Educação · Ciência e Sociedade

Como um mês inteiro de exposições, laboratórios abertos e um novo organismo internacional revelam a disputa global por educar cientificamente o público, e o que o Brasil já testa há duas décadas com sua própria semana nacional de ciência.

O mês da ciência em Pequim

Nesta semana, a China deu início à edição de 2026 do Mês Nacional de Popularização da Ciência, um programa que transforma museus, laboratórios e praças públicas em salas de aula abertas para qualquer cidadão. Organizado pela Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia (CAST) em conjunto com 34 órgãos governamentais, o evento deste ano adota o lema "A ciência transforma vidas, a inovação garante o futuro" e reúne mais de cem exposições e atividades apenas nos três principais polos de Pequim, entre eles o Centro Nacional de Comunicação em Ciência e Tecnologia e o Museu de Ciência e Tecnologia da China1.

Segundo Ren Haihong, vice-diretora do departamento de popularização científica da CAST, o público terá acesso a laboratórios e centros de pesquisa normalmente fechados à visitação, além de mais de 150 atividades organizadas por 24 sociedades científicas nacionais, entre palestras, exposições itinerantes e viagens de estudo voltadas à divulgação da pesquisa básica1. A iniciativa não é isolada: trata-se da segunda edição do programa, criado depois que a Lei de Popularização da Ciência e Tecnologia, revisada em dezembro de 2024, passou a reservar setembro como o mês oficial de divulgação científica no país2.

"O público terá acesso a laboratórios e centros de pesquisa para se aproximar do avanço científico de ponta." Ren Haihong, CAST, em coletiva de imprensa em Pequim

O calendário deste ano ganha um capítulo extra: entre 19 e 21 de setembro, Pequim sediará a Conferência Mundial de Literacia Científica de 2026, ocasião em que será formalmente instituída a Organização Mundial para a Literacia Científica, reunindo representantes institucionais de vinte países em cinco continentes2. Segundo Yin Lin, vice-presidente da entidade, o encontro vai concentrar-se em temas de fronteira e buscar consenso global sobre o que significa, na prática, formar uma população cientificamente alfabetizada1.

Por que a literacia científica virou prioridade de Estado

O esforço chinês não se resume a um mês de vitrine. Um levantamento do Museu de Ciência e Tecnologia da China divulgado em junho mostrou que, até maio de 2026, os equipamentos móveis de popularização científica do país já haviam acumulado 664 milhões de visitas, somando 832 museus itinerantes e 1.880 vans científicas distribuídas por escolas, comunidades rurais e regiões sem infraestrutura de museus fixos3. É uma política de escala industrial para um problema que, em outras economias, costuma ficar restrito a projetos pontuais de organizações não governamentais.

Essa musculatura institucional ajuda a explicar por que a China consegue tratar a divulgação científica como infraestrutura pública, no mesmo patamar de saneamento ou eletrificação rural. A lógica declarada pelo governo é que uma população capaz de compreender inovação tecnológica participa melhor de decisões públicas sobre clima, saúde e economia digital, algo que pesquisadores de comunicação científica ao redor do mundo também defendem, embora com desenhos institucionais bem mais modestos.

Contraponto

Nem todo especialista em comunicação científica vê apenas vantagens em campanhas de popularização conduzidas por governos. Parte da literatura internacional sobre percepção pública da ciência alerta que iniciativas centralizadas e fortemente institucionais podem favorecer uma narrativa única sobre o valor da ciência, deixando pouco espaço para o debate sobre controvérsias reais, como riscos tecnológicos, dilemas éticos em inteligência artificial ou disputas regulatórias. A literacia científica, nesse sentido, não deveria significar apenas "confiar mais na ciência", mas também desenvolver capacidade crítica para questionar como e por quem a pesquisa é financiada e aplicada.

O espelho brasileiro: interesse alto, letramento desigual

O Brasil tem seu próprio experimento de popularização científica em curso há duas décadas: a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), criada em 2004 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A edição de 2025, batizada de "Planeta Água: Cultura Oceânica para Enfrentar as Mudanças Climáticas no Meu Território", ocorreu entre 20 e 26 de outubro, com atividades simultâneas em todo o país e o evento principal na Esplanada dos Ministérios, em Brasília4. Ao longo de suas 22 edições, a SNCT já reuniu mais de um milhão de participantes e costuma atrair cem mil visitantes só na etapa da capital federal5.

Os números de interesse do público brasileiro por ciência são, à primeira vista, animadores. A sexta rodada da pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil, conduzida pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) em parceria com o MCTI, entrevistou 1.931 pessoas entre novembro e dezembro de 2023 e apurou que 60,3% dos brasileiros se dizem interessados ou muito interessados em temas de ciência e tecnologia, patamar estável em relação à edição de 20196. A historiadora Adriana Badaró, coordenadora do estudo, resume que a população "ainda vê mais benefícios do que malefícios na ciência" e defende mais investimento na área6.

O paradoxo brasileiro está na distância entre esse interesse declarado e a capacidade efetiva de avaliar informação científica no cotidiano, seja para interpretar um boletim epidemiológico, seja para distinguir pesquisa revisada por pares de desinformação viral. Diferentemente do modelo chinês, que amarra popularização científica a uma lei federal com orçamento e cronograma fixo todos os setembros, a SNCT brasileira depende de articulação anual entre ministério, estados, municípios e sociedade civil, sem uma infraestrutura permanente equivalente aos museus móveis chineses.

O que isso significa para a educação científica na escola

Para educadores, o recorte mais relevante talvez não seja o tamanho do evento, mas o que ele revela sobre currículo. Um boletim da rede internacional de comunicação pública da ciência (PCST Network) publicado em julho descreveu iniciativas chinesas recentes que incentivam pesquisadores e sociedades científicas a tratar a comunicação pública como parte do trabalho profissional, incluindo o uso de plataformas como a Kepu China e ferramentas assistidas por inteligência artificial para ampliar o alcance de conteúdos científicos, com uma chamada nacional aberta a artigos, exposições, vídeos e agentes de ciência baseados em IA produzidos desde 20247.

Esse movimento aponta para uma tendência que já aparece, de forma mais tímida, em redações escolares e feiras de ciências brasileiras: a fronteira entre "aprender ciência" e "aprender a comunicar ciência" está se dissolvendo. Se a China está formando uma geração acostumada a visitar laboratórios reais dentro de um calendário oficial, o desafio para as escolas brasileiras é aproveitar eventos como a SNCT não como visita isolada de outubro, mas como gatilho para projetos de letramento científico ao longo do ano letivo, algo que educadores da área de ensino de ciências já defendem como caminho para reduzir a evasão em carreiras de STEM no ensino médio.

Perguntas frequentes

O que é o Mês Nacional de Popularização da Ciência da China?

É um programa anual, realizado em setembro, criado após a revisão da lei chinesa de popularização científica em dezembro de 2024. Reúne exposições, palestras e visitas a laboratórios organizadas pela Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia junto com 34 órgãos governamentais.

Existe um evento equivalente no Brasil?

Sim, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), criada em 2004 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que já chegou à sua 22ª edição e reúne atividades gratuitas em todo o território nacional.

Os brasileiros têm interesse em ciência e tecnologia?

Segundo a pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil 2023, do CGEE e do MCTI, 60,3% da população se declara interessada ou muito interessada no tema, patamar estável desde 2019.

O que é a Organização Mundial para a Literacia Científica?

Uma nova entidade internacional que será oficialmente instituída durante a Conferência Mundial de Literacia Científica de 2026, em Pequim, reunindo representantes de vinte países para debater estratégias comuns de educação científica.

Reportagem baseada em apuração independente, com dados cruzados de fontes oficiais chinesas e brasileiras. Trechos sobre a coletiva de imprensa em Pequim foram inspirados na cobertura do China Daily, "China launches science month to boost innovation knowledge" (27 de agosto de 2026), sem tradução ou reprodução integral do texto original. Leia a matéria completa em chinadaily.com.cn.

Referências

  1. China Daily. "China launches science month to boost innovation knowledge". 27 ago. 2026. Disponível em: chinadaily.com.cn/a/202608/27/WS6a8fd417e4b06d4aa055ac10.html
  2. China Economic Net / Xinhua. "World Organization for Science Literacy to be established in Beijing". 26 ago. 2026. Disponível em: en.ce.cn/main/latest/202608/t20260827_3173595.shtml
  3. CGTN. "China fuels nationwide science boom with mobile outreach". 26 jun. 2026. Disponível em: news.cgtn.com
  4. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). "Planeta Água deságua em Brasília: começa a 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia". 21 out. 2025. Disponível em: gov.br/mcti
  5. Portal SNCT / MCTI. "22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia". Disponível em: semanact.mcti.gov.br
  6. Apufsc-Sindical. "Seis em cada dez brasileiros têm interesse em temas de ciência e tecnologia, aponta levantamento". Com dados do CGEE/MCTI, pesquisa Percepção Pública da C&T no Brasil 2023. Disponível em: apufsc.org.br
  7. PCST Network. "Newsletter – July 2026". Disponível em: pcst.network/newsletter-july-2026