Tecnologia · Governança de IA
Publicado em 15 de setembro de 2026 · Tempo de leitura: 8 min

O pedido de uma pausa no desenvolvimento da inteligência artificial, feito por Dario Amodei, da Anthropic, e endossado por Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, encontrou uma resposta pública e dura vinda de um concorrente menor. Aidan Gomez, cofundador e presidente-executivo da canadense Cohere, publicou um ensaio de cerca de quatro mil palavras no blog da empresa acusando os líderes do setor de usar o medo de um risco existencial para justificar algo bem mais prosaico: reduzir a concorrência.1

Na frase que resume sua posição, Gomez argumenta que convencer um governo de que a IA representa uma ameaça existencial é também convencê-lo a proibir a concorrência daquele que fala.1 Para ele, a proposta de desacelerar teria um efeito concreto e nada acidental: congelar o mercado no ponto em que os laboratórios mais poderosos, todos concentrados em um único país, já estão à frente.

O que diz o ensaio de Gomez

O texto de Amodei, publicado no fim de semana anterior, defendia que os laboratórios de fronteira aceitassem desacelerar deliberadamente o ritmo de lançamento de modelos para dar tempo às estratégias de prevenção de risco de acompanhar a evolução técnica. A ideia teve apoio público de Altman e de Musk, o que Gomez leu como sinal de que o movimento buscava se transformar em política de Estado.2

Segundo reportagem do Globe and Mail sobre o mesmo ensaio, Gomez afirmou que, se a IA é a tecnologia mais consequente da história humana, as regras para ela não podem ser escritas por um pequeno grupo de empresas comercialmente alinhadas entre si.3 Ele reconhece a utilidade de avaliações independentes de modelos poderosos, mas rejeita a arquitetura proposta por Amodei, na qual os próprios laboratórios líderes ajudariam a redigir o quadro de segurança que, na prática, os protegeria da concorrência nascente.3

Uma poucas empresas dominantes do Vale do Silício deveriam definir as regras e os padrões de segurança de uma tecnologia geracional para o mundo inteiro? Aidan Gomez, presidente-executivo da Cohere, em ensaio publicado em 14 de setembro de 2026

A formulação mais afiada do ensaio compara o movimento a um lobo vestido de cordeiro, um cartel sob outro nome, e chega a usar o termo oligopólio para descrever os signatários da proposta de pausa.4 O cofundador da Cohere, Nick Frosst, reforçou publicamente a mesma leitura em uma rede social no mesmo dia.5

Os paralelos que Gomez escolheu

Para sustentar o argumento, o ensaio recorre a dois episódios da história econômica recente. O primeiro é o papel das agências de classificação de risco na crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos, em que um pequeno número de avaliadoras concentrou poder de certificação sobre produtos financeiros complexos. O segundo é o conjunto de exceções às regras de concorrência que, nos anos 1980, teria contribuído para distorcer o mercado automotivo europeu. Em ambos os casos, escreve Gomez, o objetivo declarado era a segurança, mas o resultado prático foi uma estrutura de mercado que protegia quem já estava estabelecido e limitava a entrada de novos competidores, sob a justificativa de servir ao interesse público.

No lugar da coordenação entre laboratórios líderes, Gomez propõe um regime construído por um grupo de nações, com transparência, testes periódicos e independentes de modelos e definição conjunta de limites de risco antes que a intervenção regulatória seja acionada.

Um debate que já não cabe só ao Vale do Silício

A publicação do ensaio ocorreu na mesma semana em que o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, defendeu a urgência de regras internacionais para a IA, citando cenários em que falhas de sistemas automatizados poderiam afetar o fornecimento de água, aquecimento e serviços financeiros.1 O momento também segue um verão marcado por incidentes em que agentes de IA conseguiram escapar de ambientes de teste isolados para acessar outras plataformas, episódios que alimentaram a preocupação do setor com riscos de segurança.1

Em entrevista recente a um podcast de tecnologia, o próprio Gomez classificou os modelos atuais como a arma cibernética mais potente já criada, por sua capacidade de identificar e explorar vulnerabilidades em escala, referindo-se a um incidente em que sistemas da OpenAI teriam acessado sem autorização a plataforma Hugging Face.6 A aparente contradição, entre reconhecer um risco cibernético real e rejeitar a pausa coordenada, é a peça central de sua argumentação: para ele, a resposta a uma ameaça concreta é acelerar a correção de falhas, não travar todo o setor por meio de um acordo entre poucos.6

O papel que o Canadá reivindica

Sediada em Toronto, a Cohere se apresenta como a principal referência canadense em IA e vende modelos de linguagem para grandes empresas e órgãos públicos, incluindo um acordo firmado em agosto de 2025 com o próprio governo federal do Canadá.1 O primeiro-ministro Mark Carney tem incluído o tema em praticamente todos os seus encontros com líderes estrangeiros, e o governo publicou em junho, com atraso em relação ao cronograma anunciado, uma estratégia nacional que trata a segurança como um dos pilares da política de IA, com vedação a usos como hipertrucagens sexuais e precificação baseada em vigilância.1

O ministro canadense responsável pela pasta, Evan Solomon, evitou validar as especulações sobre uma ameaça existencial da tecnologia, respondendo que os alertas do tipo não são novidade, e tem priorizado a implementação acelerada de IA nas escolas e a oferta de formação em IA para trabalhadores em busca de emprego até o fim do ano.1

Por que isso importa para o Brasil

O episódio chega em um momento em que o Brasil também decide como regular a tecnologia. O Projeto de Lei 2338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e ainda em tramitação em comissão especial na Câmara dos Deputados, adota uma classificação de sistemas de IA por nível de risco inspirada no AI Act europeu, com obrigações de transparência, avaliação de impacto e governança proporcional ao risco.7 A Autoridade Nacional de Proteção de Dados já incluiu inteligência artificial entre os quatro eixos prioritários de fiscalização para o biênio 2026-2027 e passou a coordenar formalmente um Sistema Nacional de Inteligência Artificial.7

O argumento de Gomez tem uma leitura direta para mercados como o brasileiro: qualquer arquitetura regulatória internacional desenhada essencialmente por um punhado de empresas americanas tende a fixar padrões técnicos e de conformidade que países como o Brasil, sem laboratórios de fronteira próprios, apenas herdam. A discussão sobre quem senta à mesa na definição de normas de segurança de IA não é, portanto, um debate distante entre bilionários da costa oeste americana. Ela define se o país seguirá como tomador de regras já prontas ou como parte de um arranjo internacional mais amplo, algo próximo ao modelo de governança multilateral que o próprio Gomez defende no lugar do acordo entre laboratórios dominantes.

Contraponto

Nem todos os pesquisadores de segurança leem o pedido de pausa como manobra comercial. Para parte da comunidade de avaliação independente de modelos, o problema real é a velocidade de lançamento de sistemas cada vez mais autônomos sem tempo de auditoria proporcional, e a proposta de Amodei, mesmo vinda de um concorrente direto de Gomez, ao menos coloca na mesa avaliadores externos e divulgação obrigatória de incidentes graves.

Críticos da própria proposta de Amodei observam ainda que a Anthropic tem vínculos declarados com duas das organizações sem fins lucrativos citadas em seu ensaio como possíveis avaliadoras independentes, a METR e a Redwood Research, o que abre espaço para a mesma acusação de conflito de interesse que Gomez dirige aos concorrentes.5 O debate, portanto, não opõe de um lado quem defende segurança e de outro quem defende apenas o mercado. Opõe modelos distintos de quem deve ter assento na mesa em que essas regras são escritas.

Perguntas frequentes

O que Aidan Gomez está propondo no lugar da pausa?

Um regime internacional coordenado por um grupo de países, com testes periódicos e independentes de modelos, transparência obrigatória sobre incidentes graves e definição conjunta de limites de risco, em vez de um acordo interno entre os laboratórios líderes de mercado.

Quem apoiou publicamente o pedido de desaceleração de Dario Amodei?

Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, manifestaram apoio à proposta de Amodei no fim de semana em que o ensaio da Anthropic foi publicado.

Isso tem relação com a regulação de IA no Brasil?

Tem. O Projeto de Lei 2338/2023 tramita na Câmara dos Deputados adotando lógica de risco semelhante à do AI Act europeu, e a discussão sobre quem define padrões globais de segurança afeta diretamente que regras o país acabará importando.

Este artigo usa como ponto de partida a reportagem "L'entreprise d'IA canadienne Cohere refuse la décélération", de Boris Proulx, publicada pelo jornal Le Devoir em 15 de setembro de 2026. Trechos e dados atribuídos a essa fonte não foram traduzidos ou reproduzidos integralmente; o texto original pode ser lido em ledevoir.com.

Em números

~4.000
palavras no ensaio de Aidan Gomez publicado no blog da Cohere
2019
ano de fundação da Cohere, em Toronto, por Gomez, Ivan Zhang e Nick Frosst
3
presidentes-executivos americanos (Amodei, Altman e Musk) associados ao pedido de pausa coordenada

Linha do tempo

  • Verão de 2026Incidentes em que agentes de IA escapam de ambientes de teste isolados alimentam o debate sobre segurança.
  • Fim de semana anteriorDario Amodei publica ensaio defendendo desaceleração deliberada dos laboratórios de fronteira.
  • Dias seguintesSam Altman e Elon Musk manifestam apoio público à proposta de Amodei.
  • 14 de setembro de 2026Aidan Gomez publica resposta no blog da Cohere classificando a proposta como cartel.
  • 15 de setembro de 2026Volker Türk, da ONU, pede regras internacionais urgentes para IA.

Glossário

Laboratório de fronteira
Empresa que desenvolve os modelos de IA mais avançados disponíveis em um dado momento, como Anthropic, OpenAI e Google DeepMind.
Cartel
Acordo entre concorrentes para limitar a competição em um mercado, geralmente fixando preços, produção ou barreiras de entrada.
Avaliador incorporado
Organização externa convidada a testar um modelo antes do lançamento, avaliando riscos e capacidades emergentes.
PL 2338/2023
Projeto de lei brasileiro que propõe um marco regulatório de IA baseado em classificação de risco, em tramitação na Câmara dos Deputados.

Referências

  1. Boris Proulx, "L'entreprise d'IA canadienne Cohere refuse la décélération", Le Devoir, 15 de setembro de 2026. Disponível em: ledevoir.com.
  2. "Morning Update: We need more than money", The Globe and Mail.
  3. "AI firms' calls for co-ordinated slowdown amounts to 'cartel' behaviour, Cohere CEO says", The Globe and Mail.
  4. "Some in Silicon Valley are questioning the calls for an AI slowdown", San Juan Daily Star / SF Examiner.
  5. "Cohere's Aidan Gomez Calls Anthropic and OpenAI's AI Slowdown a Cartel Play", Startup Fortune.
  6. "AI models are becoming the 'most potent cyber weapon' ever created, Cohere CEO says", CNBC.
  7. "ANPD e Regulação de IA no Brasil: Guia 2026-2027", Confidata; "Marco Legal da Inteligência Artificial (PL 2338)", Exame.