Opinião

No universo da infraestrutura elétrica, uma verdade é absoluta. A qualidade de uma rede não depende apenas de seus componentes, mas também da qualidade das conexões entre eles. Uma conexão inadequada pode aumentar a resistência, provocar aquecimento, gerar perdas e comprometer o desempenho de todo o sistema.

Nas empresas, algo semelhante acontece. É possível reunir profissionais competentes, departamentos eficientes e bons processos e, ainda assim, ter resultados abaixo do esperado quando estas partes não conseguem trabalhar de forma integrada. O problema aparece em retrabalho, decisões que demoram a avançar, conflitos entre áreas e, muitas vezes, na perda de profissionais.

É nesse ponto que a sinergia deixa de ser apenas uma palavra recorrente no vocabulário corporativo e passa a representar uma necessidade de gestão. A própria origem do termo, do grego “synergos”, remete à ideia de trabalhar em conjunto. O desafio está em transformar este conceito em prática cotidiana.

Os números mostram o tamanho do problema. Segundo levantamento da Sólides, (empresa de tecnologia, líder no Brasil na gestão de pessoas) com base em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a taxa de rotatividade no Brasil chegou a 51,3% ao ano. O indicador é resultado de um levantamento privado e sua comparação internacional exige cautela, já que não se trata de uma base padronizada entre países. Ainda assim, o dado ajuda a dimensionar a movimentação de profissionais no mercado brasileiro.

A rotatividade também representa um custo para as empresas. A edição do estudo Engaja S/A, primeiro índice nacional de engajamento de trabalhadores no Brasil, idealizado pela Flash em parceria com a FGV EAESP, estimou em R$ 77 bilhões por ano as perdas associadas ao desengajamento dos trabalhadores, considerando os efeitos do “turnover” e do presenteísmo. Desse total, cerca de R$ 70,7 bilhões estão relacionados à rotatividade.

Mas o que as conexões entre as pessoas têm a ver com estes números?

Uma resposta pode ser encontrada no Projeto Aristóteles, conduzido pelo Google (iniciada em 2012) para compreender quais características estavam presentes nas equipes de maior eficácia. A pesquisa analisou cerca de 180 equipes e identificou a segurança psicológica como o fator que mais se destacou entre os elementos associados ao desempenho dos grupos. O conceito está relacionado à possibilidade de fazer perguntas, apresentar ideias, discordar e reconhecer erros sem receio de punição ou humilhação.

A constatação reforça uma questão importante para as empresas. Pessoas não trabalham de maneira integrada simplesmente porque estão reunidas no mesmo organograma. A colaboração precisa de condições para acontecer.

É aí que entra a liderança. Mais do que acompanhar tarefas individualmente, cabe aos gestores criar clareza sobre responsabilidades, estabelecer processos que facilitem a colaboração e construir relações em que as pessoas possam contribuir, questionar e propor mudanças. Quando cada área passa a defender apenas o próprio território, a empresa perde justamente aquilo que deveria ganhar com a especialização de suas equipes.

Sinergia, portanto, não significa ausência de divergências. Pelo contrário. Equipes conectadas são capazes de discordar, resolver conflitos e encontrar soluções sem transformar diferenças em barreiras. A harmonia necessária ao ambiente corporativo não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela em que diferentes competências conseguem trabalhar na mesma direção.

Em um mercado no qual a rotatividade representa custos relevantes, fortalecer essas conexões internas é também uma forma de preservar conhecimento, experiência e capacidade de execução. Uma empresa pode investir em tecnologia, processos e infraestrutura, mas continuará limitada se as pessoas que precisam fazer tudo isso funcionar não estiverem conectadas.

No fim, a lógica é parecida com a de qualquer sistema elétrico. Não basta ter bons componentes. É preciso que eles estejam corretamente conectados para que a energia circule e o sistema cumpra sua função.

No mundo dos negócios, talvez seja exatamente isso que a sinergia represente: fazer com que o potencial de cada parte realmente consiga chegar ao todo.

Marcelo Mendes é gerente geral da KRJ Conexões (https://krj.com.br/).É economista e executivo de marketing e vendas do setor elétrico há mais de 20 anos, com atuação inclusive em vários mercados internacionais.