Durante décadas, a computação quântica ocupou o imaginário tecnológico como uma promessa absoluta: a tecnologia que resolveria tudo. Câncer, criptografia, clima, energia. Bastava esperar. Depois veio a inteligência artificial generativa e roubou o protagonismo com uma velocidade que ninguém antecipou. A computação quântica ficou, por um momento, em segundo plano. Mas ela não desapareceu — e hoje os pesquisadores que mais a conhecem estão revisando suas previsões em uma direção surpreendente.

Aram Harrow, físico teórico do MIT e um dos nomes mais respeitados do campo, admitiu em entrevista ao El País que chegou a hora de antecipar o prazo. Por anos, ele foi referência de ceticismo saudável: sempre dizia que faltavam entre 10 e 15 anos para computadores quânticos relevantes. Agora acredita que eles podem chegar antes. Isso, porém, não significa que você vai usar um no bolso.

"Todo mundo vê como a IA pode ser útil em alguma parte do seu trabalho. A computação quântica será muito útil, mas para menos coisas."

Uma ferramenta poderosa para problemas muito específicos

O erro mais recorrente na cobertura da computação quântica é tratá-la como substituta do computador convencional. Não é. Os dois paradigmas operam em lógicas radicalmente distintas: enquanto o computador clássico processa informações em sequência — um passo de cada vez, como ensinado desde os gregos —, os sistemas quânticos exploram fenômenos da mecânica quântica para processar certas classes de problemas de forma fundamentalmente diferente.

A palavra-chave é "certas classes". Não há vantagem quântica em fazer planilhas, editar vídeos ou rodar um modelo de linguagem. A vantagem aparece em domínios específicos: simulação de moléculas complexas, descoberta de novos materiais, otimização de sistemas com número astronômico de variáveis, e — o exemplo mais citado — quebra de sistemas de criptografia baseados em fatoração de números grandes.

Computação Clássica

Processa informação passo a passo. Excelente para tarefas gerais: texto, vídeo, linguagem, cálculos sequenciais. Está em todo lugar.

Computação Quântica

Explora superposição e entrelaçamento para resolver classes específicas de problemas. Especializada, estratégica, invisível ao usuário comum.

Nesse último ponto — a criptografia —, há um alerta que merece atenção. Não é proibido ou fútil esperar para atualizar protocolos de segurança digital. O risco já existe no presente, ainda que em forma latente. Organizações que dependem de sistemas de encriptação robustos deveriam iniciar a transição para algoritmos pós-quânticos agora, sem aguardar o anúncio de uma ruptura.

Química, materiais e o longo caminho até a fusão nuclear

A aplicação mais concreta e próxima da computação quântica é a simulação molecular. Hoje, os melhores supercomputadores clássicos conseguem modelar apenas moléculas relativamente simples. Quando a complexidade cresce — como nas proteínas de dobramento irregular ou nos catalisadores industriais —, a capacidade computacional clássica atinge seus limites.

Um computador quântico com número suficiente de qubits estáveis poderia simular o comportamento interno dessas moléculas com precisão inatingível hoje. As consequências práticas variam do design de novos medicamentos à descoberta de materiais para baterias mais eficientes ou supercondutores de alta temperatura.

Harrow oferece, a esse respeito, um exemplo que ilumina o caráter indireto das aplicações quânticas: a fusão nuclear. A ideia de um reator de fusão menor e economicamente viável dependeria de supercondutores mais potentes. A supercondutividade, por sua vez, é um fenômeno quântico que ainda não compreendemos completamente. Um computador quântico poderia ajudar a desvendar seus mistérios — o que abriria o caminho para os supercondutores, que viabilizariam o reator, que forneceria energia limpa em escala. É uma cadeia longa. Mas não é ficção.

Menor que a IA, maior que o que se pensa

Harrow usa uma analogia precisa ao comparar a computação quântica aos supercomputadores clássicos: máquinas existentes, usadas por especialistas para problemas reais e difíceis, sem qualquer presença no cotidiano da maioria das pessoas. A computação quântica tende a ocupar esse lugar — estratégica, especializada, invisível ao consumidor comum, mas transformadora nos domínios onde atua.

A diferença em relação à inteligência artificial é estrutural. A IA é uma tecnologia de propósito geral: qualquer pessoa consegue identificar onde ela poderia ser útil em seu trabalho ou vida pessoal. A computação quântica não tem esse alcance horizontal. Seu impacto será vertical — profundo em alguns setores, inexistente em outros. Isso não é uma limitação. É uma característica. E entendê-la como tal é o primeiro passo para uma conversa pública mais honesta sobre o que essa tecnologia pode — e não pode — fazer.

O que está em jogo agora

O campo enfrenta dois desafios simultâneos: reduzir o ruído nos qubits — a interferência ambiental que destrói a informação quântica — e aumentar o número de qubits funcionais sem que o ruído também escale. Os dois precisam avançar juntos. Há progresso constante, ainda que pouco espetacular, comparável à Lei de Moore em seu início: imperceptível no dia a dia, transformador ao longo de anos.

O software quântico também amadurece em paralelo, desenvolvido para hardware que ainda não existe em escala suficiente — como construir estradas para um carro que ainda está sendo projetado. Quando o hardware chegar, uma parte dos algoritmos já estará pronta. Outra parte só se revelará possível quando o computador finalmente funcionar.

A computação quântica não vai chegar como um evento. Vai se infiltrar: primeiro nos laboratórios, depois nas indústrias químicas e farmacêuticas, depois, talvez, nos protocolos de segurança digital que regem a internet inteira. O consumidor final provavelmente nunca saberá que ela está lá. E isso, afinal, é como as melhores infraestruturas funcionam.

Fonte de referência: entrevista com Aram Harrow, físico do MIT, publicada pelo El País em 5 de junho de 2026. Disponível em: elpais.com.