Política O Tecido · Regulação & Tecnologia · 16 de agosto de 2026

Pequim se tornou o primeiro governo do mundo a regulamentar de forma específica os chatbots projetados para criar vínculos afetivos duradouros com seus usuários. A medida chinesa reacende, no Brasil, um debate que o Congresso Nacional ainda não resolveu: até onde a inteligência artificial pode simular intimidade sem colocar em risco a saúde mental de quem conversa com ela.

Em 15 de julho de 2026 entrou em vigor na China a primeira norma nacional dirigida especificamente a sistemas de inteligência artificial concebidos para manter relações emocionais continuadas com usuários. O texto, editado conjuntamente por cinco órgãos estatais chineses, entre eles a Administração do Ciberespaço da China (CAC), proíbe que as plataformas substituam a interação social humana, controlem psicologicamente o usuário ou inclua mecanismos que induzam dependência e adicção. A reportagem publicada pelo jornal espanhol El País descreve o impacto imediato da medida: gigantes como ByteDance, Alibaba e Tencent desativaram funções de personagens personalizados em seus chatbots generalistas, enquanto aplicativos dedicados exclusivamente ao acompanhamento passaram a operar sob controles de idade mais rígidos1.

A regulação chinesa não proíbe o uso recreativo ou funcional de chatbots. Ela mira um fenômeno mais específico: sistemas desenhados para simular vínculo afetivo sustentado, capazes de memorizar preferências, adotar personalidade fixa e reagir como uma parceira ou parceiro romântico. Menores de idade ficam proibidos de acessar esse tipo de serviço antropomórfico. Para adultos, as plataformas passam a ser obrigadas a identificar claramente que o interlocutor é uma IA, alertar sobre uso excessivo, lembrar o tempo de tela e, em casos de risco de autolesão ou suicídio, acionar um contato de emergência.

Um recorte de política pública, não apenas de tecnologia

O que torna esse episódio uma pauta de política pública, e não apenas de inovação, é o pano de fundo em que ele se insere. A China atravessa a maior crise demográfica de sua história recente: o país registrou em 2025 o menor número de nascimentos desde a fundação da República Popular, com a população encolhendo pelo quarto ano consecutivo. Pesquisadores como Zilan Qian, do Oxford China Policy Lab, argumentam que, por trás da norma, além da preocupação com saúde mental, também está o temor de que parceiros artificiais afastem sobretudo mulheres jovens de relações humanas e, por extensão, de planos de casamento e maternidade, algo que colide frontalmente com as metas natalistas do governo chinês.

"A IA é extremamente complaciente: valida o usuário, raramente questiona suas ideias e o incentiva a revelar cada vez mais detalhes pessoais. É um padrão difícil de igualar até para alguns terapeutas."

A observação é da pesquisadora Yaoxi Shi, do Imperial College Business School, e ajuda a explicar por que o fenômeno não é exclusividade chinesa. No Brasil, ele já tem números. Um levantamento da Talk Inc., ouvindo mil pessoas de todas as regiões do país, mostrou que um em cada dez brasileiros adultos já usa chatbots de IA como amigo ou conselheiro emocional, citando solidão, dificuldade de fazer amizades ou indisponibilidade de pessoas próximas como principais motivos2. Entre adolescentes, o quadro é mais amplo ainda: pesquisa da Arco Educação apontou que 52% dos jovens brasileiros relatam dificuldade para fazer novas amizades, e 19% já recorrem à inteligência artificial como forma de companhia, com as meninas representando o grupo mais afetado pela solidão3.

Contraponto

Nem toda a literatura científica trata o vínculo afetivo com IA como um risco automático. Um estudo conduzido pelos pesquisadores Julian De Freitas, Zeliha Oğuz-Uğuralp, Ahmet Kaan Uğuralp e Stefano Puntoni, com cinco experimentos controlados, constatou que pessoas com níveis mais altos de solidão relataram redução desse sentimento após interagir com chatbots de companhia, em magnitude comparável à de interações humanas em alguns cenários4. Para especialistas ouvidos por veículos brasileiros, o problema não é a ferramenta em si, mas a ausência de limites: sem intervenção regulatória, o mesmo mecanismo que alivia a solidão no curto prazo pode aprofundar o isolamento social no longo prazo, por desenhar produtos otimizados para maximizar o tempo de tela e não o bem-estar do usuário.

O Brasil ainda não tem uma resposta legislativa equivalente

Enquanto a China trata a dependência emocional de chatbots como matéria de regulação específica, o Brasil segue sem um marco legal geral para inteligência artificial, quanto mais uma norma dedicada a companheiros virtuais. O Projeto de Lei 2338/2023, aprovado por unanimidade no Senado Federal em dezembro de 2024, permanece em tramitação na Câmara dos Deputados, sob análise de uma Comissão Especial que ainda aguarda parecer do relator. A votação, inicialmente esperada para o fim de 2025, foi adiada para 2026 em meio a impasses políticos, um apontamento de vício de iniciativa constitucional levantado pelo próprio Poder Executivo e a proximidade do calendário eleitoral5,6.

O texto brasileiro segue uma lógica distinta da chinesa: em vez de mirar diretamente comportamentos de dependência emocional, ele classifica sistemas de IA por níveis de risco, à semelhança do AI Act europeu, proíbe expressamente aplicações de "risco inaceitável", como manipulação subliminar de comportamento e pontuação social de cidadãos, e cria o Sistema Nacional de Regulação e Governança de Inteligência Artificial, com multas que podem chegar a R$ 50 milhões por infração7. Não há, até o momento, dispositivo equivalente às exigências chinesas de alerta de tempo de uso, identificação obrigatória de dependência excessiva ou acionamento de contato de emergência em casos de risco de autolesão.

O que já existe fora da China

A China não está isolada nessa frente, embora seja o caso de maior alcance até agora. Nos Estados Unidos, a Califórnia sancionou em outubro de 2025 a lei SB 243, que obriga operadores de chatbots de companhia a identificar claramente a natureza artificial do interlocutor, alertar menores a cada três horas de uso contínuo e manter protocolos de prevenção a conteúdo suicida ou de autolesão, além de prever ação civil para usuários lesados8. Nova York aprovou legislação semelhante, em vigor desde novembro de 2025. Já a União Europeia exige, de forma mais genérica, que o usuário seja informado quando interage com uma IA, mas ainda não tem regras específicas contra a substituição de relações humanas por vínculos artificiais, segundo o levantamento do El País1.

A pergunta que falta no debate brasileiro

Para especialistas em saúde mental consultados pela imprensa brasileira, o país corre o risco de repetir, sem rede de proteção regulatória, o mesmo padrão de uso identificado tanto na China quanto nos Estados Unidos. Um artigo publicado pela Forbes Brasil, por exemplo, cita o psicólogo e pesquisador da USP Vitor Muramatsu ao discutir a busca crescente de adolescentes brasileiros por companhia artificial diante da dificuldade de sustentar amizades no mundo físico3. A Organização Mundial da Saúde já declarou a solidão uma prioridade de saúde global, e comissões internacionais associam o isolamento social prolongado a maior risco cardiovascular, declínio cognitivo e aumento de até 50% na incidência de demência2.

Nenhuma dessas evidências, por si só, resolve o dilema. A literatura científica ainda diverge sobre se o uso moderado de companheiros de IA funciona como uma ponte para relações humanas mais saudáveis ou como um substituto que aprofunda o afastamento. É exatamente essa incerteza, segundo a pesquisadora Yaoxi Shi na entrevista ao El País, que deveria orientar a cautela regulatória: sabe-se que, no curto prazo, o uso traz alívio subjetivo, sobretudo para quem está socialmente isolado, mas não se sabe até que ponto pessoas conseguem prosperar, no longo prazo, sem vínculos humanos reais ao redor1. Enquanto o PL 2338/2023 não sai da Câmara dos Deputados, essa é uma pergunta que o Brasil segue respondendo sem qualquer moldura legal, artigo por artigo dos termos de uso de cada aplicativo.

Nota de atribuição: Este artigo foi inspirado na reportagem "China no quiere que sus internautas se enamoren de una inteligencia artificial", publicada pelo jornal El País em 16 de agosto de 2026. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido integralmente; ele serviu como ponto de partida para uma apuração independente com foco no cenário brasileiro. Leia a reportagem completa em: elpais.com.

Perguntas frequentes

O que a nova regulação chinesa proíbe exatamente?

A norma, em vigor desde 15 de julho de 2026, proíbe que chatbots de IA substituam a interação social humana, exerçam controle psicológico sobre o usuário ou induzam dependência e adicção. Menores de idade não podem acessar serviços antropomórficos que gerem relações íntimas virtuais.

A China baniu os chatbots de companhia?

Não. Aplicativos dedicados ao acompanhamento continuam funcionando, mas com controles de idade mais rígidos e obrigações de transparência, como identificar que o interlocutor é uma IA e alertar sobre uso excessivo. Algumas funções de personagens personalizados em chatbots generalistas foram desativadas.

O Brasil tem uma lei parecida?

Não. O Brasil ainda não tem um marco legal geral para inteligência artificial em vigor. O PL 2338/2023 segue em tramitação na Câmara dos Deputados, sem previsão específica sobre dependência emocional de chatbots de companhia.

Existem dados sobre o uso de IA como companhia emocional no Brasil?

Sim. Pesquisas independentes indicam que cerca de um em cada dez adultos brasileiros já trata chatbots de IA como amigo ou conselheiro, e que 19% dos adolescentes recorrem à IA como forma de companhia diante de dificuldades de socialização.

Outros países já regulam esse tema?

Sim. A Califórnia (SB 243) e o estado de Nova York aprovaram, em 2025, leis que exigem identificação da natureza artificial do chatbot, alertas periódicos a menores e protocolos de prevenção a conteúdo suicida, com possibilidade de ação civil por usuários lesados.