Enquanto uma guerra comercial entre Canadá e Estados Unidos se soma às tensões no Oriente Médio e à disparada dos juros dos títulos públicos, a economia mundial segue crescendo. O motor por trás dessa resistência tem nome e sobrenome: o ciclo bilionário de investimentos em inteligência artificial, que hoje sustenta boa parte do dinamismo americano e turbina as exportações da Ásia, com reflexos que já chegam ao Brasil.
Os dados divulgados nas últimas semanas surpreendem por um motivo simples: o mundo deveria estar mais nervoso do que está. O Estreito de Hormuz segue fechado desde fevereiro, quando as hostilidades entre Irã, Estados Unidos e Israel escalaram. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano subiram. E, ainda assim, o petróleo permanece abaixo de US$ 90 o barril e as bolsas globais operam perto de máximas recentes. Segundo reportagem do The Wall Street Journal, essa combinação inesperada de choque de oferta com resiliência de demanda tem uma explicação central: o boom de gastos em data centers e infraestrutura de IA, que já responde por cerca de um terço do crescimento recente da economia americana, segundo estimativas do banco holandês ING citadas pela publicação.1
O "cabo de guerra" entre petróleo e silício
A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, resumiu o momento como um "cabo de guerra" entre o choque negativo de oferta vindo do Oriente Médio e o choque positivo de demanda gerado pela inteligência artificial. Em coletiva realizada em Washington nesta semana, ela afirmou que o que começou como um fenômeno americano já se tornou um motor de crescimento para a economia global, à medida que mais países erguem seus próprios data centers.2
O FMI cortou sua projeção de crescimento global para 2026 para 3% em julho, citando riscos ligados ao conflito no Oriente Médio, à fragmentação do comércio e às incertezas sobre a própria IA. Ainda assim, Georgieva reconheceu que a economia mundial vem absorvendo o choque energético "melhor do que se temia", puxada em parte pela China, que reduziu fortemente suas importações de petróleo e funcionou como um colchão de reservas para o mercado global.2
Ásia embarca na onda: exportações disparam
O apetite por semicondutores, cabos, servidores e equipamentos elétricos ligados à IA está inflando as exportações de toda a cadeia asiática de tecnologia. De acordo com o Wall Street Journal, as exportações da China cresceram 25% em julho na comparação anual, as do Japão subiram 22%, as de Taiwan avançaram um terço e as da Coreia do Sul saltaram 63%. Até economias menores, como a Tailândia, registram exportações recordes, e Singapura revisou sua projeção de crescimento para o ano de 4% para até 5,5%, citando a demanda por semicondutores e componentes ligados à IA.1
Essa dinâmica também aparece nos números do comércio exterior brasileiro. Segundo dados consolidados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras somaram US$ 242,69 bilhões entre janeiro e a terceira semana de agosto de 2026, alta de 10,7% sobre igual período de 2025, com superávit comercial acumulado puxado por agropecuária e commodities metálicas.3 O ministério já elevou a projeção de superávit para 2026 a US$ 90 bilhões.4 O caso brasileiro difere do padrão asiático: aqui, quem embala o resultado é a soja e o cobre, não os semicondutores, mas o país passou a sentir o boom de IA por outra porta, a da infraestrutura.
O Brasil na rota dos data centers
Enquanto gigantes como Amazon, Microsoft, Alphabet, Meta e Oracle preparam um aporte conjunto estimado em US$ 725 bilhões em 2026, alta de cerca de 77% sobre o ano anterior, o Brasil se consolidou como o principal destino da América Latina para esse capital.5 O país concentra hoje 48% da capacidade instalada de data centers da região e 71% de tudo o que está em construção, segundo levantamento da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC).6 A capacidade nacional deve saltar de 826 megawatts para 1.746 megawatts até o fim de 2026, tornando o Brasil o primeiro país latino-americano a ultrapassar a marca de 1 gigawatt.6
Parte desse movimento é puxada pela matriz elétrica brasileira, majoritariamente renovável, e por fundos internacionais como Brookfield, DigitalBridge e KKR, que já colocaram o país no radar. O BNDES trabalha na estruturação de um fundo dedicado a inteligência artificial e data centers, com aporte inicial estimado entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão, capaz de alavancar recursos e chegar a R$ 5 bilhões, segundo o diretor de planejamento do banco, Nelson Barbosa.7 Em paralelo, o setor de tecnologia, informação e comunicação como um todo já representa 7,2% do PIB brasileiro e deve atrair investimentos de até R$ 2 trilhões entre 2026 e 2029, dos quais R$ 736,6 bilhões devem ir especificamente para inteligência artificial, segundo o Relatório Setorial 2025 da Brasscom.8
Contraponto
Nem todos veem esse ciclo com o mesmo entusiasmo. A própria Georgieva alertou contra a complacência de governos que apostam todas as fichas na IA, mencionando riscos à estabilidade financeira ligados ao que analistas descrevem como uma possível bolha nas ações e no endividamento de empresas de tecnologia.1 Max Zenglein, economista-sênior do The Conference Board para a Ásia-Pacífico, avalia que o crescimento global está ficando "cada vez mais estreito" e dependente de um único motor, o que torna a economia mundial mais vulnerável a uma eventual desaceleração da demanda por IA.1 No Brasil, especialistas do setor também apontam gargalos concretos: o país ainda ocupa apenas a 10ª posição no mercado global de data centers, com cerca de 2% de participação, e depende de importações para até 60% de suas cargas digitais, o que gerou um déficit de US$ 7,1 bilhões na balança de serviços de telecomunicações e computação em 2024, segundo dados citados em projeto de lei que tramita no Congresso.9 A capacidade da rede elétrica de absorver a nova demanda e a definição do regime tributário do programa Redata seguem como pontos de atenção para o setor.10
Por que o choque do petróleo não travou a economia
Além da IA, o Wall Street Journal destaca outros fatores que ajudaram a amortecer o choque energético: maior eficiência no uso do petróleo por unidade de PIB, subsídios governamentais que protegeram famílias do repasse de preços e, na Europa, o aumento de gastos públicos em defesa e infraestrutura.1 A chefe de economia global do ING, Marieke Blom, descreveu as reservas chinesas de petróleo como um "amortecedor para o mundo todo" durante o período mais agudo da crise.1
O que pode dar errado
A grande pergunta que passou a dominar as mesas de análise econômica é sobre a durabilidade desse ciclo. Angrick, do Moody's Analytics, resumiu a cautela predominante ao afirmar que a economia global pode estar "vivendo de tempo emprestado", nas palavras reproduzidas pelo Wall Street Journal.1 Um eventual arrefecimento no ritmo de investimento das grandes empresas de tecnologia, motivado por resultados aquém do esperado com IA generativa ou por um aperto nas condições financeiras, tende a afetar de forma desproporcional as economias asiáticas mais dependentes de exportação, caso da China, Coreia do Sul e Taiwan.
Para o Brasil, esse risco tem um verniz diferente. Como o país entra no ciclo de IA principalmente pela porta da infraestrutura física (energia, terrenos, data centers) e não pela exportação direta de chips e componentes, uma eventual desaceleração global do investimento em IA tende a chegar aqui com um efeito mais indireto, via menor apetite de fundos internacionais por novos projetos e possível reprecificação de ativos ligados ao setor.
Perguntas frequentes
O investimento em inteligência artificial está mesmo sustentando a economia mundial?
Segundo o FMI e estimativas do banco ING citadas pelo Wall Street Journal, o boom de gastos em data centers e infraestrutura de IA responde por cerca de um terço do crescimento recente da economia americana e vem compensando os efeitos negativos do fechamento do Estreito de Hormuz sobre a oferta global de petróleo.
Por que as exportações da Ásia cresceram tanto em 2026?
A demanda por semicondutores, servidores e componentes eletrônicos usados na construção de data centers de IA elevou as exportações de China, Japão, Taiwan, Coreia do Sul e Tailândia a dois dígitos, em alguns casos superando 60% na comparação anual.
Qual é a posição do Brasil nesse ciclo global de investimento em IA?
O Brasil lidera a América Latina em capacidade instalada e em construção de data centers, concentrando 48% da capacidade operacional e 71% da capacidade em construção da região, atraindo fundos internacionais e um fundo dedicado do BNDES, ainda que ocupe posição modesta no ranking global do setor.
Quais são os principais riscos apontados para esse ciclo de crescimento puxado por IA?
Economistas citam o risco de uma bolha nos ativos ligados à inteligência artificial, a concentração excessiva do crescimento global em um único motor e, no caso brasileiro, gargalos estruturais como capacidade da rede elétrica, tributação e dependência de infraestrutura digital importada.
Notas de verificação editorial (não publicar)
- Confirmar valor exato do superávit comercial de agosto/2026 do MDIC assim que o fechamento mensal for divulgado (dado usado é parcial, até a 3ª semana do mês).
- Verificar se o fundo do BNDES para IA/data centers já foi oficialmente lançado até a data de publicação, já que o anúncio estava previsto para "início de 2026".
- Checar andamento do Projeto de Lei 278/2026 (regime tributário Redata) antes da publicação, pois seu status legislativo pode mudar.
- Confirmar se a citação de Georgieva ("cabo de guerra") corresponde à coletiva mais recente (26/08/2026) e não a declarações anteriores semelhantes.
Ewerton Lopes — Curador Editorial