Amal e Ariana — nomes fictícios usados para protegê-las — pularam do telhado de casa para uma laje vizinha em uma madrugada de julho, fugindo de uma turba de talibãs que cercava o imóvel. O crime das duas afegãs, mãe e filha, foi manter uma escola clandestina no porão da própria casa, onde ensinavam matemática, história, inglês e língua dari a cerca de quinze adolescentes proibidas de estudar. A história, relatada em reportagem do jornal espanhol El País publicada neste domingo, resume o que se tornou a rotina de milhões de mulheres afegãs cinco anos depois do retorno do Talibã ao poder: resistir em silêncio, sob risco de prisão, açoite ou morte, para preservar direitos que já tinham sido conquistados.
O aniversário de cinco anos da retomada de Cabul, em 15 de agosto de 2021, chega em um momento paradoxal. Enquanto organizações afegãs e internacionais documentam uma das mais severas campanhas de apagamento de direitos femininos da história recente, parte da comunidade internacional caminha na direção oposta: em junho, representantes da Comissão Europeia e de 15 governos do bloco se reuniram em Bruxelas com uma delegação talibã para discutir a deportação de afegãos em situação irregular — um encontro que Bruxelas classificou como "técnico" e que os fundamentalistas trataram como reconhecimento tácito de seu governo, segundo o relato do El País.
O caso afegão não é isolado, e é justamente por isso que interessa ao caderno Política de O Tecido. Ele expõe, em sua forma mais extrema, um fenômeno que analistas de direitos humanos vêm descrevendo em escala global: direitos de mulheres e minorias — sobretudo o direito à participação política e ao voto — não são conquistas permanentes. São construções institucionais que exigem vigilância constante, porque podem ser revertidas por decreto, por omissão diplomática ou por decisão judicial, em qualquer país, sob qualquer regime.
O único país do mundo que proíbe meninas de estudar
Afeganistão é hoje o único país do planeta onde meninas maiores de 12 anos não podem frequentar a escola, restrição que já deixou mais de 2,2 milhões de meninas e jovens fora das salas de aula, segundo dados das Nações Unidas citados na reportagem original. A ONU estima ainda que 3,8 milhões de meninas entre 7 e 18 anos estejam fora da escola em 2026, um número que cresce anualmente à medida que mais turmas atingem a idade do veto.
A Human Rights Watch classificou o quinto aniversário da tomada talibã como um marco sombrio, resultado de um desmantelamento sistemático dos direitos de mulheres e meninas que se soma a uma crise humanitária em que quase 40% da população do país depende de assistência urgente. A organização documentou batidas policiais em locais de trabalho e prisões arbitrárias por supostas violações de código de vestimenta, parte de um sistema mais amplo de controle social.
"Minha mãe sempre diz que guardar silêncio significa aceitar a injustiça." Ariana, 18 anos, ao jornal El País
Desde 2021, o regime editou mais de 230 decretos que retiram direitos básicos de mulheres e meninas — educação, trabalho, liberdade de circulação e participação pública —, segundo levantamento da ONU divulgado em junho. Entre as medidas mais recentes está um novo Código de Processo Penal que, segundo a fundadora do Arquivo de Justiça do Afeganistão, Metra Mehran, formaliza a discriminação e legitima a violência contra mulheres, tratando-as juridicamente como propriedade dos maridos. A legislação chegou a tornar legal o casamento infantil sob a lógica de que o silêncio da menina equivale a consentimento, e reduziu a violência doméstica a contravenção — salvo quando resulta em fratura ou ferimento aberto.
O Instituto Georgetown para Mulheres, Paz e Segurança contabilizou 166 normas editadas até junho especificamente para retirar direitos de mulheres, concluindo que a opressão de gênero deixou de ser um efeito colateral do regime para se tornar sua própria definição institucional — o que a ONU chama de "apartheid de gênero".
Resistir apesar do isolamento
Mesmo sob risco extremo, afegãs mantêm escolas domésticas, participam de manifestações e abrem pequenos negócios, muitas vezes de forma semiclandestina e vendendo pela internet. Desde 2021, ao menos 10 mil mulheres obtiveram licenças para abrir empresas no país, de acordo com o International Crisis Group, citado na reportagem do El País. Pesquisa da ONU Mulheres incluída no mesmo levantamento mostra que entre 40% e 50% das afegãs ainda mantêm alguma confiança no futuro, apesar de tudo.
O preço dessa resistência é alto. Um relatório de 2023 do relator especial da ONU para o Afeganistão, Richard Bennett, já alertava para o aumento do número de mulheres que tentam tirar a própria vida no país, em um contexto no qual não há sequer estatísticas oficiais sobre suicídio. Organizações locais relatam que casos de tentativa de suicídio chegam diariamente a suas linhas de apoio.
Outro lado: a diplomacia da necessidade
Governos europeus que se aproximaram do Talibã em 2026 — caso da reunião de Bruxelas em junho e do acordo bilateral fechado pela Alemanha para deportar afegãos sem visto ou asilo — argumentam que engajamento técnico e controle migratório são questões distintas do reconhecimento político do regime, e que a ausência de canais de diálogo prejudicaria justamente a população civil que depende de ajuda humanitária internacional.
Ativistas de direitos humanos, como Zubaida Akbar, diretora para o Afeganistão da ONG Femena, rebatem que qualquer aproximação diplomática — mesmo rotulada como "técnica" — funciona como legitimação de fato de um regime que trata a opressão de mulheres como política de Estado, e que a comunidade internacional historicamente manteve um padrão baixo de exigência quando o assunto são os direitos das afegãs.
Um padrão que se repete, em graus diferentes, ao redor do mundo
O caso afegão é o mais extremo, mas está longe de ser único. Relatório do secretário-geral da ONU entregue à 70ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher, em março de 2026, concluiu que nenhum país do mundo atingiu plena igualdade jurídica entre homens e mulheres: em média global, as mulheres detêm apenas 64% dos direitos legais garantidos aos homens. O documento mostra que em 54% dos países o estupro ainda não é tipificado com base no consentimento da vítima, que 74% das nações ainda permitem, sob alguma condição, o casamento infantil, e que em 44% delas a lei não garante salário igual para trabalho igual.
A diretora-executiva da ONU Mulheres, Sima Bahous, descreveu 2026 como um momento em que sistemas de justiça concebidos para proteger direitos estão falhando com mulheres e meninas "em toda parte", em um cenário agravado pelo corte de 94% no financiamento americano destinado a organizações de defesa dos direitos das mulheres em 2025. Segundo levantamento da própria ONU Mulheres com mais de 400 ONGs, uma em cada três teve de suspender ou encerrar programas de combate à violência de gênero por falta de recursos — e apenas 5% delas acreditam que conseguirão manter suas atividades por mais de dois anos.
Direitos reprodutivos ilustram como retrocessos também atingem democracias consolidadas. Na União Europeia, Polônia e Malta mantêm as legislações mais restritivas de acesso ao aborto, e o Parlamento Europeu já registrou formalmente sua preocupação com o retrocesso no acesso a esse direito em países como Itália e Croácia. Nos Estados Unidos, a reversão da decisão histórica que garantia o direito constitucional ao aborto devolveu a regulamentação do tema aos estados, criando um mosaico de acessos desiguais que, segundo entidades de saúde, afeta desproporcionalmente mulheres de baixa renda.
Por que o voto não pode ser tratado como conquista definitiva
Entre todos os direitos, o voto ocupa um lugar particular: é o mecanismo pelo qual mulheres podem, elas mesmas, corrigir os demais retrocessos por via institucional. Por isso, especialistas em direitos políticos insistem que nenhuma concessão a esse direito adquirido pode ser tratada como negociável, ainda que parcial, temporária ou justificada por circunstância política.
O Brasil ilustra bem a distância entre ter o direito ao voto e ter poder de decisão efetivo. Mulheres são maioria do eleitorado nacional desde 2018 e devem representar 52,8% dos 158,7 milhões de eleitores aptos a votar nas eleições de outubro de 2026, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. Ainda assim, ocupam hoje menos de 20% das cadeiras do Senado Federal e, historicamente, cerca de 17% das vagas conquistadas na Câmara dos Deputados, o que posiciona o país na 139ª colocação entre 184 nações em representação parlamentar feminina, segundo dados do TSE citados pelo Ministério Público Federal.
A centenária conquista do voto feminino brasileiro — instituído em 1932, ainda no Código Eleitoral provisório, e consolidado na Constituição de 1934 — é hoje tratada como cláusula de sentido inegociável do pacto democrático. É esse mesmo princípio, o de que direitos políticos adquiridos não admitem meio-termo, retrocesso gradual ou "exceção temporária", que organizações de direitos humanos cobram das democracias ocidentais quando avaliam sua postura em relação a regimes como o talibã: cada gesto de normalização diplomática, argumentam, corrói o piso mínimo abaixo do qual nenhuma negociação deveria descer.
"A UE acha que não há problema em as afegãs ficarem cinco anos sem escola, desde que o Talibã permita cursos de costura." Zubaida Akbar, diretora para o Afeganistão da ONG Femena, ao El País
O argumento se sustenta em dados: quando direitos de participação pública recuam para qualquer grupo — mulheres, minorias étnicas, religiosas ou de orientação sexual —, o efeito costuma não ficar restrito a esse grupo. Estudos de ciência política associam a erosão de direitos políticos de minorias a processos mais amplos de enfraquecimento institucional, o chamado retrocesso democrático, no qual o mesmo ferramental usado para restringir um grupo é depois adaptado para restringir outros.
O que está em jogo além do Afeganistão
A reportagem do El País que inspira esta análise termina com um dado que resume o paradoxo afegão: apesar de tudo, entre 40% e 50% das mulheres do país ainda dizem confiar no futuro. É um número baixo, mas não nulo — e é justamente essa margem de esperança, sustentada por escolas clandestinas, pequenos negócios informais e protestos de rua, que organizações de direitos humanos apontam como razão para que a comunidade internacional não trate a situação afegã como um capítulo encerrado, tampouco como modelo do que pode ser tolerado em nome da estabilidade diplomática.
Para o Brasil e para democracias que já consolidaram o sufrágio feminino, o caso afegão funciona como lembrete de que a distância entre ter um direito e exercê-lo plenamente nunca se fecha sozinha — e de que ela pode, em circunstâncias adversas, voltar a se abrir.
Perguntas frequentes
Desde quando o Talibã proíbe meninas de estudar no Afeganistão?
A proibição ao ensino secundário para meninas está em vigor desde o retorno do Talibã ao poder, em 15 de agosto de 2021. O Afeganistão é atualmente o único país do mundo com essa restrição em vigor.
Quantas afegãs estão fora da escola por causa da proibição?
Estimativas da ONU indicam mais de 2,2 milhões de meninas e jovens excluídas da educação desde 2021, com cerca de 3,8 milhões de meninas entre 7 e 18 anos fora da escola em 2026.
A União Europeia reconhece oficialmente o governo talibã?
Não há reconhecimento diplomático formal. Mas em junho de 2026 representantes da Comissão Europeia e de 15 governos do bloco se reuniram com uma delegação talibã para tratar de deportações, encontro que o próprio regime tratou como reconhecimento tácito.
As mulheres são maioria do eleitorado no Brasil?
Sim. Segundo o TSE, as mulheres somam cerca de 52,8% do eleitorado apto a votar nas eleições de 2026, mas ocupam uma fração muito menor das cadeiras no Congresso Nacional.
Por que direitos políticos de minorias são considerados especialmente sensíveis a retrocessos?
Porque, uma vez restringidos, tendem a remover da própria minoria afetada os instrumentos institucionais — como o voto e a candidatura — necessários para reverter esse retrocesso por vias democráticas.
Referências
- Deiros Bronte, Trinidad. "Las afganas resisten solas tras cinco años de terror talibán". El País, 9 ago. 2026. elpais.com
- Human Rights Watch. "Afeganistão: os ataques do Talibã aos direitos humanos se agravam após cinco anos". 3 ago. 2026. hrw.org
- ONU News. "ONU aponta crise humanitária e opressão de mulheres no Afeganistão". Jun. 2026. news.un.org
- ONU News. "Nenhum país do mundo atingiu a igualdade legal entre homens e mulheres". Mar. 2026. news.un.org
- ONU Mulheres Brasil. "Nenhum país no mundo alcançou plena igualdade jurídica para mulheres e meninas". 8 mar. 2026. onumulheres.org.br
- Ministério Público Federal. "Eleições 2026: quais são as novas regras para aumentar a participação de mulheres na política?". mpf.mp.br
- Senado Notícias. "Eleições 2026: mulheres buscam superar sub-representação na política". Fev. 2026. senado.leg.br
- Tribunal Superior Eleitoral. "TSE Mulheres: portal reúne estatísticas sobre eleitorado e participação feminina na política". tse.jus.br
- World Bank Blogs. "Violência política e a desinformação de gênero no Brasil". Dez. 2023. worldbank.org
- Parlamento Europeu. Proposta de resolução sobre ameaças globais aos direitos ao aborto. europarl.europa.eu
- Agência Brasil / Radioagência Nacional. "Em todo mundo, mulheres possuem apenas 64% dos direitos dos homens". Mar. 2026. agenciabrasil.ebc.com.br