Caderno Profissões · Economia dos criadores
A promessa é conhecida: basta um celular, uma ideia e alguma constância para transformar um hobby em carreira. A realidade descrita pelo Financial Times é menos linear. Por trás das fortunas de nomes como MrBeast existe uma cauda longa de criadores e influenciadores que trabalham sem estrutura, sem previsibilidade e à mercê de algoritmos que mudam sem aviso. Agentes ouvidos pelo jornal britânico afirmam que o grau de dificuldade dessa carreira continua sendo subestimado por quem entra nela.
A tensão é central para entender o mercado de trabalho de 2026. Criar conteúdo deixou de ser atividade marginal e passou a ser uma ocupação com reconhecimento legal no Brasil, mercado bilionário no mundo e cadeia própria de agências, plataformas e ferramentas. Ao mesmo tempo, a maior parte das pessoas que exercem essa ocupação não consegue viver apenas dela.
Um mercado grande, uma renda concentrada
O tamanho do setor não está em discussão. Em relatório de 2023, a Goldman Sachs Research estimou que o mercado endereçável da economia dos criadores poderia praticamente dobrar, de US$ 250 bilhões para cerca de US$ 480 bilhões em 2027, puxado por marketing de influência e pela monetização de vídeos curtos. O mesmo estudo indicava que os acordos com marcas respondiam por cerca de 70% da receita dos criadores.2
A distribuição desse dinheiro, porém, segue uma lógica de concentração extrema. Levantamento da CreatorIQ divulgado no Brasil pelo ABC da Comunicação mostra que 10% dos influenciadores ficaram com 62% de todos os pagamentos feitos pela plataforma em 2025. A média por campanha ficou em US$ 11,4 mil, mas a mediana não passou de US$ 3 mil, uma diferença que revela o peso de poucos contratos muito grandes. Apenas 11% dos criadores pesquisados chegaram a uma renda anual de seis dígitos em dólares.3
Nos Estados Unidos, o relatório da NeoReach citado pelo Monitor Mercantil aponta que 50,71% dos criadores ganham menos de US$ 15 mil por ano, patamar usado como referência para o salário mínimo anual norte-americano. Em 2023, a fatia era de 48,10%. O mercado cresceu, e a proporção de quem fica abaixo da linha de subsistência também.4
O trabalho invisível por trás do vídeo
O Financial Times reúne depoimentos que ajudam a entender por que a carreira parece mais fácil de fora. Lucy Edwards, criadora britânica que é cega, começou a publicar no TikTok durante a pandemia, quando estava sem trabalho como jornalista. Um vídeo em que fazia a própria maquiagem passou de 20 milhões de visualizações e levou seu perfil a mais de um milhão de seguidores. Ao jornal, ela descreve uma rotina sem desligamento real, com gravações nos fins de semana e mudanças rápidas de plano quando uma marca paga para ser prioridade. E alerta que, sem diversificar, nem o vínculo com a audiência garante sustentação.1
Romany Henry, que publica receitas inspiradas em sua herança asiática para cerca de 460 mil seguidores no Instagram, relatou ao FT um cansaço permanente com o acúmulo de funções: desenvolver a receita, filmar, editar e falar para a câmera. Ela se afastou da produção de conteúdo e foi trabalhar em cozinhas profissionais para recuperar o prazer de cozinhar.1
O criador iniciante é, ao mesmo tempo, roteirista, cinegrafista, editor, apresentador, vendedor e departamento financeiro de si mesmo. Síntese editorial de O Tecido
Oren Rosenbaum, codiretor da divisão de criadores da agência UTA, resume ao jornal a outra camada do problema: as fronteiras entre formatos desapareceram. Podcasters produzem para o YouTube, youtubers lançam podcasts e todos precisam estar no TikTok e no Instagram. Para ele, muita gente ainda trata a atividade como algo que qualquer um consegue fazer, quando se trata de um trabalho muito exigente.1
Os números confirmam o relato. Pesquisa da agência Billion Dollar Boy com mil criadores nos Estados Unidos e no Reino Unido, publicada em julho de 2025, concluiu que 52% já tiveram burnout em decorrência da carreira e que 37% consideraram abandonar a atividade. Entre os que passaram pelo esgotamento, a instabilidade financeira foi apontada como a causa mais grave por 55%.5
A reportagem britânica acrescenta dois fatores de pressão. Criadoras relatam exposição frequente a abuso online. E cresce a presença de influenciadores gerados por inteligência artificial, avatares digitais que disputam a mesma atenção e os mesmos orçamentos publicitários.1
Nicho como estratégia, não como detalhe
Se há uma regularidade entre os casos que prosperam, é a especialização. O FT cita Levy Rozman, o GothamChess, que construiu audiência de cerca de 8 milhões de inscritos no YouTube e 2 milhões de seguidores no Instagram com análises e dicas de xadrez. O argumento dele é simples: numa economia da atenção, é preciso haver algo que diferencie o criador dos demais.1
A lógica do nicho tem uma consequência econômica pouco discutida. Audiências menores e mais qualificadas tendem a ser mais valiosas para marcas específicas do que grandes públicos genéricos, e permitem fontes de receita que não dependem do algoritmo, como cursos, assinaturas, produtos próprios e comunidades pagas. É a diferença entre alugar a atenção de uma plataforma e ser dono de um ativo.
O retrato brasileiro
Contar quantos criadores existem no Brasil depende de onde se põe a régua. A Nielsen, em levantamento amplamente citado, estimou mais de 500 mil influenciadores com mais de 10 mil seguidores. A Influency.me, segundo o Meio & Mensagem, contabilizou 2 milhões de influenciadores em março de 2025, alta de 67% em um ano. Dados da Wake Creators, reportados pelo O Povo, falam em mais de 14 milhões de criadores de conteúdo digital. As três cifras medem coisas diferentes, e a distância entre elas é, em si, um indicador de quanto a atividade ainda é difusa.6,7
O que as pesquisas brasileiras têm em comum é o diagnóstico sobre renda. O Censo dos Criadores de Conteúdo 2025, com mais de 4.500 participantes, indica que apenas 9% dos influenciadores do país têm na criação de conteúdo sua principal fonte de renda, e que 83% têm até 100 mil seguidores. O Sudeste concentra 56% dos criadores.6
A 5ª edição da pesquisa Creators e Negócios, da YOUPIX com a Brunch, detalhada pelo Mundo do Marketing, mostra que 50,68% dos criadores ganham até R$ 5 mil por mês e só 6% passam de R$ 20 mil. A proporção dos que viviam exclusivamente de conteúdo caiu de 37,8% em 2023 para 32,52% em 2024. Quase um quarto combina a produção com um emprego fixo, seja com carteira assinada ou como pessoa jurídica.8
Mesmo no topo, a conversão de audiência em receita não é automática. O estudo da Favikon com a People2Biz, segundo o portal Startups, analisou os 200 maiores criadores do país e encontrou evidências de monetização em apenas 22% deles em 2025. O caminho apontado pelo levantamento combina vídeos curtos, vídeos longos e presença em várias plataformas, o mesmo diagnóstico que agentes britânicos fazem ao FT.9
O que muda com a Lei 15.325/2026
Em 6 de janeiro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.325, conhecida como "lei dos influenciadores". O texto, originado do PL 4.816/2023, reconhece o profissional de multimídia como trabalhador multifuncional apto a atuar em criação, produção, captação, edição, gestão e distribuição de conteúdos digitais, segundo reportagem do Estadão reproduzida pelo Mercado&Consumo.10
Na prática, a lei funciona mais como reconhecimento do que como barreira. Embora o texto mencione formação de nível superior ou técnico, especialistas ouvidos pelo Canaltech afirmam que não há exigência de diploma, licença ou registro em conselho para quem já atua, nem sanção para quem trabalha de maneira informal. O ganho esperado está na segurança jurídica das relações com marcas e agências e na identificação clara de conteúdo patrocinado, algo que o Código de Defesa do Consumidor já exigia.10
A lei não resolve, contudo, o ponto central levantado pelo FT: a instabilidade de renda. Ela não cria piso remuneratório, não altera a dependência de plataformas e não trata de saúde mental. Gustavo Kloh, professor da FGV Direito Rio, avaliou ao Estadão que o texto é um primeiro passo e que o ecossistema ainda vai precisar de mais regulamentação.10
O que separa um perfil de uma carreira
Cruzando a reportagem do FT com as pesquisas brasileiras, quatro elementos aparecem de forma recorrente entre os criadores que conseguem sustentar a atividade no tempo. O primeiro é a especialização em um tema com audiência definida. O segundo é a diversificação de receitas, para que a renda não dependa de um único contrato de marca ou de uma única plataforma. O terceiro é a formalização, com contratos, emissão de notas e, agora, o enquadramento oferecido pela nova lei. O quarto, menos óbvio, é a gestão do próprio desgaste, que inclui delegar produção e edição assim que a receita permite.
Nenhum desses elementos é glamoroso. São, essencialmente, práticas de gestão de pequeno negócio aplicadas a uma ocupação que o público ainda enxerga como talento espontâneo. É nessa distância entre a percepção e a operação que, segundo os agentes ouvidos pelo Financial Times, mora a maior parte das frustrações.
Perguntas frequentes
Quantos criadores de conteúdo existem no Brasil?
Depende do critério. A Nielsen estimou mais de 500 mil influenciadores com mais de 10 mil seguidores; a Influency.me contou 2 milhões em março de 2025; a Wake Creators fala em mais de 14 milhões de criadores de conteúdo digital. As diferenças refletem metodologias e definições distintas.
Quanto ganha um influenciador digital no Brasil?
Segundo a 5ª edição da pesquisa Creators e Negócios, da YOUPIX com a Brunch, 50,68% dos criadores ganham até R$ 5 mil por mês e apenas 6% superam R$ 20 mil. O Censo dos Criadores de Conteúdo 2025 indica que só 9% têm a criação de conteúdo como principal fonte de renda.
A profissão de influenciador é regulamentada no Brasil?
A Lei nº 15.325, sancionada em 6 de janeiro de 2026, reconhece o profissional de multimídia, categoria que abrange influenciadores e criadores de conteúdo. A lei não exige diploma, licença nem registro em conselho para o exercício da atividade e reforça a obrigação de identificar conteúdo patrocinado.
Quais são os principais riscos da carreira de criador de conteúdo?
Instabilidade financeira, dependência de algoritmos e de contratos com marcas, jornadas sem limite claro, burnout (relatado por 52% dos criadores em pesquisa da Billion Dollar Boy de 2025), abuso online e a concorrência crescente de influenciadores gerados por inteligência artificial.
Como construir uma carreira sustentável como criador?
As pesquisas e os agentes do setor apontam para especialização em um nicho, diversificação de fontes de receita e de plataformas, formalização de contratos e criação de ativos próprios, como produtos, cursos ou comunidades, que reduzam a dependência de algoritmos.
Ewerton Lopes — Curador Editorial