Caderno Política · Internacional2 de outubro de 2026

Faltam 841 dias. O número, calculado pelo colunista Patrick Lagacé no jornal canadense La Presse, corresponde ao intervalo entre esta sexta-feira, 2 de outubro de 2026, e 20 de janeiro de 2029, quando termina o segundo mandato de Donald Trump.1 Lagacé escreve que sente pelo presidente americano mais cansaço do que repulsa, embora reconheça que a segunda às vezes vence. A coluna é declaradamente opinativa. O interesse dela para o leitor brasileiro está menos no desabafo e mais no material que comenta: a longa entrevista que Trump concedeu à revista Time, publicada em 1º de outubro.

Aquela conversa, de 75 minutos no Salão Oval, oferece uma radiografia incomum de como o poder está sendo exercido na maior economia do mundo a cinco semanas das eleições de meio de mandato. E vários dos temas tratados ali, da guerra com o Irã à ausência de freios para a inteligência artificial, já têm efeito direto sobre preços, regulação e política no Brasil.

O que a Time revelou

A reportagem de capa da Time, assinada por Eric Cortellessa, descreve um presidente discursivo e movido por ressentimentos, oscilando entre as crises do governo e queixas antigas.2 Três episódios se destacam.

O primeiro envolve o Grok, chatbot da xAI de Elon Musk. Segundo um funcionário presente, em dezembro de 2025 Musk voltou ao Salão Oval para um encontro reservado em que Trump passou horas fazendo perguntas à ferramenta sobre sua presidência e seu legado. Numa delas, quis saber como os venezuelanos reagiriam se os Estados Unidos capturassem Nicolás Maduro. A resposta foi que Maduro era um ditador impopular e que muitos comemorariam sua queda. Depois da operação de 3 de janeiro de 2026, houve de fato celebrações nas ruas, e Trump, de acordo com assessores, saiu convencido de que o Grok era engenhoso.2

O segundo é arquitetônico e simbólico. Trump relatou que o Serviço Secreto teria sugerido demolir e reconstruir o Salão Oval, ideia que ele diz ter barrado. Em seguida defendeu transformar a sala em federal landmark, para que nenhum sucessor possa desfazer a decoração dourada que ele instalou. O site Rolling Out lembra que a Casa Branca já é Marco Histórico Nacional e que a entrevista não esclareceu qual forma jurídica teria a proteção específica.3 O relato sobre o Serviço Secreto não foi confirmado pelo órgão.

O terceiro é o mais sensível institucionalmente. Conforme resumo do analista político Aaron Parnas, Trump se recusou a descartar a decretação de emergência antes do dia da eleição e disse, sobre a Lei de Insurreição, que poderia usá-la.4 A transcrição integral publicada pela revista permite ao leitor conferir o tom e o contexto de cada declaração.5

A pergunta relevante não é se um chatbot acertou uma previsão, mas quem responde quando decisões de Estado passam a ser testadas em ferramentas sem nenhuma prestação de contas pública.

Do chatbot ao campo de batalha

É preciso precisão aqui. A Time estabelece que a conversa com o Grok ocorreu antes da captura de Maduro, mas não demonstra que ela tenha pesado na decisão militar, nem sugere que o chatbot tenha participado do planejamento. Esse cuidado é sublinhado por uma análise publicada no Yahoo News, que acrescenta que o Pentágono teria usado uma versão governamental do Grok em operações durante a guerra com o Irã.6 Em 12 de janeiro de 2026, o secretário de Defesa Pete Hegseth anunciou a integração do Grok às redes do Departamento de Defesa.

Lagacé usa o episódio para uma provocação: se a IA acertou sobre a Venezuela, qual ferramenta teria recomendado atacar o Irã? A pergunta é retórica, mas aponta para um problema concreto. O governo americano tem resistido a mecanismos adicionais de supervisão sobre a tecnologia, ao mesmo tempo em que a aproxima de decisões militares e de política externa. A combinação de entusiasmo presidencial, proximidade com executivos do setor e ausência de regras federais abrangentes é o que transforma uma anedota de bastidor num tema de governança.

Ormuz e a conta que chega ao posto

A guerra começou com ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã no fim de fevereiro de 2026. Teerã respondeu fechando o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo. A Agência Internacional de Energia classificou o episódio como a maior interrupção de oferta da história do mercado de petróleo. Um cessar-fogo foi anunciado em 8 de abril, mas o tráfego de navios seguiu muito abaixo do nível anterior ao conflito.

Sete meses depois, a pressão se concentra no diesel. Segundo a CNN, o barril passou a maior parte de setembro acima de 100 dólares, e o fluxo de derivados refinados saindo do Oriente Médio está em 58% do nível pré-guerra, conforme estimativa do JPMorgan.7 Pesquisadores ouvidos pelo The Conversation calculam que o diesel americano saltou mais de 78% desde o início do conflito, partindo de 3,52 dólares por galão.8 A ABC News registrou média recorde de 6,43 dólares em 18 de setembro.9

0 2 4 6 US$ 3,52 US$ 6,43 Antes da guerra (fev/2026) 18 set 2026
Diesel nos EUA, média nacional em dólares por galão (3,78 litros). Fontes: The Conversation e ABC News/GasBuddy.

Lagacé lembra a seus leitores no Quebec que analistas de geopolítica previam há décadas que Teerã reagiria a um ataque bloqueando Ormuz. O argumento vale também para quem mora a dez mil quilômetros do Golfo Pérsico: o diesel move caminhões, máquinas agrícolas e ônibus, e seu preço contamina alimentos e frete em qualquer país importador.

O Brasil no circuito do diesel

O Brasil sente o choque com amortecedores. Em março, a Petrobras fez um reajuste moderado de R$ 0,38 por litro no diesel A, como relatou o Correio Braziliense, um dia depois de o governo zerar PIS/Cofins sobre o combustível.10 Em 17 de setembro, a estatal elevou o diesel A em R$ 1 por litro, mas aplicou desconto de igual valor vinculado a uma subvenção federal válida por 30 dias.

Mesmo assim, o preço nas bombas subiu. Levantamento da ANP citado pelo Metrópoles mostra o diesel S-10 a R$ 7,13 em média na semana de 13 a 19 de setembro, o maior valor desde maio.11 No mesmo período, a Câmara aprovou crédito de R$ 10 bilhões para subsidiar o combustível, e a ANTT reajustou o piso mínimo do frete rodoviário.

IndicadorEstados UnidosBrasil
Preço do diesel (set/2026)US$ 6,43/galão (recorde)R$ 7,13/litro, S-10 (ANP)
Principal mecanismo de contençãoProposta de restringir exportações de dieselSubvenção federal e desoneração de PIS/Cofins
Custo fiscal visívelGastos de defesa pressionam dívida de US$ 40 triCrédito de R$ 10 bilhões aprovado pela Câmara

A escolha brasileira desloca parte do custo da bomba para o orçamento público, o que tem limites. Se Ormuz seguir restrito até o fim do ano, a discussão sobre por quanto tempo a União consegue sustentar subsídios vai disputar espaço com metas fiscais e com a política de preços da Petrobras.

Dívida, vaidade e legado

Lagacé atribui a Trump parte relevante da dívida federal americana. O dado verificável é que o endividamento bruto superou 40 trilhões de dólares em agosto. A AFP, reproduzida pelo Khaleej Times, informou estoque de 40,05 trilhões, acima da projeção do Escritório de Orçamento do Congresso para o fim do ano fiscal, num momento em que os juros longos atingiram o maior nível desde 2007.12 A trajetória, porém, atravessa várias administrações dos dois partidos, e a parcela exata atribuível a cada presidente depende da metodologia.

É nesse cenário que a proposta de congelar a decoração do Salão Oval ganha leitura política. Para o colunista do La Presse, ela resume um traço de personalidade. Para analistas institucionais, ela revela outra coisa: a tentativa de usar instrumentos de preservação patrimonial para limitar escolhas de sucessores eleitos, algo que tende a ser contestado assim que houver troca de governo.

A maleta e o problema do poder unilateral

A coluna termina com a imagem do militar que acompanha o presidente americano carregando a maleta com os meios para autorizar um ataque nuclear. Pelo arranjo vigente nos Estados Unidos, essa decisão cabe ao presidente sem exigência de aprovação prévia do Congresso. Lagacé encerra citando a afirmação de Trump à Time de que tem o QI mais alto, e pergunta ao leitor se isso o tranquiliza.

O contraste com o desenho brasileiro é instrutivo. A Constituição de 1988 exige autorização do Congresso Nacional para que o presidente declare guerra, e o Brasil é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, com a Constituição restringindo a atividade nuclear a fins pacíficos. São salvaguardas que não eliminam riscos de concentração de poder, mas mostram como regras de contrapeso definem o tamanho do dano que um único governante pode causar.

Contraponto

O que dizem os defensores do governo

Apoiadores de Trump argumentam que a captura de Maduro removeu um governante acusado de fraude eleitoral e repressão, e que as comemorações nas ruas da Venezuela confirmam a leitura da Casa Branca. Sustentam também que a pressão sobre o Irã responde a ameaças nucleares e regionais acumuladas há décadas.

No campo da IA, o argumento governista é de competitividade: regras pesadas atrasariam empresas americanas diante da China. Quanto ao Grok, nada indica que tenha substituído inteligência militar ou diplomática. E colunas como a de Lagacé, escritas em tom pessoal e irônico, não são relatórios de política pública; servem como sintoma do humor de aliados históricos, não como prova.

O que observar até 2029

No curto prazo, as eleições legislativas de 3 de novembro de 2026 vão testar se o custo de vida e uma guerra impopular, apontada como tal por pesquisas citadas pela Al Jazeera, alteram o equilíbrio no Congresso.13 A disposição declarada de não descartar a Lei de Insurreição antes do pleito merece atenção de qualquer observador de democracias.

No Brasil, a lição mais direta é regulatória. O PL 2338/2023, que cria o marco legal da inteligência artificial com classificação por níveis de risco e coordenação da ANPD, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e segue em análise na Câmara. Em maio, o presidente da Casa, Hugo Motta, prometeu votá-lo ainda em 2026, segundo o Money Times.14 O episódio do Grok no Salão Oval mostra o que acontece quando ferramentas poderosas chegam ao centro do poder antes das regras.

Restam 841 dias. Para o Brasil, eles se medem menos no calendário de Washington e mais no preço do diesel, na conta dos subsídios e na velocidade com que o Congresso decide como a inteligência artificial pode ser usada aqui.

Perguntas frequentes

Trump consultou o Grok antes de capturar Maduro?

Segundo a Time, em dezembro de 2025 Trump passou horas questionando o Grok e perguntou como os venezuelanos reagiriam à captura de Maduro. Não há evidência de que a resposta tenha influenciado a operação de 3 de janeiro de 2026.

Quantos dias faltam para o fim do mandato de Trump?

Em 2 de outubro de 2026, faltavam 841 dias para 20 de janeiro de 2029, data da posse do próximo presidente americano.

O que é a proposta de tornar o Salão Oval um marco federal?

Trump quer uma proteção formal que impeça sucessores de alterar a decoração que ele instalou. A Casa Branca já é Marco Histórico Nacional, e a forma jurídica da nova proteção não foi detalhada.

Como a guerra com o Irã afeta o diesel no Brasil?

O fechamento de Ormuz elevou o petróleo acima de 100 dólares. O diesel S-10 chegou a R$ 7,13 em média em setembro, segundo a ANP, apesar de subvenção federal que neutralizou um reajuste de R$ 1 da Petrobras.

O Brasil já tem lei de inteligência artificial?

Não. O PL 2338/2023 foi aprovado no Senado em 2024 e tramita na Câmara, em Comissão Especial, com proposta de regulação baseada em risco.

Este artigo tem como ponto de partida a coluna de Patrick Lagacé publicada no jornal La Presse (Montreal), aqui comentada e não reproduzida nem traduzida integralmente. Os dados complementares foram apurados de forma independente em fontes jornalísticas e institucionais citadas ao longo do texto. O conteúdo opinativo atribuído ao colunista reflete a visão dele, não a de O Tecido.