Este texto é uma análise editorial original de O Tecido, inspirada em reportagem da agência Xinhua publicada pelo People's Daily em 30 de setembro de 2026 (en.people.cn). O conteúdo não é tradução nem reprodução do original. Dados adicionais foram verificados em fontes independentes, indicadas ao longo do texto.

Política · Ciência e Estado

Em uma coletiva do Escritório de Informação do Conselho de Estado, em Pequim, na terça-feira 29 de setembro, a cúpula do Ministério da Ciência e Tecnologia da China apresentou as prioridades do país para os próximos cinco anos. O anúncio, noticiado pela Xinhua e republicado pelo People's Daily1, traz um dado que funciona como cartão de visitas: o gasto chinês em pesquisa e desenvolvimento (P&D) passou de 3,92 trilhões de yuans em 2025, o equivalente a 2,8% do PIB, e superou pela primeira vez a média dos países da OCDE, segundo o ministro Yin Hejun.

O número em si já era conhecido. Yin o havia antecipado em março, durante a sessão anual da Assembleia Popular Nacional, como registrou o China Daily2. O que a coletiva de setembro acrescenta é a arquitetura política em torno dele: o que pesquisar, quem deve liderar e, sobretudo, para que serve a ciência no projeto de Estado chinês. É essa a parte que interessa a quem acompanha política, inclusive no Brasil.

O que Pequim anunciou para 2026-2030

O 15º Plano Quinquenal teve suas propostas aprovadas pelo Comitê Central do Partido Comunista em outubro de 2025, conforme reportou o Poder3603, e foi aprovado pela Assembleia Popular Nacional em março de 2026, segundo estudo do IEDI4. Entre os objetivos centrais para 2030 está a elevação da autossuficiência científica e tecnológica.

Na coletiva, o ministério organizou essa ambição em três frentes, de acordo com o relato do People's Daily1. A primeira é a pesquisa básica, com agenda explícita: matemática teórica e aplicada, controle de estados da matéria, biologia sintética, genoma de materiais, fusão nuclear controlada e os chamados sistemas de cientistas inteligentes. O ministro defendeu ainda que a inteligência artificial seja usada para mudar a própria forma de fazer ciência.

A segunda frente são as tecnologias consideradas centrais. O governo quer avanços em toda a cadeia de inovação de circuitos integrados, máquinas-ferramenta e instrumentos de alta precisão, setores em que a dependência externa é tratada como vulnerabilidade estratégica. Na fronteira tecnológica, a lista inclui IA, computação quântica, biotecnologia e interfaces cérebro-computador.

A terceira frente é social: controle de poluição, reciclagem de recursos, melhoramento genético agrícola, novos medicamentos, equipamentos médicos de ponta e respostas ao envelhecimento populacional. O último item não é retórico. A pirâmide etária chinesa é uma das variáveis que o próprio plano reconhece como desafio estrutural.

Os números que sustentam o discurso

A trajetória chinesa é de crescimento contínuo. Em 2024, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas citado pelo portal do governo chinês5, o país havia investido 2,68% do PIB em P&D, ainda abaixo da média da OCDE, de 2,73%. Um ano depois, o indicador chegou a 2,8%. Para o quinquênio atual, o relatório de trabalho do governo apresentado em março fixou crescimento médio anual de pelo menos 7% no gasto nacional com pesquisa2.

A pesquisa básica, historicamente o ponto fraco do sistema chinês, chegou a quase 280 bilhões de yuans em 2025, ou 7,08% do total investido em P&D, a primeira vez acima da barreira de 7%, segundo o China Daily6. Em abril, em simpósio em Xangai, o presidente Xi Jinping afirmou que o país destinará uma fatia maior do orçamento de ciência e tecnologia a essa área. Entre as estatais controladas pelo governo central, a participação da pesquisa básica no gasto de P&D subiu de 6% em 2021 para 9,4% em 2025, de acordo com dados da comissão de ativos estatais divulgados pela Xinhua7.

O ministério também lembrou, na coletiva de setembro, que a China lidera há anos os pedidos internacionais de patentes pelo Tratado de Cooperação em Patentes (PCT) e a publicação em periódicos científicos de alto nível1. No índice nacional de inovação elaborado pela Academia Chinesa de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento, órgão do próprio governo, o país aparece em nono lugar entre 60 nações.

A virada política: da bancada para a demanda

O trecho mais relevante da coletiva, do ponto de vista de política pública, veio do vice-ministro Zhang Guangjun. Segundo o People's Daily1, ele disse que a China vai romper com o padrão de produzir resultados primeiro e pensar na aplicação depois. A pesquisa passa a ser direcionada para onde existe demanda, e inovação científica e industrial devem ser planejadas em conjunto.

Na prática, isso desloca o centro de gravidade do sistema. Projetos, plataformas, dados, pessoas e financiamento devem ser canalizados para empresas, que passam a liderar a colaboração com universidades e institutos. O governo promete construir plataformas de prova de conceito e de testes em escala piloto, a etapa intermediária em que muitas tecnologias promissoras morrem por falta de capital e infraestrutura.

O capital de risco entra como engrenagem declarada. O vice-ministro Qiu Yong informou que os novos fundos levantados no mercado de participações passaram de 1 trilhão de yuans no primeiro semestre de 2026, alta de 49% sobre o mesmo período do ano anterior, com investidores voltados a empresas em estágio inicial e à chamada tecnologia profunda1. As universidades, acrescentou, estão reorganizando suas disciplinas para atender ao que o governo classifica como necessidades nacionais urgentes.

A pergunta deixou de ser quanto a China gasta em ciência. Passou a ser quem decide para onde vai o dinheiro.

Essa é a dimensão propriamente política do anúncio. Em um modelo de planejamento centralizado, a definição do que conta como demanda não emerge apenas do mercado. Ela é arbitrada pelo Estado e pelo partido, que, como registrou o comunicado do plenário de outubro de 2025, condiciona os avanços à liderança centralizada. O ganho de coordenação é evidente. O custo, menos visível, é a concentração de decisões sobre a fronteira do conhecimento em poucas mãos.

A geografia concentrada da inovação

O plano mantém a aposta em três polos internacionais de ciência e tecnologia: Pequim e a região Pequim-Tianjin-Hebei, Xangai e o Delta do Rio Yangtzé, e a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. Juntos, eles respondem por 58,8% do gasto chinês em P&D e 81,1% dos pedidos internacionais de patente via PCT, segundo dados apresentados pelo ministro1.

A concentração é deliberada. Na região de Pequim, o gasto em P&D chega a 4,48% do PIB regional. O Delta do Yangtzé concentra quase 30% do investimento nacional em pesquisa básica, e o gasto empresarial nessa modalidade cresceu 38,3% em 2025. Na Grande Baía, Guangdong, Hong Kong e Macau mantêm 35 laboratórios conjuntos1. O governo apresenta os polos como motores que arrastam as províncias vizinhas, mas os números também revelam uma desigualdade territorial que o discurso oficial tende a suavizar.

O espelho brasileiro

Para o Brasil, o anúncio chinês funciona menos como modelo a copiar e mais como medida de distância. Dados do MCTI apresentados pela Anpei à Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara8, em outubro de 2025, mostram que o país investiu 1,19% do PIB em P&D em 2023. Desde 2014, o indicador oscila entre 1,1% e 1,2%. Não há crise aguda, mas também não há trajetória.

A iniciativa brasileira mais próxima, em escala e ambição, é o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), apresentado em julho de 2024 com previsão de R$ 23 bilhões até 2028. A composição desse valor diz muito sobre a diferença de modelos: segundo reportagem da Folhapress reproduzida pelo Diário do Comércio9, R$ 12,72 bilhões vêm de crédito de instituições como o BNDES, e a parcela não reembolsável do FNDCT soma R$ 5,57 bilhões. O eixo de inovação empresarial concentra R$ 13,79 bilhões. Em maio de 2025, o governo criou um grupo de trabalho para monitorar a execução, segundo a Agência Brasil10, e em agosto deste ano o plano voltou ao noticiário com o edital de um supercomputador voltado a modelos de IA em português, conforme o Times Brasil11.

Há, porém, um ponto de convergência retórica que merece atenção. Tanto Pequim quanto Brasília passaram a falar em soberania tecnológica e redução da dependência estrangeira. A diferença está na capacidade de sustentar o discurso por ciclos longos. Um plano chinês atravessa cinco anos com metas numéricas e mecanismos de cobrança. Um plano brasileiro de quatro anos atravessa, necessariamente, uma eleição presidencial, como a deste mês.

Parceria em vez de competição

A relação bilateral oferece um terceiro caminho. O programa de satélites CBERS, em operação desde a década de 1980, é o caso mais duradouro de cooperação científica Sul-Sul envolvendo o Brasil. Em abril de 2023, o MCTI e o ministério chinês assinaram um memorando de entendimento12 que inclui tecnologia da informação, ciência espacial e ciência agrícola. Em maio de 2025, uma nova rodada de acordos, segundo levantamento publicado com base em informações de O Globo13, abrangeu ciência, inteligência artificial e compartilhamento de dados espaciais com a América Latina.

Se a China passa a orientar sua pesquisa pela demanda, cabe perguntar que demanda o Brasil está em condições de apresentar. Agricultura tropical, bioeconomia amazônica, monitoramento ambiental e energia renovável são áreas em que o país tem conhecimento acumulado e problemas reais a resolver. Sem uma agenda própria clara, a cooperação tende a reproduzir a assimetria que já marca a relação comercial: o Brasil fornece matéria-prima e mercado, a China fornece tecnologia.

Contraponto

Os limites do modelo e dos números

Os dados da coletiva são fornecidos pelo próprio governo chinês e merecem leitura cuidadosa. O índice de inovação que coloca a China em nono lugar é produzido por uma instituição estatal. A liderança em patentes e artigos mede volume, e não necessariamente impacto ou qualidade, uma crítica recorrente entre analistas de política científica.

A própria pesquisa básica, apesar do recorde, segue em patamar modesto. Os 7,08% de 2025 estão abaixo da faixa de 15% a 20% típica das economias líderes da OCDE, como observou o professor Liu Chunsheng, da Universidade Central de Finanças e Economia de Pequim, em análise citada pela Edgen14.

Há também o contexto macroeconômico. O plano prevê crescimento moderado, em torno de 4,5% a 5% em 2026, segundo análise publicada no Diário de Notícias15, em meio a crise imobiliária, envelhecimento populacional e restrições externas a semicondutores. Por fim, a orientação da pesquisa pela demanda definida pelo Estado pode acelerar a aplicação, mas também estreitar a curiosidade científica que, historicamente, produziu as descobertas menos previsíveis.

Perguntas frequentes

O que é o 15º Plano Quinquenal da China?

É o plano de desenvolvimento econômico e social chinês para 2026-2030. Suas propostas foram aprovadas pelo Comitê Central do Partido Comunista em outubro de 2025, e o texto final foi aprovado pela Assembleia Popular Nacional em março de 2026, com foco em autossuficiência científica e tecnológica.

Quanto a China investe em pesquisa e desenvolvimento?

Mais de 3,92 trilhões de yuans em 2025, o equivalente a 2,8% do PIB, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia. A meta para o quinquênio é crescimento médio anual de pelo menos 7%.

Quais áreas de pesquisa básica serão priorizadas?

Matemática teórica e aplicada, controle de estados da matéria, biologia sintética, genoma de materiais, fusão nuclear controlada e sistemas de cientistas inteligentes, além do uso de IA na própria pesquisa.

O que muda na relação entre pesquisa e indústria?

O governo afirma que a pesquisa será orientada pela demanda, com empresas liderando consórcios com universidades e institutos, e com plataformas de prova de conceito e de testes em escala piloto.

Como o Brasil se compara à China?

O Brasil investiu cerca de 1,19% do PIB em P&D em 2023, segundo o MCTI, patamar estável há uma década. A China investiu 2,8% em 2025.

Existe cooperação científica entre Brasil e China?

Sim. O programa CBERS de satélites é o exemplo mais antigo. Em 2023, os ministérios de ciência dos dois países assinaram memorando de cooperação, ampliado por novos acordos em 2025 que incluem inteligência artificial e dados espaciais.