Caderno Economia · Crédito & Mercados

Enquanto os maiores gestores de crédito privado do mundo repetem que "está tudo sob controle", os próprios números que eles divulgam trimestralmente contam outra história. Um levantamento do Wall Street Journal com dados de fundos ligados a Ares Management, Blackstone, Blue Owl Capital e Golub Capital mostrou que a inadimplência dos empréstimos concedidos por essas gestoras atingiu o nível mais alto desde pelo menos 20211. O que está em jogo não é um detalhe técnico de Wall Street: private credit já movimenta algo entre US$ 1,8 trilhão e US$ 2 trilhões globalmente, segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI)2,3, e sua expansão tem um espelho direto no Brasil, onde os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) também vivem um ciclo de crescimento acelerado sob juros elevados.

O que os balanços mostram

Os quatro fundos analisados pelo WSJ negociam ações em bolsa, o que os obriga a divulgar regularmente a saúde de suas carteiras aos acionistas. Segundo a reportagem, o percentual de empréstimos em não pagamento (nonaccrual) no fundo da Blue Owl chegou a 2,8% no segundo trimestre de 2026, o maior patamar em pelo menos cinco anos1. Os outros três fundos também bateram máximas do período, superando inclusive os níveis observados em 2023, quando o aumento dos juros pelo Federal Reserve apertou as finanças de empresas endividadas1.

Além dos calotes já registrados, as chamadas "watchlists" — listas internas de empresas tomadoras sob observação por sinais de deterioração — também cresceram. Nos fundos ligados a Ares, Golub e KKR, essas listas atingiram o maior tamanho desde o ciclo de 2022–20231. É um indicador adiantado: mais nomes em observação hoje tende a significar mais calotes reconhecidos amanhã.

Os problemas de crédito, até agora, se concentram em setores específicos: empresas de saúde, como a prestadora de serviços odontológicos Affordable Care, e negócios pressionados pela alta do petróleo, caso da fabricante de filmes plásticos Loparex1. A preocupação de analistas é que a deterioração se espalhe para empresas de software, que representam 20% ou mais das carteiras de vários desses fundos e enfrentam incerteza sobre o próprio modelo de negócio diante da disrupção causada pela inteligência artificial1.

"Estamos claramente em um ciclo de crédito. Não é um ciclo particularmente ruim, mas haverá vencedores e perdedores." David Golub, co-CEO da Golub Capital, em declaração citada pelo Wall Street Journal

A frase resume o tom que a indústria tenta adotar: reconhecer que existe um ciclo de crédito em curso, sem alarmismo, mas também sem a negação total que alguns concorrentes vinham praticando publicamente. O co-CEO da Blue Owl, Marc Lipschultz, por exemplo, afirmou em teleconferência com analistas que a saúde de crédito do portfólio "permanece forte" e que não houve mudança relevante na watchlist da empresa em relação ao ano anterior — um discurso que, segundo o WSJ, destoa dos números publicados pelos concorrentes1.

Por que os retornos também encolheram

Historicamente, fundos de crédito privado prometiam retornos anuais de 10% ou mais, um dos principais argumentos usados para atrair capital de investidores pessoa física nos Estados Unidos. Hoje, mesmo os fundos mais sólidos têm dificuldade para entregar 7% ao ano, e um fundo ligado à KKR registrou perda de 6,55% nos doze meses até junho de 20261. Entre as causas apontadas está a desaceleração das operações de private equity que alimentam a originação de novos empréstimos, a necessidade de reduzir o valor contábil de ativos que seguem pagando juros mas perderam valor de mercado, e a própria queda das taxas de juros de referência, que reduz a receita dos fundos sobre o capital já emprestado1.

As ações dos gestores de crédito privado negociadas em bolsa começaram a se recuperar de fortes quedas registradas desde o ano passado, mas a recuperação é modesta e parece refletir a leitura otimista divulgada pelos próprios executivos — uma leitura que os dados de inadimplência, por ora, não confirmam integralmente1.

Um risco sistêmico? O que dizem os organismos internacionais

O FMI já havia sinalizado o tema no seu Relatório de Estabilidade Financeira Global: o risco sistêmico do crédito privado é, por ora, considerado contido, mas o Fundo recomenda vigilância caso mais fundos comecem a liquidar posições simultaneamente, o que poderia amplificar outros choques financeiros2. Em nota anterior, o próprio FMI já alertava que a opacidade do setor — com avaliações de ativos pouco frequentes e camadas ocultas de alavancagem entre fundos, cotistas e tomadores — dificulta mapear com precisão onde os riscos estão concentrados3.

Analistas do banco holandês ING também avaliam que os eventos recentes não configuram, isoladamente, um risco sistêmico, mas descrevem um processo de ajuste distinto do observado nos anos de expansão anterior, marcado sobretudo por pressão de resgates em fundos que investem em ativos pouco líquidos4.

Contraponto

Nem todo o mercado concorda que o momento pede alarme. Executivos da Blue Owl e da Blackstone sustentam publicamente que a narrativa de crise é exagerada e que seus portfólios seguem saudáveis, apontando que o patamar atual de inadimplência ainda está abaixo de crises anteriores, como a pandemia de Covid-19 ou o colapso do petróleo em 20151. Para essa leitura, o aumento de defaults reflete simplesmente a maturação natural de um mercado que cresceu muito rápido nos últimos anos, e não um sinal de fragilidade estrutural. Analistas do ING reforçam esse ponto ao classificar o momento como um "ajuste em curso" e não um colapso4, enquanto o próprio FMI reconhece que a exposição agregada dos bancos regulados ao crédito privado permanece limitada3.

O espelho brasileiro: FIDCs em expansão sob juros altos

O paralelo brasileiro mais próximo do private credit americano é o mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios. Segundo a Anbima, o patrimônio líquido dos FIDCs avançou 22,5% em 2025, somando R$ 741,1 bilhões, com o número de cotistas mais que dobrando no período5. Só no primeiro semestre de 2026, a captação líquida da categoria somou R$ 30,6 bilhões6. É um crescimento que ocorre, como no mercado americano, em um ambiente de juros elevados: a mediana de projeções do Boletim Focus para a Selic subiu ao longo do ciclo recente, com o mercado chegando a precificar uma taxa básica de até 15% ao ano em determinados momentos de 20267.

O paralelo com os EUA não é só de crescimento, mas também de risco. A inadimplência do Sistema Financeiro Nacional brasileiro subiu de 4,05% em novembro de 2025 para 4,44% em fevereiro de 2026, atingindo pessoas físicas, pequenas empresas e grandes companhias7. Relatórios de instituições financeiras já apontam abertura de spreads concentrada em setores mais vulneráveis, como saneamento e saúde — justamente os segmentos que, no mercado americano, também lideram a lista de calotes1,7.

O alerta que o mercado brasileiro já vive de perto

O crescimento acelerado dos FIDCs também levantou sinais de atenção específicos do Brasil. Reportagem da Forbes Brasil aponta que a mesma expansão recorde de captação em 2026 acendeu um alerta entre reguladores e gestores para o risco de fraudes e inadimplência dentro da estrutura desses fundos, que compram recebíveis de empresas antecipando capital de giro6. O episódio do caso Americanas, em 2023, segue como referência de como falhas contábeis em uma única companhia podem elevar de forma abrupta o prêmio de risco cobrado de todo um mercado de crédito privado, algo que analistas locais citam como pano de fundo para a maior seletividade observada em 20268.

Esta reportagem foi produzida a partir de análise original conduzida pelo Wall Street Journal, publicada em 9 de agosto de 2026, com reportagem de Matt Wirz. O artigo original, com acesso mediante assinatura, pode ser consultado em: wsj.com — "Private Credit Is Under Growing Strain, Despite Industry's Upbeat Tone". O conteúdo original não foi traduzido nem reproduzido integralmente; os dados citados foram verificados e complementados com fontes adicionais listadas na seção de referências.

Perguntas frequentes sobre crédito privado

O que é crédito privado (private credit)?

É a modalidade de empréstimo feita por fundos de investimento diretamente a empresas, fora do sistema bancário tradicional, geralmente para companhias de médio porte ou com endividamento elevado. No Brasil, o equivalente mais próximo são os FIDCs e as operações de dívida estruturada.

A alta de defaults no crédito privado americano indica uma crise sistêmica?

Até o momento, não segundo a maioria dos analistas e do FMI. Os níveis de inadimplência subiram para máximas de cinco anos, mas ainda ficam abaixo de crises anteriores, como a pandemia de Covid-19. O FMI classifica o risco sistêmico atual como contido, mas recomenda monitoramento contínuo.

Isso afeta o investidor brasileiro?

De forma indireta. O mercado brasileiro de crédito privado, sobretudo os FIDCs, passa por dinâmica semelhante: crescimento acelerado, juros elevados e maior seletividade de risco. Investidores expostos a fundos de crédito privado, no Brasil ou no exterior, devem observar a qualidade dos ativos-lastro e a governança das estruturas.

Quais setores concentram os calotes hoje?

Nos EUA, saúde e empresas afetadas pela alta do petróleo lideram os casos recentes, com atenção redobrada ao setor de software por sua exposição à disrupção da inteligência artificial. No Brasil, relatórios do mercado apontam maior pressão sobre saneamento e saúde.