentual, sobretudo via combustíveis3. Casas como a ASA Investments já trabalham com um IPCA de 4,1% para o ano, justamente por não acreditarem que medidas como a desoneração de PIS/Cofins sobre o diesel sejam suficientes para neutralizar a defasagem acumulada3.
Contraponto
Nem todos os sinais apontam para desabastecimento generalizado. Após os relatos da Farsul, tanto o Ministério de Minas e Energia quanto a própria ANP responderam de forma categórica que não há problema de fornecimento no país, classificando o quadro como pontual e regional4. Também vale lembrar que o Brasil tem uma matriz de combustíveis mais diversificada do que a americana, com a mistura obrigatória de etanol e biodiesel funcionando como um amortecedor parcial que os Estados Unidos não possuem na mesma escala. A discrepância entre o discurso oficial e os relatos de produtores, no entanto, é justamente o que motivou o setor agrícola a acionar o Ministério Público para apurar o que está de fato ocorrendo na ponta da distribuição4.
O que observar daqui para frente
Trump afirmou esperar que o conflito se estenda até as eleições de meio de mandato de novembro, mas investidores ouvidos pelo Wall Street Journal acreditam que a guerra deve durar bem além disso1. Enquanto isso, a oferta de diesel segue restrita por paradas de refinarias no Oriente Médio e na Rússia, num momento em que a demanda tende a subir tanto nos Estados Unidos, pela colheita, quanto no Brasil, pela safra de verão1. Para o consumidor brasileiro, a pergunta não é mais se o choque externo vai chegar, mas em que ritmo a Petrobras, o governo e o próprio clima político em ano eleitoral vão decidir repassá-lo.
Perguntas frequentes
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Glossário
- Estreito de Ormuz
- Passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Mar da Arábia por onde transita cerca de um quinto do petróleo negociado no mundo.
- Paridade de importação (PPI)
- Política de preços que alinha os valores domésticos de combustíveis às cotações internacionais.
- Defasagem
- Diferença entre o preço praticado no mercado interno e a referência internacional do combustível.
- Abicom
- Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, que monitora fretes e volumes de diesel importado.
Referências
- Morenne, B.; Eaton, C. "Oil Executives Say the Great Fuel Crisis Is Here". The Wall Street Journal, 14 set. 2026. Acesse a reportagem original.
- Fecombustíveis. "Guerra no Oriente Médio põe em xeque política de preços da Petrobras".
- Ministério da Fazenda / Secretaria de Política Econômica, via Agência Brasil e ASA Investimentos.
- Farsul (Federação da Agricultura do RS), via Agrolink e Times Brasil.
- Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), via Brasil em Folhas.