Um vídeo viraliza no site chinês Bilibili ensinando, com falso rigor tutorial, como sobreviver morando na rua: onde dormir perto de latões de lixo para achar "suprimentos", como isolar o corpo do chão com papelão, como escapar das câmeras de vigilância. O conteúdo passou de seis milhões de visualizações e chegou a ser o segundo mais visto da plataforma.[1] Nos comentários, os próprios usuários batizaram o vídeo de "Estudo da Juventude", em referência irônica ao programa de educação política da Liga da Juventude Comunista chinesa.
A piada é sintoma de algo maior. Há mais de uma década, o Partido Comunista Chinês (PCC) tenta impor à internet do país uma atmosfera de "energia positiva" (zheng nengliang), um conceito lançado por Xi Jinping em 2013 e que se tornou eixo da doutrina de "orientação da opinião pública".[3] Plataformas são cobradas a amplificar conquistas econômicas, gratidão ao partido e confiança no futuro do país. Só que, segundo reportagem publicada em 7 de setembro pelo jornal americano The New York Times, essa engenharia de humor está falhando diante de uma realidade que já não cabe em slogan.[1]
Os números por trás do desânimo
O pano de fundo é uma desaceleração que já dura anos. O desemprego entre jovens chineses de 16 a 24 anos (excluindo estudantes) chegou a 17,9% em julho de 2026, o maior patamar para o mês em três anos, à medida que um recorde de 12,7 milhões de novos formados universitários entrou em um mercado de trabalho encolhido.[2] Some-se a isso um mercado imobiliário que segue corroendo o principal ativo de milhões de famílias chinesas, e mais de 200 milhões de pessoas, quase um quarto da força de trabalho do país, hoje sobrevivem do chamado "emprego flexível", eufemismo oficial para a economia de bicos.[1]
É nesse vácuo entre discurso e realidade que nasceu uma cultura de resistência de baixa intensidade, mas alto alcance. Uma hashtag no RedNote (o Xiaohongshu, equivalente chinês do Instagram) incentivando as pessoas a guardar cada centavo já acumulou perto de 120 milhões de visualizações.[1] Publicações anônimas circulam dizendo, em tom de ironia amarga, que quem não comprou apartamento, não comprou carro nem se casou cedo "venceu" na China de hoje, uma inversão completa do roteiro de ascensão social prometido havia uma geração.
Quando o meme vira arma política
O fenômeno mais delicado para Pequim não é a queixa isolada, é a técnica que pesquisadores começam a chamar de "amplificação subversiva": em vez de construir uma audiência própria, o usuário sequestra o alcance de uma publicação oficial para esvaziá-la de sentido. Um vídeo estatal celebrando o Partido Comunista como o "maior partido do mundo" recebeu 41 mil comentários quase idênticos, formados apenas por fileiras de emojis de choro separados por barras.[1] Uma publicação de mídia estatal afirmando que a China havia inventado o voo humano na dinastia Ming, séculos antes do Ocidente, provocou uma enxurrada de sarcasmo nos comentários.[1]
Christian Göbel, professor de política chinesa contemporânea na Universidade de Viena, batizou essa tática de "amplificação subversiva": os usuários não tentam furar o bloqueio da censura criando conteúdo próprio, eles usam a própria vitrine do Estado contra ele mesmo.[1] É uma engenharia difícil de punir sem, ao mesmo tempo, admitir publicamente que a insatisfação existe.
A resposta do aparato de censura
O Estado chinês não está parado. Em 2023, o Ministério da Segurança do Estado passou a tratar críticas à economia como uma questão de segurança nacional.[1] Em 2025, o órgão regulador de internet do país ordenou que plataformas suprimissem publicações que sugerissem que trabalho duro ou educação formal não valem mais a pena.[1] Em abril, o mesmo ministério publicou um artigo acusando uma organização estrangeira não identificada de financiar influenciadores do movimento "tang ping" ("deitar-se", uma recusa cultural à competição profissional) para, nas palavras oficiais, "corroer a mente da juventude chinesa".[1] O efeito, relatado pelo Times, foi o oposto do pretendido: usuários passaram a associar publicamente o "deitar-se" a salários baixos e jornadas exaustivas, questionando se era o próprio governo que estava desesperado.
Esse esforço de controle emocional da internet não é exclusivo do momento atual, mas vem se aprofundando. Estudos sobre a esfera digital chinesa apontam que, além da propaganda estatal tradicional, novas leis e regulamentos têm ampliado o controle sobre espaços de debate, justamente porque a economia se tornou um indicador sensível dos desafios de legitimidade do partido.[4] Fóruns internacionais de monitoramento de mídia chinesa também descreveram, no início de 2026, um movimento das autoridades para usar inteligência artificial explicitamente a serviço da "produção e disseminação de energia positiva", tratando a tecnologia como ferramenta de reforço editorial estatal, não de checagem de fatos.[3]
Contraponto
Nem todo analista lê o fenômeno como sinal de fragilidade do regime. Há quem argumente que permitir certa válvula de escape emocional, memes, ironia, desabafo, pode ser funcional ao próprio sistema: ao converter frustração em humor disperso e sem liderança organizada, o Estado evita que o descontentamento se transforme em mobilização coletiva coordenada, historicamente muito mais temida pelo PCC do que a reclamação individual. Sob essa ótica, a "amplificação subversiva" seria menos uma ameaça à ordem do que um mecanismo informal de desabafo tolerado, desde que não ultrapasse certos limites e não vire organização política.
O que isso diz sobre o Brasil
A comparação com o Brasil não é direta, mas ilumina duas questões centrais para qualquer democracia: até que ponto o controle da narrativa pública consegue conter o mal-estar econômico real, e o que acontece quando os números oficiais e a percepção das pessoas nas redes se distanciam. O Brasil também enfrenta um desafio expressivo de emprego jovem: dados do Ministério do Trabalho baseados na PNAD Contínua mostraram 6,2 milhões de jovens de 14 a 24 anos fora da escola e do mercado formal no primeiro trimestre de 2026, o chamado grupo "nem-nem", concentrado de forma desproporcional entre jovens negras.[6] Ainda assim, a taxa geral de desocupação brasileira, de 5,4% no segundo trimestre de 2026 segundo o IBGE, é tratada publicamente como dado de debate político aberto, sem qualquer tentativa de reguladores classificarem sua divulgação como ameaça à segurança do Estado.[7]
É essa liberdade de discordar publicamente da versão oficial, inclusive quando ela é desconfortável para quem governa, que o relatório Democracia 2026 do V-Dem Institute aponta como a dimensão mais atacada no mundo em processos de autocratização: a liberdade de expressão piorou em 44 países no último ano avaliado, com aumento de censura de mídia e autocensura.[5] A China, cronicamente classificada como "não livre" nos índices internacionais de liberdade na internet, é o exemplo mais avançado desse processo. O episódio das redes chinesas serve de alerta sobre um limite estrutural: nenhum aparato de censura, por mais sofisticado, sustenta indefinidamente uma narrativa de prosperidade quando a experiência cotidiana da população diz outra coisa.
Perguntas frequentes
Por que as redes sociais chinesas ficaram mais pessimistas em 2026?
A combinação de desemprego jovem recorde (17,9% em julho de 2026), crise imobiliária prolongada e crescimento de empregos informais tem alimentado um tom de desânimo coletivo nas plataformas chinesas, que escapa cada vez mais ao controle da censura estatal.
O que significa "energia positiva" na política chinesa?
É a doutrina, lançada por Xi Jinping em 2013, que orienta mídia e redes sociais a priorizarem narrativas de conquista econômica, gratidão ao Partido Comunista e otimismo com o futuro do país, suprimindo conteúdo crítico ou pessimista.
O que é "amplificação subversiva"?
É a tática identificada por pesquisadores em que internautas chineses usam publicações oficiais, em vez de canais próprios, como palco para comentários irônicos ou de protesto em massa, dificultando a ação da censura sem que os usuários precisem se expor individualmente.
Como o governo chinês está reagindo a esse fenômeno?
Desde 2023, autoridades chinesas passaram a tratar críticas públicas à economia como uma questão de segurança nacional e, em 2025 e 2026, ordenaram a supressão de conteúdos considerados excessivamente pessimistas, incluindo os associados ao movimento "deitar-se".
Existe um paralelo com a situação do Brasil?
O Brasil enfrenta seu próprio desafio de emprego jovem, com 6,2 milhões de jovens fora da escola e do mercado de trabalho em 2026, mas mantém a divulgação e o debate público desses dados como parte normal da vida democrática, sem tratamento da crítica econômica como ameaça de Estado.
Referências
- Li Yuan. "Social Media in China Is Getting Really Dark". The New York Times, 7 de setembro de 2026. Disponível em: nytimes.com.
- Caixin Global. "China's Youth Jobless Rate Climbs to 17.9% in July", agosto de 2026.
- China Media Project. "AI for Human Propaganda", abril de 2026.
- Merics (Mercator Institute for China Studies). "China's fragile online spaces for debate".
- V-Dem Institute. "Democracy Report 2026: Unraveling the Democratic Era?".
- Ministério do Trabalho e Emprego / Agência Brasil. "Diagnóstico da Juventude Brasileira", com base na PNAD Contínua, junho de 2026.
- IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), 2º trimestre de 2026.