Existe um paradoxo que a filósofa Susan Neiman não se cansa de apontar: quanto mais o mundo parece deslizar rumo ao desastre, mais cautelosa fica a linguagem pública para descrevê-lo. Governantes recorrem a hipérboles, opositores recorrem a eufemismos, e a palavra que deveria nomear o que é intolerável, o mal, vai sendo evitada como se fosse ela, e não o que descreve, a fonte do problema.1
É esse o ponto de partida de Call It Evil: Understanding the Trump Era, livro que a diretora do Einstein Forum, em Potsdam, lança em setembro de 2026. Apesar do título deliberadamente provocador, Neiman faz questão de esclarecer que não se trata de um livro sobre uma figura específica. Trata-se, antes, de uma tese sobre por que perdemos a capacidade de reconhecer o mal quando ele não veste a máscara do vilão espetacular.
O mal que não é monstruoso
A autora de Evil in Modern Thought (2002), uma das obras de referência sobre o conceito na filosofia contemporânea, observa que o público moderno associa o mal quase exclusivamente à crueldade individual extraordinária: o sádico, o serial killer, o ditador caricato. Essa fixação, argumenta ela, distrai da forma de mal mais comum e mais perigosa: a decisão política sistêmica que sacrifica vidas em nome de interesses estreitos, seja para permanecer no poder, seja para reduzir impostos sobre os mais ricos.1
Para sustentar essa distinção, Neiman recorre ao conceito mais influente e mais mal compreendido da filosofia política do século 20: a banalidade do mal, cunhada por Hannah Arendt em 1961, durante a cobertura do julgamento do burocrata nazista Adolf Eichmann em Jerusalém. Arendt foi duramente atacada por sugerir que Eichmann não era um monstro psicopata, mas um homem movido por uma ausência quase administrativa de reflexão sobre o que fazia. A reação hostil a essa tese, nota Neiman, é sintoma exatamente do problema que ela quer expor: preferimos um mal que se pareça com demônio a um mal que se pareça com burocracia.
"Crime é algo para o qual temos procedimentos. Mal é o que dizemos quando percebemos que um limite foi ultrapassado."
Três movimentos de um alerta
O livro se organiza em três partes. A primeira, sobre o que está em jogo, argumenta que a má compreensão do mal nos acostumou a naturalizar a crueldade institucional. A segunda investiga como o tribalismo político e uma certa ideologia do interesse próprio corroeram compromissos coletivos, elevando a racionalidade econômica acima do raciocínio moral e transformando a brutalidade em sinal de "autenticidade" política. A terceira propõe saídas: Neiman descarta tanto a política identitária quanto o comunismo como becos sem saída, e defende algo que chama de universalismo resoluto, associado à social-democracia, inspirado na leitura que Albert Einstein fazia desse modelo como alternativa à fase predatória do desenvolvimento humano.
Um dos exemplos centrais do livro é o próprio Einstein. Neiman resgata como o físico, hoje lembrado sobretudo pela imagem do gênio distraído, foi na verdade alvo de vigilância do FBI por décadas, com um dossiê de mais de 1.400 páginas, justamente por recusar o conselho de manter discrição política. A autora usa essa biografia para argumentar que o silêncio confortável diante da injustiça tem um custo histórico que raramente aparece nos livros escolares.
Contraponto
A tese de Neiman não é consensual. Críticos apontam que ampliar o vocabulário do mal para descrever divergências políticas correntes corre o risco inverso ao que ela denuncia: banalizar a própria palavra "mal", esvaziando seu peso moral pelo uso frequente. A própria autora reconhece a dificuldade de estabelecer um critério claro sobre quando a linha foi cruzada, um problema que também aparece em debates metodológicos sobre índices de qualidade democrática, como o do instituto V-Dem, cujas classificações dependem de avaliações de especialistas e têm sido contestadas por analistas que veem nelas uma leitura sujeita a viés interpretativo.
O que isso diz sobre o Brasil
O recorte de Neiman é centrado nos Estados Unidos, mas o pano de fundo institucional que ela descreve, a erosão de freios e contrapesos, a intimidação da imprensa e do Judiciário, tem paralelo direto na experiência brasileira recente. O Relatório da Democracia 2026 do Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, registrou pela primeira vez o Brasil à frente dos Estados Unidos em um ranking global de qualidade democrática: o país subiu para a 28ª posição entre 179 nações, enquanto os americanos caíram da 20ª para a 51ª colocação, perdendo, após mais de meio século, a classificação de democracia liberal.
Pesquisadores da própria Politize! e de periódicos acadêmicos brasileiros já haviam associado a banalidade do mal descrita por Arendt a um traço da cultura política nacional: o conceito do "homem cordial", de Sérgio Buarque de Holanda, que descreve uma sociabilidade avessa ao conflito e ao distanciamento crítico diante da autoridade. Se Neiman está certa de que o mal sistêmico prospera menos pela adesão entusiasmada do que pela ausência de reflexão coletiva, esse traço cultural merece ser levado a sério como fator de risco, não como peculiaridade folclórica.
Nomear como ato político
A contribuição mais útil de Neiman talvez não esteja nas respostas que propõe, mas na pergunta que reabre: o que perdemos, como sociedade, quando trocamos a precisão moral por uma prudência retórica que trata tudo como "polarização" ou "diferença de opinião"? Chamar algo de mal não encerra o debate; ao contrário, ele o inicia, obrigando quem discorda a explicar por que discorda. É um risco retórico, mas Neiman argumenta que o risco oposto, o silêncio cauteloso diante da corrosão institucional, tem se mostrado historicamente mais caro.
Perguntas frequentes
O que significa "banalidade do mal" para Hannah Arendt?
É o conceito, formulado por Arendt após acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann em 1961, segundo o qual atos de enorme gravidade podem ser cometidos não por indivíduos monstruosos, mas por pessoas comuns que agem sem refletir criticamente sobre as consequências coletivas do que fazem.
Por que Susan Neiman defende o uso da palavra "mal" na política?
Porque, segundo ela, a cautela retórica ao redor dessa palavra faz com que a sociedade naturalize decisões políticas destrutivas, desde que elas não se pareçam com a imagem clássica do vilão. Nomear o mal, argumenta, é o que obriga o debate público a enfrentar a gravidade real de certas escolhas institucionais.
O livro "Call It Evil" é sobre Donald Trump?
A própria autora afirma que não. Embora o subtítulo faça referência à "era Trump", o livro se propõe a discutir a estrutura filosófica e política que torna certos tipos de mal sistêmico possíveis, e não uma biografia ou julgamento pessoal de uma figura específica.
Como o Brasil se compara aos Estados Unidos na avaliação de democracia de 2026?
Segundo o Relatório da Democracia 2026 do Instituto V-Dem, o Brasil ocupa a 28ª posição em um ranking de 179 países, à frente dos Estados Unidos, que caíram para o 51º lugar e perderam, pela primeira vez em mais de 50 anos, a classificação de democracia liberal.