Saúde · Comportamento e Trabalho

Antes de pensar em serial killers de filme, vale lembrar que a psicopatia, enquanto traço de personalidade, está distribuída de forma bem mais comum do que se imagina, e uma parcela relevante dela ocupa salas de reunião, não celas. É o que sustenta a pesquisadora canadense Leanne ten Brinke, professora da Universidade da Colúmbia Britânica e diretora do Truth and Trust Lab, em entrevista recente ao jornal espanhol El País. Segundo ela, entre 3% e 4% das pessoas em cargos de diretoria ou presidência de empresas apresentam níveis quase clínicos de psicopatia, contra cerca de 1% na população em geral, ou seja, uma concentração até três vezes maior no topo das organizações.

O dado, por mais impactante que pareça, não é isolado. Ele se soma a décadas de pesquisa em psicologia organizacional que tentam medir algo incômodo: por que características associadas a frieza emocional, manipulação e ausência de remorso parecem, em certos contextos, funcionar como vantagem competitiva na escalada profissional.

A tétrade sombria: quatro traços, um padrão

O conceito central da pesquisa de ten Brinke é o que a literatura científica chama de tétrade sombria da personalidade. Psicopatia é apenas um dos quatro componentes; os outros três são narcisismo (autoestima inflada e busca constante de admiração), maquiavelismo (tendência a manipular e explorar relações para ganho próprio) e sadismo (prazer obtido a partir do sofrimento alheio). A ideia central, segundo a psicóloga, é que esses traços não são categorias raras e separadas da personalidade comum, mas sim versões extremas de características que existem, em menor grau, em praticamente qualquer pessoa.

Essa reformulação importa porque desloca o problema do estereótipo do "monstro" para algo mais próximo do cotidiano: o chefe que nunca aceita crítica, o familiar que domina toda conversa, o colega que sorri enquanto humilha alguém em público.

"Há três vezes mais personalidades próximas da psicopatia em cargos de alta direção do que na população em geral", afirma Leanne ten Brinke ao El País.

O que dizem os números fora do Brasil

A estimativa citada por ten Brinke não é a única em circulação. Pesquisas anteriores, incluindo o trabalho pioneiro dos psicólogos Paul Babiak e Robert Hare no livro Snakes in Suits, publicado em 2006, calcularam uma prevalência de cerca de 3,9% de traços psicopáticos entre executivos, ante 1% na população geral e algo próximo de 15% em populações carcerárias. Estudos posteriores, incluindo uma pesquisa australiana com centenas de profissionais do setor de supply chain, chegaram a apontar percentuais bem mais altos, entre 3% e 21% conforme o critério de avaliação usado, o que mostra que a metodologia de cada estudo influencia fortemente o resultado final. Uma revisão publicada pela National Institutes of Health também situa a prevalência entre 3% e 21% dependendo da amostra e do instrumento de mensuração.

Vale registrar que parte da comunidade acadêmica pede cautela com esses números. Pesquisadores como Scott Lilienfeld, coautor de um dos instrumentos mais usados para medir psicopatia, já alertaram que a atenção dada ao tema pela mídia supera, em alguns casos, a robustez da evidência científica disponível. Ainda assim, o consenso entre os estudos, mesmo os mais conservadores, é de que a concentração desses traços em posições de liderança é sistematicamente maior do que na população geral, e não um efeito do acaso.

Por que essas pessoas chegam ao topo

Na entrevista ao El País, ten Brinke explica esse fenômeno associando-o à percepção de liderança forte. Frieza, imprudência e desprezo por convenções sociais podem ser interpretados, à primeira vista, como confiança e capacidade de decisão. A psicóloga observa que, em momentos de medo, incerteza econômica ou tensão geopolítica, cenário que descreve bem o mundo atual, as pessoas tendem a gravitar em torno de líderes dominantes, e indivíduos com traços da tétrade sombria costumam se encaixar bem nesse molde, porque adotam uma postura de submissão do outro em vez de construção de relações colaborativas.

Contraponto

Nem todo estudo confirma que esses traços resultam em melhor desempenho. Em pesquisa conduzida com gestores do setor financeiro ao longo de dez anos, ten Brinke encontrou o oposto do que sua hipótese inicial previa: gestores com mais traços psicopáticos geraram, em média, menos retorno financeiro do que seus pares, não mais. Já os gestores com altos níveis de narcisismo obtiveram retornos semelhantes aos colegas, mas com volatilidade bem maior nas decisões de investimento.

O preço no corpo: o que a ciência mostra sobre conviver com pessoas tóxicas

Para o caderno Saúde, o ponto mais relevante talvez não seja quem chega ao poder, mas o que acontece com quem convive, no dia a dia, com essas personalidades. E aqui a evidência recente é robusta. Um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), conduzido por pesquisadores da New York University, Utah State University, University of South Florida, University of Michigan e Indiana University, analisou milhares de participantes usando relógios biológicos baseados em metilação do DNA. O resultado: cada pessoa "hostilizadora" presente na rede social próxima de um indivíduo está associada a um ritmo de envelhecimento biológico cerca de 1,5% mais rápido, o equivalente a aproximadamente nove meses a mais de idade biológica. Vínculos familiares tóxicos apareceram como o fator de maior impacto entre todos os tipos de relação analisados, superando até mesmo conflitos conjugais.

Os próprios autores do estudo fazem uma ressalva importante: por ser uma pesquisa observacional, ela não comprova, isoladamente, que conviver com pessoas tóxicas causa o envelhecimento acelerado; existe também a hipótese inversa, de que pessoas que já envelhecem biologicamente mais rápido se tornem mais irritáveis e propensas a conflitos. Ainda assim, o achado reforça uma linha de evidência mais ampla, que já associava convivência com chefias abusivas a sintomas físicos concretos, como problemas gástricos, dores de cabeça recorrentes e fadiga crônica.

O retrato brasileiro: assédio moral como questão de saúde pública

No Brasil, o impacto de ambientes de trabalho tóxicos já aparece com clareza nos números da Previdência Social. Segundo levantamento do Ministério da Previdência Social, os afastamentos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) motivados por ansiedade e depressão bateram recorde em 2025, somando 546 mil concessões, alta de 15% em relação aos 472 mil registrados em 2024. Uma década antes, em 2014, esse número girava em torno de 203 mil, o que representa mais que o dobro em dez anos.

Dados do Tribunal Superior do Trabalho mostram outra face do mesmo problema: nos últimos cinco anos, a Justiça do Trabalho julgou mais de 450 mil casos relacionados a assédio moral no país. Uma revisão publicada na Revista Eletrônica Acervo Médico, analisando a tendência de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais entre 2015 e 2024, identificou o assédio moral como fator psicossocial presente em 42% dos casos estudados, ao lado da precarização laboral e do estresse crônico.

Essa realidade motivou uma resposta regulatória. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, passou a exigir que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho, incluindo jornadas exaustivas, metas inalcançáveis e assédio moral e sexual, sob pena de multas e sanções administrativas. Para especialistas ouvidos pelo TST, a mudança reconhece algo que a pesquisa internacional já vinha apontando: a saúde mental no trabalho deixou de ser um diferencial de employer branding para se tornar requisito básico de gestão.

Como reconhecer e se proteger, segundo a pesquisa

Ten Brinke sugere que a primeira linha de defesa é reconhecer sinais de alerta o quanto antes: pessoas que interrompem constantemente, mas reagem mal a interrupções; que centralizam toda conversa em si mesmas; que demonstram reações emocionais fora de contexto, como rir diante do sofrimento alheio ou permanecer impassível em situações de tensão. Para lidar com essas personalidades no ambiente profissional ou familiar, quando não é possível simplesmente evitá-las, a pesquisadora recomenda:

  • Negociar por escrito sempre que possível, o que reduz o efeito do carisma pessoal e cria um registro verificável da conversa;
  • Estabelecer limites claros, já que essas personalidades tendem a testar normas sociais compartilhadas;
  • Reforçar comportamentos positivos quando eles ocorrem, pois punição costuma ser pouco eficaz nesse perfil, enquanto recompensa tende a funcionar melhor;
  • Buscar linguagem de time e objetivo comum antes de pedidos delicados, já que reações a críticas tendem a ser mais brandas quando a pessoa se sente parte do mesmo grupo.

Nenhuma dessas estratégias muda a personalidade de quem convive com traços da tétrade sombria, mas podem reduzir o desgaste de quem precisa conviver com ela, seja em casa, seja no trabalho.

Esta reportagem foi inspirada na entrevista "Leanne ten Brinke, psicóloga: 'Hay tres veces más personalidades cercanas a la psicopatía en los altos cargos que en la población general'", publicada pelo jornal espanhol El País em 8 de agosto de 2026. Leia a entrevista original em: elpais.com. Dados complementares e contextualização para o Brasil foram apurados de forma independente pela equipe de curadoria de O Tecido, com fontes listadas na seção de referências.

Perguntas frequentes

O que é a "tétrade sombria" da personalidade?

É um modelo usado pela psicologia da personalidade que reúne quatro traços correlacionados: psicopatia (frieza emocional e ausência de remorso), narcisismo (autoestima inflada), maquiavelismo (manipulação estratégica de outras pessoas) e sadismo (prazer com o sofrimento alheio). Segundo pesquisadores da área, esses traços existem em grau variável em qualquer pessoa e se tornam clinicamente relevantes apenas em seus níveis mais extremos.

Ter um chefe difícil significa que ele é psicopata?

Não necessariamente. Dificuldade de relacionamento, exigência ou mau humor pontual não equivalem a psicopatia clínica. O que a pesquisa aponta é uma concentração estatisticamente maior de traços extremos da tétrade sombria em cargos de liderança, não que todo líder difícil se enquadre no perfil.

Conviver com pessoas tóxicas realmente afeta a saúde física?

Estudos recentes, incluindo a pesquisa publicada na PNAS em 2026, associam a convivência frequente com pessoas "hostilizadoras" a um ritmo mais acelerado de envelhecimento biológico e a marcadores mais altos de inflamação no organismo. A relação é estatística e observacional, não uma prova definitiva de causa isolada.

O que fazer se eu enfrentar assédio moral no trabalho no Brasil?

É possível buscar orientação no setor de recursos humanos da empresa, no sindicato da categoria, ou registrar denúncia junto ao Ministério Público do Trabalho e à Justiça do Trabalho. Desde a atualização da NR-1, empresas também são obrigadas a identificar e gerenciar riscos psicossociais, incluindo assédio moral, como parte da gestão de segurança e saúde ocupacional.

Em números
3–4%
de CEOs e diretores com traços quase clínicos de psicopatia, ante 1% na população geral (ten Brinke / El País)
546 mil
afastamentos pelo INSS por ansiedade e depressão em 2025, recorde histórico no Brasil
450 mil+
casos de assédio moral julgados pela Justiça do Trabalho em cinco anos
+9 meses
de idade biológica associada a cada pessoa "hostilizadora" na rede social próxima (estudo PNAS, 2026)
Glossário
Tétrade sombria
Modelo que reúne psicopatia, narcisismo, maquiavelismo e sadismo como traços de personalidade correlacionados.
Maquiavelismo
Tendência a manipular e explorar relações interpessoais em benefício próprio, com pouca preocupação ética.
Assédio moral organizacional
Conduta abusiva reiterada tolerada ou incentivada pela própria instituição como método de gestão.
NR-1
Norma Regulamentadora nº 1 do Ministério do Trabalho e Emprego, que trata da gestão de riscos ocupacionais, incluindo riscos psicossociais.
Envelhecimento biológico acelerado
Descompasso entre a idade cronológica e a idade real dos tecidos e células, medida por marcadores como a metilação do DNA.
Referências
  1. Cordellat, A. "Leanne ten Brinke, psicóloga: 'Hay tres veces más personalidades cercanas a la psicopatía en los altos cargos...'". El País, 08/08/2026. elpais.com
  2. McCullough, J. "The Psychopathic CEO". Forbes. forbes.com
  3. "Corporate law and corporate psychopaths". National Institutes of Health (PMC). pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  4. Lee, B. et al. "Negative social ties as emerging risk factors for accelerated aging, inflammation, and multimorbidity". PNAS, 2026. pnas.org
  5. "Saúde mental no trabalho: 546 mil foram afastados pelo INSS em 2025". flashapp.com.br
  6. "Em cinco anos, Justiça do Trabalho julgou mais de 450 mil casos de assédio moral". Tribunal Superior do Trabalho (TST). tst.jus.br
  7. "Atenção à saúde mental cobra novas práticas de gestão e combate a ambientes de trabalho tóxicos". TST. tst.jus.br
  8. "Tendências e fatores psicossociais dos afastamentos por transtornos mentais e comportamentais no trabalho no Brasil (2015-2024)". Revista Eletrônica Acervo Médico. acervomais.com.br