Empreendedorismo

Um empresário brasileiro que hoje quer entender por que a China lidera em robótica, veículos elétricos e inteligência artificial aplicada não precisa mais depender apenas de relatórios setoriais ou de feiras genéricas. Pode simplesmente embarcar, ver de perto e voltar com contatos, fornecedores e ideias de produto. Um roteiro que misturava, até pouco tempo, pontos turísticos tradicionais como a Muralha da China e a Cidade Proibida passou a incluir também visitas a robôs humanoides, corridas de teste em carros autônomos e demonstrações de interfaces cérebro-máquina, um fenômeno que a imprensa chinesa já batizou de turismo tecnológico.

Cidades como Shenzhen e Hangzhou, historicamente conhecidas por sediar gigantes como Huawei, DJI, Tencent e Alibaba, organizaram nos últimos meses roteiros oficiais de imersão tecnológica voltados a viajantes independentes, famílias e, cada vez mais, delegações empresariais estrangeiras. A tendência, batizada internamente de "turismo de estudo tecnológico", conecta sítios históricos a parques industriais, incubadoras e centros de pesquisa em robótica e biotecnologia, permitindo que o visitante compreenda, em poucos dias, a escala com que a China aplicou inteligência artificial e automação ao cotidiano.

A China que se mostra ao visitante estrangeiro

Em Hangzhou, na província de Zhejiang, roteiros voltados a estrangeiros já combinam o sítio arqueológico de Liangzhu, referência da civilização chinesa antiga, com uma "cidade da inteligência artificial", instalações de robótica e o parque industrial digital da Alibaba. Segundo reportagem publicada pelo jornal estatal China Daily, empresas como a BrainCo, especializada em interfaces cérebro-máquina não invasivas, passaram a integrar demonstrações voltadas a turistas, incluindo próteses biônicas controladas por sinais neurais e musculares.

Nota de atribuição: parte dos dados e relatos desta reportagem, incluindo os números de crescimento de visitantes e as declarações de Gu Weiping e da professora Wu Liyun, tem como referência a matéria original "Tourists add tech trips to itineraries", publicada pelo China Daily em 13 de agosto de 2026. Leia a reportagem completa em chinadaily.com.cn.

Os números confirmam o movimento. A China registrou 22,9 milhões de entradas de estrangeiros no primeiro semestre de 2026, alta de 20,4% em relação ao ano anterior, sendo que 77,7% dessas entradas ocorreram sem exigência de visto, segundo a Administração Nacional de Imigração do país. Só a operadora de turismo tecnológico de Hangzhou citada na reportagem do China Daily relatou crescimento de mais de 120% no número de clientes estrangeiros interessados em programas de IA, robótica e cidades inteligentes.

Uma rota livre de visto para o empreendedor brasileiro

Para quem lidera uma empresa no Brasil, esse movimento chega em um momento particularmente favorável. Desde 1º de junho de 2025, cidadãos brasileiros com passaporte comum estão isentos de visto para viagens de negócios, turismo, intercâmbio e trânsito na China, com estadias de até 30 dias. A embaixada chinesa no Brasil confirmou a extensão dessa política até 31 de dezembro de 2026, o que na prática elimina uma das principais barreiras burocráticas que historicamente afastavam pequenos e médios empresários de missões independentes ao país.

A reciprocidade também avançou: desde 11 de maio de 2026, cidadãos chineses passaram a poder visitar o Brasil sem visto, dentro do que o governo brasileiro chamou de Ano Cultural Brasil-China. Na prática, isso significa que o fluxo de negócios entre os dois países deixou de depender de vistos de curto prazo em nenhuma das duas direções, algo raro na relação do Brasil com potências asiáticas.

"Tecnologia poderá levar mais cidades de segundo e terceiro escalão aos roteiros de visitantes estrangeiros." Wu Liyun, professora da Academia Chinesa de Cultura e Turismo, à China Daily

Missões brasileiras já testam o roteiro

Organizações brasileiras de fomento e inovação não esperaram a cobertura internacional para agir. A ApexBrasil realizou em maio uma missão oficial por Chongqing, Shenzhen, Xangai e Pequim, levando um número recorde de 82 empresas expositoras à feira SIAL China, além de assinar memorandos de cooperação em finanças verdes e agricultura sustentável. O Instituto Caldeira, hub de inovação gaúcho, abriu inscrições para sua própria "Missão China 2026", com passagens por Pequim, Xangai e Shenzhen voltadas à exploração de modelos de escala, inteligência artificial aplicada e novas dinâmicas de consumo.

A Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) promoveu uma imersão de 11 dias por Pequim, Hangzhou, Xangai e Shenzhen para decodificar, segundo a entidade, o modelo de crescimento chinês e identificar pontes de cooperação com o Brasil. Já o Sebrae levou 29 empreendedores selecionados entre os destaques do Prêmio Sebrae de Startups a Ningbo, em uma imersão por universidades, fábricas inteligentes e centros de inovação voltada especificamente a empresas lideradas por empreendedores negros, dentro do Programa Caminhos do Sul Global.

O que essas missões costumam incluir

  • Visitas técnicas a parques industriais e polos de manufatura avançada, como o distrito eletrônico de Huaqiangbei, em Shenzhen
  • Encontros com startups e empresas consolidadas de robótica, veículos elétricos e inteligência artificial aplicada
  • Participação em feiras setoriais, como a Canton Fair, em Guangzhou, e a SIAL China
  • Rodadas de negócios com potenciais fornecedores, distribuidores e parceiros de investimento
  • Workshops preparatórios e sessões de debriefing para transformar os aprendizados em planos de ação aplicáveis à realidade brasileira

Por que o momento é estratégico para o Brasil

A oportunidade de conhecer de perto o ecossistema tecnológico chinês coincide com um salto no volume de comércio entre os dois países. A corrente de comércio bilateral, soma de exportações e importações, somou US$ 96,9 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China, novo recorde histórico para o período. A China já responde por quase um terço de tudo o que o Brasil exporta e segue como o principal parceiro comercial do país havia mais de uma década.

Esse volume crescente de trocas cria um incentivo direto para que empresários brasileiros, sobretudo de setores como manufatura, eletrônicos, agroindústria e serviços digitais, deixem de depender exclusivamente de intermediários e passem a visitar pessoalmente fábricas, feiras e centros de inovação chineses. A facilidade de deslocamento interno também ajuda: pagamentos móveis, tradução simultânea por aplicativo, carros autônomos e entrega por drones já fazem parte da rotina em cidades como Shenzhen, reduzindo o atrito logístico que antes exigia guias especializados ou grandes operadoras.

Contraponto

Apesar do avanço, especialistas ouvidos pelo China Daily reconhecem que o turismo tecnológico chinês ainda está em estágio inicial de maturidade. Muitos polos de inovação continuam de difícil acesso para visitantes independentes, sem canais de reserva padronizados, e a explicação multilíngue de processos de pagamento e reembolso de impostos segue incompleta em boa parte do país.

Para o empresário brasileiro, some-se a isso um risco estrutural mais amplo: a dependência comercial crescente de um único parceiro. Analistas do próprio setor de comércio exterior brasileiro alertam que a concentração de quase um terço das exportações nacionais em um só mercado, ainda que vantajosa no curto prazo, expõe o país a oscilações de política externa chinesa e a eventuais tensões comerciais entre China e outros blocos econômicos, como o dos Estados Unidos.

Questões de propriedade intelectual, transferência de tecnologia e assimetria regulatória entre os dois países também exigem cautela contratual em qualquer negociação iniciada durante essas viagens, algo que consultorias especializadas em comércio exterior costumam recomendar antes da assinatura de qualquer memorando.

Como organizar uma viagem de negócios à China

Para o empreendedor que avalia uma primeira viagem independente, o caminho mais comum passa por três frentes. A primeira é a documentação: além do passaporte válido e da isenção de visto para estadias de até 30 dias, é recomendável levar comprovantes de hospedagem e do motivo da viagem, já que a isenção cobre negócios, turismo, intercâmbio e trânsito, mas pode ser fiscalizada na chegada. A segunda é a escolha do roteiro, que hoje pode ser montado tanto por meio de missões setoriais organizadas por entidades como ApexBrasil, Sebrae e associações de classe, quanto de forma independente, com apoio de operadoras credenciadas.

A terceira frente é o planejamento comercial em si: identificar previamente quais empresas, feiras ou distritos industriais fazem sentido para o setor de atuação, já que cidades como Shenzhen, Hangzhou, Pequim e Xangai têm vocações econômicas distintas entre eletrônicos, comércio digital, manufatura e serviços financeiros. A ampliação do sistema de reembolso de impostos para turistas, com redução do valor mínimo de compra elegível e digitalização dos processos, também reduziu o atrito para quem aproveita a viagem para testar produtos tecnológicos chineses antes de negociar parcerias de distribuição no Brasil.

Perguntas frequentes

Brasileiros precisam de visto para viajar a negócios à China em 2026?

Não. Desde junho de 2025, passaportes comuns brasileiros estão isentos de visto para estadias de até 30 dias com finalidade de negócios, turismo, intercâmbio ou trânsito, política que a China estendeu até 31 de dezembro de 2026.

Quais cidades chinesas concentram os principais roteiros de turismo tecnológico?

Shenzhen, na província de Guangdong, e Hangzhou, em Zhejiang, lideram a oferta de roteiros voltados a robótica, inteligência artificial e inovação, seguidas por Pequim e Xangai, tradicionais centros de negócios e polos financeiros.

É necessário participar de uma missão organizada para visitar empresas chinesas?

Não é obrigatório, mas facilita o acesso. Missões conduzidas por entidades como ApexBrasil, Sebrae, ABES e hubs de inovação privados já têm agenda estruturada com visitas técnicas, o que reduz a dificuldade de agendamento independente relatada por especialistas do setor de turismo chinês.

O crescimento do comércio com a China representa algum risco para empresas brasileiras?

Sim. A concentração de quase um terço das exportações brasileiras em um único mercado aumenta a exposição do país a mudanças de política externa chinesa e a tensões comerciais internacionais, o que reforça a importância de diversificação estratégica mesmo diante do bom momento bilateral.

Em números

US$ 96,9 bi
Corrente de comércio Brasil-China no 1º semestre de 2026, recorde histórico para o período (CEBC)
+120%
Crescimento de clientes estrangeiros em programas de turismo tecnológico em Hangzhou (China Daily)
77,7%
Parcela das entradas de estrangeiros na China feitas sem exigência de visto no 1º semestre de 2026
30 dias
Prazo máximo de estadia isenta de visto para brasileiros em viagens de negócios à China

Linha do tempo

Jun. 2025 China concede isenção de visto a brasileiros para viagens de curta duração
Mai. 2026 Brasil concede reciprocidade a turistas chineses; ApexBrasil leva missão recorde a Chongqing, Shenzhen, Xangai e Pequim
Jul. 2026 Sebrae leva 29 afroempreendedores brasileiros a centros de inovação em Ningbo
Ago. 2026 China Daily documenta expansão do turismo tecnológico como novo atrativo do país
Dez. 2026 Prazo de validade atual da isenção recíproca de vistos entre Brasil e China

Glossário

Turismo tecnológico
Roteiros que combinam pontos turísticos tradicionais com visitas a empresas, robótica e inovação aplicada
Isenção de visto
Dispensa da exigência de visto para entrada em um país, geralmente limitada a um prazo máximo de estadia
Corrente de comércio
Soma das exportações e importações entre dois países em determinado período
Missão empresarial
Viagem organizada por entidades de fomento ou associações para conectar empresas a mercados estrangeiros

Referências

  1. China Daily. Tourists add tech trips to itineraries, 13 ago. 2026. chinadaily.com.cn
  2. Embaixada da China no Brasil. Aviso sobre a extensão do prazo da política de isenção unilateral de visto. br.china-embassy.gov.cn
  3. CNN Brasil. Brasil elimina visto para turistas chineses até o fim de 2026. cnnbrasil.com.br
  4. Notícias Agrícolas. Missão da ApexBrasil à China reforça presença brasileira no maior mercado asiático. noticiasagricolas.com.br
  5. Instituto Caldeira. Missão China 2026. institutocaldeira.org.br
  6. ABES. Da robótica à inteligência artificial: lideranças brasileiras contam como foi a missão para a China. abes.org.br
  7. Boletim Trends CE. Afroempreendedores voltam da China com novas tecnologias, conexões e negócios em desenvolvimento. boletimtrendsce.com.br
  8. Brasil 247. Exportações brasileiras para a China batem recorde histórico. brasil247.com
  9. Revista Fórum. China bate recordes no comércio exterior e Brasil se consolida como parceiro estratégico. revistaforum.com.br