Política Internacional · Oriente Médio
No início de setembro, o presidente chinês Xi Jinping esteve no Cairo para um encontro com o egípcio Abdel Fattah el-Sisi, marcando os 70 anos de relações diplomáticas entre os dois países.1 Da reunião saiu uma proposta que já vinha sendo testada em discursos anteriores de Pequim: a construção de uma "nova arquitetura de segurança" para o Oriente Médio, apoiada em quatro eixos que o Ministério das Relações Exteriores chinês resumiu como fortalecimento da autonomia regional, abordagem integrada dos conflitos, desenvolvimento econômico como base da estabilidade e coordenação internacional sob a Carta da ONU.2
O jornal oficial chinês People's Daily transformou a proposta em editorial, argumentando que o país oferece um "caminho viável" para tirar a região de sua crise de segurança crônica, evitando escolher lados entre potências regionais e insistindo que a questão palestina permanece o núcleo do problema.3 Não é a primeira vez que a diplomacia chinesa se apresenta como alternativa a um modelo de segurança historicamente ancorado nas bases militares dos Estados Unidos. Mas o momento em que a proposta surge, poucos meses depois de um confronto direto entre Israel, Irã e forças americanas, dá ao discurso um peso que faltava em tentativas anteriores.4
Quatro pontos, um objetivo declarado
A proposta de Xi se apoia na ideia de que os países da região devem ser "donos de seus próprios assuntos", rejeitando o que Pequim chama de interferência externa.2 Na prática, isso significa apoiar processos já em curso, como a reaproximação diplomática entre países árabes e a consulta institucionalizada entre Arábia Saudita, Turquia, Paquistão e Egito, sem propor um bloco liderado pela China.
O segundo e o terceiro pontos tratam de temas que a diplomacia chinesa já vinha priorizando: tratar os conflitos da região de forma integrada, já que territoriais, sectários e energéticos se retroalimentam, e usar o desenvolvimento econômico (rotas comerciais, investimento, segurança das linhas de navegação) como fundamento da estabilidade. O quarto ponto pede respeito à Carta da ONU e crítica sanções unilaterais aplicadas sem aval do Conselho de Segurança, num recado indireto às sanções americanas contra Irã e outros atores da região.
"O problema palestino permanece no centro da questão do Oriente Médio e diz respeito diretamente à justiça e equidade internacionais. Não deve ser negligenciado nem marginalizado."
Por que a Palestina continua sendo o teste decisivo
Colocar a questão palestina no centro da proposta não é coincidência. Desde 2025, uma onda de reconhecimentos formais do Estado da Palestina por países como Reino Unido, Canadá, Austrália, França e Portugal elevou para mais de 150 o número de membros da ONU que reconhecem a soberania palestina, incluindo o Brasil.5 Ainda assim, não há negociações diretas entre israelenses e palestinos desde 2014, e o governo de Benjamin Netanyahu segue rejeitando publicamente a solução de dois Estados.6 A proposta chinesa converge, no papel, com o roteiro defendido por França e Arábia Saudita na chamada Declaração de Nova Iorque, mas Pequim não tem, até aqui, papel ativo nas rodadas de negociação em curso.
Contraponto: discurso e capacidade não caminham juntos
Analistas de segurança regional apontam uma distância relevante entre a retórica chinesa e sua capacidade de sustentá-la. Um levantamento recente observa que a China reúne vários elementos de poder relevantes (economia de grande escala, dependência crescente de energia do Golfo, relações equilibradas com sauditas e iranianos, uma base em Djibuti), mas ainda carece dos elementos que transformariam influência em garantia de segurança: bases militares permanentes na região, compromissos de defesa mútua e disposição política para intervir militarmente em favor de parceiros.7
O exercício militar conjunto "Eagles of Civilisation 2026" com o Egito, no qual caças chineses J-16 percorreram mais de 6 mil quilômetros até território egípcio com reabastecimento em voo, é lido como sinal de ambição crescente, não como prova de que Pequim pretende assumir o papel de garantidor de segurança que hoje cabe a Washington.8 Instituições de pesquisa em segurança também descrevem a China como "ator marginal na arena militar" durante a crise recente entre Israel, Irã e Estados Unidos, ainda que atenta a acumular influência de longo prazo.9
O que isso significa para o Brasil
A proposta chinesa toca em pontos sensíveis para a diplomacia brasileira. Desde o primeiro mandato de Lula, o Brasil buscou ampliar seu protagonismo em temas de paz e segurança no Oriente Médio, com ênfase na solidariedade Sul-Sul e em posições mais explícitas em favor dos direitos palestinos.10 Pesquisas recentes sobre política externa brasileira mostram que essa postura se acentuou após 2023, com o governo condenando tanto os ataques do Hamas quanto a ofensiva israelense em Gaza, e assumindo, na ONU, papel na articulação de iniciativas ligadas à criação de um Estado palestino.11
Há, porém, um paralelo estrutural entre o discurso chinês e o brasileiro: ambos defendem multilateralismo, rejeição a sanções unilaterais e protagonismo dos países da própria região nas soluções de seus conflitos, mas nenhum dos dois dispõe de instrumentos de coerção capazes de alterar o equilíbrio de forças no terreno. Para o eleitorado e o Congresso brasileiros, o tema segue polarizado, com setores da oposição historicamente mais próximos de Israel.12 A convergência discursiva entre Brasília e Pequim em fóruns como o BRICS pode, ainda assim, ganhar peso simbólico caso a proposta chinesa avance em instâncias multilaterais nos próximos meses.
Perguntas frequentes
O que é a "nova arquitetura de segurança" proposta por Xi Jinping?
É uma proposta chinesa de quatro pontos para o Oriente Médio, que defende autonomia regional, tratamento integrado dos conflitos, desenvolvimento econômico como base de estabilidade e coordenação internacional sob regras da ONU, sem alianças militares formais lideradas por Pequim.
A China pode substituir os Estados Unidos como garantidor de segurança na região?
Analistas avaliam que não, ao menos não no curto prazo. Pequim não mantém bases militares permanentes no Golfo nem compromissos de defesa mútua com países da região, elementos considerados essenciais para esse papel.
Qual a relação entre essa proposta e a questão palestina?
O próprio discurso chinês coloca a questão palestina como núcleo do problema regional, defendendo a implementação da solução de dois Estados, tema que também está no centro da política externa brasileira desde os governos Lula.
O Brasil tem posição semelhante à da China sobre o Oriente Médio?
Há convergências discursivas, como a defesa do multilateralismo e da autodeterminação regional, mas o Brasil não possui capacidade militar ou diplomática comparável para influenciar diretamente o equilíbrio de forças na região.