Caderno Política · Estados Unidos
Katie Zacharia assumiu a função de secretária de imprensa da Casa Branca numa segunda-feira, 12 de outubro, e deixou o cargo na sexta seguinte. Foram cinco dias, o bastante para estabelecer um recorde: segundo a Axios, trata-se da passagem mais curta pelo posto na história moderna dos Estados Unidos.2 O episódio poderia ser lido como mera falha de recrutamento. A colunista Jemima Kelly, do Financial Times, prefere outra leitura: a semana desastrosa da porta-voz seria apenas o sintoma mais recente de um governo que entrou numa fase de desordem aberta.1
A tese merece ser testada contra os fatos disponíveis. É o que este texto faz, reunindo a cronologia da semana, os dados de rotatividade no Executivo americano, as pesquisas de opinião às vésperas das eleições de 3 de novembro e um paralelo brasileiro que ajuda a entender por que a função de porta-voz costuma definhar em governos centrados na figura do presidente.
O que aconteceu com Katie Zacharia
Donald Trump anunciou a escolha numa sexta-feira, 9 de outubro. Zacharia vinha de um posto de assessora sênior de comunicação na Trump Media & Technology Group, empresa do próprio presidente, conforme registrou a NBC News.3 Antes disso, havia construído visibilidade como comentarista na Fox News e na Newsmax, segundo o Washington Post.4 Ao apresentá-la, Trump destacou sobretudo a lealdade pessoal da indicada, como observou a NPR.5
A estreia na sala de briefings, na terça-feira 13, durou menos de 15 minutos e teve apenas três perguntas respondidas, uma das coletivas mais curtas da história recente, de acordo com a NBC.3 No mesmo dia, a Casa Branca passou a lidar com questionamentos sobre as credenciais jurídicas da nova porta-voz, que se apresentava havia anos como advogada. Segundo o Washington Post, ela afirmou ter sido aprovada num exame de ordem na China, país onde estrangeiros não podem prestar o exame nacional nem atuar nos tribunais.6
Na sexta-feira, 16, o próprio Trump disse a jornalistas que havia aconselhado Zacharia a "reconsiderar" a função, e um funcionário da Casa Branca confirmou à CNBC que ela estava "em transição" para fora do cargo.7 O antigo recorde informal de brevidade pertencia a Anthony Scaramucci, que em 2017 ficou cerca de 11 dias como diretor de comunicação, conforme lembrou o The Hill.8
Para que serve um secretário de imprensa
O secretário de imprensa é o rosto cotidiano do Executivo americano diante dos jornalistas credenciados. Não é um cargo previsto na Constituição, mas se consolidou ao longo do século 20 como um canal de prestação de contas: é ali que a imprensa pergunta, diariamente, o que o governo fez, por que fez e com base em quê. Quando a coletiva dura 14 minutos e aceita três perguntas, a perda não é apenas de imagem. É de informação pública.
Há ainda um detalhe que dá peso político ao episódio. Na mesma estreia, Zacharia anunciou que a Casa Branca havia pedido a renúncia de Kimberly Guilfoyle, embaixadora dos EUA na Grécia, alvo de acusações de má conduta reveladas pelo Wall Street Journal, entre elas a de ter oferecido acesso a autoridades do governo em troca do pagamento de uma fatura de cartão de crédito de US$ 100 mil, relatou a Al Jazeera.9 Guilfoyle nega as acusações. Em poucos dias, portanto, a mesma voz oficial que comunicou a saída de uma aliada histórica do presidente tornou-se, ela própria, o assunto.
Uma coletiva de 14 minutos com três perguntas não é só um tropeço de imagem. É uma redução concreta da informação pública disponível.
Rotatividade, escândalos e pesquisas: o padrão por trás do episódio
A tese do FT se apoia num quadro mais amplo, e os números de outras fontes lhe dão sustentação. A antecessora de Zacharia, Karoline Leavitt, deixou o posto em 27 de agosto para voltar ao comitê de ação política MAGA Inc., numa onda de saídas que, segundo a Bloomberg Government, inclui diversos assessores de alto escalão; dados da Brookings Institution citados pela mesma reportagem indicam que o ritmo de saídas da Casa Branca de Trump é alto em comparação com seus antecessores.10 Levantamento divulgado pelo Daily Beast afirma que a equipe de imprensa perdeu um quarto de seus integrantes seniores desde o início de agosto.11
O contexto eleitoral agrava a leitura. Pesquisa do Pew Research Center realizada entre 28 de setembro e 4 de outubro registrou aprovação de 30% ao trabalho do presidente, patamar equivalente ao do fim do primeiro mandato, em janeiro de 2021.12 Outra sondagem, da Economist/YouGov, divulgada em 14 de outubro, aponta 34% de aprovação e 61% de desaprovação, segundo o Political Wire.13 Com as eleições legislativas de meio de mandato marcadas para 3 de novembro, as projeções correntes na imprensa americana indicam chance real de os democratas retomarem a Câmara, o que abriria caminho para investigações parlamentares sobre o Executivo.
Lido em conjunto, o encadeamento é coerente: uma equipe de comunicação desfalcada, a escolha de uma porta-voz pelo critério da lealdade, um escândalo diplomático anunciado na primeira coletiva e um presidente impopular a duas semanas das urnas. É esse acúmulo que dá sentido à expressão usada por Kelly no título de sua coluna, a de um governo em fase de completa desordem.1
O espelho brasileiro: quando o presidente é o próprio porta-voz
O Brasil conhece uma versão desse dilema. No início do governo Jair Bolsonaro, o general Otávio Rêgo Barros comandava briefings regulares no Palácio do Planalto. Com o tempo, a função foi sendo esvaziada à medida que suas falas divergiam das do presidente, e em 26 de agosto de 2020 o governo anunciou a extinção do cargo de porta-voz da Presidência, conforme noticiou o Congresso em Foco.14 A exoneração foi oficializada em 7 de outubro daquele ano.
Em entrevista posterior, Rêgo Barros atribuiu parte do esvaziamento ao hábito presidencial de falar diretamente com apoiadores no chamado "cercadinho" do Alvorada, o que, segundo ele, tornava tecnicamente difícil sustentar uma estrutura de comunicação institucional, relatou o Poder360.15 O paralelo não autoriza equivalências políticas entre os dois países, mas ilumina um mecanismo comum: quando o chefe do Executivo concentra a fala pública, o porta-voz deixa de ser um canal institucional e passa a ser uma extensão pessoal, mais fácil de trocar e menos capaz de responder pelo governo.
A questão tem atualidade imediata por aqui. O Brasil vota no segundo turno presidencial no próximo domingo, 25 de outubro, numa disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo a cobertura do Congresso em Foco.16 Seja qual for o resultado, o próximo governo terá de decidir que tipo de comunicação presidencial pretende manter: uma estrutura capaz de responder perguntas todos os dias ou um modelo centrado nas falas diretas do presidente. O caso americano mostra o custo da segunda opção quando a pressão aumenta.
O que observar até 3 de novembro
Três sinais devem indicar se a crise na comunicação da Casa Branca é episódica ou estrutural. O primeiro é o perfil de quem vai suceder Zacharia: um nome com trânsito na imprensa e experiência institucional sugeriria correção de rota; outra escolha baseada apenas em lealdade reforçaria a tese do FT. O segundo é a retomada, ou não, de briefings regulares e com tempo para perguntas. O terceiro é o resultado das eleições de meio de mandato, que pode transferir para o Congresso parte da fiscalização que hoje depende das coletivas.
Perguntas frequentes
Quem é Katie Zacharia?
Ex-comentarista de canais conservadores e ex-assessora de comunicação da Trump Media & Technology Group, foi nomeada secretária de imprensa da Casa Branca em outubro de 2026 e deixou o cargo após cinco dias, entre 12 e 16 de outubro.
Por que Katie Zacharia deixou o cargo?
Sua primeira coletiva durou menos de 15 minutos e foi alvo de críticas, ao mesmo tempo em que surgiram questionamentos sobre suas credenciais como advogada. Trump disse ter recomendado que ela reconsiderasse a função, e a Casa Branca confirmou sua saída em 16 de outubro.
Qual foi a passagem mais curta pela comunicação da Casa Branca antes dela?
A referência era Anthony Scaramucci, que em 2017 ficou cerca de 11 dias como diretor de comunicação no primeiro mandato de Trump. Zacharia, com cinco dias, tornou-se a secretária de imprensa de mandato mais curto da história moderna.
O que o Financial Times disse sobre o caso?
Em coluna de opinião publicada em 18 de outubro de 2026, Jemima Kelly argumenta que a breve passagem da porta-voz é o sinal mais recente de um padrão de desordem na Casa Branca.
O Brasil tem um cargo equivalente ao de secretário de imprensa?
O Brasil já teve o cargo de porta-voz da Presidência da República, ocupado pelo general Otávio Rêgo Barros no governo Bolsonaro. A função foi desativada em 2020, e a comunicação do governo federal passou a ser concentrada em outras estruturas.
Este artigo foi inspirado na coluna de opinião "The Trump administration has entered its utter shambles era", de Jemima Kelly, publicada pelo Financial Times em 18 de outubro de 2026. O texto original não foi reproduzido nem traduzido; as ideias atribuídas à autora foram parafraseadas e creditadas. Os demais dados foram apurados de forma independente em veículos citados ao longo do texto.