Caderno Profissões · Engenharia e inteligência artificial
Youssef Lahbib foi contratado pela WSP Canada em setembro de 2022 como candidato à profissão de engenheiro, a etapa de prática supervisionada que o Québec exige antes do título pleno. Pouco mais de dois meses depois, o ChatGPT chegou ao público. Hoje engenheiro civil e envolvido na reforma do túnel Louis-Hippolyte-La Fontaine, em Montreal, ele usa ferramentas de IA para redigir relatórios, checar restrições técnicas e conferir se propostas comerciais atendem a todos os critérios exigidos. A trajetória foi contada por Martine Letarte em reportagem do jornal La Presse1 e resume uma mudança que atravessa a engenharia em vários países: a máquina passou a produzir uma parte crescente do trabalho, e o profissional passou a responder, mais do que nunca, pelo que ela entrega.
A comparação que Lahbib usa para descrever essa relação é reveladora. Para ele, trabalhar com IA lembra trabalhar com um engenheiro em formação: dá para discutir ideias, delegar etapas e ganhar tempo, mas tudo precisa ser validado, e nenhuma decisão crítica fica nas mãos de quem ainda não responde por ela1.
Da produção à verificação
Os usos descritos na reportagem vão além da consulta a conceitos. Lahbib, que também atua como desenvolvedor de inovação digital na empresa e lidera um comitê de IA na área de transportes e infraestrutura, criou com apoio da tecnologia um aplicativo de estimativa de preços e um software que faz o inventário de placas de sinalização a partir de vídeos gravados nas estradas1. São exemplos de uma IA que não se limita a responder perguntas: ela escreve código e localiza informações em grandes volumes de documentos técnicos.
O efeito sobre a rotina é uma inversão de peso. Tarefas que antes consumiam horas de redação, compilação e cálculo de rotina ficam mais curtas. Cresce a parcela do tempo dedicada a conferir resultados, interpretar o que o cliente realmente precisa, explicar alternativas e sustentar escolhas diante de quem paga pela obra e de quem vai usá-la. O título da reportagem do La Presse aponta algo preciso: a automação não esvazia o ofício, ela o reduz ao seu núcleo, que é o julgamento técnico exercido com responsabilidade.
Os seis eixos de vigilância do Québec
Para orientar essa transição, a Ordre des ingénieurs du Québec (OIQ), entidade que regula a profissão na província, publicou em 2025 um documento com seis eixos de vigilância para o uso responsável da IA2. O tema aparece no relatório anual 2025-2026 da Ordre como uma das frentes institucionais do período3. Os eixos, que a OIQ trata como princípios válidos para todas as áreas da engenharia, são:
- responsabilidade deontológica;
- dever de competência;
- prudência e diligência;
- proteção e confidencialidade dos dados;
- integridade e transparência;
- impacto ambiental e social.
A presidente da OIQ, Sophie Larivière-Mantha, explicou ao La Presse o princípio que sustenta a lista: o engenheiro precisa compreender o algoritmo que utiliza para poder atestar que o resultado está correto, e a IA não pode ser usada para suprir competências que o profissional não tem1.
Mesmo quando se usa a IA, o julgamento do engenheiro prevalece.
Sophie Larivière-Mantha, presidente da OIQ, ao La Presse (tradução livre)
A formulação tem consequência prática. Se o dever de competência vale para resultados produzidos com apoio da máquina, o engenheiro que aceita uma memória de cálculo gerada por IA sem condições de refazê-la, ao menos em ordem de grandeza, está fora da norma mesmo quando o resultado por acaso está certo. A régua não é o acerto da ferramenta, e sim a capacidade do profissional de saber se ela acertou.
A analogia do engenheiro júnior vista do Brasil
A comparação entre IA e engenheiro em formação funciona bem no Québec porque lá a supervisão é institucional: o candidato à profissão passa por um período de prática acompanhada antes de obter o título. No Brasil, o arranjo é diferente. Pela Lei 5.194/1966, que regula o exercício da engenharia, o diplomado obtém registro no Crea e, com ele, as atribuições correspondentes à sua formação, sem uma etapa obrigatória de prática supervisionada equivalente7. O acompanhamento de quem está começando depende, em boa medida, da cultura de cada empresa.
Isso torna a analogia de Lahbib mais exigente por aqui. Se a IA se comporta como um júnior, quem a supervisiona precisa ter a maturidade de um sênior, e o sistema brasileiro não garante formalmente o percurso que leva até ela.
O ponto de ancoragem jurídico, por outro lado, é claro. A Lei 6.496/1977 instituiu a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), que define para efeitos legais quem responde por uma obra ou serviço de engenharia6. Nenhuma ferramenta emite ART. Qualquer cálculo, laudo ou projeto produzido com apoio de IA continua tendo um profissional habilitado como responsável, exatamente o que a OIQ sustenta para o Québec.
Como o sistema Confea/Crea começa a reagir
O debate chegou aos conselhos brasileiros. A 16ª edição do Código de Ética Profissional, publicada pelo Confea em 2026, traz na apresentação uma referência direta à inteligência artificial e à ideia de que a técnica avança enquanto a responsabilidade permanece humana4. Em julho de 2026, o Colégio de Entidades Nacionais (CDEN) aprovou a Proposta nº 30/2026, que sugere ao sistema adotar uma tecnologia de IA desenvolvida pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos para simplificar a consulta ao arcabouço regulatório da engenharia, da agronomia e das geociências5.
Nos conselhos regionais, iniciativas como a imersão IA na Prática, realizada pelo Crea-SC em Florianópolis em novembro de 2025, discutiram aplicações em planejamento de obras, análise de desempenho estrutural, gestão de projetos, perícias e automação de relatórios9.
O que ainda não aparece, ao menos entre os documentos públicos consultados por esta edição, é um guia voltado especificamente ao exercício profissional com IA, comparável aos seis eixos da OIQ. A lacuna se soma à indefinição legislativa. O PL 2.338/2023, que cria o marco legal da inteligência artificial, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e segue em análise numa comissão especial da Câmara. Em maio, o presidente da Casa, Hugo Motta, afirmou que pretende levar o texto a voto ainda em 20268. Enquanto isso, o profissional brasileiro trabalha com regras gerais (lei do exercício, ART, Código de Ética) aplicadas a uma ferramenta que nenhuma delas previu.
Aprender sem a máquina para depois trabalhar com ela
Se o engenheiro precisa ser capaz de verificar o que a IA produz, a escola precisa garantir que ele saiba fazer sem ela. É a lógica descrita ao La Presse por Foutse Khomh, diretor de pesquisa e inovação da Polytechnique Montréal. Em cada disciplina, os docentes identificam as competências indispensáveis, que devem ser desenvolvidas e avaliadas sem acesso à IA; o trabalho com as ferramentas entra na fase de resolução de problemas1. Khomh descreve o desafio como organizar a cadeia de aprendizagem de modo que a tecnologia seja abraçada sem virar muleta.
No Brasil, as Diretrizes Curriculares Nacionais de Engenharia (Resolução CNE/CES nº 2/2019) já organizam os cursos por competências10, o que oferece uma estrutura natural para separar o que se avalia com e sem apoio da máquina. O tema também ocupa sessões dirigidas do Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia (Cobenge), com participação de docentes da Escola Politécnica da USP11.
A preocupação tem lastro antigo. Em 1983, a psicóloga britânica Lisanne Bainbridge descreveu as chamadas ironias da automação: quanto mais um sistema automatizado assume, mais rara fica a prática manual que permitiria ao operador perceber e corrigir suas falhas12. Mais recentemente, um levantamento da Microsoft Research com a Universidade Carnegie Mellon, apresentado na conferência CHI 2025 a partir de respostas de 319 trabalhadores do conhecimento, associou maior confiança na IA generativa a menor esforço declarado de pensamento crítico13. Numa profissão em que a verificação é a última barreira antes de uma estrutura ou um sistema chegar ao público, o achado pesa.
O que fica com o engenheiro
Ao La Presse, Lahbib lista o que não delega: entender as necessidades do cliente, explicar bem as ideias e transmitir segurança1. A lista parece modesta, mas descreve o que nenhuma ferramenta assume, porque envolve confiança entre pessoas e responsabilidade perante terceiros.
Para o mercado brasileiro, a lição prática tem três camadas. Para o profissional, registrar quando e como a IA entrou num trabalho que está sob sua ART. Para as empresas, criar rotinas de revisão proporcionais ao risco de cada entrega, e não uma checagem padrão para tudo. Para conselhos e escolas, transformar princípios gerais em orientação operacional, como fez a OIQ. O Fórum Econômico Mundial estima, no Future of Jobs Report 2025, que cerca de 39% das competências centrais dos trabalhadores devem mudar até 203014. Na engenharia, a mudança mais provável não é o desaparecimento do engenheiro, e sim a redefinição do que significa assinar um projeto.
Perguntas frequentes
A inteligência artificial pode substituir o engenheiro?
Não no sentido legal nem profissional. A IA automatiza redação de relatórios, busca em documentos, geração de código e cálculos de rotina, mas a responsabilidade técnica continua sendo de um profissional habilitado. Órgãos como a Ordre des ingénieurs du Québec e o Confea afirmam que o julgamento e a responsabilidade permanecem humanos.
Quem responde por um projeto feito com ajuda de IA no Brasil?
O engenheiro que registra a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), instituída pela Lei 6.496/1977. A ART define legalmente o responsável técnico por obras e serviços de engenharia, e nenhuma ferramenta de IA pode assumir esse papel.
Quais são os seis eixos de vigilância da OIQ para uso de IA?
Responsabilidade deontológica, dever de competência, prudência e diligência, proteção e confidencialidade dos dados, integridade e transparência, e impacto ambiental e social. O documento foi publicado pela Ordre des ingénieurs du Québec em 2025.
O Brasil tem regras específicas para o uso de IA na engenharia?
Não há, entre os documentos públicos consultados, um guia profissional específico equivalente ao da OIQ. Valem a Lei 5.194/1966, a lei da ART e o Código de Ética do Confea, cuja 16ª edição (2026) menciona a IA. O marco legal geral da IA, o PL 2.338/2023, foi aprovado pelo Senado e está em análise na Câmara.
Como as escolas de engenharia estão lidando com a IA?
Na Polytechnique Montréal, as competências essenciais de cada disciplina são desenvolvidas e avaliadas sem IA, e o uso das ferramentas entra na etapa de resolução de problemas. No Brasil, as Diretrizes Curriculares Nacionais de Engenharia de 2019, organizadas por competências, oferecem base para separação semelhante, e o tema é discutido no Cobenge.
— Ewerton Lopes, Curador Editorial