Economia
O Tecido · Caderno Economia · Análise internacional com contexto brasileiro · 13 de setembro de 2026

Quando a dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou os US$ 40 trilhões e a fatia detida pelo público cruzou 100% do PIB, o governo Trump precisava de uma narrativa que não envolvesse cortes de gastos nem aumento de impostos. Encontrou uma: crescer mais rápido do que a dívida cresce.1 O secretário do Tesouro, Scott Bessent, tem repetido a fórmula em discursos e entrevistas. Com uma economia expandindo 3% ao ano, segundo ele, os Estados Unidos "crescem para sair" do buraco fiscal sem precisar tocar em Previdência, Medicare ou nas contas mais sensíveis do orçamento.1

A ideia tem uma lógica matemática legítima por trás. Se a economia se expande mais depressa do que a dívida se acumula, a relação dívida/PIB cai mesmo com o estoque nominal da dívida subindo. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos entre 1995 e 2001, quando ganhos de produtividade ligados à informatização das empresas e a entrada de uma geração inteira de baby boomers no mercado de trabalho ajudaram a derrubar a dívida de 48% para 32% do PIB.1

O problema é que esse cenário não se repete por decreto. O modelo orçamentário da Universidade da Pensilvânia (Penn Wharton Budget Model) calcula que seria necessário um crescimento médio entre 3,5% e 4% ao ano, sustentado por uma década inteira, para estabilizar a relação dívida/PIB americana.1 Nos últimos vinte anos, a economia dos Estados Unidos só cresceu 3% ou mais em cinco ocasiões. Durante o atual governo Trump, a taxa média tem ficado em 1,9% ao ano.1

O que mudou desde os anos 1990

A comparação com a década de 1990 expõe o tamanho do desafio. Segundo o Congressional Budget Office (CBO, o órgão orçamentário do Congresso americano), a população entre 25 e 64 anos deve crescer apenas 0,3% ao ano na próxima década, uma fração do ritmo de 1,1% ao ano registrado nos anos 1990.1 Como mão de obra é um dos motores centrais do crescimento econômico, o envelhecimento populacional impõe um teto estrutural que a política fiscal, sozinha, não remove.

Há também o outro lado da equação: mesmo um cenário mais otimista de produtividade, somando meio ponto percentual ao crescimento anual projetado pelo CBO, levaria a economia a 2,4% ao ano, patamar ainda distante da meta de 3% de Bessent. E mesmo esse ganho tem custo. Salários mais altos elevam os benefícios devidos pela Previdência americana, e taxas de juros mais altas, subproduto natural de uma economia mais aquecida, encarecem o próprio serviço da dívida, consumindo mais de um terço da receita adicional gerada pelo crescimento, segundo simulações do próprio CBO.1

"Você precisa de uma combinação de legislação e sorte no crescimento para manter a dívida sob controle, e agora não temos nenhum dos dois." Don Schneider, ex-assessor da bancada republicana na Câmara dos EUA, hoje na gestora Piper Sandler1

A inteligência artificial como aposta de produtividade

Parte do otimismo da Casa Branca se apoia na expectativa de que a inteligência artificial generativa produza um salto de produtividade comparável ao da informatização nos anos 1990. Uma simulação do Yale Budget Lab, construída a partir de uma pesquisa com economistas sobre os efeitos da IA em tarefas complexas de escritório até 2030, projeta crescimento acima de 2% e redução dos déficits orçamentários, mas ainda assim com a relação dívida/PIB subindo até 2035.1

O próprio ganho de produtividade tem um efeito colateral pouco discutido nos discursos oficiais. Retornos esperados de investimento mais altos aumentam a demanda por crédito, o que pressiona os juros para cima, exatamente o tipo de movimento que encarece o refinanciamento de uma dívida de US$ 40 trilhões.1 Se os ganhos de produtividade beneficiarem majoritariamente o capital e não o trabalho, a arrecadação tende a crescer menos, já que a renda de capital é tributada a alíquotas mais baixas nos Estados Unidos. E se a automação deslocar parte da força de trabalho, o desemprego mais alto pressiona o gasto público em outra direção.1

Contraponto

Nem todos os economistas veem a aposta no crescimento como ingenuidade. Defensores da linha de Bessent argumentam que cortes de gastos em Previdência e Medicare, os itens que mais pesam no déficit de longo prazo segundo o professor de finanças Joshua Rauh, de Stanford,1 são politicamente inviáveis nos Estados Unidos de qualquer administração, o que torna o crescimento a única alavanca disponível no curto prazo, mesmo que insuficiente sozinha.

Já economistas mais céticos, como Dean Baker, do Center for Economic and Policy Research, lembram que a promessa de "crescimento que paga a conta" acompanhou cortes de impostos de Reagan a Bush e ao primeiro mandato de Trump, sem que a aceleração prometida se confirmasse na magnitude necessária.1

O espelho brasileiro: crescer também é a aposta por aqui

O dilema americano tem uma versão brasileira, com números diferentes mas a mesma mecânica de fundo. Pelo critério do Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) fechou em torno de 81% do PIB em meados de 2026, com o estoque nominal já ultrapassando R$ 10,8 trilhões.6 Pela metodologia mais ampla do Fundo Monetário Internacional, que soma critérios adicionais, a dívida bruta brasileira deve chegar a 96,5% do PIB neste ano e cruzar a marca de 100% já em 2027.7

O custo desse endividamento também pesa. O Brasil pagou mais de R$ 1 trilhão em juros da dívida pública em 12 meses, o equivalente a cerca de 8% do PIB, segundo dados recentes do Banco Central.6 A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico ligado ao Senado, projeta déficit primário federal negativo para 2026 e aponta que o crescimento das despesas obrigatórias limita o espaço do governo para investir, reforçando a necessidade de um ajuste fiscal estrutural, não apenas de crescimento.8

Um estudo legislativo apresentado à Câmara dos Deputados calculou, com base em dados de 172 países, o nível de dívida que cada economia consegue sustentar sem risco elevado. Para países emergentes, o limite estimado é de 76% do PIB; para o Brasil especificamente, considerando fatores como taxa de juros, crescimento e carga tributária, o teto calculado ficou em 103,3% do PIB em 2024.9 Isto é, mesmo pela métrica mais permissiva do Banco Central, o país já opera perto do limite recomendado, e pela métrica do FMI está prestes a ultrapassá-lo.

A diferença central em relação ao caso americano é o custo do dinheiro. Enquanto os Estados Unidos financiam sua dívida a taxas historicamente baixas por conta do papel do dólar como reserva global, o Brasil paga um custo médio de dívida próximo de 12% ao ano, com a Selic em patamar restritivo.9 Isso significa que a mecânica descrita pelo FMI, e citada por economistas brasileiros, se aplica com mais força por aqui: quando o juro real supera o crescimento do PIB, a relação dívida/PIB tende a subir, a menos que o governo gere superávit primário suficiente para compensar a diferença.9 Crescer ajuda, mas sem ajuste fiscal a aritmética brasileira é ainda menos favorável do que a americana.

O que fica da comparação

Tanto em Washington quanto em Brasília, o crescimento é apresentado como a saída menos dolorosa para o problema fiscal, a que não exige escolhas impopulares sobre impostos ou benefícios sociais. Os números dos dois países sugerem, no entanto, que crescimento e ajuste fiscal não são substitutos um do outro. São, na melhor hipótese, complementares, e mesmo essa combinação não garante uma trajetória de queda automática da dívida, especialmente em economias que envelhecem e onde o custo do crédito segue elevado.

Esta análise usa como referência principal a reportagem "Bessent Says the U.S. Can Grow Its Way Out of the Debt Crunch. What Would It Take?", de Richard Rubin e Justin Lahart, publicada pelo Wall Street Journal em 13 de setembro de 2026. Leia a reportagem original: wsj.com/economy/federal-debt-growth-solution-c2868517.
Um país pode mesmo crescer para sair de uma dívida alta?

Sim, é matematicamente possível: se o PIB cresce mais rápido do que a dívida, a relação dívida/PIB cai mesmo com o estoque nominal da dívida aumentando. Isso ocorreu nos Estados Unidos entre 1995 e 2001. O desafio é que taxas de crescimento sustentadas e altas dependem de fatores estruturais, como crescimento da força de trabalho e ganhos de produtividade, que não são criados por decisão política imediata.

Qual é a meta de crescimento defendida por Scott Bessent para os Estados Unidos?

O secretário do Tesouro americano defende uma expansão de 3% ao ano, impulsionada pela infraestrutura de inteligência artificial, pela reindustrialização e por cortes de impostos ao consumidor. Modelos independentes, como o Penn Wharton Budget Model, apontam que seria necessário algo entre 3,5% e 4% ao ano por uma década para de fato estabilizar a dívida.

Qual é o tamanho da dívida pública brasileira em relação ao PIB?

Pelo critério do Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral estava em torno de 81% do PIB em meados de 2026. Pela metodologia mais ampla do FMI, a projeção é de 96,5% do PIB para 2026 e de superar 100% em 2027.

A inteligência artificial pode resolver o problema fiscal americano?

Simulações como a do Yale Budget Lab indicam que a adoção acelerada de IA poderia elevar o crescimento acima de 2% e reduzir déficits, mas mesmo nesse cenário a relação dívida/PIB continuaria subindo até 2035. Ganhos de produtividade também tendem a elevar os juros e podem gerar disrupções no mercado de trabalho, o que exigiria resposta do governo.

Nota de verificação editorial (uso interno, não publicar): confirmar antes da publicação a data mais recente disponível da série de Dívida Bruta do Governo Geral do Banco Central, já que os dados citados variam por mês de referência (fevereiro a junho de 2026) nas fontes consultadas. Confirmar também se a Selic e o custo médio da dívida citados (em torno de 12% a.a. e 13,75% ao fim de 2026) seguem atualizados na data de publicação.