Caderno Política · Geopolítica da tecnologia

Nota editorial. Este texto parte da reportagem de dados "¿Es China una superpotencia tecnológica? Los gráficos de su fuerza en robots, patentes y notas de PISA", publicada pelo jornal espanhol El País em 26 de setembro de 2026. Os dados atribuídos ao El País são creditados ao longo do texto. A análise sobre o Brasil, as fontes complementares e as conclusões são de responsabilidade de O Tecido.

Em pouco mais de três décadas, a China saiu de uma economia comparável à espanhola para a maior do mundo quando o tamanho é medido por paridade de poder de compra. Em 1990, o país respondia por cerca de 3% do PIB global nesse critério; hoje está à frente dos Estados Unidos e da União Europeia, segundo levantamento do El País com base no Banco Mundial1. A reportagem do jornal espanhol, publicada neste sábado (26), reúne gráficos sobre robôs, patentes, ciência, universidades e escolas para responder a uma pergunta direta: a China já é uma superpotência tecnológica?

Os números indicam que sim em quase todas as frentes, com uma exceção que hoje define a disputa entre as duas maiores economias do planeta: a inteligência artificial de fronteira, na qual os Estados Unidos ainda lideram porque controlam os chips. Para o Brasil, a pergunta tem uma consequência prática. A China é o maior parceiro comercial do país, foi a origem do maior volume de investimento estrangeiro chinês registrado no mundo em 2025 e passou a participar da infraestrutura pública brasileira de inteligência artificial. Entender o tamanho real da potência chinesa deixou de ser tema de política externa e passou a ser tema de política industrial, educacional e de soberania tecnológica.

Da fábrica do mundo ao laboratório do mundo

O primeiro dado que o El País destaca é produtivo. A China gera cerca de 28% de todo o valor adicionado manufatureiro do planeta, mais do que Estados Unidos, Japão e Alemanha somados1. O jornal lembra que a métrica considera apenas o valor produzido dentro do país: num iPhone montado em território chinês, entra na conta a montagem e os componentes fabricados ali, não o projeto ou o software. A ressalva importa porque separa volume de fabricação de domínio tecnológico, e é justamente essa fronteira que a China vem cruzando.

Na última década, o peso chinês migrou dos brinquedos, da louça e das malas para tecnologias estratégicas. Segundo os dados compilados pelo El País a partir da Agência Internacional de Energia, o país concentra 86% da produção mundial de painéis solares e 80% das baterias1. Empresas como CATL e BYD deixaram de ser apenas fabricantes de escala e passaram a ser referência em densidade energética, o que significa armazenar mais energia em menos espaço. É a passagem de copiadora a inovadora, que o Ocidente por muito tempo tratou como improvável.

Robôs e patentes: a vantagem que já se mede

A automação é o indicador mais recente dessa virada. O El País usa o número de 2024, quando a China instalou 295 mil robôs industriais. Dados divulgados pela Federação Internacional de Robótica (IFR) nesta semana ampliam o quadro: em 2025, o país instalou 354 mil unidades, o equivalente a 59% de todas as instalações do mundo, num ano em que as fábricas globais receberam mais de 600 mil robôs novos e o estoque operacional chegou a 5 milhões2. Em outras palavras, a China automatiza mais do que o restante do planeta somado.

Nas patentes, a liderança também é consolidada. Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), foram depositados cerca de 275,9 mil pedidos internacionais pelo sistema PCT em 2025, e requerentes chineses lideraram a lista de origens3. Conforme balanço divulgado pela agência Xinhua a partir dos números da OMPI, foram 73.718 pedidos de origem chinesa, contra 52.617 dos Estados Unidos e 47.922 do Japão4. A Huawei manteve a posição de maior depositante individual do mundo.

Pedidos internacionais de patentes (PCT) por origem, 2025

Número de pedidos depositados pelo sistema PCT, cinco maiores origens

China 73.718 Estados Unidos 52.617 Japão 47.922 Coreia do Sul 25.016 Alemanha 16.441
Fonte: OMPI, dados divulgados em março de 2026 via Xinhua. Elaboração: O Tecido.

Na ciência, o El País mostra que a China publica mais do que o dobro de artigos que os Estados Unidos e cerca de 70% a mais que a União Europeia. Mais relevante que o volume é a qualidade: a fatia de artigos chineses entre o 1% mais citado do mundo subiu de forma acelerada desde 2006. Nesse indicador o país ainda está atrás dos americanos, mas, segundo o jornal, provavelmente já superou os europeus1. Os ensaios clínicos contam a mesma história em ritmo mais rápido. Em 2009, empresas sediadas na China respondiam por cerca de 1% dos ensaios iniciados no mundo; hoje são 30%, à frente da Europa (21%) e perto dos Estados Unidos (35%), segundo dados da consultoria IQVIA citados pelo El País1.

Talento: formados na China, empregados nos Estados Unidos

O avanço científico se apoia em universidades que crescem em ritmo raro. Em 2015, nenhuma instituição chinesa aparecia entre as 100 melhores do ranking de Xangai; dez anos depois, eram 161. O El País cita ainda dados do centro de estudos MacroPolo sobre a NeurIPS, uma das principais conferências de inteligência artificial: na edição de 2022, 45% dos autores de uma amostra haviam feito a graduação na China, mas apenas 23% fizeram a pós-graduação no país e 28% trabalhavam lá. Os Estados Unidos, por sua vez, formavam 17% na graduação e empregavam 42%1.

A leitura política desse dado é direta. Parte da liderança americana em inteligência artificial foi construída com cérebros treinados na China. A manutenção dessa vantagem depende, portanto, de os Estados Unidos continuarem atraentes para esses pesquisadores, algo que já não pode ser tomado como certo num ambiente de rivalidade crescente entre os dois governos.

Chips, o gargalo escolhido por Washington

É na inteligência artificial mais avançada que a China ainda corre atrás. Segundo o índice de capacidades da Epoch AI reproduzido pelo El País, os melhores modelos chineses seguem os americanos com alguns meses de atraso, compensando a desvantagem com técnicas de eficiência e com a destilação, que transfere capacidades de um modelo grande para outro menor a partir de suas respostas1. O obstáculo central é o hardware. Ao fim de 2025, 96% da capacidade de computação acumulada em chips de IA mapeada pela Epoch vinha de quatro empresas americanas, Nvidia, Google, AMD e Amazon; as chinesas Huawei e Cambricon somavam os 4% restantes1.

A resposta chinesa tem sido acelerar a produção doméstica. Uma análise do CSIS, centro de estudos de Washington, aponta que o chip Ascend 910C, da Huawei, entrega cerca de 60% do desempenho de um Nvidia H100 em tarefas de inferência, embora ainda seja pouco atraente para o treinamento de modelos5. O limite de escala continua visível: segundo o The Wire China, estimativa do Council on Foreign Relations indica que, mesmo produzindo 800 mil unidades em 2025, a Huawei teria alcançado apenas 5,3% do poder de processamento fabricado pela Nvidia no mesmo ano6. A política americana, por sua vez, oscila. Em dezembro de 2025, o governo Trump autorizou a venda do chip H200 à China, sob condições, depois de anos de restrições crescentes6.

O El País encerra sua reportagem observando que, na corrida que muitos consideram a mais importante da década, a tecnologia chinesa está atrasada, e acrescenta que isso vale por enquanto1. A ressalva resume a percepção dominante entre analistas: a vantagem americana é real, mas depende de um único estrangulamento, e estrangulamentos incentivam substitutos.

O Brasil no meio da disputa

Para o Brasil, a ascensão chinesa já não é abstração. A corrente de comércio entre os dois países bateu recorde de US$ 171 bilhões em 2025, alta de 8,2%, mais que o dobro das trocas com os Estados Unidos (US$ 83 bilhões), segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC)7. O Brasil acumulou superávit de US$ 29,1 bilhões com a China, 17º ano consecutivo de saldo positivo.

A composição desse comércio, porém, revela uma assimetria que dialoga diretamente com a reportagem espanhola. A China absorveu 51,5% das exportações brasileiras da indústria extrativa e 47% das agropecuárias, enquanto o principal destino das exportações da indústria de transformação continuou sendo os Estados Unidos (16%, contra 11,7% da China)7. Na outra ponta, as importações de produtos chineses alcançaram o recorde de US$ 70,9 bilhões, com peso crescente de veículos eletrificados. O Brasil vende matéria-prima e alimentos a uma potência que exporta tecnologia.

Corrente de comércio do Brasil em 2025

Soma de exportações e importações, em US$ bilhões

China 171 Estados Unidos 83
Fonte: CEBC, com dados da Secex/MDIC (janeiro de 2026). Elaboração: O Tecido.

O investimento tenta corrigir parte dessa equação. O Brasil foi o país que mais recebeu investimentos chineses no mundo em 2025, com US$ 6,1 bilhões distribuídos por 20 estados, segundo estudo do CEBC noticiado pela Exame8. O setor automotivo recebeu ao menos US$ 965 milhões, alta de 66%, com a inauguração das fábricas da BYD e da GWM. O efeito já aparece nos dados da IFR: as instalações de robôs no Brasil cresceram 38% em 2025, para quase 4,3 mil unidades, e no setor automotivo mais que triplicaram. A própria federação atribui o salto, muito provavelmente, aos aportes de montadoras chinesas2. A automação brasileira, portanto, passa a ser em parte um reflexo da estratégia industrial chinesa.

O ponto mais sensível está na inteligência artificial. Em agosto, o governo federal anunciou uma nova etapa do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Segundo a Agência Brasil, o pacote inclui um supercomputador no Rio Grande do Norte, a ser executado pelo Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), e uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro em parceria da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) com as chinesas Huawei e iFlytek9. A ministra Luciana Santos, do MCTI, afirmou que 60% do processamento de inteligência artificial brasileira é feito fora do país.

A decisão coloca o Brasil no centro do tabuleiro descrito pelo El País. De um lado, o país depende de chips cujo projeto é dominado por empresas americanas e sujeito às regras de exportação de Washington. De outro, aproxima-se de uma empresa que é o principal alvo dessas regras. A estratégia pode ser lida como diversificação pragmática de fornecedores ou como exposição a riscos regulatórios futuros, e é provável que as duas leituras estejam parcialmente corretas. Há ainda uma questão de execução. Reportagem do Capital Digital mostrou que o desenho original do PBIA mirava um supercomputador entre os cinco maiores do mundo, com R$ 1,8 bilhão previstos, e que apenas R$ 28 milhões haviam sido empenhados em 2025; os R$ 23 bilhões do plano não correspondem a recursos já contratados10.

O Brasil já é o maior destino do capital chinês no mundo. O que falta decidir é se o país quer ser apenas mercado e fornecedor ou também parte da cadeia que produz conhecimento.Análise de O Tecido

A distância que começa na sala de aula

O El País dedica um trecho ao desempenho escolar chinês no PISA, a avaliação internacional da OCDE aplicada a estudantes de 15 anos1. É o dado que mais expõe a distância brasileira. No PISA 2025, divulgado em 8 de setembro, o Brasil obteve 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, segundo dados do Inep reproduzidos pelo Correio Braziliense11. Apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram o nível básico em matemática, contra 65% na média da OCDE.

O grupo chinês avaliado, formado por Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang, teve a maior média do mundo em matemática, 612 pontos, enquanto o Brasil ficou na 71ª posição, de acordo com o O Tempo12. A diferença supera 200 pontos. Pela convenção de que cerca de 20 pontos equivalem a um ano escolar, trata-se de uma defasagem de uma década de aprendizagem. Robôs, patentes e chips são o resultado visível de uma base que começa muito antes, nas escolas.

O que está em jogo para a política brasileira

A reportagem do El País descreve uma transformação que se mede em dados, não em retórica. Em 30 anos, a China construiu capacidade industrial, científica e educacional de forma deliberada e coordenada. A disputa com os Estados Unidos hoje se concentra num ponto estreito, os semicondutores, e o desfecho dessa disputa afetará todos os países que dependem de tecnologia importada, incluindo o Brasil.

Para o debate político brasileiro, a lição tem duas partes. A primeira é que a relação com a China não pode continuar sendo tratada apenas pela ótica do agronegócio e da balança comercial, porque já envolve automação industrial, infraestrutura de dados e inteligência artificial pública. A segunda é que nenhuma parceria externa substitui a base doméstica: a distância no PISA mostra que o gargalo brasileiro começa na formação, muito antes dos chips. Um país que não forma pessoas capazes de usar e desenvolver tecnologia tende a ficar na posição de comprador, seja qual for o fornecedor.

O Brasil tem hoje algo que poucos países têm: acesso relevante aos dois polos da disputa. Transformar essa posição em vantagem depende de metas verificáveis, execução orçamentária real e continuidade entre governos. Sem isso, a neutralidade vira apenas dependência dupla.

Perguntas frequentes

A China já é uma superpotência tecnológica?

Em boa parte dos indicadores, sim. A China gera cerca de 28% do valor adicionado manufatureiro mundial, instalou 354 mil robôs industriais em 2025 (59% do total global, segundo a IFR) e liderou os pedidos internacionais de patentes pelo sistema PCT em 2025. A principal exceção é a inteligência artificial de fronteira, em que os Estados Unidos mantêm vantagem por dominarem o projeto dos chips mais avançados.

Por que a China ainda está atrás dos Estados Unidos em inteligência artificial?

Por causa dos chips. Segundo dados da Epoch AI citados pelo El País, ao fim de 2025 cerca de 96% da capacidade de computação acumulada em chips de IA vinha de empresas americanas. Os controles de exportação dos EUA limitam o acesso chinês a esses processadores, e a produção doméstica, liderada pela Huawei, cresce rápido, mas ainda não compensa a diferença.

Qual é o peso da China na economia brasileira?

A corrente de comércio Brasil-China atingiu o recorde de US$ 171 bilhões em 2025, mais que o dobro das trocas com os Estados Unidos. O Brasil também foi o país que mais recebeu investimentos chineses no mundo em 2025, com US$ 6,1 bilhões, segundo o CEBC.

Como o Brasil se compara à China no PISA 2025?

O Brasil obteve 377 pontos em matemática e ficou na 71ª posição. O grupo chinês avaliado, com quatro províncias, teve a maior média em matemática, 612 pontos. A comparação tem limites porque a amostra chinesa não representa o país inteiro.

O que o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial tem a ver com a China?

O PBIA prevê R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Em agosto de 2026, o governo anunciou um supercomputador no Rio Grande do Norte e uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro em parceria da RNP com as chinesas Huawei e iFlytek, o que insere o Brasil diretamente na disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.

Ewerton Lopes — Curador Editorial
O Tecido · Caderno Política