Nota de atribuição: este texto parte da coluna “Real men don’t do climate change”, de Pilita Clark, publicada no Financial Times. O Tecido não reproduz nem traduz o original; a análise abaixo foi construída com fontes independentes e dados brasileiros.
A crise climática costuma ser descrita como um problema de física, de economia ou de diplomacia. Uma linha crescente de pesquisa sugere que ela também é um problema de identidade. Homens, em média, se preocupam menos com o aquecimento global, apoiam menos políticas de corte de emissões e evitam com mais frequência hábitos associados à sustentabilidade. A explicação não está apenas em renda, ideologia ou escolaridade. Parte dela está na forma como a sociedade decidiu, sem que ninguém votasse nisso, que cuidar do planeta é uma atividade de mulher.
Em coluna recente no Financial Times, a colunista Pilita Clark reuniu estudos sobre essas diferenças de gênero e argumentou que campanhas e estratégias de comunicação sobre clima podem precisar ser repensadas. A própria reportagem resume uma das hipóteses centrais: alguns estudos indicam que homens sentem ter mais a perder com as políticas de combate à mudança do clima.1 A questão interessa diretamente ao Brasil, país que sediou a COP30 e onde a transição energética depende de setores com força de trabalho majoritariamente masculina, como agropecuária, mineração e transporte de cargas.
O que os dados mostram sobre homens, mulheres e clima
O padrão aparece em levantamentos de diferentes países e metodologias. Nos Estados Unidos, um levantamento de 2025 do Environmental Voter Project com cerca de 10,5 mil eleitores registrados indicou que 62% das mulheres colocam clima ou meio ambiente entre suas prioridades políticas, contra 37% dos homens, com a maior distância entre os eleitores jovens.9 Na Alemanha, o Peoples’ Climate Vote 2024, do PNUD, encontrou 75% das mulheres e 58% dos homens defendendo compromissos climáticos mais fortes, o maior hiato entre os grandes emissores pesquisados.8
No Reino Unido, uma pesquisa da Nesta registrou que os homens conhecem mais o conceito de net zero, mas se dizem menos preocupados com a mudança climática (78% contra 85% das mulheres). O dado é revelador: informação não é o que falta. Os homens britânicos também eram mais propensos a prever impacto econômico negativo da transição, tanto no curto quanto no longo prazo.10
A visão mais ampla vem do Programa de Comunicação sobre Mudança Climática da Universidade Yale, que analisou dados de mais de 100 países em parceria com a Meta. Nos países de alta renda e alta emissão per capita, 36% das mulheres se classificam como “alarmadas” com o clima, contra 30% dos homens, e a fatia que considera o tema prioridade “muito alta” para o governo cai de 39% entre elas para 34% entre eles. Nos países de baixa renda, essa diferença praticamente desaparece.7
Por que a pauta verde parece “feminina”
A hipótese mais estudada tem nome: estereótipo verde-feminino. Em 2016, pesquisadores das universidades de Notre Dame, Utah State e outras instituições publicaram no Journal of Consumer Research uma série de sete experimentos com mais de 2 mil participantes. Eles mostraram que tanto homens quanto mulheres percebem consumidores de produtos ecológicos como mais femininos, e que homens tendem a evitar esses produtos para proteger a própria identidade de gênero.2
Os experimentos foram desenhados para medir o efeito na prática. Quando a masculinidade de um participante era sutilmente ameaçada, por exemplo com um cartão-presente rosa e floral, ele escolhia menos itens sustentáveis. Quando a masculinidade era afirmada, a disposição aumentava. Numa concessionária BMW na China, trocar apenas o nome de um modelo de baixa emissão, mantendo o resto da descrição idêntico, elevou o interesse masculino pelo carro.2
Pesquisas mais recentes deslocaram o foco do consumo para a crença. Um estudo publicado em 2025 no Journal of Environmental Psychology, assinado por Michael Haselhuhn, analisou dados de mais de 40 mil respondentes do European Social Survey e um segundo grupo de 401 adultos americanos. O resultado: homens com mais ansiedade em relação à própria masculinidade expressam menos preocupação com o clima e menos senso de responsabilidade pessoal. Entre mulheres, a relação equivalente não apareceu.3
Na Alemanha, pesquisadoras do instituto WSI, ligado à Fundação Hans Böckler, usaram o Painel Socioeconômico (SOEP) para comparar homens com perfis semelhantes, diferindo apenas nas visões sobre papéis de gênero. Só 7% dos homens com visões mais progressistas disseram não estar preocupados com as consequências da crise climática, contra 25% dos que têm visões tradicionais. Cada nível a mais de tradicionalismo reduz em cerca de 26% a probabilidade de preocupação, um efeito que se soma ao da ideologia política.4
O problema não parece ser falta de informação. Homens conhecem os termos da transição; o que resistem é ao papel social que acreditam estar associado a ela.
A hipótese da perda: quem acha que vai pagar a conta
A segunda explicação é material. Uma revisão publicada em 2026 na NORMA: International Journal for Masculinity Studies, com mais de 20 pesquisadores de 13 países sob coordenação do sociólogo Jeff Hearn, lembra que homens concentram propriedade, gestão e emprego em indústrias pesadas, extrativas e intensivas em carbono, além de terem pegada maior em transporte, turismo e consumo de carne.5 Segundo dados reunidos no dossiê, a carne vermelha e o carro respondem pela maior parte dessa diferença.5
Esse ponto ajuda a entender a percepção de perda descrita pelo Financial Times. Se a descarbonização é apresentada como fim do motor a combustão, redução do churrasco e reestruturação de setores como petróleo, mineração e frete rodoviário, ela fala diretamente com ocupações, hábitos e símbolos que a cultura associa ao masculino. A resistência, nesse caso, não é apenas ideológica. Ela tem endereço, carteira de trabalho e conta bancária.
Os autores da revisão fazem uma ressalva relevante: os padrões mais nocivos aparecem sobretudo entre homens ricos, brancos e de países do Norte global, não entre homens pobres do Sul global.5 A advertência importa para a leitura brasileira, porque desloca o debate de uma oposição genérica entre sexos para uma questão de renda, poder e posição na economia.
O recorte brasileiro
No Brasil, o hiato existe, mas convive com níveis de preocupação elevados em ambos os sexos. A quarta rodada da pesquisa Mudanças Climáticas na Percepção dos Brasileiros, do ITS-Rio com a Ipsos-Ipec, ouviu 2.600 pessoas entre outubro e novembro de 2025. Metade da população se declara muito preocupada com o meio ambiente: 55% das mulheres e 45% dos homens. No outro extremo, 8% dos homens dizem não ter nenhuma preocupação, contra 3% das mulheres.11
A diferença reaparece quando a pergunta se aproxima da vida pessoal. Para 87% dos brasileiros, o aquecimento global pode prejudicar muito as gerações futuras; entre as mulheres, a taxa sobe para 91%. Já a percepção de que o fenômeno pode prejudicar muito a própria pessoa e sua família atinge 70% da população e 76% das mulheres.11 Outro levantamento, conduzido pela organização C de Cultura com parceria técnica da PUC-RS, encontrou 94,2% das mulheres considerando a pauta climática essencial, contra 84,4% dos homens.12
Há, porém, uma nuance que o debate internacional costuma ignorar. Quando a pergunta é sobre perceber os efeitos do clima no cotidiano, a distância quase some: em pesquisa Datafolha de 2024, 96% dos homens e 98% das mulheres disseram notar as mudanças climáticas no dia a dia.13 O brasileiro sente o calor e a seca. O que diverge é o peso que cada grupo atribui ao problema e a disposição de agir sobre ele.
E esse peso, no conjunto, segue baixo. Em levantamento da Ipsos para o Observatório do Clima divulgado em setembro de 2026, mudanças climáticas e crise ambiental aparecem apenas em nono lugar entre as preocupações nacionais, citadas por 19% dos entrevistados.14 Num país em que o tema já disputa espaço com segurança, saúde e custo de vida, perder o engajamento de metade da população por uma questão de enquadramento é um custo político considerável.
O que muda para campanhas, empresas e governos
Se a resistência masculina tem componentes de identidade e de interesse material, a resposta precisa endereçar os dois. Do lado da identidade, os experimentos sugerem que o enquadramento importa tanto quanto o conteúdo. Mensagens centradas em culpa individual, renúncia e cuidado tendem a ativar o estereótipo verde-feminino. Mensagens centradas em economia, desempenho técnico, autonomia e proteção da família tendem a reduzi-lo.
O Brasil já tem um caso que ilustra o ponto. A energia solar residencial se expandiu sem depender de apelo ambiental: foi vendida como economia na conta de luz e independência da distribuidora. Na pesquisa do ITS-Rio, a fatia de brasileiros que diz usar energia solar ou outra fonte não poluente em casa subiu de 12% em 2022 para 18% em 2025.11 O mesmo comportamento, apresentado como renúncia, teria encontrado mais resistência.
Do lado material, a pesquisa da Nesta mostra que a preocupação masculina com o custo da transição é concreta.10 Políticas que mexem com combustíveis, frete, agropecuária e mineração precisam de mecanismos visíveis de compensação, requalificação e transição de emprego, comunicados por mensageiros com credibilidade nesses setores: engenheiros, produtores rurais, sindicatos, caminhoneiros. Em um país que viveu em 2018 uma paralisação nacional de transportadores motivada pelo preço do diesel, a lição não precisa ser explicada.
Há, por fim, uma implicação para o próprio debate público. Tratar o hiato de gênero como defeito moral dos homens tende a aprofundá-lo, porque confirma a percepção de que a pauta climática fala contra eles. Tratá-lo como dado de comportamento, a ser compreendido e incorporado ao desenho de políticas e campanhas, é o caminho que a evidência disponível recomenda.
Perguntas frequentes
Homens se preocupam menos com a mudança climática do que mulheres?
Na maior parte das pesquisas, sim. No Brasil, a 4ª rodada do estudo do ITS-Rio com a Ipsos-Ipec (2025) mostrou que 55% das mulheres e 45% dos homens se dizem muito preocupados com o meio ambiente. A diferença é mais acentuada em países ricos e de alta emissão, segundo a Universidade Yale.
O que é o estereótipo verde-feminino?
É a associação, compartilhada por homens e mulheres, entre comportamentos ecológicos e feminilidade. Estudo publicado no Journal of Consumer Research em 2016 mostrou que ela leva parte dos homens a evitar produtos e hábitos sustentáveis para preservar uma imagem masculina.
Por que homens resistem mais a políticas climáticas?
As explicações mais citadas são a percepção de que terão mais a perder economicamente com a transição, a concentração masculina em setores intensivos em carbono e a adesão a normas tradicionais de masculinidade, associadas a menor preocupação com o clima em estudos na Alemanha, na Europa e nos EUA.
O hiato de gênero climático existe em todos os países?
Não de forma uniforme. Dados da Yale para 103 países mostram que, em países em desenvolvimento, mulheres são menos propensas a reconhecer a causa humana do aquecimento, efeito ligado a desigualdades educacionais. O hiato de preocupação a favor das mulheres é típico de países ricos.
Como a comunicação climática pode alcançar mais homens?
As pesquisas sugerem enquadrar a agenda em termos de economia, competência técnica, proteção da família e segurança, escolher mensageiros com credibilidade nesses grupos e evitar mensagens que soem como julgamento moral. Experimentos mostram que até o nome dado a um produto altera o interesse masculino.