Ciência · Política científica · Estados Unidos

Em resumo

  • A Casa Branca publicou em julho de 2026 o relatório Science: A New Golden Age, que propõe reorganizar o financiamento federal de pesquisa nos EUA pela primeira vez desde 1945.
  • O plano coloca a inteligência artificial aplicada à ciência no centro, por meio da Missão Genesis, e desloca o foco das universidades para cientistas individuais, indústria e novos modelos de financiamento.
  • Ao mesmo tempo, a proposta orçamentária do Executivo para 2027 corta cerca de 55% da National Science Foundation e quase 13% dos Institutos Nacionais de Saúde.
  • Para o Brasil, onde a universidade pública concentra a pesquisa e o setor privado investe pouco, a tese americana não se transpõe sem adaptações.

Durante oito décadas, a ciência dos Estados Unidos funcionou segundo um acordo relativamente estável: o governo federal paga a pesquisa básica, as universidades a executam enquanto formam a próxima geração de cientistas e a indústria converte descobertas em produtos. Esse arranjo, desenhado por Vannevar Bush no relatório Science: The Endless Frontier, de 1945, produziu da internet às vacinas de mRNA. Agora a Casa Branca afirma que ele envelheceu e precisa ser reescrito.

O responsável pela reescrita é Michael Kratsios, diretor do Escritório de Política Científica e Tecnológica (OSTP) do governo Trump. Em entrevista ao economista Tyler Cowen no podcast Interesting Times, publicada pelo The New York Times nesta quinta-feira (22), Kratsios defendeu que o ecossistema científico mudou de lugar: a pesquisa de ponta já não mora apenas nas universidades, mas também em laboratórios de empresas de IA e de energia de fusão, e o Estado precisa se reorganizar para acompanhar esse deslocamento.1

O que propõe o relatório "Science: A New Golden Age"

Lançado em 21 de julho, o documento de 123 páginas é apresentado pela própria Casa Branca como a primeira revisão abrangente do sistema científico americano desde o texto de Bush.2 Ele chegou acompanhado de um memorando de prioridades de P&D para o ano fiscal de 2028, assinado por Kratsios e pelo diretor de Orçamento, Russ Vought, que transforma as recomendações em ordens às agências federais.

Segundo o serviço de política científica do American Institute of Physics, o diagnóstico central é que o sistema gira demais em torno de instituições de elite e falha com pesquisadores que têm ideias ousadas.3 As propostas se organizam em quatro eixos e incluem:

  • Financiar pessoas, e não instituições: redirecionar apoio para cientistas individuais em vez de estruturas consolidadas.
  • Diversificar a revisão por pares: criar mecanismos como os "golden tickets", que permitem a um avaliador recomendar sozinho um projeto pouco convencional que talvez não passasse em um painel de consenso. O modelo já está em teste na diretoria de Tecnologia, Inovação e Parcerias da NSF.
  • Unidades de metaciência: equipes dedicadas a medir o que funciona e o que não funciona na forma como o governo financia pesquisa.
  • Novos formatos institucionais: organizações ágeis no estilo das agências ARPA, prêmios, bolsas rápidas e compromissos de compra antecipada.
  • Missões nacionais: IA para a ciência, computação quântica, demonstração comercial de fusão até meados da década de 2030 e retorno tripulado à Lua.

Na leitura da publicação especializada Environment+Energy Leader, a proposta pede que as agências passem a agir mais como investidores de risco do que como administradoras de bolsas.4 A comparação não é casual. Antes do governo, Kratsios trabalhou na Thiel Capital, do investidor Peter Thiel, e na Scale AI, empresa de dados para inteligência artificial.

Missão Genesis: a IA como instrumento científico do Estado

O coração do plano, nas palavras do próprio Kratsios ao Times, é a Missão Genesis. Criada por ordem executiva assinada em 24 de novembro de 2025, a iniciativa encarrega o Departamento de Energia de montar uma plataforma nacional que integra supercomputadores dos laboratórios federais, bases de dados científicas, ambientes de nuvem e laboratórios automatizados.6 Na época do lançamento, autoridades da Casa Branca e do Departamento de Energia disseram, segundo o Decrypt, que o objetivo era reduzir o tempo de pesquisas de anos para dias ou até horas.6

Na conversa com Cowen, Kratsios descreveu a plataforma como um instrumento aberto a todas as agências federais, de modo que um pesquisador da área biomédica possa usar a capacidade computacional instalada no Departamento de Energia. Ele também citou a liberação de 190 conjuntos de dados federais para treinar modelos científicos e afirmou que equipes do Idaho National Laboratory já usam IA para acelerar o desenvolvimento de componentes de reatores nucleares.1

Kratsios afirmou que a superinteligência será "o maior desbloqueio para a descoberta científica" da história do país. Entrevista ao podcast Interesting Times, The New York Times, 22/10/2026 (tradução livre)

Um detalhe de vocabulário chama atenção. O governo abandonou a expressão "inteligência artificial" e passou a falar em "superinteligência". Kratsios explicou a Cowen que a palavra "artificial" soaria como algo falso e que a troca teve consenso entre executivos de tecnologia reunidos pela Casa Branca. Cowen, que continuou usando o termo antigo durante toda a entrevista, observou que a nova palavra pode assustar mais do que tranquilizar o público.1

O descompasso entre o discurso e o orçamento

O ponto mais tenso da entrevista foi o dinheiro. Cowen insistiu que a proposta orçamentária do presidente reduz verbas da pesquisa biomédica e da National Science Foundation. Kratsios respondeu que o Congresso manteve os valores por meio de uma resolução orçamentária provisória, que a proposta de 2027 traz o maior orçamento de P&D da história e que a obsessão pelo valor total gasto é equivocada. Para ele, gastar mais nas coisas erradas é pior do que gastar menos nas coisas certas.1

Os números das agências civis, porém, apontam na direção contrária. De acordo com o escritório de relações federais da Universidade Harvard, a proposta de 2027 prevê corte de quase 55% na NSF, que cairia para cerca de US$ 3,96 bilhões, e redução de aproximadamente US$ 6 bilhões nos NIH, equivalente a 12,8%.5 A Federação de Associações em Ciências Comportamentais e do Cérebro destaca ainda que a diretoria de Ciências Sociais, Comportamentais e Econômicas da NSF seria extinta.15 A alegação de orçamento recorde de P&D convive com um aumento expressivo do gasto de defesa na mesma proposta, o que ajuda a explicar como as duas leituras podem coexistir.

Proposta do Executivo para 2027 versus orçamento aprovado em 2026

NSF US$ 8,75 bi (2026, aprovado) US$ 3,96 bi (2027, proposta) · −54,7% NIH US$ 47,2 bi US$ 41,2 bi · −12,8% Ano fiscal 2026 (aprovado pelo Congresso) Proposta para 2027
Fonte: Harvard Office of Federal Relations, com base na proposta orçamentária do Executivo de abril de 2026. Valores em bilhões de dólares. O Congresso rejeitou cortes semelhantes no ciclo anterior.

O próprio relatório, segundo o Environment+Energy Leader, não trata da proposta orçamentária do governo, e muitas de suas medidas dependem de novas leis de dotação do Congresso, não apenas de atos do Executivo.4 No ciclo de 2026, deputados e senadores rejeitaram a maior parte dos cortes e mantiveram as agências com orçamentos próximos aos do ano anterior.

A universidade como reservatório de ideias

Professor da George Mason University, Cowen levou à conversa a preocupação mais estrutural. Ele lembrou que as redes neurais, base da IA atual, ficaram praticamente adormecidas entre os anos 1950 e 1980 até voltarem ao centro da pesquisa. Para o economista, a universidade funciona como um reservatório: ineficiente no dia a dia, mas indispensável para preservar ideias que só se mostram valiosas décadas depois. Com menos recursos, matrículas em queda e regras de imigração mais duras, programas de pós-graduação estariam encolhendo, e esse reservatório diminuiria.1

Kratsios respondeu com uma visão de parcerias. Citou um consórcio de computação articulado com universidades do Sudeste americano, em dez estados, e um novo formato de doutorado de quatro anos em que o último ano é cumprido em um laboratório da indústria, com a tese baseada nesse trabalho. A justificativa, segundo ele, é que cerca de 60% dos doutores americanos não seguem carreira acadêmica, embora os programas sejam desenhados para formar professores.1

O diretor do OSTP também sustentou que o sistema premia pesquisadores mais velhos, citando que os NIH concedem mais bolsas a cientistas acima de 65 anos do que a menores de 35. O dado tem respaldo histórico, mas a interpretação é disputada. Um estudo de Misty Heggeness e colegas publicado na revista Cell Stem Cell em 2016, resumido pela Nature, concluiu que os NIH aprovavam propostas de jovens e veteranos em taxas semelhantes; os mais velhos ganhavam mais bolsas sobretudo porque passaram a ser maioria entre os candidatos.9 Em outras palavras, o problema pode estar menos no julgamento dos avaliadores e mais na escassez de vagas que empurra os jovens para fora da academia.

Quem decide o que será pesquisado

Cowen, que se define com inclinações libertárias, apontou dois riscos de concentração. O primeiro é político: dar mais influência a nomeados do Executivo sobre bolsas poderia ser usado por governos futuros de orientação oposta. O segundo é econômico: canalizar a ciência para a IA tende a reforçar o poder de poucas empresas, como a Nvidia e os quatro ou cinco laboratórios com os modelos mais avançados. Ele também questionou a participação acionária do governo em cerca de 30 empresas.1

Kratsios respondeu que decisões sobre o mérito de cada projeto continuarão com a revisão por pares e que a supervisão política se limita a verificar se o processo de seleção é sério. A questão foi tema da audiência na Câmara em 22 de julho, quando, segundo a American Educational Research Association, parlamentares democratas perguntaram sobre interferência da Casa Branca em bolsas da NSF; Kratsios disse desconhecer participação do OSTP nessas decisões, e a deputada Zoe Lofgren enviou depois uma carta pedindo esclarecimentos.8

Sobre a concentração econômica, Kratsios previu que a IA será a maior força democratizadora da ciência, citando laboratórios em nuvem como os da Lila Sciences e da Emerald Cloud Lab, que executam experimentos de forma automatizada para pesquisadores remotos.1

Contraponto · Os dois lados do plano

O que dizem os defensores

  • O sistema de 1945 foi desenhado para um mundo em que o governo pagava a maior parte da pesquisa; hoje o setor privado responde por fatia muito maior do P&D americano.
  • Metaciência e avaliação de resultados são reivindicações antigas da própria comunidade científica e quase nunca foram institucionalizadas.
  • A formação de doutores voltada só para a academia ignora onde a maioria efetivamente vai trabalhar.
  • Mecanismos como os "golden tickets" atacam o conservadorismo dos painéis de consenso, que tendem a rejeitar ideias arriscadas.

O que dizem os críticos

  • Reformar o sistema enquanto se propõe cortar pela metade a NSF compromete justamente a base que alimenta a pesquisa aplicada.
  • A Ars Technica classificou o relatório como uma mistura de diagnósticos já conhecidos, queixas políticas e visão do Vale do Silício, que ignora medidas do próprio governo prejudiciais à ciência.7
  • Concentrar prioridades em IA amplia a dependência de poucas empresas e de um setor politicamente instável.
  • A restrição à imigração qualificada contraria a própria história recente da ciência americana.

Imigração, talentos e o paradoxo das medalhas

Cowen lembrou que os quatro agraciados mais recentes com a National Medal of Science, Elon Musk, Jensen Huang, Lisa Su e Sergey Brin, são imigrantes, e que a imigração qualificada vem caindo por decisão deliberada. Kratsios desviou para outro dado: no início dos anos 2000, cerca de 70% dos doutores em computação nos EUA eram cidadãos ou residentes permanentes, proporção que hoje se inverteu. Para ele, a prioridade é formar talento doméstico, e parte das regras de vistos permitiria pagar menos a pós-doutorandos estrangeiros do que a americanos na mesma função.1

Segurança de IA: confiança em acordos voluntários

Na parte final, a conversa tratou de riscos. Kratsios relatou que uma ordem executiva de 2 de junho criou uma relação voluntária pela qual os laboratórios de fronteira compartilham seus modelos com o governo por pelo menos 30 dias antes do lançamento, para testes. Cowen argumentou que esse arranjo informal dificilmente resistirá por muito tempo e que um incidente grave, como um ataque cibernético a sistemas de pagamento, poderia levar o Congresso a uma regulação muito mais dura do que a que o próprio governo desejaria. Kratsios defendeu que as ferramentas legais existentes, somadas a uma força-tarefa federal sobre o tema, são suficientes por ora.1

O que o debate americano ensina ao Brasil

A tese de Kratsios parte de uma premissa específica: nos EUA, a indústria já carrega a maior parte do esforço de pesquisa. No Brasil, a realidade é outra. Segundo indicadores divulgados pelo MCTI em junho e noticiados pela Agência Brasil, o país aplica cerca de 1,23% do PIB em P&D, divididos quase igualmente entre governo (0,62%) e iniciativa privada (0,61%). O gasto público brasileiro em proporção do PIB é próximo ao dos EUA (0,66%); a diferença está no investimento empresarial, muito menor aqui.10

Investimento total em P&D, em % do PIB

Israel6,76% Coreia do Sul5,13% Japão3,62% Estados Unidos3,44% Alemanha3,13% Brasil1,23% (0,62% público + 0,61% privado)
Fonte: MCTI, indicadores nacionais de P&D 2014 a 2024, divulgados em junho de 2026. Comparação internacional conforme dados citados pelo ministério.

Isso muda o sentido do argumento. Se nos EUA é possível discutir se a universidade perdeu o protagonismo, no Brasil ela continua sendo o principal reservatório de que falava Cowen. Dados do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), compilados pela Uninter, mostram que a taxa de emprego formal de doutores caiu de 74,77% em 2009 para 67,66% em 2021.13 A proposta americana de levar o último ano do doutorado para a indústria pressupõe um mercado empresarial de pesquisa que, no Brasil, ainda é estreito.

Também há nuances no tema da fuga de cérebros. Um estudo do Ipea publicado em maio de 2026, que cruzou dados da Capes e da Receita Federal, encontrou apenas 1,2% de emigrantes entre os doutores titulados no país de 2013 a 2024, mas concentrados em programas de alta qualidade e nas áreas de ciências exatas, tecnologia e engenharia.14 O número é pequeno; o perfil de quem sai, nem tanto.

No campo da IA, o Brasil fez uma aposta própria. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões até 2028, dos quais R$ 18,2 bilhões viriam do FNDCT, o principal fundo federal de ciência.11 Parte desse valor, R$ 1,8 bilhão, financia um novo supercomputador voltado a modelagem climática, saúde e energia.12 A lógica se aproxima da Missão Genesis: infraestrutura pública de computação a serviço da pesquisa. A diferença de escala, porém, é enorme, e o plano brasileiro enfatiza soberania tecnológica, enquanto o americano enfatiza liderança e velocidade.

Talvez a lição mais transferível esteja na metaciência. O MCTI anunciou em junho a rede Cientistas de Dados pelo Brasil, para padronizar informações estaduais sobre apoio a P&D, e o próprio ministério admite não saber quantos pesquisadores brasileiros atuam no exterior.10 Medir com precisão o retorno do gasto em ciência é uma bandeira que independe de governo ou ideologia. O risco, visível no caso americano, é usar o discurso da eficiência para justificar cortes antes de ter os dados que comprovariam onde cortar.

Perguntas frequentes

O que é o relatório "Science: A New Golden Age"?

É um documento de 123 páginas publicado em 21 de julho de 2026 pelo Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca, dirigido por Michael Kratsios. Propõe reorganizar o financiamento federal de pesquisa nos EUA, priorizando cientistas individuais, metaciência, novos mecanismos de financiamento e IA aplicada à ciência. Apresenta-se como sucessor do relatório Science: The Endless Frontier, de Vannevar Bush (1945).

O que é a Missão Genesis?

É uma iniciativa federal criada por ordem executiva em 24 de novembro de 2025. Coordenada pelo Departamento de Energia, integra supercomputadores, bases de dados científicas e laboratórios automatizados em uma plataforma nacional para acelerar descobertas com inteligência artificial em áreas como energia, materiais, biotecnologia e computação quântica.

O plano da Casa Branca corta verbas de pesquisa?

O relatório em si não trata de valores, mas a proposta orçamentária do Executivo para 2027 prevê corte de cerca de 55% na National Science Foundation e de 12,8% nos Institutos Nacionais de Saúde. O governo argumenta que o total de P&D é recorde e que a qualidade do gasto importa mais que o volume. O Congresso rejeitou cortes semelhantes no orçamento de 2026.

Qual o papel das universidades no novo modelo americano?

Segundo Kratsios, elas continuam centrais na formação de cientistas, mas devem atuar em parcerias com indústria, filantropia e governo. Críticos como Tyler Cowen alertam que a redução de recursos e de pós-graduandos enfraquece a função das universidades como reservatório de ideias de longo prazo.

O que esse debate significa para a ciência brasileira?

No Brasil, o investimento em P&D é de cerca de 1,23% do PIB, com participação privada bem menor que a americana, e a universidade pública concentra a pesquisa. Por isso, a tese de deslocar a ciência para a indústria tem aplicação limitada. A ênfase em infraestrutura de IA, presente no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, e em metaciência são os pontos de maior convergência.

Nota de atribuição: as declarações de Michael Kratsios e Tyler Cowen citadas neste texto foram extraídas, de forma resumida e parafraseada, da entrevista publicada no podcast Interesting Times, do The New York Times, em 22 de outubro de 2026. Leia e ouça a íntegra em nytimes.com. Os demais dados foram apurados de forma independente pela redação do O Tecido.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido