Nesta reportagem
Um relatório apresentado nesta semana ao Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional da China, o principal órgão legislativo do país, trouxe um retrato de como avançou o programa de consolidação da retirada da pobreza rural nos últimos cinco anos. O documento foi entregue por Maierdan Mugaiti, vice-ministro do Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais, durante a sessão que começou na terça-feira em Pequim.
Segundo o texto, a renda disponível per capita dos moradores rurais nos 832 condados que deixaram oficialmente a lista de pobreza subiu de 12.588 yuans em 2020 para 18.627 yuans em 2025, o equivalente a cerca de US$ 2.772. O crescimento médio anual ficou em 8,2%, um ritmo bem acima da média nacional de expansão da renda no mesmo período. A informação foi divulgada originalmente pelo China Daily, veículo estatal chinês, em reportagem publicada em 27 de agosto1, e confirmada de forma independente por agências como Xinhua e por veículos como Global Times e Beijing Review2,3.
O que os números mostram
O relatório atribui boa parte do resultado a políticas de fomento produtivo. Mais de 60% dos recursos federais destinados à revitalização rural teriam sido aplicados em desenvolvimento industrial, permitindo que todos os 832 condados desenvolvessem entre duas e três atividades econômicas com vantagem local, somando uma produção anual combinada superior a 2 trilhões de yuans. Quase três quartos das famílias que saíram da pobreza passaram a ter algum vínculo formal de participação nos lucros de novas cooperativas ou empresas agrícolas da região.
No mercado de trabalho, o número de pessoas antes classificadas como pobres e hoje empregadas se manteve acima de 30 milhões por cinco anos consecutivos. O relatório também menciona a formação de mais de 130 mil artesãos rurais e a criação de postos de trabalho de utilidade pública para mais de 4 milhões de pessoas. A cooperação regional também é citada como fator relevante: oito províncias do leste do país, mais ricas, firmaram parcerias com dez províncias do oeste, repassando mais de 110 bilhões de yuans em assistência fiscal e atraindo mais de 750 bilhões de yuans em investimento privado para essas regiões durante o período de transição.
Os riscos reconhecidos pelo próprio governo
Chama atenção o fato de o documento não se limitar a celebrar resultados. O relatório admite abertamente que o risco de recaída na pobreza persiste, especialmente em regiões com base econômica frágil. Também são citados o esvaziamento demográfico do campo e o envelhecimento acelerado da população rural, dois fenômenos que vêm se tornando mais evidentes nos últimos anos. Segundo o texto, a baixa utilização de estruturas voltadas a idosos e a insuficiência de serviços de cuidado para essa faixa etária são problemas emergentes em diversas localidades.
O relatório menciona ainda o acesso limitado a atividades culturais e de lazer em algumas áreas rurais, além de famílias com pouca motivação para buscar autodesenvolvimento econômico, um ponto que abre espaço para debate sobre os limites de políticas de transferência e fomento quando não acompanhadas de mudanças mais profundas em hábitos e expectativas locais. Autoridades chinesas também voltaram a citar a necessidade de romper com costumes considerados ultrapassados em áreas rurais, embora o relatório não detalhe quais práticas específicas estão em questão.
Contraponto
Os números divulgados pelo Conselho de Estado se referem à linha de pobreza definida pelos próprios critérios nacionais chineses, que é mais baixa do que parâmetros internacionais usados para comparações globais. Segundo dados do Banco Mundial, mesmo após a eliminação oficial da pobreza extrema em 2020, cerca de 15,2% da população chinesa ainda vivia, em 2024, abaixo da linha de US$ 8,30 por dia em paridade de poder de compra, um patamar de renda mais próximo do usado por economias de renda média para comparações internacionais4.
Vale notar também que os dados apresentados ao Comitê Permanente vêm do próprio governo chinês, sem verificação por instituições estatísticas independentes externas, o que é uma limitação recorrente em análises sobre indicadores sociais chineses e não invalida a tendência de melhora, mas pede cautela na leitura dos percentuais exatos.
Uma trajetória de décadas
- 1978
Início das reformas econômicas de Deng Xiaoping, ponto de partida de décadas de redução de pobreza no país.
- 2012 a 2020
China adota a estratégia de "alívio direcionado da pobreza", com identificação individualizada de famílias pobres em todo o território.
- 2020
Governo chinês declara a eliminação da pobreza extrema segundo critérios nacionais, retirando os últimos condados da lista oficial de pobreza.
- 2021 a 2025
Período de transição e consolidação, com foco em revitalização rural e monitoramento de famílias em risco de recaída.
- Agosto de 2026
Relatório de consolidação é submetido ao Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional, indicando os próximos passos da política.
Um espelho, com muitas diferenças, para o Brasil
A comparação entre os dois países exige cuidado, já que os modelos de Estado, os critérios de linha de pobreza e a escala populacional são bastante diferentes. Ainda assim, o Brasil também tem apresentado resultados relevantes na mesma janela de tempo. Segundo o IBGE, a proporção de brasileiros em situação de pobreza caiu de 27,3% em 2023 para 23,1% em 2024, uma redução de 8,6 milhões de pessoas, enquanto a extrema pobreza recuou de 4,4% para 3,5% no mesmo período, o menor nível da série histórica iniciada em 20125.
Uma nota técnica do Ipea, assinada pelos pesquisadores Pedro Herculano Souza e Marcos Dantas Hecksher, mostra que ao longo de três décadas a renda domiciliar per capita brasileira cresceu cerca de 70%, enquanto a taxa de extrema pobreza recuou de 25% para menos de 5%, com boa parte da melhora recente explicada por mudanças na distribuição de renda e não apenas por crescimento econômico6. No caso chinês, o relatório sugere um peso maior de investimento industrial direcionado e de políticas de emprego formal nas regiões que antes eram pobres, uma estratégia que dialoga com o debate brasileiro sobre como equilibrar transferência de renda e geração de trabalho e produção local.
Para o Legislativo chinês, a discussão não terminou com a leitura do relatório. Deputados levantaram questões sobre previdência para moradores urbanos e rurais, sustentabilidade das indústrias criadas para tirar famílias da pobreza e o envelhecimento populacional no campo, temas que devem orientar a política de assistência regular que a China pretende incorporar à sua estratégia de revitalização rural nos próximos anos.
Perguntas frequentes
O que diz o novo relatório do Conselho de Estado da China sobre pobreza rural?
O relatório, apresentado ao Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional em agosto de 2026, mostra que a renda per capita nos 832 condados que deixaram a lista de pobreza subiu de 12.588 yuans em 2020 para 18.627 yuans em 2025, mas reconhece riscos como envelhecimento rural e fragilidade econômica em algumas regiões.
Qual foi o crescimento de renda nos antigos condados pobres da China?
A renda disponível per capita cresceu em média 8,2% ao ano entre 2020 e 2025, impulsionada principalmente por investimento em indústrias locais e políticas de emprego.
Como o modelo chinês de combate à pobreza se compara ao brasileiro?
O Brasil também reduziu pobreza no mesmo período, com queda de 27,3% para 23,1% na taxa geral entre 2023 e 2024, segundo o IBGE. Os modelos diferem porque a China aposta fortemente em investimento industrial direcionado, enquanto o Brasil combina transferência de renda com aquecimento do mercado de trabalho.
Quais riscos o próprio governo chinês reconhece nesse processo?
O relatório cita risco de recaída na pobreza, envelhecimento e esvaziamento populacional no campo, além de fragilidade econômica persistente em regiões menos desenvolvidas.
Os dados sobre pobreza na China são verificados de forma independente?
Os números divulgados vêm de relatórios oficiais do governo chinês. Organismos como o Banco Mundial confirmam a tendência de queda da pobreza extrema, mas usam critérios e linhas de pobreza diferentes dos adotados internamente pela China.
Referências
- ZHAO, Yimeng. China reports poverty fight gains, income growth. China Daily, 27 ago. 2026. Disponível em: chinadaily.com.cn.
- Global Times. China reports steady consolidation of poverty alleviation gains. Disponível em: globaltimes.cn.
- Beijing Review. China reports steady consolidation of poverty alleviation gains. Disponível em: bjreview.com.cn.
- World Bank. China Overview. Disponível em: worldbank.org.
- IBGE. 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 2023 e 2024. Agência de Notícias IBGE. Disponível em: agenciadenoticias.ibge.gov.br.
- IPEA. Brasil registrou em 2024 recorde de renda e menor nível de pobreza e desigualdade. Disponível em: ipea.gov.br.