Em Veneza, a plateia aplaudiu por 25 minutos seguidos. Em Israel, o governo respondeu com ameaças de cassar a cidadania de dois cineastas.1 O contraste entre essas duas reações resume, com uma nitidez incomum, o momento que o cinema israelense atravessa: quanto mais reconhecimento internacional um filme crítico ao Estado recebe, maior é a pressão política interna para silenciá-lo. O caso mais recente é o do documentário NAZA, dirigido por Yuval Abraham e Rachel Szor, vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza em setembro de 2026.2
Um filme, uma ovação e uma ameaça de cidadania cassada
NAZA foi filmado às escondidas em terraços de Tel Aviv ao longo de cerca de três anos e reúne depoimentos de aproximadamente vinte a vinte e quatro militares e agentes de inteligência israelenses, que descrevem o uso de sistemas apoiados em inteligência artificial na seleção de alvos durante a ofensiva em Gaza.3 O título vem de Nezek Agavi, termo do jargão militar israelense equivalente a "dano colateral".3 Abraham e Szor já haviam dividido um Oscar de melhor documentário em 2025 por No Other Land, ao lado dos palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal.2
A reação à premiação em Veneza veio em menos de 24 horas. O ministro da Cultura, Miki Zohar, chamou o filme de "vil" e anunciou que agiria "imediatamente" para revogar a cidadania dos diretores, classificando o resultado como uma "traição ao Estado".4 O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu foi além, descrevendo a recepção do filme em Veneza como "incitação antissemita global" e anunciando que apresentaria projetos de lei para cassar a cidadania da dupla e abrir processos por difamação.3 O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel também sinalizou a possibilidade de ação judicial, classificando as acusações contra soldados como caluniosas.3
A resposta do meio cinematográfico foi rápida: mais de 200 cineastas israelenses assinaram um manifesto de solidariedade a Abraham e Szor na semana seguinte à cerimônia de Veneza, classificando a ofensiva contra os diretores como uma "campanha sem precedentes de incitação".3
O aparato estatal contra o cinema crítico
O episódio de NAZA não é um incidente isolado, mas o ponto mais agudo de uma tendência que já dura cerca de uma década, segundo cineastas ouvidos pelo El País.1 Em Israel, os diretores não recebem verba diretamente do Ministério da Cultura: o governo repassa cerca de 130 milhões de shéquels (pouco mais de 37 milhões de euros) por ano a fundos de cinema independentes, entidades sem fins lucrativos que decidem quais projetos financiar.1 Não existe uma diretriz formal sobre conteúdo político, mas os ataques recorrentes de autoridades a filmes críticos criam, na prática, um efeito dissuasório sobre que tipo de roteiro chega a sair do papel.1
Esse mecanismo indireto de pressão ficou visível também no caso dos prêmios Ophir, o equivalente israelense ao Oscar. Depois que The Sea, sobre um garoto palestino tentando ver o Mediterrâneo pela primeira vez, venceu a maioria das categorias em 2025, Zohar chegou a ameaçar cortar o financiamento da premiação e criou, em paralelo, uma cerimônia alternativa custeada pelo governo.1 Na edição de 2026 dos Ophir, realizada em 9 de setembro, o grande vencedor foi Tell Me Everything, drama familiar ambientado nos anos 1980 sobre a crise da aids, seguido por Where To, que trata da relação entre israelenses e palestinos, mas se passa em Berlim, à distância segura da realidade cotidiana dos territórios ocupados.1
A autocensura como efeito colateral
Jornalistas especializados em cinema apontam que o resultado mais duradouro dessa pressão não são os filmes proibidos, mas os filmes que nunca chegam a ser propostos. Segundo a crítica de cinema Nirit Anderman, do jornal Haaretz, um diretor que hesita entre um drama familiar e uma sátira política mordaz tende a escolher o primeiro, simplesmente porque sabe que suas chances de conseguir financiamento serão maiores.1 Esse cálculo, silencioso e individual, é o que torna a autocensura mais difícil de medir do que a censura declarada.
Contraponto
O governo israelense e setores da opinião pública rejeitam a leitura de que a reação a NAZA configure censura estatal. As Forças de Defesa de Israel negaram publicamente as alegações do documentário, argumentando que o filme se apoia em testemunhos anônimos cuja identidade e função militar não podem ser verificadas de forma independente.3 Do ponto de vista do governo, criticar publicamente um filme, ou mesmo buscar vias legais contra ele, é diferente de impedir sua exibição: NAZA foi exibido e premiado internacionalmente, e nenhum mecanismo formal de censura prévia foi usado para barrar sua produção. Vale notar também que Israel segue sendo o único país da região onde documentários dessa natureza podem ser filmados, premiados e discutidos publicamente, ainda que sob forte custo pessoal para seus autores.
A antessala das eleições
O momento político amplifica a disputa. Israel tem eleições legislativas marcadas para o fim de outubro de 2026, e cineastas ouvidos pelo El País descrevem um temor concreto: se Netanyahu for reeleito, a margem para produzir cinema crítico ao Exército ou à ocupação dos territórios palestinos pode se estreitar ainda mais, com riscos que vão além da carreira profissional.1 Paralelamente, artistas israelenses relatam dificuldade crescente para circular fora do país, à medida que festivais e instituições culturais internacionais passam a tratar sua presença como um problema em si.1
O pano de fundo estrutural ajuda a explicar por que essas ameaças pontuais têm efeito. O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2026, da Repórteres Sem Fronteiras, colocou Israel na 116ª posição entre 180 países, uma queda de quatro posições em relação a 2025, com destaque para o colapso do indicador legal, associado a leis antiterrorismo de interpretação ampla e à censura militar prévia sobre temas de segurança.6 Cinema e jornalismo crítico, nesse cenário, competem pelo mesmo espaço institucional cada vez mais estreito.
O paralelo brasileiro: quando o financiamento vira instrumento de controle
O caso israelense tem um eco reconhecível no Brasil, embora em contexto e escala diferentes. Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro acusou a Agência Nacional do Cinema (Ancine) de praticar "ativismo" e ameaçou extinguir o órgão caso não fosse possível aplicar "filtros culturais" à seleção de obras financiadas com recursos públicos, chegando a citar nominalmente produções que considerava inadequadas.7 Na época, produtores que buscavam recursos do Fundo Setorial do Audiovisual já eram obrigados a declarar se seus projetos continham conteúdo político ou sexual explícito, uma exigência lida por parte do setor como um mecanismo indireto de censura prévia.7 O setor audiovisual brasileiro movimentava, à época, cerca de R$ 25 bilhões por ano, equivalentes a 0,46% do PIB, e empregava aproximadamente 98 mil pessoas, números que davam ao embate uma dimensão econômica, além de simbólica.7
A comparação entre os dois episódios não é de conteúdo, mas de mecanismo: em ambos os casos, o instrumento de pressão não é a proibição direta de um filme, mas o controle sobre o financiamento e a legitimidade institucional de quem o produz. Isso reforça um ponto estrutural que vale para qualquer democracia com um setor audiovisual dependente de fundos públicos ou semipúblicos: a autonomia editorial da cultura depende menos da inexistência de leis de censura do que da blindagem efetiva das agências e fundos que decidem o que recebe recursos. Onde essa blindagem é frágil, a pressão política encontra um atalho administrativo para produzir o mesmo efeito que a censura direta produziria.
Nota de atribuição
Este texto usa como referência central a reportagem "La asfixia de los cineastas israelíes: 'La cultura crítica se considera un acto de traición'", de Beatriz Lecumberri, publicada pelo jornal espanhol El País em 21 de setembro de 2026. Os depoimentos de cineastas israelenses citados neste artigo, incluindo os de Uri Rosenwaks, Shai Carmeli-Pollak, Nirit Anderman, Noam Sheizaf e Avi Mograbi, foram originalmente colhidos por essa reportagem e são aqui referenciados com crédito integral, sem tradução ou reprodução do texto original. Dados factuais adicionais sobre o filme NAZA, a premiação em Veneza e o contexto político foram apurados de forma independente em fontes citadas na seção de referências.
Perguntas frequentes
O que é o documentário NAZA e por que ele gerou tanta polêmica em Israel?
NAZA é um documentário dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, construído a partir de depoimentos de cerca de vinte a vinte e quatro militares e agentes de inteligência sobre o uso de sistemas de inteligência artificial na seleção de alvos durante a ofensiva em Gaza. O filme venceu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza de 2026 e provocou reação imediata do governo israelense, que classificou a obra como traição ao Estado.
O governo de Israel pode mesmo revogar a cidadania dos diretores?
O ministro da Cultura, Miki Zohar, e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciaram intenção de apresentar medidas legais para revogar a cidadania de Yuval Abraham e Rachel Szor, mas a efetivação de uma medida desse tipo dependeria de tramitação legislativa e enfrentaria, muito provavelmente, contestação judicial. Até a publicação deste artigo, tratava-se de uma ameaça política, não de uma medida consumada.
Como funciona o financiamento do cinema em Israel e por que ele é um ponto de pressão?
O Ministério da Cultura israelense não financia diretores diretamente. Os recursos, cerca de 130 milhões de shéquels por ano, passam por fundos de cinema independentes e sem fins lucrativos, que decidem quais projetos apoiar. Ataques públicos recorrentes de autoridades a filmes críticos criam um efeito dissuasório sobre esses fundos e sobre os próprios diretores, mesmo sem uma regra formal de censura de conteúdo.
Existe um paralelo desse tipo de pressão no Brasil?
Sim. Em 2019, o governo brasileiro ameaçou extinguir ou reestruturar a Agência Nacional do Cinema (Ancine) sob a justificativa de combater o "ativismo" em produções financiadas com recursos públicos, em um episódio frequentemente citado como exemplo de uso do financiamento estatal como instrumento de controle editorial sobre a cultura.