Opinião · Consumo e trabalho
Em Lanzarote, nas Canárias, o dono de um restaurante com nota alta contou à repórter do El País que precisou parar de ler as avaliações dos clientes todos os dias. Uma crítica ruim bastava para estragar o dia e, às vezes, a noite de sono1. A cena é pequena, mas resume um fenômeno que atravessa o Atlântico sem escala: a avaliação online, criada para orientar o consumidor, passou a governar a rotina de quem cozinha e de quem serve.
O vídeo do jornal espanhol, que chama o fenômeno de “ditadura das reviews”, levanta uma pergunta que merece ser levada a sério no Brasil. Muitos garçons e garçonetes são obrigados por seus superiores a pedir uma avaliação ao cliente no fim da refeição. Isso é justo1? A resposta curta é não. A resposta longa exige olhar para quanto vale uma estrela, quem paga por ela e quem a falsifica.
Quanto vale uma estrela
A pressão não é paranoia de empresário. O economista Michael Luca, da Harvard Business School, cruzou avaliações do Yelp com dados fiscais de restaurantes de Seattle e mostrou que subir uma estrela na nota média se traduz em aumento de 5% a 9% na receita2. O efeito aparece nos restaurantes independentes. Nas redes, cuja marca já faz o trabalho de reputação, a nota quase não altera o faturamento2.
No Brasil, a dependência é da mesma ordem. Levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) com o Reclame Aqui indica que 63% dos consumidores consideram as avaliações online antes de escolher onde comer, e o Google é o principal canal dessa busca3. Para um bar de bairro, sem verba de publicidade nem marca nacional, o perfil no Google Maps funciona ao mesmo tempo como vitrine, cardápio e boca a boca.
A inflação das notas
Há um paradoxo nos números brasileiros. O estudo da Abrasel com a empresa Harmo, que analisou mais de 279 mil avaliações de 3.006 estabelecimentos, encontrou média de 4,3 estrelas e mais de 83% das avaliações com nota 4 ou 54. Ainda assim, o próprio relatório classificou esse patamar como abaixo do ideal, porque a chamada zona de excelência começa em 4,54. No levantamento seguinte, a média dos estabelecimentos analisados chegou a 4,5 e a fatia de avaliações positivas passou de 82% para 86%5.
Na prática, a escala de cinco pontos encolheu para uma escala de meio ponto. Um restaurante com 4,2 não é lido como bom, é lido como suspeito. Quando todos precisam estar acima de 4,5, uma avaliação de três estrelas, que em tese significa “razoável”, funciona como punição. É a velha lei de Goodhart aplicada à mesa: quando uma medida vira meta, ela deixa de ser uma boa medida.
O dado mais revelador talvez seja outro. Enquanto a nota média subia, a taxa de resposta dos estabelecimentos às avaliações caiu para cerca de 20%5. O setor aprendeu a acumular estrelas, mas não necessariamente a conversar com quem as concede.
O garçom como coletor de estrelas
É aqui que a pergunta do El País ganha peso. Transferir a meta de reputação para o salão significa pedir a quem vive de gorjeta, muitas vezes com salário próximo do piso, que acrescente à bandeja uma tarefa comercial com carga emocional. É preciso abordar o cliente no momento em que ele quer ir embora, pedir um favor público e absorver o constrangimento da recusa. Se a nota cai, quem responde é quem pediu.
O próprio Google reconheceu o problema. Em 17 de abril de 2026, a empresa reescreveu a política de manipulação de avaliações do Maps para proibir expressamente que gestores imponham cotas de avaliações à equipe e que orientem funcionários a solicitar textos com conteúdo específico, como a menção ao nome de um atendente7. A regra se soma a proibições antigas, como oferecer incentivo em troca de avaliação, filtrar quem recebe o convite e pressionar o cliente dentro do estabelecimento7. A fiscalização, porém, depende de padrões estatísticos. A plataforma não ouve a instrução que o gerente dá ao garçom antes do turno7.
Quando a nota vira meta individual, ela deixa de medir a comida e passa a medir a disposição do funcionário em insistir.
Pedir uma avaliação não é, em si, abusivo. O abuso começa quando o pedido vira indicador individual de desempenho, com ranking, bônus ou advertência. A partir daí, a estrela registra menos a qualidade do prato e mais o grau de exposição de quem atende.
A fraude é a outra face da mesma pressão
O vídeo espanhol lembra que também existem avaliações falsas, às vezes plantadas pela concorrência e raramente verificadas1. A pesquisa acadêmica confirma a suspeita. Em estudo publicado na revista Management Science, Luca e Georgios Zervas verificaram que cerca de 16% das avaliações de restaurantes no Yelp eram filtradas como suspeitas e que elas tendem a ser mais extremas do que as legítimas6. Os estabelecimentos com reputação frágil, com poucas avaliações ou críticas ruins recentes, eram os mais propensos a fraudar. E quanto maior a concorrência, maior a chance de receber avaliações negativas falsas6.
A escala atual é industrial. Em seu balanço de 2025, o Google informou ter bloqueado ou removido mais de 292 milhões de avaliações que violavam suas políticas, enquanto publicava mais de 1 bilhão de avaliações consideradas úteis, além de retirar mais de 13 milhões de perfis comerciais falsos8. A empresa passou a descrever um golpe específico: a extorsão, em que fraudadores inundam um perfil com notas baixas e cobram para retirá-las8. Fraude e pressão sobre o garçom nascem do mesmo lugar: um sistema em que meio ponto decide o movimento da semana.
Como outros países responderam
Estados Unidos e Reino Unido já trataram o tema como questão de defesa do consumidor. A regra da Federal Trade Commission sobre avaliações e depoimentos, em vigor desde 21 de outubro de 2024, proíbe criar, comprar ou vender avaliações falsas, inclusive as geradas por inteligência artificial, e veda a supressão de críticas negativas por meio de ameaças ou intimidação9. Infratores conscientes podem ser multados em até US$ 51.744 por violação9. No Reino Unido, a Lei de Mercados Digitais, Concorrência e Consumidores (DMCC) passou a incluir, desde 6 de abril de 2025, as avaliações falsas e as avaliações incentivadas não declaradas na lista de práticas proibidas em qualquer circunstância, com multas que podem chegar a 10% do faturamento global10.
O Brasil não tem norma específica equivalente. O tema é tratado a partir de princípios gerais do Código de Defesa do Consumidor, como a vedação à publicidade enganosa, e das regras privadas de cada plataforma. O resultado é uma lacuna curiosa: a régua mais detalhada sobre a reputação dos restaurantes brasileiros hoje é a política de uso de uma empresa estrangeira, que pode mudar sem debate público.
Instinto não é método, mas leitura é
O vídeo termina com um convite: de vez em quando, escolher um lugar pelo instinto, à moda antiga, sem consultar a internet1. A proposta tem charme e pode render boas surpresas, mas não resolve o problema estrutural. A saída mais realista passa por três responsabilidades distintas.
Ao consumidor cabe ler a avaliação, e não apenas a média. Textos detalhados, datas recentes e a proporção entre críticas e elogios dizem mais do que o número arredondado, e picos repentinos de cinco estrelas merecem desconfiança. Também vale lembrar que três estrelas é uma opinião legítima, não uma ofensa.
Ao empresário cabe tirar a meta de avaliações da ficha do garçom. Convidar todos os clientes de forma aberta, por um QR code na conta, por exemplo, cumpre a mesma função sem transformar o atendente em cobrador de estrelas. E responder às críticas, inclusive as duras, costuma construir mais confiança do que a nota perfeita.
Ao poder público cabe dar nome à prática. Tratar a avaliação falsa, a compra de avaliações e a supressão de críticas como práticas abusivas explícitas, com regra clara para plataformas e anunciantes, retiraria do Brasil a dependência de políticas privadas para proteger tanto o consumidor quanto o pequeno negócio vítima de ataques.
O dono do restaurante em Lanzarote não precisava de mais estrelas. Precisava de uma nota que significasse alguma coisa. Enquanto 4,4 for lido como fracasso, o sistema continuará produzindo insônia no escritório, constrangimento no salão e fraude nos bastidores. A comida, afinal, ainda é julgada à mesa.
Ewerton Lopes — Curador Editorial
Perguntas frequentes
O que é a “ditadura das reviews”?
É a expressão usada pelo El País para descrever a pressão que as avaliações online exercem sobre restaurantes: donos que perdem o sono com críticas negativas, funcionários obrigados a pedir avaliações e consumidores que só escolhem lugares com nota alta.
Quanto uma estrela a mais influencia a receita de um restaurante?
Estudo de Michael Luca, da Harvard Business School, estimou que um aumento de uma estrela na nota do Yelp eleva a receita de restaurantes independentes em 5% a 9%. Em redes com marca consolidada, o efeito é praticamente nulo.
Qual é a nota média dos bares e restaurantes brasileiros no Google?
Estudo da Abrasel com a Harmo, divulgado em janeiro de 2025, apontou média de 4,3 estrelas. Levantamento posterior registrou média de 4,5 nos estabelecimentos analisados, com 86% das avaliações positivas.
Restaurantes podem pedir avaliações aos clientes no Google?
Sim, desde que o convite seja aberto e sem incentivo. Desde abril de 2026, a política do Google Maps proíbe cotas de avaliações para funcionários e pedidos de conteúdo específico, como citar o nome de um atendente, além de filtragem de clientes e pressão no local.
Qual é a proporção de avaliações falsas?
Pesquisa de Luca e Zervas encontrou cerca de 16% de avaliações de restaurantes filtradas como suspeitas no Yelp. Em 2025, o Google bloqueou ou removeu mais de 292 milhões de avaliações que violavam suas políticas.
Avaliações falsas são proibidas no Brasil?
Não há lei brasileira específica sobre avaliações falsas. O tema é enquadrado em princípios gerais do Código de Defesa do Consumidor e nas políticas das plataformas. Estados Unidos (regra da FTC, 2024) e Reino Unido (DMCC Act, 2025) têm proibições expressas com multas.
Referências
- EL PAÍS. La dictadura de las reviews (vídeo). 24 set. 2026. https://elpais.com/videos/2026-09-24/la-dictadura-de-las-reviews.html
- LUCA, Michael. Reviews, Reputation, and Revenue: The Case of Yelp.com. Harvard Business School, Working Paper, 2011 (revisado em 2016).
- ABRASEL. Plataformas digitais são aliadas de bares e restaurantes na comunicação com clientes, com dados de estudo Abrasel e Reclame Aqui.
- ABRASEL; HARMO. State of Reputation: Panorama de reviews no setor de bares e restaurantes 2024. Divulgado em jan. 2025.
- ABRASEL. Reputação digital de bares e restaurantes melhora em 2025. Levantamento Abrasel e Harmo, 2025.
- LUCA, Michael; ZERVAS, Georgios. Fake It Till You Make It: Reputation, Competition, and Yelp Review Fraud. Management Science, v. 62, n. 12, p. 3412-3427, 2016.
- GOOGLE. Política de conteúdo gerado pelo usuário do Google Maps, seção de manipulação de avaliações, atualizada em 17 abr. 2026. Cobertura: PPC Land, Google tightens Maps review policy: staff names and quotas now banned, 17 abr. 2026.
- GOOGLE. New ways we're protecting businesses on Maps (balanço de segurança de 2025). Abr. 2026.
- FEDERAL TRADE COMMISSION. Trade Regulation Rule on the Use of Consumer Reviews and Testimonials (16 CFR Part 465). Publicada em ago. 2024, em vigor desde 21 out. 2024.
- REINO UNIDO. Digital Markets, Competition and Consumers Act 2024, Anexo 20; Competition and Markets Authority, orientação CMA208 sobre avaliações falsas, abr. 2025.