Política · Geopolítica · China

A China está a cerca de 1% de cruzar a linha que separa, nas estatísticas do Banco Mundial, os países de renda média dos de alta renda. Pelos dados de 2025, publicados em julho, a renda nacional bruta (RNB) per capita chinesa foi de US$ 14.230, e o limiar da faixa superior ficou em US$ 14.375. Se o crescimento mantiver um ritmo próximo do atual, a mudança de categoria deve aparecer na atualização de julho de 2027. Em quase qualquer outra capital, o dado seria tratado como conquista. Em Pequim, segundo reportagem de Hannah Miao no The Wall Street Journal, ele chega como um incômodo diplomático.[1]

O motivo não está na economia, e sim na posição que a China construiu nas últimas duas décadas: a de principal porta-voz do chamado Sul Global, o conjunto de países da América Latina, da África e da Ásia que reivindica mais voz e mais recursos nas instituições multilaterais. Ser classificado como país rico enfraquece esse papel e pode custar caro em negociações sobre comércio, clima e financiamento.

A régua do Banco Mundial e o que ela mede

O Banco Mundial divide as economias em quatro faixas (baixa, média-baixa, média-alta e alta renda) com base na RNB per capita, que soma o que residentes e empresas de um país ganham dentro e fora do território. Para converter moedas locais em dólares, a instituição usa o chamado método Atlas, que suaviza oscilações cambiais de curto prazo. Os limiares são revistos todo ano em julho. Na revisão de 2026, o teto da renda média-alta subiu de US$ 13.935 para US$ 14.375.

A própria instituição faz uma ressalva importante: a classificação serve a fins analíticos e operacionais e não pretende medir o grau de desenvolvimento de um país. O Banco Mundial nem sequer usa os termos "desenvolvido" e "em desenvolvimento".[1] Na prática, porém, a faixa de alta renda funciona como selo político, e é isso que preocupa Pequim.

RNB per capita da China e limiar de alta renda do Banco Mundial Dados de 2024: China US$ 13.660 e limiar US$ 13.935. Dados de 2025: China US$ 14.230 e limiar US$ 14.375. Limiar projetado para dados de 2026: US$ 14.554. 12 mil 13 mil 14 mil 15 mil 13.660 13.935 14.230 14.375 14.554* Dados de 2024 Dados de 2025 Dados de 2026 China precisa de +2,3% RNB per capita da China (US$) Limiar de alta renda (US$)
Eixo vertical a partir de US$ 12 mil para tornar visível a distância. *Projeção de Philip Schellekens (PNUD) citada pelo WSJ; não é dado oficial. Fontes: Banco Mundial, China Daily, The Wall Street Journal.

Para os dados de 2026, que o Banco Mundial divulgará em julho do ano que vem, o economista-chefe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para Ásia e Pacífico, Philip Schellekens, estima que o limiar suba para cerca de US$ 14.554. Nesse cenário, bastaria à China um avanço de 2,3% na RNB per capita, ritmo bem inferior à sua média histórica.[1] Do lado chinês, a avaliação é parecida. Em maio, Sun Xuegong, da Academia Chinesa de Pesquisa Macroeconômica, disse ao China Daily, jornal estatal, que o país deve atingir o patamar em um a dois anos, numa leitura que ele próprio chamou de conservadora.[2]

Convém dimensionar o que "alta renda" significa. A RNB per capita dos Estados Unidos em 2025 foi de US$ 88.810, mais de seis vezes a chinesa.[1] A faixa superior do Banco Mundial reúne países tão diferentes quanto Suíça, Panamá e Rússia.

Um rótulo com valor de troca

O compromisso político chinês com a condição de país em desenvolvimento é explícito. Em 2024, em mensagem a um evento da ONU, o presidente Xi Jinping afirmou que a China sempre fará parte do Sul Global e do mundo em desenvolvimento, segundo o registro oficial citado pelo WSJ.[1] Cada organismo internacional, porém, tem o seu critério. O Fundo Monetário Internacional (FMI) enquadra a China entre as economias emergentes e em desenvolvimento, a ONU também a trata como país em desenvolvimento e a Organização Mundial do Comércio (OMC) deixa que cada membro se declare.[1] A disputa, portanto, ocorre em várias arenas ao mesmo tempo.

Na diplomacia chinesa, a categoria de país em desenvolvimento deixou de ser apenas uma descrição econômica e passou a funcionar como um ativo de coalizão.

Na OMC: abrir mão do benefício, manter o status

Em setembro de 2025, na Assembleia Geral da ONU, o primeiro-ministro Li Qiang anunciou que a China não buscará novo tratamento especial e diferenciado (TED) em negociações atuais ou futuras da OMC. O TED garante a países em desenvolvimento prazos mais longos e compromissos menores. A delegação chinesa em Genebra fez questão de deixar claro, conforme relato da agência Anadolu, que a decisão não altera a condição do país como membro em desenvolvimento e não afeta direitos já adquiridos.[3] Uma análise do Instituto Alemão de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IDOS) leu o gesto mais como sinal estratégico do que como mudança jurídica relevante, já que tira dos Estados Unidos um argumento antigo sem custar a Pequim o pertencimento ao bloco.[4] O WSJ lembra o pano de fundo: a China é a maior exportadora do mundo, com superávit comercial anual acima de US$ 1 trilhão.[1]

No clima: quem é obrigado a pagar

A Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, de 1992, listou nominalmente os países que deveriam financiar a ação climática dos demais. A China não está nessa lista e, por isso, não é obrigada a contribuir com alguns fundos internacionais, ponto destacado pelo WSJ.[1] Na COP29, em Baku, as nações desenvolvidas assumiram a meta de mobilizar US$ 300 bilhões por ano até 2035, e o texto final apenas encorajou contribuições voluntárias dos países em desenvolvimento. O chefe da delegação chinesa, Zhao Yingmin, declarou à S&P Global que o país só aceitaria aportes voluntários e manteria as definições originais de 1992.[5] Na mesma conferência, o vice-premiê Ding Xuexiang informou que a China destinou mais de 177 bilhões de yuans (cerca de US$ 24,5 bilhões) a ações climáticas em outros países em desenvolvimento desde 2016, como registrou o Dialogue Earth.[6] O modelo voluntário permite a Pequim financiar nos seus próprios termos, sem se submeter a metas de contribuição.

No Banco Mundial: o crédito já está acabando

Aqui a transição já está em curso, com ou sem rótulo. O banco informou que encerrará os empréstimos à China até 2031. O volume anual caiu de US$ 2,4 bilhões em 2017 para US$ 750 milhões em 2025.[1] Paralelamente, Pequim criou instituições próprias de financiamento e ajuda, que oferecem uma alternativa à arquitetura liderada pelo Ocidente.[1]

A desigualdade interna como argumento

A recusa chinesa não se apoia apenas em cálculo diplomático. Há uma base empírica que até críticos reconhecem. Schellekens observa que metrópoles costeiras como Xangai e Shenzhen são ricas há anos por qualquer padrão, comparáveis a capitais prósperas da Ásia, enquanto o quinto mais pobre da população chinesa viveu em 2025 com menos de aproximadamente US$ 120 por mês.[1] Uma média nacional que cruza o limiar de alta renda convive, portanto, com centenas de milhões de pessoas em condições típicas de renda média ou baixa.

O retrato também é desigual entre indicadores. Levantamento do Our World in Data mostra que a China já investe em pesquisa e desenvolvimento, em proporção do PIB, mais do que muitos países europeus e lidera setores como energia limpa e inteligência artificial. Sua produtividade por hora trabalhada, por outro lado, segue bem abaixo da dos países de alta renda.[7] A meta oficial de Pequim é chegar ao PIB per capita de um "país desenvolvido de nível médio" até 2035, o que a mídia estatal associa a mais de US$ 20 mil.[1] Na leitura oficial, a classificação do Banco Mundial seria uma etapa estatística, e não a chegada.

Contraponto

O rótulo protege os pobres ou protege a China?

A favor da reclassificação. Washington sustenta há anos que uma economia do tamanho da chinesa, maior exportadora do planeta e com superávit acima de US$ 1 trilhão, não deveria usufruir das mesmas flexibilidades de países de baixa renda. Nessa visão, o status voluntário dá a Pequim o melhor dos dois mundos: influência de grande potência e obrigações de país em desenvolvimento. Cada dólar de flexibilidade reivindicado pela China também disputa espaço com países muito mais pobres nas mesmas negociações.

Contra a reclassificação. O próprio Banco Mundial afirma que sua faixa de renda não mede desenvolvimento. Médias nacionais escondem a distância entre Xangai e o interior rural, e a divisão climática de 1992 foi construída sobre responsabilidade histórica pelas emissões, não sobre a renda corrente. Para esse campo, exigir da China obrigações de país rico agora seria redefinir as regras no meio do jogo.

Os dois lados têm parte da razão. A pergunta mais útil talvez não seja em qual categoria a China cabe, e sim se categorias binárias ainda servem para organizar obrigações internacionais.

O espelho brasileiro

O Brasil já passou por uma versão desse dilema, em condições bem menos favoráveis. Em março de 2019, no comunicado conjunto da visita de Jair Bolsonaro a Donald Trump, o governo brasileiro aceitou começar a abrir mão do tratamento especial e diferenciado nas negociações da OMC em troca do apoio americano ao ingresso do país na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), conforme noticiou a Agência Brasil.[8] A decisão foi questionada em audiência na Comissão de Relações Exteriores do Senado, que discutiu suas consequências diplomáticas e comerciais, segundo a Rádio Senado.[9]

A comparação é instrutiva. O Brasil, mais pobre que a China e longe do limiar de alta renda, abriu mão de flexibilidades futuras como moeda de troca numa negociação bilateral. A China, às portas da faixa superior, renunciou ao mesmo benefício por decisão unilateral, apresentou o gesto como contribuição ao multilateralismo e preservou intacta a sua condição de país em desenvolvimento. A diferença diz muito sobre poder de barganha e sobre o cuidado com que Pequim administra símbolos.

Há também um paralelo interno. O argumento chinês da desigualdade soa familiar no Brasil. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a renda domiciliar per capita real atingiu o recorde de R$ 2.264 em 2025, mas os 10% com maiores rendimentos receberam, em média, 13,8 vezes o que ganharam os 40% com menores rendimentos, conforme reportou a CNN Brasil.[10] Médias nacionais escondem realidades distintas aqui e lá.

Para a política externa brasileira, a provável promoção chinesa tem efeitos concretos. No BRICS, a Rússia e os Emirados Árabes Unidos já figuram na faixa de alta renda do Banco Mundial, e a entrada da China mudaria o perfil econômico de uma coalizão que se apresenta como voz do Sul Global. Nas negociações climáticas, a pressão para ampliar a base de países contribuintes tende a crescer, e o Brasil, que ainda reivindica recursos externos para a transição e para a Amazônia, precisará decidir se se alinha à defesa chinesa das categorias de 1992 ou se aposta em critérios mais graduais. A resposta afeta tanto a coerência do discurso brasileiro quanto o acesso do país a financiamento.

O que acompanhar até julho de 2027

Três fatores vão definir o desfecho. O primeiro é o câmbio: como o método Atlas converte a renda em dólares, uma desvalorização relevante do yuan pode adiar a mudança de faixa mesmo com crescimento real. O segundo é o discurso oficial, porque Pequim pode reconhecer o marco e esvaziá-lo, insistindo que alta renda não equivale a país desenvolvido, linha já ensaiada por economistas chineses. O terceiro é o efeito em cadeia nas negociações multilaterais, em especial nas próximas conferências do clima, nas quais o tema de quem paga continua aberto.

A economista Alicia García-Herrero, do banco francês Natixis, resumiu ao WSJ a expectativa de que a China fará o possível para não ser classificada como economia desenvolvida.[1] Se isso se confirmar, o mundo assistirá a algo raro: um país que trabalhou durante quatro décadas para enriquecer e que, ao chegar lá, prefere que o fato não seja oficializado.

Perguntas frequentes

A China já é um país de alta renda pelo Banco Mundial?

Ainda não. Na classificação divulgada em julho de 2026, com dados de 2025, a RNB per capita chinesa foi de US$ 14.230, abaixo do limiar de US$ 14.375. A China segue na faixa de renda média-alta, onde está desde 2010.

Quando a China deve entrar na faixa de alta renda?

A expectativa de economistas é que isso ocorra na atualização de julho de 2027, com dados de 2026. Uma projeção do PNUD estima que bastaria um crescimento de 2,3% da RNB per capita para superar o limiar previsto de cerca de US$ 14.554.

Por que a China não quer ser considerada país desenvolvido?

Porque o status de país em desenvolvimento sustenta sua liderança no Sul Global e a dispensa de obrigações, como contribuir de forma compulsória para fundos climáticos internacionais. A China também argumenta que a média nacional esconde forte desigualdade entre regiões ricas e pobres.

Qual a diferença entre alta renda e país desenvolvido?

Alta renda é uma faixa estatística do Banco Mundial baseada só na RNB per capita, e a própria instituição diz que ela não mede desenvolvimento. "País desenvolvido" é uma categoria política usada em fóruns como a ONU, a OMC e a convenção do clima, cada um com critérios próprios.

O que a mudança da China significa para o Brasil?

O Brasil continua na faixa de renda média-alta. Uma China de alta renda altera o perfil do BRICS e do Sul Global, aumenta a pressão por mais países contribuintes no financiamento climático e obriga a diplomacia brasileira a definir sua posição sobre as categorias de 1992.

Este texto foi produzido pelo O Tecido a partir da reportagem "Why China Doesn't Want to Join the Ranks of the World's Developed Countries", de Hannah Miao, publicada pelo The Wall Street Journal em 11 de outubro de 2026. Não se trata de tradução nem de reprodução: as informações atribuídas ao WSJ estão creditadas, e a análise, o contexto brasileiro e as demais fontes são de responsabilidade da curadoria editorial do O Tecido.