Caderno Ciência

A China moveu nesta quarta-feira, 19 de agosto, o foguete que deve lançar a sonda Chang'e 7 rumo ao polo sul da Lua. A combinação entre o veículo Longa Marcha 5 e a sonda foi transportada verticalmente até a torre de lançamento do Centro Espacial de Wenchang, na província de Hainan, segundo comunicado da Agência Espacial de Voo Tripulado da China (CMSA). O anúncio confirma que o decolagem deve ocorrer nos próximos dias, embora uma data exata não tenha sido divulgada publicamente até o fechamento desta edição.1

A Chang'e 7 é uma das missões mais ambiciosas do programa lunar chinês até hoje. Ela reúne quatro componentes que operam de forma coordenada: um orbitador, um módulo de pouso, um rover e uma pequena sonda saltadora, capaz de realizar deslocamentos balísticos curtos sobre a superfície lunar. O conjunto é apoiado pelo satélite retransmissor Queqiao-2, já em órbita desde 2024, responsável por manter as comunicações com a Terra durante as operações no polo sul e na face oculta da Lua.2

O objetivo central da missão é localizar e caracterizar depósitos de gelo de água em crateras permanentemente sombreadas, regiões que nunca recebem luz solar direta e podem preservar volumes de água congelada há bilhões de anos. A sonda foi transportada por via aérea até Wenchang em abril, enquanto o foguete Longa Marcha 5 chegou de navio em julho. Desde então, as equipes chinesas conduziram a montagem e os testes finais no spaceport costeiro.1

"Chang'e 7 está destinada a encontrar gelo de água e fazer as primeiras medições in situ" da região polar lunar, segundo especialistas ouvidos pela imprensa internacional.

Pouso de precisão na cratera Shackleton

O alvo preferencial de pouso é a borda iluminada da cratera Shackleton, próxima ao polo sul lunar, em uma área que recebe luz solar quase constante, o que favorece o uso de energia solar pelos equipamentos. Sítios alternativos próximos às crateras Shoemaker e Haworth também estão sendo avaliados como opções de reserva, dependendo das condições de iluminação no momento do pouso.2

Diferentemente das missões anteriores do programa, cujas elipses de pouso chegavam a alguns quilômetros de extensão, a Chang'e 7 busca uma precisão inferior a 100 metros. Para isso, a sonda deve estrear um sistema inédito de navegação por reconhecimento de marcos visuais durante a descida, permitindo ajustes de trajetória em tempo real e reduzindo o risco de pouso em terreno acidentado.2

Por que a água lunar importa

A busca por gelo não é apenas um exercício científico. Água extraída da Lua pode, em tese, ser convertida em oxigênio respirável e em combustível de foguete por meio de eletrólise, reduzindo a necessidade de transportar esses insumos desde a Terra. Essa lógica de utilização de recursos locais, conhecida como ISRU (in-situ resource utilization), é considerada essencial para viabilizar bases permanentes na Lua e, no horizonte mais distante, missões tripuladas a Marte.

Entre os instrumentos científicos embarcados estão sensores dedicados especificamente à detecção de água, incluindo um radar de imageamento por micro-ondas, um espectrômetro de nêutrons e raios gama, e um analisador molecular de água do solo lunar, este último acoplado à sonda saltadora. Juntos, eles permitirão tanto o mapeamento remoto quanto a análise direta do regolito nas áreas de sombra permanente.4

Contraponto

Nem todos os especialistas concordam sobre o alcance real da missão. Pesquisadores citados pela imprensa internacional têm ponderado que a Chang'e 7, por si só, não deve resolver de forma definitiva a questão de quanto gelo existe de fato nas crateras polares, nem sua distribuição em profundidade. A quantidade de instrumentos divulgada também varia entre fontes: enquanto alguns registros apontam 18 instrumentos científicos, outros mencionam 21 cargas úteis, das quais seis seriam de cooperação internacional. Essa discrepância provavelmente reflete diferentes fases de divulgação do projeto e será marcada para verificação junto a fontes primárias da agência espacial chinesa.23

Uma corrida silenciosa pelo polo sul

A Chang'e 7 se antecipa a outras iniciativas voltadas ao mesmo objetivo. A missão VIPER, da NASA, também dedicada à busca por voláteis no polo sul lunar, segue em fase de reformulação após cortes orçamentários e ainda não tem lançamento confirmado. Já o programa Artemis, liderado pelos Estados Unidos e assinado por 61 países, incluindo o Brasil desde 2021 por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, avança em paralelo com uma abordagem baseada em cooperação multilateral.36

O Brasil, embora não participe diretamente do programa lunar chinês, tem buscado espaço na exploração do satélite por outras vias. A Agência Espacial Brasileira coordena, em parceria com a Embrapa e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, projetos como o cultivo de alimentos em condições extremas e o nanossatélite científico SelenITA, ambos pensados para integrar futuras missões do Artemis. Segundo o diretor da AEB, Rodrigo Leonardi, a contribuição brasileira concentra-se em ciência aplicada dentro de um esforço internacional maior, e não na disputa isolada por recursos lunares.6

O que vem a seguir

Após o lançamento, a sonda deve levar algumas semanas até entrar em órbita lunar polar, etapa em que sobrevoará ambos os polos para estudar em detalhe os sítios candidatos ao pouso. A sequência prevista de operações segue a lógica que já orienta o programa chinês desde a década passada: orbitar, pousar, circular pela superfície com o rover e, por fim, realizar os saltos curtos com a sonda voadora sobre áreas de acesso mais difícil para o rover convencional.

A missão integra a quarta fase do Programa Chinês de Exploração Lunar e é vista como um passo preparatório para a Estação Internacional de Pesquisa Lunar, projeto conjunto entre China e Rússia que prevê infraestrutura permanente no satélite ainda nesta década, com a Chang'e 8, prevista para cerca de 2029, completando essa etapa de testes tecnológicos.3

Esta reportagem foi inspirada em conteúdo originalmente publicado pelo China Daily em 19 de agosto de 2026, sob o título "China's next lunar mission, the Chang'e 7, set to depart soon", assinado por Zhao Lei. Leia a matéria original em: chinadaily.com.cn. O texto abaixo foi produzido de forma independente por O Tecido, com apuração e fontes adicionais.

Perguntas frequentes

O que é a missão Chang'e 7?

É a sétima missão robótica do programa lunar chinês, composta por orbitador, módulo de pouso, rover e uma sonda saltadora, com o objetivo principal de investigar a presença de gelo de água no polo sul da Lua.

Quando a Chang'e 7 será lançada?

O foguete Longa Marcha 5 que levará a sonda foi posicionado na torre de lançamento de Wenchang em 19 de agosto de 2026. A China Manned Space Agency indicou que o lançamento ocorrerá nos próximos dias, sem data exata divulgada até a publicação desta matéria.

Onde a sonda deve pousar?

O sítio preferencial é a borda iluminada da cratera Shackleton, próxima ao polo sul lunar, com locais alternativos nas proximidades das crateras Shoemaker e Haworth.

Por que buscar água na Lua é importante?

Gelo de água pode ser convertido em oxigênio e combustível, reduzindo a dependência de suprimentos vindos da Terra e viabilizando bases lunares permanentes, além de fornecer pistas sobre a origem da água no sistema solar.

O Brasil participa da exploração lunar?

O Brasil não integra o programa lunar chinês, mas é signatário dos Acordos Artemis desde 2021 e desenvolve projetos próprios, como agricultura espacial com a Embrapa e um nanossatélite científico do ITA, voltados a futuras missões lideradas pelos Estados Unidos.

Ewerton Lopes — Curador Editorial