Apergunta parece provocadora, mas é legítima: se Einstein desenvolveu a Teoria da Relatividade, Pitágoras fundou a geometria e Leonardo da Vinci pintou a Mona Lisa enquanto comiam pouca ou nenhuma carne, por que hoje nos dizem que sem proteína animal nossa memória vai falhar?

Nos últimos sessenta anos, o mundo mudou radicalmente a forma como se alimenta. Segundo um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em junho de 2026, a oferta média global de carne por pessoa saltou de 25 kg por ano, em 1961, para 47 kg em 2022 — quase o dobro. O consumo de frango, em particular, cresceu cerca de seis vezes no período; o de suíno, ao menos duas vezes.

Essa curva ascendente de consumo aconteceu em paralelo com outro fenômeno igualmente acelerado: o surgimento de uma indústria bilionária dedicada a convencer pessoas de que elas precisam consumir ainda mais proteína — de preferência em pó, em cápsula, em barra, ou em qualquer formato que caiba num carrinho de supermercado.

O que Einstein comia — e o que pensava sobre isso

Albert Einstein passou a maior parte da vida comendo de forma relativamente simples, sem grande ênfase em proteína animal. Em carta de 1953, escreveu que "sempre comeu carne animal com um certo senso de culpa". No ano seguinte, aos 74 anos, adotou formalmente o vegetarianismo, registrando em correspondência: "Vivo sem gorduras, sem carne, sem peixe, mas me sinto muito bem assim. Sempre me pareceu que o homem não nasceu para ser carnívoro."

Antes disso, já havia escrito que "nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as chances de sobrevivência da vida na Terra como a evolução em direção a uma dieta vegetariana" — palavras que circulam há décadas, frequentemente citadas e frequentemente ignoradas.

"Sempre me pareceu que o homem não nasceu para ser carnívoro."

Albert Einstein — carta a Hans Muehsam, 30 de março de 1954

O argumento aqui não é o de que Einstein era vegetariano desde sempre — a biografia é mais complexa que isso, e os registros históricos indicam que ele formalizou a dieta apenas no último ano de vida. O argumento é outro: um dos maiores intelectos do século XX, aquele que reescreveu nossa compreensão do tempo e do espaço, não apenas funcionou perfeitamente com pouca carne durante décadas, como chegou a abraçar convictamente essa escolha ao final da vida. Junto dele, Da Vinci, Pitágoras e Goethe habitam a mesma linha do tempo de genialidade sem dependência de proteína animal em abundância.

Gerações que se moviam mais e comiam diferente

A geração dos nossos avós não contava macros. Não tinha aplicativos que calculavam ingestão proteica diária. Não carregava shakeira na bolsa. Comia feijão com arroz, verduras do quintal, carne algumas vezes por semana — e se movia fisicamente muito mais, seja pelo trabalho manual, pelas caminhadas diárias ou pela ausência de automóveis e telas que hoje prendem corpos em cadeiras por dez, doze horas por dia.

Ninguém, naquele mundo, descrevia aquelas gerações como cognitivamente comprometidas, com memória fraca ou sem energia. Elas construíram cidades, travaram guerras, ergueram nações, escreveram literatura e compuseram música. Fizeram isso com dietas que, pelos padrões do marketing nutricional contemporâneo, seriam consideradas "deficientes em proteína".

O que realmente mudou não foi a bioquímica humana. O que mudou foi o sedentarismo, o ultraprocessado, o estresse crônico, a privação de sono e — mais recentemente — o bombardeio de telas que fragmenta a atenção de forma inédita na história da espécie. Atribuir os problemas de memória e foco do mundo moderno à falta de proteína é, no mínimo, um diagnóstico conveniente para quem vende proteína.

O hype da proteína e quem ganha com ele

O mercado brasileiro de suplementos alimentares deve movimentar R$ 13,8 bilhões até 2030. O whey protein — proteína do soro do leite — já representa 74% das vendas de nutrição esportiva no país. O Brasil é o maior consumidor de whey da América do Sul, responsável por mais de 58% do mercado regional, com crescimento médio de 8% ao ano desde 2020. Uma única empresa líder do setor investiu mais de R$ 600 milhões em fábricas nos últimos cinco anos.

Esses números não provam que o suplemento seja prejudicial. Provam que há um interesse econômico extraordinário em fazer com que você acredite que precisa dele — e que sem ele sua memória vai falhar, seu músculo vai definhar, seu cérebro vai funcionar em modo de economia de energia. A narrativa da "proteína para o cérebro" é particularmente sedutora porque mistura uma verdade biológica indiscutível — aminoácidos são essenciais para o funcionamento neuronal — com uma extrapolação mercadológica: a de que pessoas comuns, com dietas razoáveis, estão em déficit crônico e precisam suplementar.

A evidência científica para essa segunda afirmação é muito mais tênue do que os rótulos sugerem. Estudos sobre cognição e suplementação proteica mostram resultados heterogêneos. A própria literatura acadêmica reconhece que "são necessários mais estudos" para definir o real impacto na cognição — expressão que, no meio científico, funciona quase como um eufemismo para "ainda não sabemos com segurança".

O que a ciência realmente diz sobre memória e dieta

Nutrientes associados à função cognitiva existem em abundância fora da carne: ácido fólico no feijão e nos vegetais verdes; zinco na castanha e na semente de abóbora; ferro no feijão-preto e na lentilha; vitamina B12 em ovos e laticínios. A dieta mediterrânea — predominantemente vegetal, com carne consumida moderadamente — é consistentemente associada pela literatura científica a melhor desempenho cognitivo em longo prazo.

O que está associado a pior memória, pior atenção e maior risco de declínio cognitivo? Ultraprocessados. Açúcar em excesso. Sedentarismo. Privação de sono. Estresse sem gestão. Isolamento social. Esses são os grandes inimigos do cérebro — e nenhum deles se resolve com uma dose de whey protein.

Ácido fólicoFeijão, vegetais verdes
FerroLentilha, feijão-preto
ZincoCastanha, semente abóbora
Vitamina B12Ovos, laticínios
Ômega-3Linhaça, chia, nozes

Questionar o hype não é negar a ciência

É importante deixar claro: proteína é essencial. Idosos precisam de atenção especial à ingestão proteica para prevenir sarcopenia. Atletas de alto rendimento têm demandas específicas. Pessoas com restrições alimentares severas podem se beneficiar de suplementação. Nada disso está em debate.

O que está em debate é a generalização: a ideia de que a pessoa comum, que come feijão com arroz, come ovo, come queijo, come frango algumas vezes por semana — está em déficit cognitivo por falta de proteína. Essa narrativa não é produto da ciência. É produto do mercado.

A geração que caminhou para o trabalho, comeu com a família sem distrações de tela, dormiu oito horas porque não havia streaming para maratonar, e mastigou carne poucas vezes por semana tinha memória. Tinha foco. Tinha energia. Construiu o mundo que herdamos.

Talvez o problema não seja o que falta no prato. Talvez seja o que sobrou — em excesso, em velocidade, em ruído — em tudo que cerca o prato.

Fonte principal: Ajit Niranjan, "Average person eats six times more chicken than in 1961, UN report finds", The Guardian, 5 jun. 2026. Disponível em: theguardian.com. Dados de mercado: Mordor Intelligence / ABIAD / Revista Imprensa Brasil (2026).