Sustentabilidade · Clima

Este artigo tem como ponto de partida a reportagem de Manuel Planelles publicada pelo jornal espanhol EL PAÍS em 14 de outubro de 2026. O texto a seguir é uma análise independente do O Tecido, com fontes adicionais e foco no contexto brasileiro.

O planeta não apenas continua aquecendo: ele aquece cada vez mais depressa. Essa é a conclusão central da sétima edição do relatório anual sobre os "sinais vitais" da Terra, coordenado pelos cientistas William J. Ripple e Christopher Wolf e publicado nesta semana na revista científica BioScience. Segundo o levantamento, sete dos 16 indicadores climáticos acompanhados pelo grupo estão em níveis recordes, e a velocidade do aquecimento global quase dobrou na comparação com as décadas anteriores.1

O dado que mais chama atenção é a curva de aceleração. Entre 1880 e 1970, a temperatura média global subia cerca de 0,05 °C por década. Entre 1970 e 2010, o ritmo passou para 0,19 °C. No período de 2010 a 2024, chegou a 0,36 °C por década, conforme os números do estudo reportados pelo EL PAÍS.1 Em termos práticos, o mundo está aquecendo hoje cerca de sete vezes mais rápido do que no primeiro século de registros instrumentais.

0 0,20 0,40 0,05 °C 0,19 °C 0,36 °C 1880-1970 1970-2010 2010-2024 Aumento da temperatura média global (°C por década)
Fonte: relatório de Ripple, Wolf e colaboradores (BioScience, 2026), conforme reportado pelo EL PAÍS. Elaboração: O Tecido.

O que significa dizer que o aquecimento está acelerando

A tese da aceleração não depende de um único relatório. Em março de 2026, uma equipe do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK), da Alemanha, publicou na Geophysical Research Letters uma análise que, depois de remover influências naturais conhecidas como o El Niño e a atividade solar, identificou pela primeira vez uma aceleração estatisticamente significativa da tendência de aquecimento a partir de 2015. A taxa estimada para a última década ficou em torno de 0,35 °C, contra pouco menos de 0,2 °C entre 1970 e 2015, segundo o comunicado do instituto.2 O autor principal, Stefan Rahmstorf, afirmou que o resultado se repete em todas as bases de dados examinadas, com certeza estatística superior a 98%.3

O relatório da BioScience acrescenta à curva de temperatura um conjunto de sintomas que reforçam o diagnóstico. As concentrações dos três principais gases de efeito estufa estão nos níveis mais altos em milhares de anos; no caso do dióxido de carbono, o patamar atual é o mais alto dos últimos dois milhões de anos. O calor acumulado nos oceanos, a elevação do nível do mar, a perda de gelo da Groenlândia e o derretimento das geleiras completam a lista de indicadores em recorde.1

A consequência apontada pelos autores é direta: um aquecimento mais veloz encurta o tempo disponível para adaptação, aumenta a chance de ultrapassar limiares críticos e reduz a margem para evitar danos irreversíveis.1

Retroalimentação: quando o clima passa a empurrar a si mesmo

O ponto mais sensível do estudo não está nos recordes isolados, mas na possibilidade de que eles comecem a se reforçar mutuamente. Os cientistas descrevem sinais de um sistema climático que acumula calor e estresse em velocidade superior à prevista, com aumento do desequilíbrio energético do planeta e enfraquecimento dos sumidouros naturais de carbono, isto é, florestas, solos e oceanos que absorvem parte do CO₂ emitido pela atividade humana.1

O exemplo mais claro é o fogo. O aquecimento torna os incêndios mais frequentes e mais difíceis de conter; os incêndios, por sua vez, liberam carbono e intensificam o aquecimento. O EL PAÍS cita os incêndios que atingiram a Espanha no verão europeu de 2026 como ilustração recente desse circuito.1 É o que a ciência chama de retroalimentação positiva: o efeito realimenta a causa.

Foi para traduzir esse risco que o economista ecológico Unai Pascual, do Basque Centre for Climate Change (BC3) e coautor desta edição, recorreu a uma comparação com a inteligência artificial em entrevista ao jornal espanhol. A preocupação com sistemas de IA que se retroalimentam e escapam ao controle humano, disse ele, já tem um paralelo concreto no clima.

"Estamos gerando um sistema que não vamos poder controlar."Unai Pascual, BC3, em entrevista ao EL PAÍS

Onde o Brasil entra nessa equação

A imagem que ilustra a reportagem espanhola é brasileira: a ponte sobre o Rio Negro, em Manaus, parcialmente encoberta pela fumaça de queimadas na Amazônia. A escolha não é casual. A floresta amazônica é provavelmente o caso mais estudado de um grande sumidouro de carbono sob risco de inversão.

Em 2021, um estudo publicado na Nature e liderado pela pesquisadora Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrou que porções da Amazônia, sobretudo no sudeste da região, já emitiam mais carbono do que absorviam, com desmatamento e queimadas como principais vetores.4 Em maio de 2026, um trabalho do PIK com participação de pesquisadores brasileiros combinou, num mesmo modelo, a taxa de desmatamento e a taxa de aquecimento global. O resultado indica que, com cerca de 17% da floresta já desmatada, a Amazônia pode entrar numa zona crítica de não retorno se a perda chegar a 22%.5

O dado relevante aqui é a interação. Desmatamento reduz a capacidade da floresta de reciclar umidade e produzir chuva; menos chuva torna a floresta mais seca e inflamável; mais fogo significa mais emissões e mais aquecimento. É a mesma lógica de retroalimentação descrita no relatório global, operando em escala regional e com consequências continentais, já que a umidade amazônica abastece chuvas no Centro-Oeste e no Sudeste do país.

Os sinais em sentido contrário

Há, porém, um movimento brasileiro que vai na direção oposta e que merece registro. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, o sistema Deter, do Inpe, registrou 2.874 km² sob alerta de desmatamento na Amazônia, queda de 36,87% em relação ao ciclo anterior e a menor área desde o início da série atual, em 2016.6 O dado oficial do Prodes, que consolida a taxa anual, deve ser divulgado nos próximos meses. No fogo, o Relatório Anual do MapBiomas apontou 12,7 milhões de hectares queimados em 2025, praticamente metade da área de 2024 e 31% abaixo da média histórica.7

Esses números não anulam o diagnóstico global, mas mostram que uma das alavancas da retroalimentação amazônica, o desmatamento, responde a política pública. O aquecimento, ao contrário, depende de emissões que ocorrem no mundo inteiro.

Energia, geopolítica e a transição possível

O relatório também registra o que chama de sinais encorajadores: a rápida expansão da eletricidade renovável e do armazenamento em baterias, ainda que em escala e velocidade muito inferiores ao necessário.1 Os autores observam que as guerras envolvendo o Irã e a Ucrânia expuseram a fragilidade de sistemas energéticos dependentes de cadeias de suprimento de combustíveis fósseis, o que pode acelerar a busca por fontes renováveis domésticas. Ao mesmo tempo, o acirramento das tensões geopolíticas ameaça acordos multilaterais sobre o clima.1

O Brasil parte de uma posição singular. Segundo o Balanço Energético Nacional da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a matriz elétrica do país atingiu 88,2% de participação renovável em 2024, com eólica e solar somando cerca de 24% da geração.8 Mas a dependência da hidreletricidade revela outra face da retroalimentação: dados preliminares de 2025 indicam que a fatia renovável recuou para 86,8%, com menor geração hidrelétrica e maior uso de térmicas a gás, mesmo com o avanço de eólica e solar para 26,4%.9 Num clima mais instável, chuva irregular se converte em despacho fóssil, e despacho fóssil em mais emissões.

Perguntas frequentes

O aquecimento global está mesmo acelerando?

Sim. O relatório de Ripple e Wolf publicado na BioScience em outubro de 2026 estima uma taxa de 0,36 °C por década entre 2010 e 2024, ante 0,19 °C entre 1970 e 2010. Um estudo independente do Instituto Potsdam, de março de 2026, encontrou aceleração estatisticamente significativa a partir de 2015, com taxa próxima de 0,35 °C por década.

O que é retroalimentação climática?

É quando um efeito do aquecimento amplifica a própria causa. Exemplos: incêndios florestais que liberam carbono, perda de gelo que reduz a reflexão da luz solar e florestas que, ao secar, deixam de absorver CO₂ e passam a emiti-lo.

Quantos sinais vitais do planeta estão em nível recorde?

Segundo a edição de 2026 do relatório, 7 de 16 indicadores estão em extremos recordes: as concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, o calor dos oceanos, o nível do mar, a perda de gelo na Groenlândia e o derretimento de geleiras.

Por que a Amazônia é central nesse debate?

Porque é um dos maiores sumidouros de carbono do planeta e está sob risco de inversão. Estudos indicam que partes da floresta já emitem mais carbono do que absorvem e que a combinação de desmatamento e aquecimento pode levar a um ponto de não retorno se a perda de vegetação chegar a cerca de 22%.

O Brasil está reduzindo o desmatamento?

Sim. Os alertas do sistema Deter, do Inpe, somaram 2.874 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, queda de 36,87% e o menor valor desde 2016. A taxa oficial do Prodes para o período ainda será divulgada.

Ewerton Lopes — Curador Editorial, O Tecido