Caderno Tecnologia Cidades & Inovação · 31 de julho de 2026
Ilustração editorial: coleta urbana em dias de calor extremo — arte de O Tecido.

No distrito de Xuanwu, na cidade chinesa de Nanjing, garis passaram a trabalhar durante o verão vestindo um equipamento que até pouco tempo soava a ficção científica: um colete equipado com pequenos ventiladores nas laterais da cintura, que puxam ar para dentro da peça e criam uma corrente contínua de ventilação junto ao corpo. A iniciativa, noticiada pelo Diário do Povo, publicação estatal chinesa, integra um esforço mais amplo das autoridades locais para reduzir os riscos de exaustão térmica entre trabalhadores que passam o dia expostos ao sol.

Segundo o relato original, os coletes foram distribuídos recentemente aos agentes de limpeza urbana do distrito para amenizar os efeitos das temperaturas elevadas típicas do verão na província de Jiangsu, no leste da China. O mecanismo é simples: mini-ventiladores posicionados nos dois lados da cintura succionam o ar externo e o direcionam para o interior da peça, criando um fluxo que ajuda a dissipar o calor corporal e acelerar a evaporação do suor. É uma abordagem que se soma a outras já testadas em diferentes países para proteger trabalhadores braçais em ambientes externos.

Uma corrida tecnológica silenciosa

Coletes de resfriamento não são exatamente novidade, mas vêm passando por uma evolução acelerada nos últimos anos, puxada pelo aumento na frequência de ondas de calor em várias regiões do planeta. A literatura científica reconhece hoje pelo menos três famílias de tecnologia por trás dessas peças: sistemas com bolsas de gelo ou gel refrigerante, que resfriam por contato direto; coletes com materiais de mudança de fase (PCM, na sigla em inglês), capazes de absorver calor ao "derreter" internamente em temperaturas controladas; e revestimentos de resfriamento radiativo, que dissipam calor por meio de reflexão térmica passiva, sem qualquer fonte de energia.

Um estudo publicado na revista científica Nanomaterials testou coletes com revestimento de resfriamento radiativo e mediu reduções de mais de 5 graus Celsius na temperatura da superfície interna da peça, com ganhos de conforto térmico mais evidentes em ambientes com índice de bulbo úmido termômetro de globo (IBUTG) ao redor de 26°C. Já uma revisão internacional conduzida no âmbito do projeto europeu HEAT-SHIELD, que reuniu dados de milhares de trabalhadores em 14 países, apontou que coletes com PCM conseguiram reduzir entre 0,2°C e 0,5°C a temperatura corporal central de quem os usava, sem prejuízo ao desempenho cognitivo.

O modelo chinês adotado em Nanjing aposta em uma solução ainda mais simples e barata: ventilação mecânica ativa por microventiladores, sem necessidade de gelo, gel ou baterias de troca de fase. É uma escolha que privilegia baixo custo e manutenção mínima, características especialmente relevantes para frotas de trabalhadores públicos em grande escala.

Reduzir o calor percebido por quem trabalha sob o sol deixou de ser questão de conforto e passou a ser questão de saúde pública e produtividade.

O calor que também bate recorde no Brasil

Enquanto Nanjing testa seus coletes ventilados em pleno verão do hemisfério norte, o Brasil vive o próprio capítulo de uma temporada de calor atípica, mesmo em pleno inverno. Cuiabá (MT) registrou 38,6°C no fim de julho, novo recorde para 2026 e uma das marcas mais altas para o mês desde 2009. Dias antes, São Paulo havia registrado 37,2°C no Mirante de Santana, com aumento de 27% nos atendimentos por insolação e mal-estar relacionado ao calor na capital paulista. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) atribui o fenômeno à instabilidade climática provocada pela alternância entre La Niña e El Niño, com previsão de temperaturas acima da média para boa parte do país no trimestre julho–agosto–setembro.

Esse cenário coloca sob os holofotes justamente a categoria retratada na reportagem chinesa: os trabalhadores da limpeza urbana. Em junho, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) realizou uma ação inédita em municípios do interior de São Paulo para cobrar de prefeituras medidas de proteção térmica para garis, coletores de resíduos e podadores, categorias apontadas como as mais expostas ao calor extremo entre os trabalhadores públicos. A ação se apoiou nas Normas Regulamentadoras NR-38 (limpeza urbana e manejo de resíduos), NR-01 (gestão de riscos ocupacionais) e NR-15 (critérios de avaliação da exposição ao calor).

No Brasil, contudo, a resposta regulatória ainda se concentra em medidas estruturais e organizacionais, sombra, água, pausas programadas e ajuste de horários nos picos de calor, e não em equipamentos vestíveis de resfriamento ativo como o colete chinês. Dirigentes sindicais, como Eduardo Annunciato (Chicão), da Federação Nacional dos Urbanitários, têm cobrado a atualização das normas regulamentadoras diante do avanço das mudanças climáticas, mas a legislação brasileira sobre calor como agente insalubre segue vinculada principalmente a fontes artificiais de calor ligadas a processos produtivos, e não à exposição solar em si, uma lacuna que juristas trabalhistas apontam como um entrave à proteção de quem trabalha a céu aberto.

Contraponto

Especialistas em ergonomia térmica ponderam que coletes de resfriamento, qualquer que seja a tecnologia empregada, não substituem medidas estruturais de proteção ao trabalhador. Revisões científicas sobre o tema apontam limitações práticas relevantes: autonomia de bateria reduzida, desconforto no uso prolongado, custo de manutenção e a necessidade de complementar o equipamento com hidratação adequada, pausas de descanso e ajuste de jornada em horários de pico térmico.

Há também quem veja no colete um risco de "solucionismo tecnológico": a tentação de tratar como resolvido um problema estrutural, o das cidades cada vez mais quentes, com uma peça de vestuário, deixando em segundo plano políticas mais amplas de arborização urbana, jornadas adaptadas e fiscalização do cumprimento das normas de segurança do trabalho.

O que pode vir a seguir

Independentemente da tecnologia escolhida, a tendência observada tanto na China quanto em pesquisas ocidentais é a convergência entre vestíveis de resfriamento e sensores de monitoramento fisiológico. Projetos nos Estados Unidos já testam bandanas refrigerantes combinadas a sensores que alimentam modelos de aprendizado de máquina para prever risco de exaustão térmica antes que ela ocorra, uma direção que caminha para transformar o equipamento individual em parte de um sistema mais amplo de gestão de risco ocupacional. Se experiências como a de Nanjing vão inspirar prefeituras brasileiras a testar soluções semelhantes para seus garis, ou se o país seguirá priorizando medidas organizacionais e normativas, é algo que só as próximas temporadas de calor extremo dirão.

Este artigo foi baseado, em parte, na reportagem "Nanjing equipa garis com coletes com ar-condicionado", publicada pelo Diário do Povo Online (People's Daily) em 31 de julho de 2026, com apuração e fontes adicionais de O Tecido.