Opinião · Consumo e trabalho

Nota de atribuição: este artigo de opinião parte do vídeo “La dictadura de las reviews”, publicado pelo jornal espanhol El País em 24 de setembro de 2026 (link original). O conteúdo original não é reproduzido nem traduzido; as menções a ele são paráfrases com o devido crédito. Os demais dados vêm de fontes independentes listadas ao final.

Em Lanzarote, nas Canárias, o dono de um restaurante com nota alta contou à repórter do El País que precisou parar de ler as avaliações dos clientes todos os dias. Uma crítica ruim bastava para estragar o dia e, às vezes, a noite de sono1. A cena é pequena, mas resume um fenômeno que atravessa o Atlântico sem escala: a avaliação online, criada para orientar o consumidor, passou a governar a rotina de quem cozinha e de quem serve.

O vídeo do jornal espanhol, que chama o fenômeno de “ditadura das reviews”, levanta uma pergunta que merece ser levada a sério no Brasil. Muitos garçons e garçonetes são obrigados por seus superiores a pedir uma avaliação ao cliente no fim da refeição. Isso é justo1? A resposta curta é não. A resposta longa exige olhar para quanto vale uma estrela, quem paga por ela e quem a falsifica.

Quanto vale uma estrela

A pressão não é paranoia de empresário. O economista Michael Luca, da Harvard Business School, cruzou avaliações do Yelp com dados fiscais de restaurantes de Seattle e mostrou que subir uma estrela na nota média se traduz em aumento de 5% a 9% na receita2. O efeito aparece nos restaurantes independentes. Nas redes, cuja marca já faz o trabalho de reputação, a nota quase não altera o faturamento2.

No Brasil, a dependência é da mesma ordem. Levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) com o Reclame Aqui indica que 63% dos consumidores consideram as avaliações online antes de escolher onde comer, e o Google é o principal canal dessa busca3. Para um bar de bairro, sem verba de publicidade nem marca nacional, o perfil no Google Maps funciona ao mesmo tempo como vitrine, cardápio e boca a boca.

A inflação das notas

Há um paradoxo nos números brasileiros. O estudo da Abrasel com a empresa Harmo, que analisou mais de 279 mil avaliações de 3.006 estabelecimentos, encontrou média de 4,3 estrelas e mais de 83% das avaliações com nota 4 ou 54. Ainda assim, o próprio relatório classificou esse patamar como abaixo do ideal, porque a chamada zona de excelência começa em 4,54. No levantamento seguinte, a média dos estabelecimentos analisados chegou a 4,5 e a fatia de avaliações positivas passou de 82% para 86%5.

Distribuição das avaliações de bares e restaurantes no Google, 2024 e 2025 Em 2024, 82% positivas, 12% negativas e 6% neutras. Em 2025, 86% positivas, 10% negativas e 4% neutras. SENTIMENTO DAS AVALIAÇÕES (% DO TOTAL) 2024 82% positivas 12% 2025 86% positivas 10% 4 e 5 estrelas 3 estrelas (neutras) 1 e 2 estrelas
Fonte: Abrasel e Harmo, levantamentos de reputação digital no Google (2024 e 2025)5. A fatia neutra foi calculada pela diferença entre o total e as parcelas positiva e negativa divulgadas.

Na prática, a escala de cinco pontos encolheu para uma escala de meio ponto. Um restaurante com 4,2 não é lido como bom, é lido como suspeito. Quando todos precisam estar acima de 4,5, uma avaliação de três estrelas, que em tese significa “razoável”, funciona como punição. É a velha lei de Goodhart aplicada à mesa: quando uma medida vira meta, ela deixa de ser uma boa medida.

O dado mais revelador talvez seja outro. Enquanto a nota média subia, a taxa de resposta dos estabelecimentos às avaliações caiu para cerca de 20%5. O setor aprendeu a acumular estrelas, mas não necessariamente a conversar com quem as concede.

O garçom como coletor de estrelas

É aqui que a pergunta do El País ganha peso. Transferir a meta de reputação para o salão significa pedir a quem vive de gorjeta, muitas vezes com salário próximo do piso, que acrescente à bandeja uma tarefa comercial com carga emocional. É preciso abordar o cliente no momento em que ele quer ir embora, pedir um favor público e absorver o constrangimento da recusa. Se a nota cai, quem responde é quem pediu.

O próprio Google reconheceu o problema. Em 17 de abril de 2026, a empresa reescreveu a política de manipulação de avaliações do Maps para proibir expressamente que gestores imponham cotas de avaliações à equipe e que orientem funcionários a solicitar textos com conteúdo específico, como a menção ao nome de um atendente7. A regra se soma a proibições antigas, como oferecer incentivo em troca de avaliação, filtrar quem recebe o convite e pressionar o cliente dentro do estabelecimento7. A fiscalização, porém, depende de padrões estatísticos. A plataforma não ouve a instrução que o gerente dá ao garçom antes do turno7.

Quando a nota vira meta individual, ela deixa de medir a comida e passa a medir a disposição do funcionário em insistir.

Pedir uma avaliação não é, em si, abusivo. O abuso começa quando o pedido vira indicador individual de desempenho, com ranking, bônus ou advertência. A partir daí, a estrela registra menos a qualidade do prato e mais o grau de exposição de quem atende.

A fraude é a outra face da mesma pressão

O vídeo espanhol lembra que também existem avaliações falsas, às vezes plantadas pela concorrência e raramente verificadas1. A pesquisa acadêmica confirma a suspeita. Em estudo publicado na revista Management Science, Luca e Georgios Zervas verificaram que cerca de 16% das avaliações de restaurantes no Yelp eram filtradas como suspeitas e que elas tendem a ser mais extremas do que as legítimas6. Os estabelecimentos com reputação frágil, com poucas avaliações ou críticas ruins recentes, eram os mais propensos a fraudar. E quanto maior a concorrência, maior a chance de receber avaliações negativas falsas6.

A escala atual é industrial. Em seu balanço de 2025, o Google informou ter bloqueado ou removido mais de 292 milhões de avaliações que violavam suas políticas, enquanto publicava mais de 1 bilhão de avaliações consideradas úteis, além de retirar mais de 13 milhões de perfis comerciais falsos8. A empresa passou a descrever um golpe específico: a extorsão, em que fraudadores inundam um perfil com notas baixas e cobram para retirá-las8. Fraude e pressão sobre o garçom nascem do mesmo lugar: um sistema em que meio ponto decide o movimento da semana.

Como outros países responderam

Estados Unidos e Reino Unido já trataram o tema como questão de defesa do consumidor. A regra da Federal Trade Commission sobre avaliações e depoimentos, em vigor desde 21 de outubro de 2024, proíbe criar, comprar ou vender avaliações falsas, inclusive as geradas por inteligência artificial, e veda a supressão de críticas negativas por meio de ameaças ou intimidação9. Infratores conscientes podem ser multados em até US$ 51.744 por violação9. No Reino Unido, a Lei de Mercados Digitais, Concorrência e Consumidores (DMCC) passou a incluir, desde 6 de abril de 2025, as avaliações falsas e as avaliações incentivadas não declaradas na lista de práticas proibidas em qualquer circunstância, com multas que podem chegar a 10% do faturamento global10.

O Brasil não tem norma específica equivalente. O tema é tratado a partir de princípios gerais do Código de Defesa do Consumidor, como a vedação à publicidade enganosa, e das regras privadas de cada plataforma. O resultado é uma lacuna curiosa: a régua mais detalhada sobre a reputação dos restaurantes brasileiros hoje é a política de uso de uma empresa estrangeira, que pode mudar sem debate público.

Instinto não é método, mas leitura é

O vídeo termina com um convite: de vez em quando, escolher um lugar pelo instinto, à moda antiga, sem consultar a internet1. A proposta tem charme e pode render boas surpresas, mas não resolve o problema estrutural. A saída mais realista passa por três responsabilidades distintas.

Ao consumidor cabe ler a avaliação, e não apenas a média. Textos detalhados, datas recentes e a proporção entre críticas e elogios dizem mais do que o número arredondado, e picos repentinos de cinco estrelas merecem desconfiança. Também vale lembrar que três estrelas é uma opinião legítima, não uma ofensa.

Ao empresário cabe tirar a meta de avaliações da ficha do garçom. Convidar todos os clientes de forma aberta, por um QR code na conta, por exemplo, cumpre a mesma função sem transformar o atendente em cobrador de estrelas. E responder às críticas, inclusive as duras, costuma construir mais confiança do que a nota perfeita.

Ao poder público cabe dar nome à prática. Tratar a avaliação falsa, a compra de avaliações e a supressão de críticas como práticas abusivas explícitas, com regra clara para plataformas e anunciantes, retiraria do Brasil a dependência de políticas privadas para proteger tanto o consumidor quanto o pequeno negócio vítima de ataques.

O dono do restaurante em Lanzarote não precisava de mais estrelas. Precisava de uma nota que significasse alguma coisa. Enquanto 4,4 for lido como fracasso, o sistema continuará produzindo insônia no escritório, constrangimento no salão e fraude nos bastidores. A comida, afinal, ainda é julgada à mesa.

Ewerton Lopes — Curador Editorial

Perguntas frequentes

O que é a “ditadura das reviews”?

É a expressão usada pelo El País para descrever a pressão que as avaliações online exercem sobre restaurantes: donos que perdem o sono com críticas negativas, funcionários obrigados a pedir avaliações e consumidores que só escolhem lugares com nota alta.

Quanto uma estrela a mais influencia a receita de um restaurante?

Estudo de Michael Luca, da Harvard Business School, estimou que um aumento de uma estrela na nota do Yelp eleva a receita de restaurantes independentes em 5% a 9%. Em redes com marca consolidada, o efeito é praticamente nulo.

Qual é a nota média dos bares e restaurantes brasileiros no Google?

Estudo da Abrasel com a Harmo, divulgado em janeiro de 2025, apontou média de 4,3 estrelas. Levantamento posterior registrou média de 4,5 nos estabelecimentos analisados, com 86% das avaliações positivas.

Restaurantes podem pedir avaliações aos clientes no Google?

Sim, desde que o convite seja aberto e sem incentivo. Desde abril de 2026, a política do Google Maps proíbe cotas de avaliações para funcionários e pedidos de conteúdo específico, como citar o nome de um atendente, além de filtragem de clientes e pressão no local.

Qual é a proporção de avaliações falsas?

Pesquisa de Luca e Zervas encontrou cerca de 16% de avaliações de restaurantes filtradas como suspeitas no Yelp. Em 2025, o Google bloqueou ou removeu mais de 292 milhões de avaliações que violavam suas políticas.

Avaliações falsas são proibidas no Brasil?

Não há lei brasileira específica sobre avaliações falsas. O tema é enquadrado em princípios gerais do Código de Defesa do Consumidor e nas políticas das plataformas. Estados Unidos (regra da FTC, 2024) e Reino Unido (DMCC Act, 2025) têm proibições expressas com multas.

Referências

  1. EL PAÍS. La dictadura de las reviews (vídeo). 24 set. 2026. https://elpais.com/videos/2026-09-24/la-dictadura-de-las-reviews.html
  2. LUCA, Michael. Reviews, Reputation, and Revenue: The Case of Yelp.com. Harvard Business School, Working Paper, 2011 (revisado em 2016).
  3. ABRASEL. Plataformas digitais são aliadas de bares e restaurantes na comunicação com clientes, com dados de estudo Abrasel e Reclame Aqui.
  4. ABRASEL; HARMO. State of Reputation: Panorama de reviews no setor de bares e restaurantes 2024. Divulgado em jan. 2025.
  5. ABRASEL. Reputação digital de bares e restaurantes melhora em 2025. Levantamento Abrasel e Harmo, 2025.
  6. LUCA, Michael; ZERVAS, Georgios. Fake It Till You Make It: Reputation, Competition, and Yelp Review Fraud. Management Science, v. 62, n. 12, p. 3412-3427, 2016.
  7. GOOGLE. Política de conteúdo gerado pelo usuário do Google Maps, seção de manipulação de avaliações, atualizada em 17 abr. 2026. Cobertura: PPC Land, Google tightens Maps review policy: staff names and quotas now banned, 17 abr. 2026.
  8. GOOGLE. New ways we're protecting businesses on Maps (balanço de segurança de 2025). Abr. 2026.
  9. FEDERAL TRADE COMMISSION. Trade Regulation Rule on the Use of Consumer Reviews and Testimonials (16 CFR Part 465). Publicada em ago. 2024, em vigor desde 21 out. 2024.
  10. REINO UNIDO. Digital Markets, Competition and Consumers Act 2024, Anexo 20; Competition and Markets Authority, orientação CMA208 sobre avaliações falsas, abr. 2025.