Caderno Economia · Geoeconomia & Comércio Internacional

Diante da ameaça do presidente Donald Trump de impor o que chamou de "D-Day econômico" a países que mantêm negócios com o Irã, a China respondeu com um misto de desafio e cálculo frio. Para Pequim, o aviso soa menos como uma jogada de força e mais como sinal de que Washington enfrenta limites reais para conter o país que compra a maior parte do petróleo iraniano1.

Segundo reportagem publicada em 21 de agosto pelo The New York Times, assinada pelos correspondentes David Pierson e Berry Wang em Hong Kong, analistas chineses avaliam que a ameaça revela mais fragilidade do que músculo por parte da Casa Branca, já que o governo americano não encontrou até agora uma saída favorável para o conflito no Oriente Médio1. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, chegou a sugerir publicamente que seria do interesse da China cooperar com as sanções, prometendo detalhar a estratégia em coletiva na próxima segunda-feira1.

Por que Pequim se sente blindada

A confiança chinesa não é retórica vazia. O país formou estoques de petróleo suficientes para meses de consumo e ampliou compras de barris russos justamente para reduzir a dependência de um único corredor de fornecimento, incluindo o Estreito de Ormuz1. Parte relevante do petróleo iraniano chega à China por meio das chamadas refinarias "teapot", processadoras independentes e de pequeno porte que operam à margem do sistema financeiro internacional e, por isso, ficam menos expostas a sanções bancárias dos Estados Unidos1.

Essa engenharia logística não é nova. Estudos sobre o comércio petrolífero iraniano já haviam mapeado uma frota de navios com documentação adulterada e uma rede de empresas de fachada que sustenta exportações muito acima das metas ocidentais de contenção, com apoio direto de compradores chineses2.

O trunfo das terras raras

Se o petróleo é a vulnerabilidade que os Estados Unidos tentam explorar, os minerais críticos são a carta que a China guarda para si. Pequim já demonstrou capacidade de travar cadeias produtivas inteiras ao restringir a exportação de terras raras e materiais como gálio e germânio, usados em semicondutores e em equipamentos militares3. O país controla cerca de 90% do refino mundial dessas substâncias, um gargalo que a indústria americana ainda não conseguiu contornar apesar dos investimentos recentes em capacidade doméstica4.

Em outubro de 2025, Pequim chegou a ampliar essas restrições, provocando ameaça de tarifas adicionais de Trump, mas suspendeu a medida por um ano após o encontro entre os dois líderes na Coreia do Sul, mantendo intactos, porém, controles mais antigos, de abril daquele ano5. Especialistas em segurança de suprimentos estimam que uma disrupção de apenas 10% nos setores dependentes de terras raras poderia gerar perdas globais da ordem de US$ 150 bilhões em um único ano4.

A trégua comercial entre Washington e Pequim é hoje menos um acordo do que um equilíbrio armado: petróleo iraniano de um lado, terras raras chinesas do outro.

A trégua, negociada nos bastidores de sucessivas rodadas de tarifas e retaliações ao longo de 2025, deve ser posta à prova em setembro, quando Xi Jinping é esperado em Washington para sua primeira visita de Estado desde 2015, num encontro que ambos os lados têm interesse em preservar1.

Contraponto: blefe ou aperto real?

Nem todos os analistas veem na ameaça de Trump um plano executável. Pesquisadores chineses e ocidentais notam que declarações anteriores do presidente americano sobre o Irã nem sempre se converteram em ação, o que reduz o peso imediato do anúncio1. Do lado americano, porém, há quem argumente que a economia dos Estados Unidos ainda tem capacidade de impor custos reais a Pequim, mesmo que o próprio Washington também saia ferido do embate1.

O que isso significa para o Brasil

Para a economia brasileira, o episódio não é apenas geopolítica distante. O petróleo é uma commodity global cotada em dólar, e episódios de tensão no Oriente Médio já produziram efeito quase imediato nas bombas de combustível no Brasil ao longo de 2026, pressionando o diesel, o frete rodoviário e, por consequência, os preços de alimentos e produtos industrializados6. Em episódios anteriores de escalada, o barril chegou a romper a casa dos US$ 100, levando o Tesouro Nacional a sinalizar risco direto para o planejamento fiscal do primeiro trimestre e reforçando cautela do Banco Central sobre o ritmo de corte da Selic7.

Há também uma leitura de oportunidade. Analistas de mercado observam que uma escalada nas tensões entre Washington, Pequim e Teerã tende a redirecionar parte da demanda chinesa por petróleo bruto para outros fornecedores, entre eles o Brasil, que já exporta cerca de 2 milhões de barris por dia8. O momento chega em meio a um ano recorde na relação bilateral: o comércio entre Brasil e China somou US$ 171 bilhões em 2025, com as vendas de petróleo bruto brasileiro aos chineses atingindo US$ 20 bilhões e 44 milhões de toneladas, o equivalente a 45% de todo o óleo exportado pelo país9.

Ou seja: qualquer movimento que force a China a diversificar suas fontes de energia, seja por sanções americanas mais duras contra o Irã, seja por uma escalada militar, tende a reforçar, e não enfraquecer, o papel do Brasil como fornecedor estratégico de petróleo para o mercado chinês, ainda que o efeito colateral no curto prazo, via preço internacional do barril, pressione a inflação doméstica.

Por que a China se sente confortável para resistir às ameaças de Trump?

Porque combina estoques amplos de petróleo, compras crescentes de óleo russo, uma rede de refinarias independentes menos exposta a sanções bancárias e o domínio quase total do refino global de terras raras, usado como contrapeso em negociações comerciais.

O que são as refinarias "teapot" citadas na disputa comercial?

São refinarias chinesas independentes e de menor porte, historicamente menos conectadas ao sistema financeiro internacional, o que reduz sua exposição a sanções americanas sobre bancos que processam pagamentos ligados ao petróleo iraniano.

Como a tensão entre EUA, China e Irã afeta o consumidor brasileiro?

Principalmente via preço internacional do petróleo, que pressiona o diesel, o custo do frete rodoviário e, por tabela, a inflação de alimentos, além de influenciar decisões do Banco Central sobre a taxa Selic.

O Brasil pode se beneficiar de uma eventual sanção ao petróleo iraniano?

Sim, ao menos parcialmente. Como a China já é o maior comprador de petróleo bruto brasileiro, uma restrição mais dura ao fornecimento iraniano tende a aumentar a demanda chinesa por óleo produzido no Brasil.

Nota de atribuição editorial: Esta reportagem foi inspirada na matéria "Why China Thinks It Can Resist Trump's Economic Threats on Iran", de David Pierson e Berry Wang, publicada pelo The New York Times em 21 de agosto de 2026. O texto original pode ser lido em: https://www.nytimes.com/2026/08/21/world/asia/china-iran-trump-economic-threats.html. O conteúdo aqui publicado é produção original de O Tecido, com apuração e sourcing independentes, e não constitui tradução ou reprodução do material da fonte citada.

Em números

Petróleo iraniano comprado pela Chinaaté 90%
Domínio chinês do refino de terras raras~90%
Comércio Brasil–China em 2025US$ 171 bi
Petróleo bruto do Brasil vendido à ChinaUS$ 20 bi
Fatia do óleo brasileiro exportado à China45%

Linha do tempo

  • OUT. 2025China amplia e depois suspende por um ano controles sobre terras raras, após cúpula Trump–Xi na Coreia do Sul.
  • MAR. 2026Escalada no Oriente Médio leva petróleo a romper US$ 100, pressionando a inflação no Brasil.
  • ABR. 2026Sinais de negociação entre EUA e Irã derrubam parte da alta do petróleo.
  • 21 AGO. 2026Trump ameaça "D-Day econômico" contra parceiros comerciais do Irã; China rebate a ameaça.
  • SET. 2026Xi Jinping é esperado em Washington para visita de Estado.

Glossário

Refinarias "teapot"
Refinarias chinesas independentes, de menor porte, com baixa exposição ao sistema financeiro internacional.
Terras raras
Grupo de minerais essenciais a semicondutores, turbinas, mísseis e equipamentos militares, dominado pelo refino chinês.
Selic
Taxa básica de juros definida pelo Banco Central, usada para conter a inflação no Brasil.
Estreito de Ormuz
Corredor marítimo estratégico por onde passa parte relevante do petróleo mundial exportado do Golfo Pérsico.

Referências

  1. Pierson, D.; Wang, B. "Why China Thinks It Can Resist Trump's Economic Threats on Iran". The New York Times, 21 ago. 2026. Acessar
  2. Ghasseminejad, S. "Sanções? A rede secreta de petróleo do Irã alimenta seu regime". 2025. Acessar
  3. CNN Business. "Why rare earth minerals are central to Trump's threats against China". 2025. Acessar
  4. Information Technology Industry Council. "Critical Minerals, Lasting Trade Deal Key to Meaningful Trump–Xi Summit". 2026. Acessar
  5. CNBC. "China suspends some critical mineral export curbs to the U.S. as trade truce takes hold". 2025. Acessar
  6. Gazeta do Povo. "Guerra no Irã e os impactos na economia do Brasil". 2026. Acessar
  7. Gazeta do Povo. "Guerra no Irã: efeitos no petróleo e na economia do Brasil". 2026. Acessar
  8. Boa Investir/B3. "Como a guerra do Irã pode impactar os preços e a economia do Brasil". 2026. Acessar
  9. RTP Notícias / CEBC. "Comércio entre Brasil e China cresce para valor recorde em 2025". 2026. Acessar