Tecnologia · Trabalho e Inteligência Artificial Funcionário treina robô em cenário de supermercado na Maniformer, Xangai

Funcionário treina um robô a organizar itens em um cenário de supermercado na Maniformer, plataforma de dados para IA física, em Xangai, Aug 5, 2026. [Foto/Xinhua, via China Daily]

A China decidiu que a inteligência artificial não pode ficar restrita a laboratórios de pesquisa e grandes corporações de tecnologia. Nos últimos meses, o governo central e administrações municipais lançaram uma onda de programas de capacitação gratuita voltados a operários, pequenos empresários e servidores públicos, com o objetivo declarado de transformar ganhos tecnológicos em produtividade na chamada "economia real": manufatura, têxteis, energia e saúde[1].

O caso mais ilustrativo vem de Nantong, na província de Jiangsu, onde a prefeitura criou a "Escola Noturna de IA Oasis Spark", com cursos gratuitos que vão da automação de escritório a aplicações específicas para os setores têxtil e de saúde da região. Uma única sessão sobre "IA + Têxteis Domésticos" reuniu quase 20 mil participantes, entre presenciais e online[1]. Segundo relatos coletados pelo China Daily, pequenos empreendedores que participaram do programa saíram de lá com contatos diretos em empresas locais, algo que consideram raro fora de iniciativas patrocinadas pelo Estado[1].

"Achava que a IA tinha uma barreira de entrada alta e era ferramenta para profissionais. Depois do curso, percebi que uma pessoa comum consegue dominar isso com facilidade."

A frase, atribuída a um participante identificado apenas pelo sobrenome Zhang em reportagem do China Daily, resume o espírito da política: reduzir a distância entre o discurso oficial sobre IA e a rotina de quem trabalha no chão de fábrica ou no balcão de uma pequena empresa[1]. O pano de fundo é numericamente ambicioso. Em janeiro, o vice-ministro da Indústria e Tecnologia da Informação, Zhang Yunming, afirmou que o núcleo da indústria de IA chinesa já movimentava 1,2 trilhão de yuans (cerca de US$ 178 bilhões) em 2025, distribuídos por 6 mil empresas[1]. Em março, durante as "duas sessões" legislativas, o presidente da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, Zheng Shanjie, projetou que o ecossistema mais amplo de IA deve ultrapassar 10 trilhões de yuans ao longo do 15º Plano Quinquenal, entre 2026 e 2030[1].

Uma política construída de cima para baixo, mas executada localmente

O impulso nacional tem origem em duas diretrizes. A primeira é o plano de ação "IA+", publicado pelo Conselho de Estado em agosto de 2025, que estabelece metas em três fases: mais de 70% de penetração de terminais inteligentes e agentes de IA até 2027, acima de 90% até 2030, e a consolidação de uma "economia inteligente" plena até 2035[2]. A segunda é o marco do Ministério da Educação, de abril de 2026, que pretende universalizar o letramento em IA em todos os níveis de ensino até 2030, incluindo capacitação obrigatória para professores[1].

É na tradução dessas metas nacionais para a prática municipal que o modelo chinês se torna mais interessante para observadores de fora. Xangai passou a oferecer pontos de residência permanente e subsídio 30% maior a trabalhadores certificados em cursos de IA vinculados a seus programas vocacionais. Yangzhou, também em Jiangsu, criou vale-computação e subsídios de até 200 mil yuans para bases de treinamento. Suzhou montou um "círculo de capacitação vocacional de 30 minutos", que conecta ensino avançado de manufatura diretamente à colocação de emprego. Pequim, Guangdong e Liaoning já tornaram obrigatórias disciplinas gerais de IA no ensino fundamental e médio[1].

O espelho brasileiro: avanço real, mas em outra escala

A comparação com o Brasil ajuda a dimensionar a diferença de ritmo. Segundo a pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br/NIC.br, a proporção de empresas brasileiras que usam alguma tecnologia de IA subiu de 13% em 2024 para 17% em 2025, revertendo uma estagnação que durava desde 2021. Entre as grandes empresas, o salto foi de 38% para 50%; entre as pequenas, de 10% para 15%[3]. A média brasileira, porém, ainda fica abaixo dos 20% registrados na União Europeia no mesmo levantamento[4].

No nível do trabalhador individual, o retrato é mais otimista: uma pesquisa global da KPMG em parceria com a Universidade de Melbourne apontou que 86% dos trabalhadores brasileiros já usam IA em suas empresas, e 71% notaram ganhos de eficiência, qualidade do trabalho ou potencial de inovação[5]. O uso individual, portanto, corre à frente da adoção institucional, um padrão distinto do observado na China, onde a política tenta justamente puxar a adoção institucional para cima por meio de treinamento coletivo subsidiado.

Do lado das políticas públicas, o Brasil tem seu próprio equivalente ao "IA+": o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, que prevê R$ 23 bilhões em investimentos ao longo de quatro anos, dos quais R$ 1,15 bilhão destinado especificamente ao eixo de difusão, formação e capacitação em IA[6]. Uma das metas de curto prazo é capacitar pelo menos 115 mil servidores públicos até o fim de 2026, cerca de 20% do total de servidores ativos[7].

Contraponto

Nem todos os analistas veem no modelo chinês, ou mesmo no PBIA brasileiro, um caminho isento de riscos. Avaliações de centros de pesquisa como o Think Tank ABES e a coluna especializada do IT Forum apontam que existe uma distância considerável entre a formulação estratégica dos planos e sua execução efetiva, sobretudo diante de infraestrutura tecnológica ainda incipiente e desigualdades regionais no Brasil[8].

Há também quem questione o desenho centralizado de metas de adoção, como o de 70% e 90% definidos pela China, argumentando que programas verticais podem privilegiar indicadores de curto prazo em detrimento de qualificação profunda, além de levantar preocupações sobre digitalização compulsória de serviços públicos e concentração de poder de dados no Estado[2]. Analistas europeus, por sua vez, tratam o avanço chinês como um "chamado de atenção" competitivo, e não necessariamente um modelo a ser copiado sem adaptação[9].

Para o leitor brasileiro, o caso chinês funciona menos como modelo pronto e mais como termo de comparação. Ele mostra que letramento em IA pode ser tratado como infraestrutura pública, algo próximo de eletrificação ou alfabetização, e não apenas como responsabilidade de cada empresa ou trabalhador individualmente. Se essa aposta vai se traduzir em produtividade real na economia chinesa, ou apenas em metas de adesão cumpridas no papel, é algo que só os próximos ciclos do Plano Quinquenal poderão confirmar.

Este artigo usa como referência temática a reportagem "High-tech skills to power real economy", publicada por Cang Wei e Zhang Xiaomin no China Daily em 17 de agosto de 2026. Leia a matéria original em: chinadaily.com.cn.

Perguntas frequentes

O que é o plano "IA+" da China?

É a Opinião sobre a Implementação Aprofundada da Ação "Inteligência Artificial+", publicada pelo Conselho de Estado chinês em agosto de 2025. O plano estabelece metas de adoção de IA em três fases: acima de 70% até 2027, acima de 90% até 2030, e transformação plena em economia inteligente até 2035.

O que são as "escolas noturnas de IA" chinesas?

São programas municipais de capacitação gratuita em inteligência artificial, como a "Oasis Spark AI Night School" de Nantong, voltados a trabalhadores, pequenos empresários e servidores, com cursos que vão do uso básico de ferramentas de escritório a aplicações setoriais específicas.

Como o Brasil se compara à China na adoção de IA pelas empresas?

Segundo o Cetic.br, a adoção de IA por empresas brasileiras passou de 13% em 2024 para 17% em 2025, abaixo da média da União Europeia (20%). A China, por sua vez, projeta que sua economia inteligente ultrapasse 10 trilhões de yuans até 2030, com metas de adoção nacional acima de 90%.

Existe um equivalente brasileiro ao plano chinês?

Sim, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, prevê R$ 23 bilhões em investimentos, incluindo R$ 1,15 bilhão para difusão, formação e capacitação em IA, com meta de treinar 115 mil servidores públicos até o fim de 2026.

Ewerton Lopes — Curador Editorial