Caderno Tecnologia · IA corporativa6 de outubro de 2026
Em resumo

A Cohere, empresa canadense de inteligência artificial voltada ao mercado corporativo, lançou em 5 de outubro de 2026 o North 2, nova versão de sua plataforma de agentes para empresas. O produto chega na semana em que a OpenAI apresentou os Dots, agentes pessoais sempre ativos, e o Google anunciou o modelo Gemini 4 Argon. Em vez de disputar o título de modelo mais potente, a Cohere vende controle: instalação na infraestrutura do cliente, limites de gasto com tokens e liberdade para usar modelos de terceiros. No Brasil, onde 17% das empresas usavam IA em 2025 e o marco legal segue sem votação na Câmara, a disputa antecipa um debate sobre quem governa os dados quando o trabalho passa a ser executado por agentes.

O que a Cohere lançou

Poucas empresas escolheriam lançar seu principal produto dias depois de OpenAI e Google ocuparem o noticiário de tecnologia. A Cohere fez exatamente isso. Na segunda-feira, 5 de outubro, a empresa sediada em Toronto apresentou o North 2, descrito por ela como a maior atualização da plataforma até hoje2. Como registrou o jornal canadense La Presse, o lançamento acontece sob pressão direta das ferramentas corporativas que as duas gigantes americanas haviam acabado de mostrar1.

O North é uma camada de software que fica entre os modelos de linguagem e os sistemas da empresa. É ali que agentes de IA consultam documentos internos, acionam ferramentas e executam fluxos de trabalho. Segundo o site Unite.AI, a nova versão acrescenta memória que persiste entre sessões, um orquestrador redesenhado para tarefas de várias etapas e controles administrativos de custo, com opção de implantação em nuvem, em servidores do próprio cliente ou em ambientes totalmente desconectados da internet3. A plataforma ganhou conectores para Slack, SharePoint, OneDrive, Outlook, Exchange, Jira, Linear, Notion e GitHub, e a Cohere informa certificações como SOC 2 Tipo 2, ISO 27001 e ISO 42001, esta última específica para sistemas de gestão de IA3.

A mudança de natureza do produto é o ponto central. Em entrevista ao The Globe and Mail, a diretora de IA da Cohere, Joëlle Pineau, explicou que a primeira versão do North funcionava basicamente como um assistente de conversa capaz de buscar documentos internos e automatizar alguns fluxos4. O North 2, segundo o SiliconANGLE, passa a conduzir tarefas de múltiplas etapas por conta própria, com intervenção humana reservada aos pontos que exigem aprovação, além de permitir empacotar rotinas recorrentes como "habilidades" reutilizáveis pelos agentes5.

Uma semana dominada por agentes

O contexto ajuda a medir a aposta. Em 29 de setembro, na conferência DevDay, em São Francisco, a OpenAI apresentou os Dots, assistentes pessoais baseados no modelo GPT-6 Astra e descritos pela empresa como agentes sempre ativos6. Cada Dot opera com computador e navegador próprios na nuvem da OpenAI, conecta-se a milhares de aplicativos e pode ser acionado por mensagem. No palco, o presidente-executivo Sam Altman comparou a delegação de tarefas aos Dots àquela feita a um engenheiro experiente ou a um chefe de gabinete, conforme relatou o La Presse1. O lançamento também respondia à Meta, cujo agente Muse havia chegado ao topo das lojas de aplicativos poucas semanas antes, segundo o Yahoo Finance7.

No dia seguinte, o Google anunciou o Gemini 4 Argon, seu novo modelo de fronteira, orientado a programação, cibersegurança e trabalho corporativo complexo. O acesso começou restrito a especialistas em defesa cibernética do programa Fairwind, com liberação gradual e participação em um processo voluntário de testes pré-lançamento do governo americano8. O preço chamou a atenção: US$ 2 por milhão de tokens de entrada e US$ 10 por milhão de tokens de saída no período introdutório, valores que sobem para US$ 4 e US$ 20 depois8. O La Presse registrou que analistas de mercado, como Mark Mahaney, da Evercore ISI, classificaram a estratégia de preço como agressiva1. A CNBC observou, porém, que o acesso limitado dificulta testes independentes da capacidade real do modelo9.

A "terceira via" como produto

A Cohere não tenta vencer essa corrida no mesmo terreno. A tese defendida por Pineau ao La Presse é que, para as empresas, ter acesso ao modelo mais novo e maior importa menos do que a rapidez, a segurança e a responsabilidade com que a IA pode ser implantada em toda a organização1. O jornal canadense lembra que a empresa vem se apresentando como uma alternativa entre a IA dos Estados Unidos e a da China, mirando governos e organizações que exigem controle sobre dados e transparência1.

Essa posição ganhou escala institucional em 2026. Em abril, a Cohere anunciou a fusão com a alemã Aleph Alpha, operação apoiada pelos governos do Canadá e da Alemanha. Segundo o The Logic, a empresa resultante manterá o nome Cohere e o controle canadense, com o Grupo Schwarz, dono da rede Lidl, liderando uma rodada de financiamento de cerca de US$ 600 milhões e oferecendo sua nuvem Stackit para hospedar parte da tecnologia na Europa10. O acordo definitivo foi assinado menos de três semanas antes do lançamento do North 25.

Outro elemento da estratégia é a neutralidade de modelo. O North 2 aceita tanto os modelos da própria Cohere quanto os de concorrentes e alternativas de código aberto4. Na prática, a empresa admite que o diferencial não está apenas no modelo, mas no controle sobre como ele é usado. Entre os clientes citados estão o Royal Bank of Canada, a Bell e a Dell1, além da sul-coreana LG CNS2.

A Cohere não promete o modelo mais inteligente do mercado. Promete que o cliente saberá onde ele roda, quanto custa e quem pode desligá-lo.Análise · O Tecido

O custo entra na conta

Há um aspecto menos visível da disputa: o custo de operar agentes que trabalham continuamente. A CNBC lembra que rodar modelos poderosos é caro, sobretudo quando os agentes executam múltiplas tarefas sem parar9. O próprio Google já anunciou que o preço do Argon dobrará após a fase promocional8.

O North 2 responde a isso com limites de gasto de tokens configuráveis no console North Admin, permitindo que cada equipe receba modelos e orçamentos próprios5. A Cohere também destaca a parceria com a Nvidia, cuja vice-presidente de IA generativa, Kari Briski, afirmou que a plataforma ajuda a "entregar mais tokens por menos"5. O argumento da empresa resume-se a um trilema: ao adotar agentes, as companhias teriam aceitado abrir mão de segurança, capacidade ou controle de custos para obter os outros dois5.

SEGURANÇA CAPACIDADE CONTROLE DE CUSTO North 2 promessa: não abrir mão de nenhum
O trilema que a Cohere afirma resolver. Segundo a empresa, a adoção de agentes vinha exigindo sacrificar um dos três vértices. Elaboração: O Tecido, com base em informações do SiliconANGLE.

O que esse movimento diz ao Brasil

Nenhum dos anúncios da semana menciona o Brasil, mas a pergunta que eles colocam é diretamente relevante para o país. A adoção corporativa de IA ainda é baixa e concentrada. Segundo a pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br, a parcela de empresas brasileiras que usaram algum tipo de IA passou de 13% em 2023 e 2024 para 17% em 2025, o equivalente a cerca de 93 mil empresas11. O uso para automatizar processos e fluxos de trabalho lidera entre as aplicações, exatamente o território que os agentes pretendem ocupar.

No setor público, a preocupação com soberania já virou política. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028, e o governo trabalha com Serpro e Dataprev na implantação de uma nuvem de governo para proteger informações estratégicas, conforme relatou o Poder36012. Em agosto de 2026, o governo anunciou a compra de um supercomputador para aplicações de IA, com instalação prevista no Rio Grande do Norte, segundo o Movimento Econômico13.

O quadro regulatório avança de forma desigual. O PL 2338/2023, que cria o marco legal da IA, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, mas a ficha de tramitação da Câmara ainda registrava, em setembro de 2026, a situação de espera pelo parecer do relator14. Em contraste, o Redata, regime tributário para data centers, foi aprovado pelo Senado em 1º de setembro, com renúncia fiscal estimada em R$ 5,2 bilhões em 2026, segundo levantamento do Antihype15. O país, portanto, acelera a infraestrutura física enquanto as regras sobre o uso da tecnologia seguem em aberto.

Para bancos, operadoras de saúde, seguradoras e órgãos públicos brasileiros, o trilema descrito pela Cohere é concreto. A LGPD e as normas da ANPD sobre transferência internacional de dados já impõem cuidados a quem processa informações pessoais fora do país. Plataformas que rodam na infraestrutura do cliente e permitem trocar o modelo sem refazer toda a integração reduzem a dependência de um único fornecedor. Elas não resolvem, contudo, a ausência de uma alternativa nacional nessa camada. Para o Brasil, a "terceira via" canadense continua sendo uma tecnologia estrangeira, apenas com outro tipo de contrato.

Contraponto

Soberania tem limites técnicos. Mesmo instalado nos servidores do cliente, o North 2 depende de chips da Nvidia e, em muitos casos, de nuvens operadas por grandes empresas americanas. Para um país como o Brasil, trocar um fornecedor dos Estados Unidos por um canadense e alemão muda a jurisdição do contrato, mas não elimina a dependência externa.

A neutralidade de modelo pode jogar contra a própria Cohere. Se o cliente pode usar modelos de concorrentes dentro do North, o valor da empresa se desloca para a camada de orquestração, um mercado em que também atuam produtos como ChatGPT Enterprise e Microsoft Copilot e ferramentas de código aberto. Quanto mais os grandes laboratórios incorporarem controles de governança, menor tende a ser a distância entre as ofertas.

Capacidade ainda pesa. Modelos de fronteira como o Argon lideram testes em programação e cibersegurança. Em tarefas críticas, empresas podem preferir o desempenho máximo e negociar a governança depois, o que limita o alcance do argumento de que "suficientemente bom" basta.

O que acompanhar nos próximos meses

Quatro sinais devem indicar se a aposta da Cohere se sustenta. O primeiro é a conclusão da fusão com a Aleph Alpha e o ritmo de contratos com governos europeus. O segundo é o calendário de liberação do Gemini 4 Argon e o preço que o Google efetivamente praticará após a fase promocional. O terceiro é a resposta das empresas aos Dots, especialmente nas questões de permissões e revogação de acesso quando agentes operam sem supervisão contínua. O quarto, no caso brasileiro, é a retomada da votação do PL 2338/2023 na Câmara após o período eleitoral, que definirá as obrigações de quem desenvolve e de quem usa sistemas de IA no país.

Perguntas frequentes

O que é o Cohere North 2?

É a nova versão da plataforma de agentes de IA para empresas da canadense Cohere, lançada em 5 de outubro de 2026. Ela adiciona memória entre sessões, um orquestrador de tarefas em várias etapas e limites de gasto com tokens, e pode rodar em nuvem privada, em servidores próprios ou em ambientes isolados da internet, com modelos da Cohere ou de outros fornecedores.

Qual a diferença entre o North 2 e os Dots da OpenAI?

Os Dots são agentes pessoais sempre ativos que rodam na infraestrutura da OpenAI, dentro do ChatGPT. O North 2 é uma plataforma corporativa que a empresa pode instalar na própria infraestrutura, combinando modelos diferentes, com foco em governança e controle de custos.

O que significa IA soberana?

É o uso de inteligência artificial com dados, infraestrutura e regras de operação sob controle do país ou da organização usuária, reduzindo a dependência de um único fornecedor estrangeiro e facilitando o cumprimento de leis locais de proteção de dados.

O Gemini 4 Argon já está disponível?

Não para o público geral. Anunciado em 30 de setembro de 2026, foi liberado inicialmente a especialistas em defesa cibernética do programa Fairwind. O preço introdutório é de US$ 2 por milhão de tokens de entrada e US$ 10 por milhão de tokens de saída, valores que dobram após o período promocional.

O Brasil já tem lei para regular IA nas empresas?

Ainda não há lei específica em vigor. O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e, em setembro de 2026, aguardava parecer do relator na Câmara. Enquanto isso, o uso de dados pessoais por sistemas de IA segue regido pela LGPD e pelas normas da ANPD.

Este artigo foi produzido pela curadoria do O Tecido a partir da reportagem de Alain McKenna publicada pelo jornal La Presse em 5 de outubro de 2026 (leia o original), complementada por apuração independente em fontes canadenses, americanas e brasileiras. O texto não é tradução nem reprodução do original; informações atribuídas ao La Presse estão creditadas ao longo do artigo.

Ewerton Lopes — Curador Editorial