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TRANSIÇÃO ENERGÉTICA · INTENSIDADE DE CARBONO
Ilustração: metas de descarbonização combinam energia eólica, solar e redução de intensidade de carbono na economia

A China divulgou nesta semana o plano nacional de resposta às mudanças climáticas para o período do 15º Plano Quinquenal, que cobre os anos de 2026 a 2030. O documento, assinado conjuntamente por 19 órgãos do governo chinês, entre eles o Ministério da Ecologia e do Meio Ambiente, o Ministério das Relações Exteriores e a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, estabelece a meta de reduzir em 17% as emissões de dióxido de carbono por unidade do Produto Interno Bruto até 2030, em comparação aos níveis de 2025. O período é descrito pelo próprio governo chinês como decisivo para que o país atinja o pico de emissões antes do fim da década.

Além da meta de intensidade de carbono, o plano prevê o fortalecimento do monitoramento de gases de efeito estufa que não são dióxido de carbono, com a meta de desenvolver capacidade para reduzir em 30 milhões de toneladas equivalentes de CO2 até 2030. O texto também estabelece a criação de um sistema abrangente de gestão da pegada de carbono de produtos e o aprimoramento do arcabouço de adaptação climática do país, segundo reportagem do jornal estatal China Daily.

Ma Jun, diretor fundador do Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais da China, avaliou que a meta de 17% está diretamente ligada à contribuição nacionalmente determinada do país junto ao Acordo de Paris, que prevê reduzir a intensidade de carbono da economia chinesa em mais de 65% até 2030, na comparação com os níveis de 2005. Segundo ele, o ciclo anterior do plano quinquenal, entre 2021 e 2025, mal conseguiu atingir uma redução equivalente, e a tarefa tende a ficar mais difícil à medida que a economia chinesa continua crescendo.

Um dos pontos mais destacados por Ma Jun é o descompasso entre capacidade instalada e consumo efetivo de energia limpa. A China superou seis anos antes do previsto a meta de capacidade instalada para energia renovável fixada para 2030. No entanto, embora as fontes não fósseis já respondam por mais de 60% da capacidade instalada do país, elas representam apenas 21,7% do consumo real de energia, uma lacuna que especialistas apontam como o verdadeiro gargalo da transição chinesa.

"O real desafio está no consumo efetivo. Embora a energia não fóssil represente mais de 60% da capacidade instalada, seu consumo real corresponde a apenas 21,7%." Ma Jun, Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais da China, ao China Daily

O plano também sinaliza uma mudança estrutural na forma como Pequim regula suas emissões. Hu Wentao, pesquisador associado do Instituto de Pesquisa em Eco-civilização da Academia Chinesa de Ciências Sociais, explicou que o novo documento aprofunda a transição de um modelo de controle duplo sobre consumo total de energia e intensidade energética para um controle duplo sobre emissões totais de carbono e intensidade de carbono. Na prática, o volume de emissões passa a ser um parâmetro central na aprovação de novos projetos industriais, com metas repassadas a governos provinciais e municipais e traduzidas em responsabilidades específicas para grandes empresas emissoras.

Song Xiaoyu, professor do Instituto Noroeste de Ecologia e Recursos Ambientais da Academia Chinesa de Ciências, chamou atenção para um fator que tem ganhado peso crescente nos cálculos de Pequim: a própria mudança climática já introduz instabilidade na transição energética chinesa. Segundo ele, um forte fenômeno El Niño registrado neste ano afetou diretamente o volume de água nas grandes usinas hidrelétricas do sudoeste do país, enquanto chuvas extremas forçaram operadores de reservatórios a liberar água para controle de enchentes em vez de gerar eletricidade. Temperaturas elevadas também reduziram a eficiência de conversão de painéis fotovoltaicos, obrigando termelétricas a suprir parte da demanda crescente.

Song afirmou que a taxa de redução da intensidade de carbono no primeiro semestre deste ano desacelerou na comparação com o mesmo período do ano anterior, um dado que reforça a necessidade de otimizar os mecanismos de despacho hidrelétrico e usar previsões meteorológicas para ajustar a operação de reservatórios e maximizar a geração limpa.

Ambição real ou meta acomodada?

A publicação do plano ocorre num momento em que analistas independentes já vinham questionando o nível de ambição do rascunho apresentado ainda no início do ano. Organizações brasileiras e internacionais de monitoramento climático notaram que o novo ciclo do plano quinquenal recuou em relação a compromissos do período anterior, como a promessa de redução gradual do consumo de carvão, além de fixar uma meta de intensidade de carbono considerada por parte dos especialistas como menos rigorosa do que o esperado.

Contraponto

Nem todos os observadores concordam que o plano representa avanço suficiente. Análise do Observatório do Clima publicada em março apontou que o rascunho do 15º Plano Quinquenal trouxe um retrocesso em relação ao ciclo 2021-2025, que previa reduzir gradualmente o consumo de carvão, e classificou a nova meta de intensidade de carbono como uma espécie de "pedalada climática", por ser menos rigorosa do que a anteriormente adotada.

Já a análise publicada pela rede acadêmica RED sobre as implicações do plano para o Brasil e o Sul Global destaca que a execução das metas enfrenta vulnerabilidades sistêmicas, da dependência de importações de terras aráveis, água e petróleo até o agravamento de eventos climáticos extremos como secas e inundações, que já forçam Pequim a investir em megaprojetos de segurança hídrica. O documento final formalmente aprovado por Pequim, porém, mantém a meta de redução de 17% e reafirma o compromisso de atingir o pico de emissões antes de 2030, com neutralidade de carbono prevista para 2060.

O que isso significa para o Brasil

A publicação do plano chinês chega num momento em que o Brasil também revisita suas próprias metas climáticas, após sediar a COP30 em Belém, no Pará, em novembro de 2025. O país apresentou sua Contribuição Nacionalmente Determinada com a meta de reduzir entre 59% e 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, tomando 2005 como ano-base. Diferentemente da China, que ainda depende fortemente do carvão em sua matriz elétrica, o Brasil já opera com uma matriz majoritariamente renovável, hoje próxima de 90% de fontes limpas na geração de eletricidade, resultado da forte presença de hidrelétricas, usinas eólicas e solares.

Essa diferença estrutural entre as duas economias ajuda a explicar por que os desafios de cada país são distintos. Enquanto a China concentra esforços em reduzir a intensidade de carbono de uma matriz industrial ainda dependente de combustíveis fósseis, o Brasil enfrenta principalmente o desafio de expandir capacidade de armazenamento, resolver gargalos de transmissão e evitar que a expansão do pré-sal amplie as emissões associadas à exportação de petróleo, ainda que essas emissões acabem sendo contabilizadas por outros países no momento da queima do combustível.

Ainda assim, os dois países compartilham um ponto de convergência relevante: a volatilidade climática já afeta diretamente a operação de seus sistemas de geração de energia limpa. Assim como Pequim relata perdas de eficiência em hidrelétricas por conta de secas e cheias extremas, o Brasil também enfrenta oscilações no regime de chuvas que afetam reservatórios em bacias estratégicas, reforçando o argumento de especialistas de que a segurança energética do século XXI depende cada vez mais da capacidade de prever e gerenciar riscos climáticos, e não apenas de instalar mais capacidade renovável.

O caso chinês também ilustra um debate que deve ganhar força na agenda pós-COP30: a diferença entre metas de intensidade de carbono, que medem emissões em relação ao tamanho da economia, e metas de teto absoluto de emissões. Organizações climáticas têm insistido que apenas metas de intensidade, sem um limite total vinculante, podem permitir que as emissões absolutas continuem crescendo mesmo com ganhos de eficiência, um ponto que tende a estar no centro das cobranças internacionais sobre o real compromisso de Pequim com o pico de emissões antes de 2030.

Este artigo foi produzido com base em reportagem original do jornal estatal chinês China Daily, intitulada "China unveils plan for faster green transition" (29 de julho de 2026), disponível em: chinadaily.com.cn. As declarações de Ma Jun, Hu Wentao e Song Xiaoyu citadas neste texto foram originalmente colhidas por aquele veículo. O conteúdo foi complementado com reportagem independente e análise de fontes brasileiras e internacionais listadas na seção de referências.

Números-chave

17% Meta de redução da intensidade de carbono da China até 2030 (base 2025)
21,7% Participação real das fontes não fósseis no consumo de energia da China
30 Mt Meta de redução de gases de efeito estufa não-CO2 (equivalente de CO2) até 2030
~90% Participação de fontes renováveis na matriz elétrica brasileira

Linha do tempo

  • 2021–202514º Plano Quinquenal chinês; meta de intensidade de carbono avaliada como insuficientemente cumprida.
  • Nov. 2025Brasil sedia a COP30 em Belém e apresenta NDC com meta de redução de 59% a 67% das emissões até 2035.
  • Jul. 2026China publica o plano nacional de resposta às mudanças climáticas do 15º Plano Quinquenal (2026-2030).
  • 2030Prazo para a China atingir o pico de emissões de carbono, segundo compromisso internacional de Pequim.
  • 2060Meta chinesa de neutralidade de carbono anunciada pelo presidente Xi Jinping.

Glossário

Intensidade de carbono
Quantidade de CO2 emitida por unidade de PIB gerado; pode cair mesmo com emissões totais em alta, se a economia crescer mais rápido.
Pico de emissões
Momento em que as emissões de um país atingem seu ponto máximo antes de começar a declinar de forma sustentada.
Controle duplo de carbono
Modelo regulatório chinês que passa a limitar tanto o volume total de emissões quanto sua intensidade, substituindo o controle por consumo energético.

Referências

  1. LI Menghan. China unveils plan for faster green transition. China Daily, 29 jul. 2026. chinadaily.com.cn
  2. China lança plano climático do 15º Plano Quinquenal. Brasil 247 / Global Times. brasil247.com
  3. China detalha plano para "Bela China" até 2030. O Cafezinho. ocafezinho.com
  4. China faz pedalada climática em plano quinquenal. Observatório do Clima. oc.eco.br
  5. A Transição Estratégica da China: Análise do 15º Plano Quinquenal. RED. red.org.br
  6. Quais são as metas apresentadas pelo Brasil para a COP30? CNN Brasil. cnnbrasil.com.br
  7. Energia renovável será a bola da vez na COP30. Canal Solar. canalsolar.com.br