Economia · Mercado de Crédito
Levantamento da Financial Times mostra que o volume de empréstimos problemáticos nas maiores gestoras de crédito privado dos Estados Unidos voltou aos patamares de 2017, enquanto dados da Fitch Ratings confirmam recorde histórico de calotes no setor em 2026.
O mercado global de crédito privado, que em pouco mais de uma década se transformou em um dos pilares do financiamento corporativo fora dos bancos tradicionais, enfrenta agora o teste mais severo desde a crise do petróleo de 2017. Uma análise da Financial Times com base em dados da provedora Solve mostrou que os empréstimos classificados como "non-accrual" (quando o tomador deixou de pagar ou a gestora acredita que o calote é iminente) pelas 20 maiores Business Development Companies (BDCs) negociadas em bolsa atingiram uma mediana de 2,8% do custo das carteiras no segundo trimestre de 2026, ante 2% ao final de março1.
David Golub, copresidente da Golub Capital, uma das maiores gestoras do setor, resumiu o momento a investidores no início de agosto: segundo ele, o mercado atravessa um "ciclo de crédito" e a negação generalizada sobre o problema já não se sustenta1. A fala ecoa um conjunto crescente de sinais que colocam em xeque a narrativa de baixo risco que sustentou a expansão do setor, hoje avaliado em cerca de US$ 2 trilhões.
O que os números mostram
Os dados divulgados pela Fitch Ratings no fim de julho confirmam a tendência apontada pela reportagem britânica. A taxa de calotes entre os cerca de 1.300 tomadores de crédito privado acompanhados pela agência nos Estados Unidos chegou a 6% em base anual até o segundo trimestre de 2026, um novo recorde na série histórica e acima dos 5,7% registrados no trimestre anterior2. No total, a agência identificou 32 eventos de default no período, envolvendo 20 novos devedores inadimplentes, elevando o total acumulado a 84 casos.
O índice elaborado pelo escritório Proskauer, que monitora 697 empréstimos privados somando US$ 189,2 bilhões, apontou uma taxa de default de 2,73% já no primeiro trimestre do ano, em trajetória de alta3. Segundo a Moody's, cerca de 65% dos defaults do setor em 2025 foram, na verdade, reestruturações forçadas (trocas de dívida ou extensões de prazo negociadas sob pressão), o que sugere que os números oficiais podem estar subestimando a real deterioração do crédito.
"São conservando capital, mantendo uma postura mais defensiva e avessa a risco. Nos bastidores, há motivo de preocupação."Armen Panossian, co-CEO da divisão de crédito da Oaktree
Casos concretos ilustram o desgaste. A companhia de software Medallia, que havia recebido um aporte de US$ 5 bilhões da gestora Thoma Bravo, foi repassada aos credores após dificuldades de pagamento; fundos da Blackstone chegaram a marcar o investimento a menos de 50 centavos por dólar ao final de junho, ante 60 centavos em março, segundo a reportagem da FT1. Fundos da Ares registraram baixas na Cornerstone OnDemand, e a rede de serviços odontológicos Affordable Care foi assumida por credores como Blackstone e KKR após default.
O reflexo no mercado brasileiro
Embora a crise seja mais aguda nos Estados Unidos, o crédito privado brasileiro vive seu próprio momento de reavaliação de risco. Segundo dados da Bloomberg Línea, os fluxos para fundos abertos do segmento recuaram mais de um terço nos primeiros meses de 2026, somando US$ 1,1 bilhão em captações contra US$ 1,8 bilhão no mesmo período do ano anterior, enquanto a inadimplência subiu para 5,8% em doze meses até janeiro, o maior patamar da série recente4.
A abertura de determinadas classes de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) ao investidor de varejo, permitida pela Resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ampliou o alcance desse mercado no país. Levantamento da Anbima citado por especialistas do setor mostrou que já eram 63 mil cotistas de varejo nesses fundos em março de 2026, o que aumenta a exposição de investidores pessoa física a ativos de crédito estruturado com liquidez limitada e menor transparência sobre garantias5.
Casas de análise como o Banco Safra têm reforçado que a diferenciação entre gestoras será decisiva neste ciclo. Em fevereiro de 2026, fundos com maior exposição a papéis de empresas como Raízen, Hapvida, CSN e Braskem sofreram remarcações relevantes, enquanto carteiras com processos de crédito mais conservadores preservaram retorno próximo ao CDI6.
Alerta de organismos internacionais
O Fundo Monetário Internacional (FMI) já vinha sinalizando fragilidades estruturais antes mesmo do recrudescimento observado agora. O Relatório de Estabilidade Financeira Global de 2025 identificou que cerca de 40% dos tomadores de crédito privado apresentavam fluxo de caixa livre negativo, ante 25% em 20217. Já a edição de abril de 2026 do mesmo relatório, elaborada em conjunto com o Comitê de Supervisão Bancária de Basileia (BCBS), o Banco de Compensações Internacionais (BIS) e a Organização Internacional das Comissões de Valores (IOSCO), reconheceu que a falta de uma definição harmonizada de crédito privado entre jurisdições dificulta a mensuração global do risco do setor8.
Analistas do BofA Global Research, por sua vez, apontam que o setor deve seguir entre os mais frágeis do crédito corporativo americano, mesmo com expectativa de recuo moderado nas taxas de default em 2026 conforme os cortes de juros avancem. A avaliação da instituição é direta: o crédito privado é hoje "a classe de ativos de menor qualidade" em todo o universo de crédito alavancado acompanhado pelo banco, dada a concentração em setores como tecnologia e serviços, mais expostos à disrupção provocada pela inteligência artificial.
Contraponto
Nem todos os players do setor compartilham o tom de alarme. Executivos de gestoras como Blue Owl e Ares argumentam que boa parte da cobertura jornalística, incluindo a própria FT, tem sido exagerada em relação aos riscos reais. Craig Packer, copresidente da Blue Owl, afirmou a investidores que os indicadores de crédito seguem saudáveis e que os problemas observados permanecem isolados. Jim Miller, responsável pela área de crédito direto nos Estados Unidos da Ares, descreveu a situação dos tomadores como sólida, com índices de cobertura de juros e alavancagem próximos da média histórica de cinco anos da gestora.
Esse grupo destaca ainda que grande parte da deterioração está concentrada em empréstimos originados entre 2020 e 2021, período de juros próximos de zero e valuations elevados, e não necessariamente reflete uma fragilidade generalizada do modelo de crédito privado.
O que observar daqui para frente
Para investidores brasileiros expostos a fundos multimercado, FIDCs ou produtos estruturados com lastro em crédito corporativo, o cenário reforça a importância de avaliar concentração setorial, tipo de garantia e histórico de inadimplência antes de alocar capital. A tendência, segundo especialistas consultados pela imprensa financeira, é de maior seletividade nas novas emissões e possível consolidação entre gestoras menores, que enfrentam dificuldade para captar em um ambiente de aversão a risco.
Nos Estados Unidos, o desfecho dependerá em grande parte da trajetória dos juros e da capacidade das empresas endividadas no ciclo de 2020-2021 de repactuar suas dívidas sem novos calotes. Como resumiu o analista Mitchel Penn, da Oppenheimer, o mercado já vem precificando parte das BDCs "como se estivessem à beira do colapso", uma leitura que tanto os mais pessimistas quanto os mais otimistas do setor deverão testar nos próximos trimestres.
Perguntas frequentes
O que é crédito privado (private credit)?
É o financiamento concedido a empresas diretamente por fundos e gestoras não bancárias, fora dos mercados públicos de dívida. Cresceu como alternativa a empréstimos bancários tradicionais, oferecendo prazos e estruturas mais flexíveis, geralmente com taxas de retorno mais altas para o investidor.
O que significa um empréstimo em "non-accrual"?
É a classificação usada quando um tomador deixou de pagar juros ou principal, ou quando a gestora avalia que o calote é provável no curto prazo. É um dos principais indicadores de estresse em carteiras de crédito privado.
O Brasil está exposto à crise do crédito privado americano?
A exposição direta é limitada, mas o mercado brasileiro de crédito privado enfrenta uma reavaliação de risco própria, com queda nos fluxos de captação e aumento da inadimplência, além de maior exposição do investidor de varejo via FIDCs após mudanças regulatórias da CVM.
Por que as BDCs (Business Development Companies) são o centro das atenções?
BDCs são veículos listados em bolsa que concentram parte relevante das carteiras de crédito privado dos Estados Unidos. Como negociam publicamente, seus resultados trimestrais funcionam como um termômetro da saúde do setor, incluindo o nível de empréstimos problemáticos e baixas contábeis.