Houve um tempo em que a pergunta "quem pode possuir terra?" era respondida por um único homem, sentado num trono, invocando um direito que dizia vir de Deus. Houve um tempo em que casar, herdar, comerciar ou simplesmente prosperar dependia de uma permissão que não se comprava com esforço — comprava-se com sangue, com título, com proximidade da corte. O liberalismo, nos séculos XVIII e XIX, nasceu como uma revolta filosófica contra essa arquitetura de privilégio. Hoje, diante de uma concentração de riqueza sem precedentes na história registrada, cabe perguntar: contra que tipo de trono lutamos agora — e com que ferramentas?
O liberalismo como ruptura, não como sistema econômico
É comum tratar o liberalismo clássico como sinônimo de livre mercado e nada mais. Mas seu núcleo filosófico era outro: a ideia de que nenhum poder é legítimo sem o consentimento dos governados, e de que a propriedade — não a linhagem — deveria ser a base da ordem social. John Locke defendia que qualquer poder estatal que não garantisse a vida dos cidadãos e o direito à propriedade privada não seria legítimo, e foi um dos primeiros a defender abertamente o direito da população de depor um chefe de Estado que atentasse contra direitos fundamentais. Seu Segundo Tratado, lançado no rescaldo da Revolução Gloriosa, foi uma das mais contundentes críticas à monarquia absoluta, deixando como legado a exigência de subordinar a atividade dos governantes ao consentimento popular.
Adam Smith completou o edifício no plano econômico. O liberalismo foi o substrato ideológico das revoluções burguesas que buscavam encerrar o Antigo Regime das monarquias absolutistas, tendo como elemento central a defesa da mais ampla liberdade individual nos planos político e econômico — livre iniciativa e livre concorrência como princípios capazes de harmonizar interesses individuais e coletivos. Na prática política, isso significou dividir o poder que antes se concentrava numa só figura: Montesquieu propôs a separação entre Legislativo, Executivo e Judiciário justamente para retirar o poder das mãos de um monarca e acabar com a opressão estatal.
O resultado histórico é conhecido: o fim do absolutismo inglês e a implantação de um regime parlamentar que, mesmo mantendo a monarquia, abriu o Parlamento para pessoas que não pertenciam à nobreza. Riqueza, trabalho e ascensão social deixaram de ser dádivas de um soberano para se tornarem — ao menos na promessa — conquistas ao alcance de qualquer um.
Trezentos anos depois: uma nova corte?
A pergunta que motiva este ensaio não é original — mas ganhou urgência com os números mais recentes. Segundo o relatório da Oxfam apresentado na abertura do Fórum Econômico Mundial de 2026, a riqueza coletiva dos bilionários cresceu US$ 2,5 trilhões em 2025, alcançando US$ 18,3 trilhões — o maior valor já registrado, com crescimento três vezes mais rápido que a média dos últimos cinco anos. Doze das pessoas mais ricas do planeta concentram, juntas, mais riqueza que os quatro bilhões mais pobres.
O Brasil, particularmente, ilustra o paradoxo. O país concentra o maior número de bilionários da América Latina e do Caribe — 66 pessoas que acumulam juntas cerca de US$ 253 bilhões, a maior fortuna total da região —, enquanto o dado é comparado ao Orçamento da União para 2026, de R$ 6,54 trilhões: a fortuna dos bilionários cresceu, em um único ano, o dobro de todo o orçamento federal do país. Não é um problema de escassez de recursos; é um problema de para onde os recursos fluem.
É nesse terreno que ganhou força, na última década, o conceito de neofeudalismo — uma tentativa de nomear filosoficamente algo que os números por si só não explicam: não apenas riqueza concentrada, mas riqueza que volta a se comportar como poder político direto, do jeito que o fazia antes do liberalismo separar as duas esferas. Para o urbanista Joel Kotkin, a sociedade contemporânea está sendo reduzida a um estado feudal, com uma nova aristocracia liderada por oligarcas de tecnologia com riqueza sem precedentes e controle crescente sobre a informação — processo que ele lê como reversão de uma era de maior dispersão de riqueza e oportunidade rumo a uma era mais feudal, de mobilidade reduzida.
Do outro lado do espectro político, a socióloga Jodi Dean chega a um diagnóstico estruturalmente parecido, ainda que por caminhos teóricos distintos: assim como os senhores feudais exploravam os camponeses e detinham autoridade jurídica sobre eles, hoje atores econômicos exercem poder político com base nos termos e condições que eles próprios definem, com interesses privados deslocando o direito público por meio de acordos de confidencialidade, cláusulas de não-concorrência, arbitragem compulsória e o desmonte de agências regulatórias. É uma imagem incômoda: o contrato substituindo a lei, o algoritmo substituindo o feudo, mas a lógica de fundo — poder que não presta contas a ninguém — permanecendo reconhecível.
Até mesmo dentro do próprio Vale do Silício a metáfora feudal já foi assumida sem constrangimento. Peter Thiel, fundador do PayPal, chegou a comparar explicitamente a estrutura de poder das startups à estrutura feudal arcaica: nenhum fundador ou CEO tem poder absoluto, mas as pessoas investem a pessoa no topo de todo tipo de poder e capacidade, e depois a culpam quando as coisas dão errado. Não é uma crítica externa — é uma autodescrição.
O que muda quando a luta não tem coroa
Aqui está a inquietação filosófica central desta reflexão: se o adversário do liberalismo clássico era visível — um rei, uma corte, um título hereditário claramente identificável —, o adversário de um "novo liberalismo" contemporâneo é difuso. Riqueza corporativa, plataformas digitais, fundos de investimento e dinastias empresariais não usam coroa nem exigem juramento de vassalagem. Isso torna a estrutura mais difícil de nomear — e, por extensão, mais difícil de desafiar por meios políticos tradicionais.
É exatamente esse ponto que o teórico Evgeny Morozov usa para questionar a utilidade filosófica do próprio conceito de neofeudalismo, e é justo trazer essa dúvida ao leitor antes de qualquer conclusão apressada.
Morozov observa que quase todos que usam o termo "neofeudalismo" o consideram algo deplorável, um retrocesso a um passado opressor — mas que a própria palavra "feudalismo" é internamente contestada: trata-se de um sistema econômico, avaliado por produtividade e abertura à inovação, ou de um sistema sociopolítico, avaliado por quem exerce poder, como e sobre quem? Se a definição não é consensual, a comparação histórica corre o risco de ser mais retórica do que analítica — um jeito eficaz de indignar, mas impreciso como diagnóstico.
Há ainda um argumento vindo de dentro da própria tradição liberal que merece registro, ainda que incômodo. Friedrich Hayek, citado em ensaio da Le Monde Diplomatique Brasil, reconhecia a desigualdade de largada entre ricos e pobres, mas defendia a competição de mercado justamente por comparação com o que veio antes: "no regime de concorrência, as probabilidades de um homem pobre conquistar grande fortuna são muito menores que as daquele que herdou sua riqueza — nele, porém, tal coisa é possível, visto ser o sistema de concorrência o único em que o enriquecimento depende exclusivamente do indivíduo e não do favor dos poderosos, e em que ninguém pode impedir que alguém tente alcançar esse resultado."
Em outras palavras: mesmo um crítico da desigualdade dentro da tradição liberal diria que existe uma diferença categórica entre riqueza que depende de favor real e riqueza que, ainda que concentrada e injusta em seu ponto de partida, permanece formalmente contestável pelo mercado — o que a monarquia jamais permitiu. Se essa diferença é suficiente para afastar a analogia com o feudalismo, ou se é apenas um verniz formal sobre uma mesma captura de poder, é uma pergunta que este ensaio não resolve — e talvez não deva resolver sozinho.
Uma pergunta em aberto, não uma conclusão
Talvez a honestidade filosófica exija resistir à tentação de fechar o argumento com um veredito. O liberalismo do século XVIII rompeu um poder que se justificava por hereditariedade e proximidade divina. O que se observa hoje — bilionários com quatro mil vezes mais probabilidade de ocupar cargos políticos do que cidadãos comuns, em um cenário no qual países mais desiguais apresentam sete vezes mais risco de retrocessos democráticos — tem semelhanças estruturais reais: poder que se converte em influência sobre a lei, e influência sobre a lei que protege o poder. Mas tem também uma diferença que não é cosmética: a promessa, ainda que imperfeitamente cumprida, de que a posição de qualquer um pode mudar.
Se há um "novo liberalismo" a ser articulado, ele provavelmente não repetirá as ferramentas do século XVIII — não há um trono único a derrubar, não há um Segundo Tratado a escrever contra um rei específico. Talvez seu desafio seja mais sutil e mais difícil: nomear um poder que se disfarça de mercado livre, sem por isso abandonar o próprio mercado como espaço legítimo de disputa. Reconhecer o parentesco entre a corte de ontem e a fortuna de hoje pode ser o primeiro passo filosófico — não porque as duas sejam idênticas, mas porque a pergunta sobre legitimidade do poder, que moveu Locke e Smith, continua sendo a pergunta certa a fazer, não importa quem esteja sentado no topo da pirâmide.
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Glossário
- Liberalismo clássico
- Doutrina política e econômica que defende liberdade individual, propriedade privada e limitação do poder do Estado pelo império da lei.
- Neofeudalismo
- Termo usado por teóricos de diferentes correntes para descrever a reconcentração de riqueza, propriedade e poder político nas mãos de uma pequena elite.
- Rentismo
- Modelo de extração de valor baseado na posse de ativos (dados, imóveis, patentes) em vez da produção competitiva de bens.
- Meritocracia
- Ideia de que posição social e riqueza devem refletir esforço e talento individuais, não herança ou título.
Referências
- Oxfam Brasil, "Resistindo ao Domínio dos Ricos" (2026) — oxfam.org.br
- Brasil de Fato, "Os 12 mais ricos do mundo..." (2026) — brasildefato.com.br
- Joel Kotkin, "The Coming of Neo-Feudalism" — joelkotkin.com
- Los Angeles Review of Books, "Neofeudalism: The End of Capitalism?" — lareviewofbooks.org
- Jodi Dean, "Same As It Ever Was?", New Left Review Sidecar — newleftreview.org
- Evgeny Morozov, "Critique of Techno-Feudal Reason", NLR — newleftreview.org
- Le Monde Diplomatique Brasil, "A falácia da meritocracia" — diplomatique.org.br
- Jus.com.br, "Locke e o pensamento liberal" — jus.com.br
- Âmbito Jurídico, sobre "A Riqueza das Nações" — ambitojuridico.com.br