Sustentabilidade · Urbanismo e Meio Ambiente

Quando um prefeito anuncia a “requalificação” de uma praça ou a chegada de um novo parque empresarial, a promessa costuma vir embrulhada em palavras que soam indiscutíveis: qualidade de vida, revitalização, sustentabilidade. É difícil argumentar contra isso publicamente. Mas o antropólogo catalão Manuel Delgado, professor emérito de Antropologia Urbana da Universidade de Barcelona, propõe uma pergunta incômoda por trás dessas promessas: para quem, exatamente, essas cidades estão sendo desenhadas?

Em entrevista ao jornal espanhol El País por ocasião do lançamento de seu ensaio Todas las ciudades están poseídas, Delgado resume seu diagnóstico em uma frase direta: “prefeitos concebem as cidades como produtos à venda”1. Para o pesquisador, um produto existe para ser colocado numa prateleira de mercado, e é exatamente essa lógica que estaria orientando boa parte do urbanismo contemporâneo, inclusive fora da Espanha.

Do valor de uso ao valor de troca

O argumento de Delgado dialoga com dois clássicos do pensamento urbano que ele cita diretamente: Morte e Vida de Grandes Cidades, de Jane Jacobs, e O Direito à Cidade, de Henri Lefebvre. Do segundo, ele recupera uma distinção central para entender o fenômeno: a diferença entre valor de uso, aquilo que um espaço oferece a quem efetivamente o habita e desgasta, e valor de troca, o potencial de um mesmo espaço gerar renda para quem o administra ou comercializa. Quando o valor de troca se impõe sobre o valor de uso, argumenta o antropólogo, o cidadão vira cliente e o visitante vira consumidor1.

Essa não é uma discussão apenas teórica ou espanhola. Praças, parques e frentes d’água em cidades brasileiras vêm sendo tratados, cada vez com mais frequência, como ativos capazes de gerar receita.

O Brasil também concede suas praças

O caso do Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, ilustra bem essa transição. Em 2026, a revogação de uma concessão privada sobre a praça reacendeu o debate sobre até que ponto espaços historicamente públicos podem ser geridos como ativos financeiros, com seguranças privados controlando o acesso a uma área que, no papel, pertence à cidade2. O movimento não é isolado: desde 2024, o Rio de Janeiro opera o programa Parques Cariocas, que transfere a gestão de áreas verdes municipais à iniciativa privada2.

“Não há políticas urbanísticas, há políticas imobiliárias.”

A jornalista e economista Sabrina Fernandes documentou um padrão semelhante em capitais brasileiras, nas quais projetos de concessão e parcerias público-privadas apresentados sob a bandeira da revitalização acabam funcionando como mecanismo de expulsão de moradores de baixa renda das áreas centrais, favorecendo incorporadoras3. O caso da Favela do Moinho, em São Paulo, onde o poder público não garantiu condições para a permanência dos moradores no centro da cidade, é citado como exemplo recente dessa dinâmica3.

Renovação urbana, expulsão garantida

Pesquisas acadêmicas reforçam o padrão em diferentes escalas. Um estudo sobre o Bairro da Paz, em Salvador, descreve como processos de regularização fundiária associados à especulação imobiliária produzem um efeito de “aburguesamento” em regiões antes populares, mesmo fora dos centros históricos mais visados4. Um segundo trabalho, publicado na Revista Baru, comparou o Bairro do Recife com o distrito 22@ de Barcelona, ambos alvo de operações urbanas voltadas a parques empresariais no início dos anos 2000: duas décadas depois, os pesquisadores encontraram baixa apropriação do espaço público fora do horário comercial em ambos os casos, associada a modelos de cidade menos compactos e mais segregados5.

Contraponto

Nem todo urbanista trataria essas concessões como sinônimo de expulsão. Defensores de parcerias público-privadas argumentam que orçamentos municipais insuficientes deixam parques e praças brasileiras à mercê do abandono, e que a gestão privada, sob fiscalização pública adequada, pode significar manutenção contínua, segurança e investimento em arborização que o poder público sozinho não sustenta. O ponto em disputa não é se o espaço deve ser cuidado, mas quem decide o que conta como cuidado e para quem ele é destinado.

O verde que não é distribuído igualmente

É aqui que o debate urbano encontra diretamente a pauta da sustentabilidade. Levantamento da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP mapeou o risco ao calor em São Paulo em escala de setor censitário e concluiu que a vulnerabilidade social pesa mais do que a exposição térmica em si na definição do risco: regiões periféricas da zona leste, norte e parte da zona sul concentram os índices mais altos, justamente onde a presença de árvores e corpos d’água é menor6.

O Mapa da Desigualdade, levantamento independente sobre a cidade de São Paulo, já registrava essa disparidade: enquanto a média municipal fica em torno de 670 árvores por quilômetro quadrado, bairros como Vila Sônia chegam a 760, ao passo que comunidades vizinhas menos favorecidas, como o Jardim Colombo, praticamente não têm cobertura arbórea nem áreas de lazer7. O padrão se repete em Brasília, onde pesquisa da Universidade de Brasília mostra que a renda média per capita do Plano Piloto, área planejada para ser uma “cidade-parque”, é doze vezes maior que a do Sol Nascente, uma das maiores favelas do país, onde moradores recorrem ao chamado “plantio de guerrilha” para tentar reduzir o calor onde o planejamento público não chegou8.

O fenômeno não é exclusivamente brasileiro, mas aqui ele é mais agudo: um estudo publicado no periódico Sustainable Cities and Society, que analisou 199 cidades ao redor do mundo, concluiu que a desigualdade no acesso a áreas verdes é generalizada, porém o nível de disparidade em cidades do Sul Global é o dobro do observado no Norte Global8. Em resposta a esse tipo de problema, o pesquisador holandês Cecil Konijnendijk propôs em 2021 a chamada regra 3-30-300: toda pessoa deveria conseguir ver ao menos três árvores de casa, viver em um bairro com pelo menos 30% de cobertura arbórea e morar a no máximo 300 metros de uma área verde8.

Ilhas de calor como questão climática, não estética

Estudos de sensoriamento remoto sobre o Rio de Janeiro, cruzando imagens de satélite com dados do Censo Demográfico do IBGE de 2022, mostraram que as favelas das zonas oeste e norte concentram os maiores registros de temperatura de superfície do município, configurando áreas de elevada vulnerabilidade socioambiental9. Um padrão análogo foi observado em Belém, onde a cobertura vegetal por habitante cai para menos de um metro quadrado nas regiões mais urbanizadas, acompanhada de temperaturas de superfície entre 30°C e 36°C10.

Esses dados reposicionam a crítica de Delgado em um terreno concreto para o Brasil. Se cidades são planejadas, nas palavras do antropólogo, para uma “Jerusalém celestial” previsível e higienizada, o custo dessa previsibilidade recai de forma desigual sobre quem já vive nas margens do desenho urbano, exatamente onde o calor é mais intenso e a sombra, mais escassa.

Reivindicar o uso da cidade

A saída proposta por Delgado não é rejeitar toda melhoria urbana, mas questionar a quem ela se destina. Ele defende que o direito à cidade, conceito de Lefebvre, significa reivindicar o uso cotidiano do espaço público como forma legítima de apropriação, e não apenas aceitar passivamente decisões de requalificação tomadas de cima para baixo1. Para o Brasil, isso implica tratar arborização, sombra e acesso a áreas verdes não como adorno paisagístico, mas como infraestrutura de saúde pública e justiça climática, com prioridade explícita para os bairros historicamente descobertos por ela.

Este artigo utiliza como ponto de partida a entrevista de Manuel Delgado ao jornal El País, publicada em 20 de setembro de 2026: “Los alcaldes conciben las ciudades como productos en venta”. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido integralmente; a reportagem foi complementada com apuração independente de fontes brasileiras e internacionais listadas nas referências.

Perguntas frequentes

O que significa dizer que uma cidade é tratada como “produto”?

Significa que decisões urbanísticas priorizam o potencial de geração de receita de um espaço (valor de troca) em vez do uso cotidiano que moradores fazem dele (valor de uso), como definiu o antropólogo Manuel Delgado ao analisar políticas urbanas neoliberais.

O que é o "direito à cidade"?

É um conceito formulado por Henri Lefebvre em 1968 que defende o uso e a apropriação cotidiana do espaço urbano por seus habitantes como direito legítimo, em oposição a modelos de planejamento decididos de cima para baixo.

Por que a desigualdade de áreas verdes é um problema de sustentabilidade?

Porque a distribuição desigual de árvores e parques está diretamente ligada à formação de ilhas de calor urbanas, que aumentam risco à saúde em bairros de baixa renda, tornando o acesso à natureza uma questão de justiça climática, não apenas de estética urbana.

O que é a regra 3-30-300?

É uma diretriz proposta em 2021 pelo pesquisador Cecil Konijnendijk segundo a qual toda pessoa deveria ver ao menos três árvores de casa, morar em bairro com 30% de cobertura arbórea e estar a no máximo 300 metros de uma área verde.

A privatização de praças e parques ajuda ou prejudica a sustentabilidade urbana?

O tema é controverso. Concessões privadas podem trazer manutenção e investimento onde orçamentos públicos falham, mas casos como o do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, mostram que essa gestão também pode restringir o acesso público e priorizar retorno financeiro sobre uso coletivo.

Nesta reportagem

Em números

Árvores/km² média SP670
Árvores/km² Vila Sônia760
Renda Plano Piloto vs. Sol Nascente12x
Disparidade verde Sul x Norte Global2x
Cidades analisadas no estudo global199

Linha do tempo

1961Jane Jacobs publica Morte e Vida de Grandes Cidades.
1968Henri Lefebvre lança O Direito à Cidade.
2019Última atualização do Mapa da Desigualdade sobre arborização em São Paulo.
2021Cecil Konijnendijk propõe a regra 3-30-300.
2024Rio de Janeiro lança o programa Parques Cariocas.
2026Revogação da concessão do Anhangabaú e publicação de Todas las ciudades están poseídas.

Glossário

Valor de uso
Benefício direto que um espaço oferece a quem o habita e utiliza.
Valor de troca
Potencial de um espaço gerar renda financeira para quem o administra.
Ilha de calor urbana
Fenômeno em que áreas densamente construídas retêm mais calor que regiões arborizadas.
Gentrificação
Processo de valorização imobiliária que tende a expulsar moradores de menor renda de uma região.

Referências

  1. Medina, Miguel Ángel. “Los alcaldes conciben las ciudades como productos en venta”. El País, 20 de setembro de 2026.
  2. Outras Palavras. “Anhangabaú: Hora de desprivatizar os espaços públicos”.
  3. Fernandes, Sabrina. “Sob pretexto falso de revitalização, capitais expulsam os mais pobres do centro”. The Intercept Brasil.
  4. Estudo sobre gentrificação no Bairro da Paz, Salvador. Revista Estudos, UNESP.
  5. Simas, T. B.; Le Cocq de Oliveira, S. A.; Cano-Hila, A. B. Análise comparativa das dinâmicas do espaço público no Porto Digital (Recife) e 22@ (Barcelona). Revista Baru.
  6. Jornal da USP. “Suscetibilidade ao calor em São Paulo acompanha mapa da desigualdade”.
  7. Correio Braziliense. “Teto que esquenta na favela, árvore e ar-condicionado no bairro rico”, com dados do Mapa da Desigualdade.
  8. Dialogue Earth. “Periferia de Brasília faz ‘plantio de guerrilha’ contra o calor”.
  9. Anais de pesquisa em Geociências. “O Mapa de Calor das Favelas Cariocas no Ano de 2024”, com dados do IBGE Censo 2022.
  10. Moreira, F. S. A.; Vitorino, M. I. “Relação de áreas verdes e temperatura da superfície para a cidade de Belém”. UFPA.