Caderno Tecnologia · Computação quântica
Há dois anos, o físico Dolev Bluvstein concluiu que computadores quânticos práticos ainda estavam longe demais do mercado e preferiu seguir na universidade. Em 2026, ele comanda a Oratomic, empresa de Pasadena que fechou em julho uma Série A de US$ 300 milhões, descrita pelo Financial Times como a maior primeira rodada já feita por uma startup quântica1. A rodada foi coliderada por ARCH Venture Partners, Spark Capital e Khosla Ventures, segundo o The Quantum Insider2. A mudança de opinião de um pesquisador resume a mudança de humor de um setor inteiro: a computação quântica, prometida desde os anos 1980, passou a ser tratada como problema de engenharia e, portanto, como oportunidade de negócio.
O entusiasmo, porém, convive com três perguntas que ninguém respondeu de forma convincente: quando essas máquinas resolverão problemas comerciais reais, se servirão para algo além de um nicho estreito de tarefas e qual das tecnologias em disputa, e quais empresas, ficarão com o lucro. É nesse intervalo entre a expectativa e a receita que o capital está sendo alocado.
O ano em que o dinheiro chegou
Os números de 2026 explicam o tom. Segundo o FT, com base em dados da PitchBook, o setor já havia recebido mais de US$ 4 bilhões em capital de risco neste ano, quase o volume de todo o ano de 2025, que por sua vez praticamente igualou a soma dos quatro anos anteriores1.
O mercado de ações também abriu as portas. A Quantinuum, controlada pela Honeywell e especializada em íons aprisionados, estreou na Nasdaq em 4 de junho depois de captar US$ 1,68 bilhão, com ações precificadas a US$ 60, acima da faixa inicial4. Um mês depois, em 2 de julho, a finlandesa IQM tornou-se a primeira empresa quântica europeia listada em uma grande bolsa americana, com caixa pro forma de 337 milhões de euros e 23 computadores vendidos no mundo, segundo comunicado da própria companhia5.
A tese da Oratomic ajuda a entender por que investidores voltaram a aceitar prazos longos. A empresa, fundada por físicos ligados ao Caltech, sustenta que um computador quântico útil pode exigir algo entre 10 mil e 20 mil qubits físicos em arquiteturas de átomos neutros reconfiguráveis, e não os milhões que estimativas anteriores indicavam, como detalhou o TechCrunch3. Se a conta se confirmar, a distância até a primeira máquina comercialmente relevante encurta de forma drástica.
Bits, qubits e o problema do erro
Um computador convencional trabalha com bits, que assumem o valor 0 ou 1. Um computador quântico usa qubits, que podem existir em superposição, uma combinação dos dois estados, e podem ser emaranhados, isto é, correlacionados de modo que o estado de um depende do estado de outro. À medida que se adicionam qubits, o espaço de combinações cresce exponencialmente. Para problemas específicos, isso abre atalhos de cálculo que nenhum supercomputador clássico alcança.
O obstáculo é a fragilidade. Qubits perdem informação ao menor ruído do ambiente, e por isso as máquinas precisam de correção de erros: muitos qubits físicos trabalham juntos para formar um único qubit lógico confiável. A quantidade de qubits físicos exigida por essa correção é o que define o custo, o tamanho e o prazo de um computador quântico útil. Boa parte da disputa tecnológica atual é, na prática, uma disputa sobre quem consegue fazer essa correção de forma mais barata.
Nem os líderes apostam numa só tecnologia
Um sinal revelador de 2026 é que as empresas mais avançadas decidiram se proteger. O FT observa que Google e IBM, que por anos correram com qubits supercondutores, passaram a experimentar alternativas, o que reabre a dúvida sobre qual caminho vai prevalecer1.
Em março, o Google Quantum AI anunciou um programa de átomos neutros, a mesma tecnologia da Oratomic, liderado pelo físico Adam Kaufman, do JILA, em Boulder. No blog oficial da empresa, o raciocínio é explícito: supercondutores levam vantagem em profundidade de circuito e velocidade, enquanto átomos neutros escalam melhor em número de qubits e conectividade6. Em julho, a IBM anunciou acordo definitivo para comprar a HRL Laboratories, centro de pesquisa controlado por Boeing e General Motors e especializado em qubits de spin em silício, conforme comunicado da IBM7. A empresa mantém o plano de entregar o sistema Starling, tolerante a falhas, em 2029.
Para o investidor, a diversificação tem duas leituras. Pode ser prudência de quem tem caixa para cobrir várias apostas. Pode também ser o reconhecimento, por quem está mais perto da fronteira, de que a ciência ainda não escolheu o vencedor. Muitos no setor afirmam que a física difícil já foi resolvida e que restam problemas de engenharia; a movimentação dos líderes sugere que essa convicção ainda não é unânime.
O setor já convenceu o mercado de capitais. Falta convencer o balanço patrimonial de quem compra computação.
Para que serve, afinal, uma máquina quântica
A pergunta central para a relevância comercial é o que as primeiras máquinas farão. Duas aplicações concentram o consenso. A primeira é a quebra de criptografia: um computador quântico de grande porte poderia fatorar números que protegem boa parte das comunicações digitais atuais. A segunda, citada pela maioria das empresas como a oportunidade mais próxima, é simular sistemas quânticos da natureza, como moléculas e materiais.
Steve Brierley, executivo-chefe da britânica Riverlane, que desenvolve tecnologia de correção de erros, disse ao FT que esse papel científico não deve ser confundido com um mercado pequeno, porque abrange desde novos medicamentos até baterias e problemas de energia e clima1. Peter Barrett, sócio do fundo Playground Global, prevê que empresas quânticas firmarão acordos de participação nos resultados com farmacêuticas e químicas, capazes de render centenas de bilhões de dólares na próxima década, segundo o mesmo jornal1. Quanto desse valor ficará com quem fornece a computação, e não com quem descobre a molécula, permanece em aberto.
Fora dessas duas frentes, o acordo desaparece. Niccolo de Masi, presidente-executivo da IonQ, afirmou ao FT que a maior parte do valor virá de algoritmos com aceleração quadrática, ganho relevante sobre máquinas clássicas, mas inferior ao salto exponencial que a teoria promete1. Há ainda a aposta em inteligência artificial: pesquisadores ligados ao Google e à Oratomic apresentaram neste ano uma técnica que, segundo eles, traria ganhos exponenciais no processamento de grandes volumes de dados. O próprio FT pondera que uma transformação da IA pela computação quântica segue distante1.
O Brasil na corrida: máquinas na Paraíba, pessoas em formação
O Brasil entra nessa história por um caminho próprio. O Centro Internacional de Computação Quântica (CIQuanta), em João Pessoa, reúne o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o governo da Paraíba e o Suzhou Quantum Center, da China, para abrigar dois computadores quânticos de 20 e 100 qubits, apresentados pelo MCTI como os primeiros operacionais da América Latina10. Segundo o Jornal da Paraíba, as peças chegariam em agosto, com montagem prevista até outubro e acesso inicial para pesquisadores da UFPB, UFCG e IFPB11. As áreas prioritárias anunciadas incluem simulação de materiais, otimização, aprendizado de máquina quântico e desenvolvimento de novos fármacos.
Em paralelo, o MCTI lançou em 19 de junho o Projeto Residência em Tecnologias Quânticas, com R$ 20 milhões em 36 meses, 156 bolsas e capacitação de cerca de 500 pessoas em seis cidades, de João Pessoa a Campinas, como registrou a MIT Technology Review Brasil12. O país não parte do zero: o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) abriga o laboratório QuantumTec, dedicado à construção de chips quânticos, com investimento de R$ 23 milhões da Finep, e há uma comunidade formada ao longo de 25 anos em torno do INCT de Informação Quântica, segundo o MCTI13.
A escolha do parceiro, no entanto, carrega implicações geopolíticas. O fornecedor dos equipamentos está ligado à estatal chinesa CETC, cuja unidade envolvida aparece na lista de restrições do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, o que já gerou atrito diplomático, conforme o Movimento Econômico14. O governo paraibano e os coordenadores científicos defendem o caráter estritamente científico da cooperação. Para uma política de soberania tecnológica, a questão relevante é outra: se a transferência de tecnologia prometida em criogenia e hardware será efetiva ou se o país receberá apenas equipamentos para operar.
O setor financeiro já faz as contas
Onde a computação quântica já pesa em decisões brasileiras é na segurança. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, feita com a Deloitte, indica que 71% dos bancos consideram a tecnologia de alta relevância no curto ou médio prazo, com prioridade para criptografia e segurança pós-quântica, segundo o IT Forum15. O Banco Central, por meio de um coordenador do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro, afirmou em março que estuda o tema e dialoga com outros reguladores, de acordo com o Finsiders Brasil16.
A distinção importa. Preparar um sistema como o do Pix para a era quântica não exige comprar um computador quântico; exige trocar algoritmos de criptografia por padrões resistentes a ataques futuros, algo que roda em máquinas convencionais. É o tipo de investimento que independe de quem vencer a corrida tecnológica e que tende a ser mais caro quanto mais tarde começar.
O que observar daqui em diante
Três indicadores devem separar promessa de negócio nos próximos meses. O primeiro é a composição da receita das empresas listadas: contratos governamentais e vendas a centros de pesquisa sustentam o setor hoje, e a entrada de clientes privados recorrentes seria o sinal de demanda real. O segundo é a demonstração de qubits lógicos em quantidade crescente, porque é a correção de erros, e não a contagem bruta de qubits, que define a utilidade. O terceiro são os primeiros acordos de participação em resultados com a indústria farmacêutica e química, que mostrariam quem captura o valor das descobertas.
No Brasil, a régua é mais concreta: a entrada em operação do CIQuanta, a abertura de acesso remoto a universidades de outros estados, o desempenho da residência em formar especialistas que permaneçam no país e o calendário regulatório para a criptografia pós-quântica no sistema financeiro. A computação quântica pode ou não cumprir sua promessa nesta década. O custo de não estar preparado para ela, especialmente na segurança digital, já é mensurável.
Perguntas frequentes
O que é computação quântica e como ela difere da computação tradicional?
Computadores tradicionais processam bits, que valem 0 ou 1. Computadores quânticos usam qubits, que podem ficar em superposição de estados e se correlacionar por emaranhamento. Para certos problemas, como simular moléculas ou fatorar números muito grandes, isso permite atalhos de cálculo inacessíveis às máquinas clássicas.
Por que 2026 é considerado um ano de virada para o setor quântico?
O ano reuniu o IPO da Quantinuum na Nasdaq, a listagem da IQM, a Série A de US$ 300 milhões da Oratomic e a diversificação tecnológica de Google e IBM. Segundo o Financial Times, com dados da PitchBook, o capital de risco aplicado no setor neste ano já se aproxima do total de 2025.
Quais tecnologias disputam a construção do computador quântico?
Supercondutores, íons aprisionados, átomos neutros, spin em silício e fótons. Cada uma tem vantagens e limitações, e nenhuma é vencedora declarada.
Quando os computadores quânticos terão uso comercial relevante?
As empresas projetam máquinas tolerantes a falhas até o fim da década, como o Starling da IBM, previsto para 2029. São projeções: o setor tem histórico de prazos adiados e receitas ainda pequenas.
O Brasil tem computador quântico?
O país está montando suas primeiras máquinas operacionais, de 20 e 100 qubits, no CIQuanta, em João Pessoa, em parceria entre MCTI, governo da Paraíba e o Suzhou Quantum Center, da China, com montagem prevista até outubro de 2026.
A computação quântica ameaça a criptografia bancária e o Pix?
Não no presente. O risco é futuro, e a resposta é migrar para criptografia pós-quântica, que roda em computadores convencionais. Bancos e o Banco Central já discutem o tema.