O governo dos Estados Unidos decidiu que não vai esperar a ciência médica terminar de avaliar se a inteligência artificial está pronta para diagnosticar e prescrever remédios sozinha. Segundo apurou o New York Times, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) está acelerando um conjunto de programas que colocam agentes de IA para atender pacientes do Medicare, o sistema público que cobre mais de 60 milhões de idosos americanos, com pouca evidência consolidada de segurança e sob forte influência de investidores de capital de risco que nunca tiveram papel relevante na política de saúde federal1.
O que está mudando na saúde americana
Mais de 200 empresas já foram aceitas em pilotos do Medicare que envolvem inteligência artificial. Dentro desse programa, a FDA (agência que regula alimentos e medicamentos nos EUA) autorizou quatro modelos de IA que ainda não têm aprovação regulatória completa, mas que atendem a critérios mínimos de segurança e parecem beneficiar pacientes1. Um deles oferece terapia cognitivo-comportamental por chatbot a beneficiários do Medicare diagnosticados com depressão ou ansiedade. Outro, batizado Advocate e tocado pela agência de pesquisa avançada do HHS com cerca de US$ 60 milhões em financiamento, pretende deixar que um chatbot ajuste remédios de pacientes com insuficiência cardíaca, com supervisão médica nominal.
A Curai Health, empresa fundada pelo filho do investidor Vinod Khosla, também foi selecionada pelo Medicare e tem pedido pendente na FDA para operar médicos de atenção primária totalmente autônomos. Em estudo pré-publicado pela própria empresa, médicos concordaram com o diagnóstico da IA em 91% de cerca de 2.300 casos. Em três casos, porém, a IA recomendou apenas uma teleconsulta em situações que um médico humano classificou como emergência1.
Quem está por trás da aceleração
O ponto que mais preocupa parte dos próprios funcionários do HHS, segundo o Times, não é a tecnologia em si, mas quem está desenhando as regras para ela. Vinod Khosla, bilionário do Vale do Silício cujo filho comanda a Curai Health, tem conversado diretamente com autoridades do topo do departamento, incluindo o médico Mehmet Oz, hoje à frente do Medicare e do Medicaid. Khosla defende publicamente, há mais de uma década, que a IA vai substituir boa parte dos médicos humanos. Em um evento de startups de IA em julho, resumiu a tese em poucas palavras: "Acabou para os médicos, médicos humanos. A IA simplesmente vai ser melhor"1.
Na semana anterior à publicação da reportagem, o HHS promoveu Jared Seehafer, ex-empresário de tecnologia com cerca de um ano de casa, a um cargo recém-criado de subcomissário de tecnologia e inteligência artificial. Pessoas que trabalharam com ele descrevem o objetivo como reduzir a supervisão regulatória sobre IA médica. A movimentação foi comemorada publicamente por investidores da 8VC, gestora ligada a um aliado do presidente Trump que já investiu em IA médica1. Internamente, a proposta de Seehafer de centralizar a governança de IA no gabinete da comissão da FDA encontrou resistência da diretora responsável pela área de software médico, e a cúpula do departamento chegou a pedir sua demissão. O então comissário da FDA se recusou a demiti-la.
A avaliação da classe médica
John Whyte, diretor executivo da Associação Médica Americana, entidade que representa a maior parte dos médicos do país, afirmou que modelos pensados para atender pacientes de forma independente "não estão prontos para o horário nobre", e que grande parte das evidências citadas por Khosla e outros vem de simulações, não de prática clínica real1. O secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. reconheceu publicamente que a tecnologia é "muito perigosa, potencialmente", ainda que acredite que ela vá revolucionar a medicina.
Contraponto
Defensores dos pilotos argumentam que a alternativa à IA autônoma, para boa parte dos pacientes americanos, não é o médico humano disponível, mas fila de espera ou ausência total de atendimento. Ross Harper, executivo-chefe da Limbic, empresa por trás do chatbot terapêutico "Hope" usado no piloto do Medicare, defende que um único clínico poderá supervisionar milhares de terapeutas de IA e chama de "questão moral" ampliar o acesso a quem hoje não tem nenhum tratamento.
Um estudo da própria Limbic, publicado na revista Nature Medicine, encontrou que clínicos que avaliaram transcrições sem saber se vinham de humano ou de IA consideraram o desempenho do chatbot superior. O dado é real e merece ser levado a sério, ainda que venha de pesquisa financiada pela empresa interessada no resultado.
O espelho brasileiro: decisão final continua com o médico
O contraste com o Brasil é direto. Em 27 de fevereiro de 2026, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº 2.454/2026, primeira norma nacional dedicada especificamente ao uso de inteligência artificial na prática médica2. Diferente do modelo que o HHS está construindo, a resolução brasileira parte de um princípio explícito: a IA pode apoiar decisão diagnóstica, terapêutica e prognóstica, mas a palavra final é sempre do médico, que pode inclusive recusar-se a usar uma ferramenta de IA sem certificação regulatória ou não validada cientificamente3.
A norma também proíbe que hospitais e operadoras imponham metas ou políticas que subordinem a conduta clínica às recomendações de um algoritmo, e veda qualquer penalização ao médico que decida não seguir a sugestão de um sistema de IA, desde que a decisão respeite critérios técnicos e éticos2. Instituições que adotarem sistemas de IA passam a ter de submetê-los a avaliação prévia de risco algorítmico, em linha com o projeto de lei federal de IA em tramitação no Congresso.
No campo regulatório sanitário, a Anvisa trata softwares médicos baseados em IA como Software como Dispositivo Médico (SaMD) desde a RDC nº 657/2022, exigindo classificação de risco, validação clínica e monitoramento pós-comercialização antes que qualquer algoritmo com finalidade diagnóstica ou terapêutica chegue ao mercado3. É um caminho mais lento que o piloto acelerado do Medicare, mas também mais parecido com o que a própria FDA reconhece não ter conseguido construir a tempo para modelos de IA agêntica.
Por que isso importa além da medicina
O núcleo do problema descrito pelo Times não é tecnológico. É de governança. Quando quem desenha a política pública de saúde vem majoritariamente do mercado financeiro de tecnologia, e não da prática clínica comprometida primeiro com o paciente, o critério de decisão tende a deslocar-se de "isso é seguro" para "isso escala e dá retorno". A pesquisa brasileira sobre viés de automação em medicina, publicada em periódico indexado à Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, mostra como esse deslocamento tem custo concreto: em estudo clássico sobre interpretação automatizada de eletrocardiogramas, mais de dois terços dos exames diagnosticados incorretamente como fibrilação atrial pelo sistema não foram corrigidos pelo médico responsável, levando a uso inadequado de antiarrítmicos e anticoagulantes em um terço desses casos5. O estudo brasileiro observa ainda que sistemas mais precisos podem, paradoxalmente, aumentar essa confiança excessiva, e não reduzi-la.
Nos Estados Unidos, autoridades já cogitam pagar "médicos de IA" operados por empresas de tecnologia entre 60% e 80% do valor pago a médicos humanos pelo mesmo serviço1. É um número que revela a lógica do processo: não se está discutindo primeiro se a tecnologia é segura o suficiente, mas quanto ela vai custar ao sistema.
Os números por trás da corrida
O apetite de capital por saúde digital ajuda a explicar a pressa. No Brasil, o setor de healthtechs soma hoje mais de 1.200 empresas ativas, das quais cerca de 130 já aplicam inteligência artificial, crescimento de 35% desde 20203. Em 2024, healthtechs brasileiras movimentaram R$ 799 milhões em 40 rodadas de investimento, segundo a Liga Ventures, e o país concentra 64,8% de todo o capital investido em saúde digital na América Latina entre 2020 e 20244. É um mercado com interesse comercial real e legítimo, mas que reforça por que a separação entre quem regula e quem lucra precisa ser levada a sério dos dois lados do equador.
Perguntas frequentes
O que a reportagem do New York Times revela sobre IA e saúde nos EUA?
Mostra que o governo Trump, por meio do Departamento de Saúde (HHS), está acelerando pilotos de inteligência artificial que diagnosticam e prescrevem remédios a pacientes do Medicare, com forte influência de investidores de capital de risco de tecnologia nas decisões regulatórias, apesar da resistência de parte da comunidade médica.
Quais empresas de IA foram autorizadas a atuar no Medicare americano?
Entre as autorizadas estão Curai Health (atenção primária autônoma), Limbic (terapia cognitivo-comportamental via chatbot), Slingshot AI e Devoted Health, além do projeto Advocate, voltado a pacientes com insuficiência cardíaca.
Como o Brasil regula o uso de inteligência artificial na medicina?
Pela Resolução CFM nº 2.454/2026, que garante ao médico a decisão final sobre diagnóstico e tratamento, e pela RDC nº 657/2022 da Anvisa, que classifica softwares médicos baseados em IA como dispositivos médicos sujeitos a registro, avaliação de risco e validação clínica antes de chegarem ao mercado.
Um médico pode ser substituído por um sistema de IA no Brasil?
Não. A regulação brasileira trata a IA exclusivamente como ferramenta de apoio à decisão clínica. O médico pode inclusive recusar-se a seguir a recomendação de um sistema de IA, sem sofrer penalização, desde que a conduta respeite critérios técnicos e éticos.
Qual é o principal risco apontado por especialistas na cobertura desse tema?
O viés de automação: a tendência de profissionais confiarem demais em recomendações de sistemas de IA, reduzindo a vigilância clínica, especialmente quando algoritmos ganham reputação de alta precisão. Estudos mostram que erros de sistemas automatizados nem sempre são corrigidos pelo médico responsável.